Moiss e o monotesmo, Esboo de psicanlise
e outros trabalhos















VOLUME XXIII.
(1937-1939)















Dr. Sigmund Freud




MOISS E O MONOTESMO TRS ENSAIOS (1939[1934-38])
         

NOTA DO EDITOR INGLS 
         
         DER MANN MOSES UND DIE MONOTHEISTISCHE RELIGION: 
         DREI ABHANDLUNGEN
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1939   Amsterdan, Verlag Allert de Lange, 241 pgs.
         1950   G.W., 16, 101-246.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         Moses and Monotheism
         1939        Londres, Hogarth Press e Instituto de Psicanlise, 223 pgs. Nova Iorque, Knopf, viii + 218 pgs. (Trad. de Katherine Jones.)
         
         A presente traduo  da autoria de James Strachey.
         
         Os dois primeiros dos trs ensaios que constituem esta obra apareceram originalmente em 1937, em Imago, 23 (1), 5-13 e (4), 387-419; tradues inglesas 
de ambos apareceram na Int. J. Psycho-Anal., 19 (3) (1938), 291-8, e 20 (1) (1939), 1-32. A Seo C da Parte II do terceiro ensaio foi lida em nome do autor por 
Anna Freud no Congresso Psicanaltico Internacional de Paris, a 2 de agosto de 1938, e posteriormente publicada em separata no Int. Z. Psychoanal. Imago 24 (1/2) 
(1939), 6-9, sob o ttulo de 'Der Fortschritt in der Geistigkeit' ('O Avano da Intelectualidade'). O primeiro ensaio e as trs primeiras sees do segundo foram 
includos no Almanach 1938, 9-43. Apenas pouqussimas modificaes sem importncia foram feitas nessas publicaes primitivas, ao serem includas na obra completa. 
Elas so apontadas na presente edio.
         Foi aparentemente durante o vero de 1934 que Freud completou seu primeiro rascunho deste livro, com o ttulo: O Homem Moiss, um Romance Histrico (Jones, 
1957, 206). Numa longa carta a Arnold Zweig, de 30 de setembro de 1934 (includa em Freud, 1960a, Carta 276), forneceu uma descrio do livro, bem como de suas razes 
para no public-lo. Estas eram quase as mesmas que as que explica na primeira de suas notas preambulares ao terceiro ensaio adiante ver em ([1]), a saber: por um 
lado, dvidas quanto a seu arrazoado ter sido suficientemente bem estabelecido, e, por outro, temores das reaes  sua publicao por parte da hierarquia catlico-romana 
que, na poca, era dominante no governo austraco. A partir da descrio que ento forneceu da prpria obra, parece que ela  essencialmente a mesma que agora possumos; 
inclusive sua forma, em trs sees independentes, permaneceu inalterada. No obstante, mudanas devem ter sido feitas, pois Freud constantemente expressou sua insatisfao 
em relao a ela, particularmente com o terceiro ensaio. Parece que houve uma nova redao geral durante o vero de 1936, embora o que nos  contado sobre o assunto 
esteja longe de ser claro (Jones, 1957, 388). De todos os modos, o primeiro ensaio foi publicado no incio do ano seguinte (1937), e o segundo, em seu final. Mas 
o terceiro ensaio foi ainda retido e s entregue finalmente  grfica aps a chegada de Freud  Inglaterra, na primavera de 1938. O livro foi impresso no outono 
desse ano na Holanda e a traduo inglesa publicada em maro do ano seguinte.
         O que talvez tenha probabilidade de impressionar em primeiro lugar o leitor, a respeito de Moiss e o Monotesmo,  certa inortodoxia, ou mesmo excentricidade, 
em sua construo: trs ensaios de tamanho bastante diferente, dois prefcios, ambos situados no incio do terceiro ensaio, e um terceiro ensaio, e um terceiro prefcio 
localizado na metade deste ltimo, recapitulaes e repeties constantes. Essas irregularidades so desconhecidas nos outros trabalhos de Freud, ele prprio as 
aponta e por elas se desculpa mais de uma vez. Explicao? Indubitavelmente as circunstncias da composio do livro: o longo perodo - quatro anos ou mais - durante 
o qual foi constantemente revisado, e as agudas dificuldades externas da fase final, com uma sucesso de distrbios na ustria que culminaram na ocupao nazista 
de Viena e a migrao forada de Freud para a Inglaterra. Que o resultado dessas influncias deveria ser visto apenas no campo restrito e temporrio deste volume 
isolado  coisa conclusivamente provada pelo trabalho que imediatamente o seguiu: o Esboo de Psicanlise, um dos mais concisos e bem organizados textos de Freud.
         Mas julgar que a Moiss e o Monotesmo falta algo na forma da apresentao no se destina a acarretar uma crtica do interesse de seu contedo ou da fora 
convincente de seus argumentos. Sua base histrica  sem dvida questo para o debate dos peritos, mas a engenhosidade com que os desenvolvimentos psicolgicos se 
ajustam s premissas, tem probabilidade de persuadir o leitor que no se mostre predisposto. Particularmente aqueles familiarizados com a psicanlise do indivduo 
ficaro fascinados em ver a mesma sucesso de desenvolvimentos apresentada na anlise de um grupo nacional. A totalidade da obra, naturalmente, deve ser encarada 
como continuao dos primeiros estudos de Freud sobre as origens da organizao social humana em Totem e Tabu (1912-13) e Psicologia de Grupo (1921c). Um exame bem 
elaborado e informativo do livro poder ser encontrado no Captulo XIII do terceiro volume da biografia escrita por Ernest Jones (1957), 388-401.
         
         NOTA SOBRE A TRANSCRIO DOS NOMES PRPRIOS
         
         A ocorrncia, em Moiss e o Monotesmo, de grande nmero de nomes egpcios e hebraicos apresenta ao tradutor alguns problemas especiais.
         A escrita egpcia em geral no registra as vogais, de modo que a pronncia real dos nomes egpcios s pode ser adivinhada atravs de um incerto processo 
de inferncias. Diversas interpretaes convencionais, portanto, foram adotadas por vrias autoridades. Examinando essa questo, Gardiner (1927, Apndice B), por 
exemplo, cita quatro verses diferentes do nome do dono de uma tumba bem conhecida em Tebas: Tehutihetep, Thuthotep, Thothotpou e Dhuthotpe. Outras tantas variantes 
podem ser encontradas a partir do nome do 'rei hertico' que figura to proeminentemente aqui, na argumentao de Freud. A escolha parece ser bastante governada 
pela nacionalidade. Assim, no passado, os egiptlogos ingleses inclinavam-se por Akhnaton, os alemes preferiam Echnaton, os americanos (Breasted) escolheram Ikhnaton 
e o grande francs (Maspero) decidiu-se por Khouniatonou. Defrontado por essas alternativas sedutoras, o presente tradutor recaiu na verso trivial que por muitos 
anos tem sido adotada pelo Journal of Egyptian Archaelogy e agora parece ser a que se est tornando mais geralmente aceita, pelo menos nos pases de fala inglesa: 
Akhenaten. Esta mesma autoridade foi geralmente seguida na transcrio de todos os outros nomes egpcios.
         Com referncia aos nomes do Antigo Testamento, a resposta foi mais simples, e empregaram-se as formas encontradas na Verso Autorizada Inglesa. Deve-se 
acrescentar, contudo, que o nome imencionvel da Divindade recebeu aqui a transcrio normalmente encontrada nas obras dos estudiosos ingleses: Yahweh(Jav ou Iav).*
         
         I - MOISS, UM EGPCIO 
         
         Privar um povo do homem de quem se orgulha como o maior de seus filhos no  algo a ser alegre ou descuidadamente empreendido, e muito menos por algum 
que, ele prprio,  um deles. Mas no podemos permitir que uma reflexo como esta nos induza a pr de lado a verdade, em favor do que se supe serem interesses nacionais; 
alm disso, pode-se esperar que o esclarecimento de um conjunto de fatos nos traga um ganho em conhecimento.
         O varo Moiss, que libertou o povo judeu, que lhe deu suas leis e fundou sua religio, data de tempos to remotos que no podemos fugir a uma indagao 
preliminar quanto a saber se foi ele personagem histrico ou criatura de lenda. Se viveu, foi no dcimo terceiro - embora possa ter sido no dcimo quarto - sculo 
antes de Cristo. No possumos informaes sobre ele, exceto as oriundas dos livros sagrados dos judeus e de suas tradies, tal como registradas por escrito. Embora 
 deciso sobre o assunto falte certeza final, uma esmagadora maioria de historiadores pronunciou-se em favor da opinio de que Moiss foi uma pessoa real e que 
o xodo do Egito a ele associado realmente aconteceu. Argumenta-se que, se essa premissa no fosse aceita, a histria posterior do povo de Israel seria incompreensvel. 
Na verdade, a cincia hoje tornou-se em geral muito mais circunspecta, e trata as tradies de modo muito mais indulgente do que nos primeiros dias da crtica histrica.
         A primeira coisa que atrai nossa ateno a respeito da figura de Moiss  seu nome, que em hebraico  'Mosheh'. 'Qual  a sua origem', podemos perguntar, 
'e o que significa?' Como sabemos, a descrio contida no segundo captulo do xodo j fornece uma resposta. -nos dito a que a princesa egpcia que salvou o menininho 
abandonado no Nilo deu-lhe esse nome, fornecendo-se um razo etimolgica: 'porque das guas o tenho tirado'. Essa explicao, contudo,  claramente inadequada. 'A 
interpretao bblica do nome como "o que foi tirado das guas"', argumenta um autor no Jdisches Lexikon, 'constitui etimologia popular, com a qual, de incio, 
 impossvel harmonizar a forma ativa da palavra hebraica, pois "Mosheh" pode significar, no mximo, apenas "o que tira fora". Podemos apoiar essa rejeio por dois 
outros argumentos: em primeiro lugar,  absurdo atribuir a uma princesa egpcia uma derivao do nome a partir do hebraico, e, em segundo, as guas de onde a criana 
foi tirada muito provavelmente no foram as do Nilo.
         Por outro lado, h muito tempo foi expressa uma suspeita, em muitas direes diferentes, de que o nome 'Moiss' deriva-se do vocabulrio egpcio. Em vez 
de enumerar todas as autoridades que argumentaram nesse sentido, citarei a pertinente passagem de um livro comparativamente recente, The Dawn of Conscience (1934), 
da autoria de J.H. Breasted, autor cuja History of Egypt (1906)  considerada obra padro: ' importante notar que seu nome, Moiss, era egpcio. Ele  simplesmente 
a palavra egpcia "mose", que significa "criana", e constitui uma abreviao da forma mais completa de nomes tais como "Amon-mose', significando "Amon-uma-criana", 
ou "Ptah-mose', significando "Ptah-uma-criana", sendo essas prprias formas, semelhantemente, abreviaes da forma completa "Amon-(deu)-uma-criana" ou "Ptah-(deu)-uma-criana'. 
A abreviao "criana" cedo tornou-se uma forma breve e conveniente para designar o complicado nome completo, e o nome Ms ou Ms (Mose), "criana", no  incomum 
nos monumentos egpcios. O pai de Moiss indubitavelmente prefixou ao nome do filho o de um deus egpcio como Amon ou Ptah, e esse nome divino perdeu-se gradatnivamente 
no uso corrente, at que o menino foi chamado "Mose". (O s fial constitui um acrscimo tirado da traduo grega do Antigo Testamento. Ele no se acha no hebraico, 
que tem "Mosheh")Repeti essa passagem palavra por palavra e de maneira alguma estou disposto a partilhar da responsabilidade por seus pormenores. Fico tambm bastante 
surpreso que Breasted tenha deixado de mencionar precisamente os nomes teforos que figuram na relao dos reis egpcios, tais como Ahmose, Toth-mose e Ra-mose.
         Ora, deveramos esperar que uma das muitas pessoas que reconheceram ser 'Moiss' um nome egpcio, houvesse tambm tirado a concluso, ou pelo menos considerado 
a possibilidade, de que a pessoa que portava esse nome egpcio fosse ela prpria egpcia. Em relao aos tempos modernos, no hesitamos em tirar mais concluses, 
embora atualmente as pessoas tenham no um nome, mas dois - um nome de famlia e um nome pessoal - e embora uma alterao de nome ou a adoo de um semelhante, em 
circunstncias novas, no estejam alm das possibilidades. Assim, de modo algum ficamos surpresos por vermos confirmado que o poeta Chamisso  era francs de nascimento, 
que Napoleo Bonaparte, por outro lado, era de origem italiana, e que Benjamim Disraeli era na verdade um judeu italiano, tal como esperaramos de seu nome. Em relao 
a pocas antigas e primitivas, pensar-se-ia que uma concluso como essa, quanto  nacionalidade de uma pessoa baseada em seu nome, pareceria muito mais fidedigna 
e, na verdade, inatacvel. No obstante, at onde sei, nenhum historiador tirou essa concluso no caso de Moiss, nem mesmo aqueles que, mais uma vez como o prprio 
Brasted (1934, 354), esto prontos a supor que 'Moiss foi instrudo em toda a cincia dos egpcios'.
         O que os impediu de proceder assim no pode ser ajuizado com certeza. Possivelmente, sua reverncia pela tradio bblica era invencvel. Possivelmente, 
a idia de que o homem Moiss pudesse ter sido outra coisa que no um hebreu pareceu monstruosa demais. Como quer que seja, surge que o reconhecimento de o nome 
de Moiss ser egpcio no foi considerado como fornecendo prova decisiva de sua origem, e que nenhuma outra concluso foi disso tirada. Se a questo da nacionalidade 
desse grande homem  encarada como algo importante, pareceria desejvel apresentar novos materiais que auxiliassem no sentido de sua resposta.
          a isso que meu breve artigo visa. Sua reivindicao a receber lugar nas pginas de Imago repousa no fato de que a substncia do que ele tem a contribuir 
constitui uma aplicao da psicanlise. A demonstrao a que dessa maneira se chegou sem dvida impressionar apenas aquela minoria de leitores que se acha familiarizada 
com o pensamento analtico e est capacitada a apreciar suas descobertas. A essa minoria, contudo, espero eu, ela parecer significativa.
         Em 1909, Otto Rank, que, nessa poca, ainda estava sob minha influncia, publicou, seguindo sugesto minha, um livro com o ttulo de Der Mythus von der 
Geburt des Helden. Ele trata do fato de que 'quase todas as naes civilizadas proeminentes comearam, em fase precoce, a glorificar seus heris, prncipes e reis 
legendrios, fundadores de religies, dinastias, imprios ou cidades, em suma, seus heris nacionais, numa srie de contos e lendas poticas. A histria do nascimento 
e da vida primitiva dessas personalidades veio a ser especialmente recoberta de caractersticas fantsticas, as quais, em povos diferentes, ainda que amplamente 
separados pelo espao e totalmente independentes uns dos outros, apresentam uma semelhana desconcertante, e em parte, na verdade, uma conformidade literal. No 
poucos investigadores se impressionaram com esse fato, de h muito reconhecido.' [P. 1.] Se, acompanhando Rank, construirmos (por uma tcnica um pouco semelhante 
 de Galton) uma 'lenda mdia' que coloque em realce as caractersticas essenciais de todas essas histrias, chegaremos ao quadro seguinte:
         'O heri  filho de pais muito aristocrticos; geralmente, filho de um rei.
         'Sua concepo  precedida por dificuldades, tal como a abstinncia ou a esterilidade prolongada, ou seus pais tm de ter relaes em segredo, por causa 
de proibies ou obstculos externos. Durante a gravidez, ou mesmo antes, h uma profecia (sob a forma de sonho ou orculo) que alerta contra seu nascimento, que 
geralmente ameaa perigo para o pai.
         'Como resultado disso, a criana recm-nascida  condenada  morte ou ao abandono, geralmente por ordem do pai ou de algum que o representa; via de regra 
 abandonada s guas, num cesto.
         'Posteriormente ele  salvo por animais ou por gente humilde (tais como pastores) e amamentado por uma fmea de animal ou por uma mulher humilde.'Aps ter 
crescido, redescobre seus pais aristocrticos depois de experincias altamente variadas, vinga-se do pai, por um lado,  reconhecido, por outro, e alcana grandeza 
e fama.'Ver em [[1]].A mais antiga das figuras histricas a quem esse mito de nascimento est ligado  Sargo de Agade, fundador de Babilnia (por volta de 2800 
a.C.) Para ns, em particular, no deixar de ter interesse citar a descrio desse mito, atribuda a ele prprio:
         'Sargo, o poderoso Rei, o Rei de Agade, sou eu. Minha me era uma vestal, a meu pai no conheci, ao passo que o irmo de meu pai morava nas montanhas. 
Em minha cidade, Azupirani, que fica  margem do Eufrates, minha me, a vestal, concebeu-me. Em segredo ela me teve. Depositou-me num caixote feito de canios, tampou 
a abertura com piche, e abandonou-me ao rio, que no me afogou. O rio me conduziu at Akki, o tirador de gua. Akki, o tirador de gua, na bondade de seu corao, 
tirou-me para fora. Akki,  o tirador de gua, criou-me como seu prprio filho. Akki, o tirador de gua, fez-me seu jardineiro. Enquanto eu trabalhava como jardineiro, 
[a deusa] Istar ficou gostando de mim; tornei-me Rei e, por quarenta e cinco anos, governei regiamente.'Ver em [[1]]
         Os nomes que nos so mais familiares na srie que comea com Sargo de Agade so Moiss, Ciro e Rmulo. Mas, alm destes, Rank reuniu grande nmero de outras 
figuras hericas da poesia ou da lenda, de quem se conta a mesma histria a respeito de sua juventude, quer em sua totalidade quer em fragmentos facilmente reconhecveis, 
incluindo dipo, Karna, Pris, Telefos, Perseu, Hracles, Gilgamesh, Anfion e Zetos, e outros.
         As pesquisas de Rank familiarizaram-nos com a fonte e o propsito desse mito. S preciso referir-me a elas por algumas breves indicaes. O heri  algum 
que teve a coragem de rebelar-se contra o pai e, ao final, sobrepujou-o vitoriosamente. Nosso mito faz essa luta remontar at a pr-histria do indivduo, j que 
o representa como nascendo contra a vontade do pai e salvo apesar das ms intenes paternas. O abandono num cesto  uma representao simblica inequvoca do nascimento: 
cesto  o tero, e a gua, o lquido amnitico. O relacionamento genitor-criana  representado, em incontveis sonhos, por tirar para fora das guas ou delas salvar. 
Quando a imaginao de um povo liga o mito de nascimento que estamos examinando a uma figura fora do comum, est pretendendo, dessa maneira, reconhec-la como heri 
e anunciar que ela correspondeu ao modelo regular de uma vida de heri. Na verdade, contudo, a fonte de toda fico potica  aquilo que  conhecido como o 'romance 
familiar' de uma criana, no qual o filho reage a uma modificao em sua relao emocional com os genitores e, em especial, com o pai. Os primeiros anos de uma criana 
so dominados por uma enorme supervalorizao do pai; em consonncia com isso, rei e rainha nos sonhos e nos contos de fadas invariavelmente representam os genitores. 
Mais tarde, sob a influncia da rivalidade e do desapontamento na vida real, a criana comea a desligar-se deles e a adotar uma atitude crtica para com o pai. 
Assim, ambas as famlias do mito - a aristocrtica e a humilde - so reflexos da prpria famlia da criana, tal como lhe apareceram em perodos sucessivos de sua 
vida.
         Podemos dizer com justia que essas explicaes tornam plenamente inteligvel a natureza difundida e uniforme dos mitos de nascimento de heris. Por essa 
razo,  algo ainda mais merecedor de interesse que a lenda do nascimento e abandono de Moiss ocupe uma posio especial e que, na verdade, sob um aspecto essencial, 
contradiga o restante.
         Comecemos com as duas famlias entre as quais, segundo a lenda, o destino da criana  lanado. Segundo a interpretao analtica, como sabemos, as famlias 
so uma s e a mesma, apenas cronologicamente diferenciadas. Na forma tpica da lenda, a primeira famlia, aquela em que a criana nasceu,  a aristocrtica, freqentemente 
de categoria real; a segunda famlia, aquela em que a criana cresceu,  humilde ou passa por maus dias. Isso concorda, ademais, com as circunstncias [do 'romance 
familiar'] a que a interpretao faz a lenda remontar. Apenas na lenda de dipo essa diferena se torna indistinta: a criana que foi exposta por uma famlia real 
 recebida por outro casal real. Sente-se que dificilmente pode ser acaso que exatamente nesse exemplo de identidade original das duas famlias possa ser vagamente 
percebida na prpria lenda. O contraste social entre duas famlias proporciona ao mito - que, como sabemos, se destina a acentuar a natureza herica de um grande 
homem - uma segunda funo, que adquire significao especial quando ele  aplicado a personagens histricas, uma vez que o mito tambm pode ser utilizado para criar 
uma patente de nobreza para o heri, para elevar a sua posio social. Para os medos, Ciro foi um conquistador estrangeiro, mas, mediante uma lenda de abandono, 
tornou-se neto de seu rei. A mesma coisa se aplica a Rmulo. Se tal pessoa existiu, deve ter sido um aventureiro de origem desconhecida, um adventcio; a lenda, 
contudo, f-lo descendente e herdeiro da casa real de Alba Longa.
         Com Moiss, as coisas foram inteiramente diferentes. Em seu caso, a primeira famlia; em outros casos, a aristocrtica, foi suficientemente modesta. Ele 
era filho de levitas judeus. Contudo, o lugar da segunda famlia, em outros casos a humilde, foi tomado pela casa real do Egito; a princesa o criou como se fosse 
seu prprio filho. Esse afastamento do tipo intrigou a muitas pessoas. Eduard Meyer, e outros que o seguiram, presumiram que, originalmente, a lenda foi diferente. 
O fara, segundo eles, fora advertido por um sonho proftico de que um filho nascido de sua filha traria perigo para ele e para seu reino. Dessa maneira, fez com 
que a criana fosse abandonada no Nilo, depois do nascimento, mas ela foi salva por judeus e criada como filho deles. Por 'motivos nacionalistas' (como diz Rank), 
a lenda teria ento recebido a forma modificada segundo a qual a conhecemos.
         Basta a reflexo de um momento, porm, para dizer-nos que uma lenda original de Moiss como essa, uma lenda que no mais se desvie das outras, no pode 
ter existido, pois seria de origem egpcia ou judaica. A primeira alternativa est afastada: os egpcios no tinham motivo para glorificar Moiss, visto este no 
ser um heri para eles. Temos de supor, ento, que a lenda foi criada entre os judeus, o que equivale a dizer que foi ligada, em sua forma familiar [isto , na forma 
tpica de uma lenda de nascimento],  figura de seu lder. Mas ela era totalmente inapropriada para esse fim, pois que utilidade poderia ter para um povo uma lenda 
que transformava seu grande homem em estrangeiro?
         A lenda de Moiss, sob a forma em que hoje a possumos, deixa de alcanar, de modo notvel, sua inteno secreta. Se o nascimento de Moiss no era real, 
a lenda no poderia cunh-lo como heri; se o deixava como uma criana judia, nada teria feito para elevar sua posio social. Apenas um pequeno fragmento de todo 
o mito permanece eficaz: a certeza de que a criana sobreviveu perante poderosas foras externas. (Essa caracterstica reaparece na histria da infncia de Jesus, 
na qual o rei Herodes assume o papel do fara.) Assim, na verdade, estamos livres para presumir que algum posterior e canhestro adaptador do material da lenda teve 
oportunidade para introduzir na histria de seu heri, Moiss, algo que se assemelhava s clssicas lendas de abandono que assinalam um heri, mas que, devido s 
circunstncias especiais do caso, no era aplicvel a Moiss.
         Nossas investigaes poderiam ter sido obrigadas a contentar-se com esse inconclusivo e, ademais, incerto resultado, e poderiam nada ter feito no sentido 
de responder a questo de saber se Moiss era egpcio. H, contudo, outra linha de abordagem, talvez mais esperanosa, para a avaliao da lenda de abandono.
         Retornemos s duas famlias do mito. No nvel da interpretao analtica, elas so, como sabemos, idnticas, ao passo que no nvel do mito so diferenciadas 
em uma famlia aristocrtica e em outra humilde. Onde, porm, a figura a quem o mito  ligado  histrica, existe um terceiro nvel: o da realidade. Uma das famlias 
 a real, na qual a pessoa em apreo (o grande homem) nasceu e cresceu realmente; a outra  fictcia, fabricada pelo mito, na perseguio de suas prprias intenes. 
Via de regra, a famlia humilde  a real, e a aristocrtica, a fabricada. A situao, no caso de Moiss, pareceu um tanto diferente. E aqui a nova linha de abordagem 
talvez conduza a um esclarecimento: em todos os casos em que foi possvel verific-la, a primeira famlia, aquela por quem a criana foi exposta, era a inventada, 
e a segunda, na qual ela foi recebida e cresceu, a real. Se tivermos a coragem de reconhecer essa assero como universalmente verdica e como aplicvel tambm  
lenda de Moiss, ento, imediatamente, veremos as coisas de modo claro: Moiss era um egpcio - provavelmente um aristocrata - sobre quem a lenda foi inventada para 
transform-lo num judeu. E esta seria a nossa concluso. O abandono s guas estava em seu lugar correto na histria, mas, a fim de ajustar-se  nova inteno, seu 
objetivo teve de ser um tanto violentamente deformado. De maneira de sacrificar a criana, transformou-se em meio de salv-la.
         O desvio da lenda de Moiss em relao a todas as outras de sua espcie pode ser remontado a uma caracterstica especial de sua histria. Ao passo que normalmente 
um heri, no correr de sua vida, se eleva acima de seu comeo humilde, a vida herica do homem Moiss comeou com ele descendo de sua posio elevada e baixando 
ao nvel dos Filhos de Israel.
         Comeamos essa breve investigao na expectativa de dela derivar um novo argumento em apoio da suspeita de que Moiss era egpcio. Vimos que o primeiro 
argumento, baseado em seu nome, levou muitas pessoas a falharem em produzir convico. Devemos estar preparados para descobrir que esse novo argumento, baseado numa 
anlise da lenda do abandono, pode no ter melhor sucesso. Sem dvida, objetar-se- que as circunstncias de construo e transformao das lendas so, afinal de 
contas, obscuras demais para justificar uma concluso como a nossa, e que as tradies que rodeiam a figura herica de Moiss - com toda sua confuso e contradies, 
e seus inequvocos sinais de sculos de revises e superposies contnuas e tendenciosas - esto fadadas a baldar todo esforo de trazer  luz o ncleo de verdade 
histrica que jaz por trs delas. No partilho dessa atitude discordante, mas tampouco me acho em posio de refut-la.
         Se certeza maior do que essa no podia ser alcanada, por que, poder-se- perguntar, trouxe eu essa investigao a pblico? Lamento dizer que mesmo minha 
justificao para faz-lo no pode ir alm de sugestes, pois, se permitirmos ser levados pelos dois argumentos que apresentei aqui, e se nos dispusermos a tomar 
a srio a hiptese de que Moiss era um egpcio aristocrata, perspectivas muito interessantes e de grande alcance se abriro. Com o auxlio de algumas suposies 
no muito remotas, poderemos, acredito, compreender os motivos que levaram Moiss ao passo fora do comum que deu, e, intimamente relacionado a isso, poderemos conseguir 
um domnio da possvel base de uma srie de caractersticas e peculiaridades das leis e da religio que ele forneceu ao povo judeu, e, ainda, seremos levados a importantes 
consideraes relativas  origem das religies monotestas em geral. Tais concluses ponderveis no podem, contudo, fundar-se apenas em probabilidades psicolgicas. 
Mesmo que aceitemos o fato de que Moiss era egpcio como primeira base histrica, precisaremos dispor pelo menos de um segundo fato firme, a fim de defender a riqueza 
de possibilidades emergentes contra a crtica de que elas no passam de um produto da imaginao e so afastadas demais da realidade. Provas objetivas do perodo 
ao qual a vida de Moiss e, com ela, o xodo do Egito devem ser referidos, teriam atendido, talvez, a esse requisito. Mas elas no foram obtidas; portanto, ser 
melhor deixar sem meno quaisquer outras implicaes da descoberta de que Moiss era egpcio.
         
         II - SE MOISS FOSSE EGPCIO... 
         
         Numa contribuio anterior a esse peridico, tentei trazer  baila um novo argumento em apoio  hiptese de que o homem Moiss, o libertador e legislador 
do povo judaico, no era judeu, mas egpcio. H muito tempo observou-se que seu nome derivava do vocabulrio egpcio, embora o fato no tenha sido devidamente apreciado. 
O que acrescentei foi que a interpretao do mito do abandono vinculado a Moiss conduzia necessariamente  inferncia de que ele fora um egpcio a quem as necessidades 
de um povo procuraram transformar em judeu. Observei, no final de meu artigo, que implicaes importantes e de grande alcance decorriam da hiptese de Moiss ser 
egpcio, mas que no estava preparado para argir publicamente em favor dessas implicaes, j que elas se baseavam apenas em probabilidades psicolgicas e lhes 
faltava qualquer prova objetiva. Quanto maior for a importncia das opinies a que se chega dessa maneira, mais fortemente se sente a necessidade de eximir-se de 
exp-las sem base segura contra os ataques crticos do mundo que nos cerca - como uma esttua de bronze com os ps de barro. Sequer a probabilidade mais tentadora 
constitui proteo contra o erro; mesmo que todas as partes de um problema paream ajustar-se como peas de um quebra-cabea, h que refletir que aquilo que  provvel 
no  necessariamente a verdade, e que a verdade nem sempre  provvel. E, por fim, no parece atraente algum encontrar-se classificado com os eruditos e talmudistas 
que se deliciam em exibir sua engenhosidade, sem considerar quo afastada da realidade sua tese pode estar.
         Apesar dessas hesitaes, que para mim pesam hoje tanto quanto antes, o resultado de meus motivos conflitantes  a deciso de produzir a presente seqncia 
 minha primeira comunicao. Mas, ainda uma vez, esta no  toda a histria, nem tampouco a parte mais importante dela. 
         (1)
         Se, ento, Moiss foi egpcio, nosso primeiro proveito dessa hiptese  um novo enigma, um enigma difcil de decifrar. Se um povo ou uma tribo se dispe 
a um grande empreendimento,  de esperar que um de seus membros assuma o lugar de lder ou seja escolhido para esse posto. Mas no  fcil imaginar o que poderia 
ter induzido um egpcio aristocrata - um prncipe, talvez, ou ento um sacerdote ou alto funcionrio - a colocar-se  testa de uma multido de estrangeiros imigrantes, 
num nvel atrasado de civilizao, e abandonar seu pas com eles. O bem conhecido desprezo que os egpcios sentiam pelos estrangeiros torna particularmente improvvel 
tal procedimento. Na verdade, eu bem poderia acreditar que foi precisamente por isso que mesmo naqueles historiadores que reconheceram ser egpcio o nome do homem, 
e que lhe atriburam toda a sabedoria dos egpcios, ver em [[1]], no se dispuseram a aceitar a possibilidade bvia de que Moiss era egpcio.
         Essa primeira dificuldade  seguida de imediato por outra. No devemos esquecer que Moiss foi no apenas o lder poltico dos judeus estabelecidos no Egito, 
mas tambm seu legislador e educador, forando-os a se porem a servio de uma nova religio, que at o dia de hoje  conhecida, por sua causa, como a religio mosaica. 
Mas,  to fcil a um homem isolado criar uma nova religio? E se algum quisesse influenciar a religio de outra pessoa, mais naturalmente no a converteria ele 
 sua prpria? Decerto, de uma forma ou de outra, no faltava ao povo judeu no Egito uma religio, e se Moiss, que lhes forneceu uma nova, era egpcio, no se pode 
colocar de lado a suposio de que essa outra nova religio era a egpcia.
         H algo que se coloca no caminho dessa possibilidade: o fato de haver o mais violento contraste entre a religio judaica atribuda a Moiss e a religio 
do Egito. A primeira  um monotesmo rgido em grande escala: h apenas um s Deus, ele  o nico Deus, onipotente, inaproximvel; seu aspecto  mais do que os olhos 
humanos podem tolerar, nenhuma imagem dele deve ser feita, mesmo seu nome no pode ser pronunciado. Na religio egpcia, h uma quantidade quase inumervel de divindades 
de dignidade e origem variveis: algumas personificaes de grandes foras naturais como o Cu e a Terra, o Sol e a Lua, uma abstrao ocasional como Ma'at (Verdade 
ou Justia), ou uma caricatura como Bes, semelhante a um ano. A maioria delas, porm, so deuses locais, a datar do perodo em que o pas estava dividido em numerosas 
provncias, deuses com a forma de animais, como se ainda no tivessem completado sua evoluo a partir dos antigos animais totmicos, sem distines ntidas entre 
eles, mas diferindo nas funes que lhes eram atribudas. Os hinos em honra desses deuses dizem quase as mesmas coisas sobre todos eles e os identificam decididamente 
uns com os outros, de maneira desesperadoramente confusa para ns. Os nomes dos deuses so combinados mutuamente, de modo que um deles pode ser quase reduzido a 
um epteto do outro. Assim, no apogeu do 'Novo Reinado', o principal deus da cidade de Tebas foi chamado de Amen Re', a primeira parte desse composto representa 
o deus de cabea de carneiro da cidade, ao passo que Re'  o nome do deus solar de cabea de falco de On [Helipolis]. Atos, encantamentos e amuletos mgicos e 
cerimoniais dominavam o servio desses deuses, assim como governavam a vida cotidiana dos egpcios.
         Algumas dessas diferenas podem facilmente derivar-se do contraste fundamental existente entre um monotesmo estrito e um politesmo irrestrito. Outras 
so evidentemente resultado de uma diferena em nvel espiritual e intelectual, j que uma dessas religies estava muito prxima de fases primitivas [de desenvolvimento], 
ao passo que a outra se elevou a alturas de abstrao sublime. Pode ser devido a esses dois fatores que, ocasionalmente, se tem a impresso de que o contraste entre 
as religies mosaica e egpcia  deliberado e foi intencionalmente intensificado, tal como quando, por exemplo, uma delas condena a magia e a feitiaria nos termos 
mais severos, enquanto na outra elas proliferam abundantemente, ou quando o insacivel apetite dos egpcios por corporificar seus deuses em argila, pedra e metal 
(a que nossos museus tanto devem hoje), se confronta com a dura proibio de fazer imagens de qualquer criatura viva ou imaginada.
         Mas ainda existe outro contraste entre as duas religies que no  atendido pelas explicaes que tentamos. Nenhum outro povo da Antiguidade fez tanto [como 
os egpcios] para negar a morte, ou se deu a tais trabalhos para tornar possvel a existncia no prximo mundo. Por conseguinte, Osris, o deus dos mortos, o soberano 
desse outro mundo, era o mais popular e indiscutido de todos os deuses do Egito. Por outro lado, a antiga religio judaica renunciou inteiramente  imortalidade; 
a possibilidade de a existncia continuar aps a morte em parte alguma jamais  mencionada. E isso ainda  mais notvel por experincias posteriores terem demonstrado 
que a crena num aps-vida  perfeitamente compatvel com uma religio monotesta.
         Era nossa esperana que a possibilidade de Moiss ser egpcio se mostrasse frutfera e esclarecedora em diversas direes, mas a primeira concluso que 
tiramos dessa hiptese - que a nova religio que ele deu aos judeus era a sua, egpcia - foi invalidada por nossa compreenso do carter diferente e, em verdade, 
contraditrio das duas religies.
         (2) 
         Outra possibilidade nos  aberta por um acontecimento marcante na histria da religio egpcia, um acontecimento que s ultimamente foi reconhecido e apreciado. 
Continua sendo possvel que a religio que Moiss deu a seu povo judeu era, mesmo assim, a sua prpria, que era uma religio egpcia, embora no a religio egpcia.
         Na gloriosa XVIII Dinastia, sob a qual o Egito se tornou uma potncia mundial, um jovem fara subiu ao trono, por volta de 1375 a.C. Inicialmente ele foi 
chamado, tal como seu pai, Amenfis (IV); mais tarde, porm, mudou seu nome, e no apenas seu nome. Esse rei disps-se a impor uma religio a seus sditos egpcios, 
uma religio que ia de encontro s suas tradies de milnios e a todos os hbitos familiares de suas vidas. Ela era um monotesmo escrito, a primeira tentativa 
dessa espcie, at onde sabemos, na histria do mundo, e, juntamente com a crena num deus nico, nasceu inevitavelmente a intolerncia, que anteriormente fora alheia 
ao mundo antigo e que por to longo tempo permaneceu depois dele. O reino de Amenfis, contudo, durou apenas 17 anos. Logo aps sua morte, em 1358 a.C., a nova religio 
foi varrida e proscrita a memria do rei hertico. O pouco que sabemos dele deriva-se das runas da nova capital real que construiu e dedicou a seu deus, e das inscries 
nas tumbas de pedra adjacentes a ela. Tudo o que pudemos aprender sobre essa personalidade marcante e, na verdade, nica, ser merecedor do mais elevado interesse.
         Toda novidade deve ter suas preliminares e pr-condies em algo anterior. As origens do monotesmo egpcio podem ser um pouco remontadas com alguma certeza. 
Durante um tempo considervel, entre os sacerdotes do templo do Sol em On (Helipolis), tinham-se manifestado tendncias no sentido de desenvolver a idia de um 
deus universal e de dar nfase ao lado tico de sua natureza. Ma'at, a deusa da Verdade, da Ordem e da Justia, era filha do deus-Sol Re'. Durante o reinado de Amenfis 
III, pai e predecessor do reformador, a adorao do deus-Sol j tinha ganho novo mpeto, provavelmente em oposio a Aman de Tebas, que se tornara poderoso demais. 
Um nome muito antigo do deus-Sol, Aten ou Atum, foi trazido a nova proeminncia, e o jovem rei encontrou nessa religio de Aten um movimento j pronto, que no teve 
de ser o primeiro a inspirar, mas de que podia tornar-se um aderente.
         Por esse tempo, as condies polticas do Egito haviam comeado a exercer influncia duradoura na religio egpcia. Como resultado das faanhas militares 
do grande conquistador, Tutmsis III, o Egito havia-se tornado uma potncia mundial; o imprio inclua agora a Nbia, ao sul, a Palestina, a Sria e uma parte da 
Mesopotmia, ao norte. Esse imperialismo refletiu-se na religio como universalismo e monotesmo. Visto as responsabilidades do fara abrangerem agora no apenas 
o Egito, mas ainda a Nbia e a Sria, tambm a divindade foi obrigada a abandonar sua limitao nacional e, tal como o fara era o nico e irrestrito soberano do 
mundo conhecido dos egpcios, isso tambm teve de aplicar-se  nova deidade destes. Alm disso, com a ampliao das fronteiras do imprio, era natural que o Egito 
se tornasse mais acessvel a influncias estrangeiras; algumas das princesas reais eram princesas asiticas, e  possvel que incentivos diretos ao monotesmo tenham 
inclusive aberto caminho desde a Sria.
         Amenfis nunca negou sua adeso ao culto solar de On. Nos dois hinos a Aten que sobreviveram nas tumbas de pedra, e que foram provavelmente compostos por 
ele prprio, louva o Sol como criador e preservador de todas as coisas vivas, tanto dentro quanto fora do Egito, com um ardor que no se repete seno muitos sculos 
depois, nos Salmos em honra do deus judeu Jav. Ele, porm, no se contentou com essa espantosa previso da descoberta cientfica do efeito da radiao solar. No 
h dvida de que ele foi um passo alm, de que no adorou o Sol como um objeto material, mas como smbolo de um ser divino cuja energia manifestava em seus raios.
         Entretanto, no estaramos fazendo justia ao rei se o encarssemos simplesmente como um aderente ou fomentador de uma religio de Aten j em existncia 
antes de sua poca. Sua atividade foi uma interveno muito mais enrgica. Ele introduziu algo de novo, que, pela primeira vez, converteu a doutrina de um deus universal 
em monotesmo: o fator da exclusividade. Em um de seus hinos, ele declara expressamente: ' tu, nico Deus, ao lado de quem nenhum outro existe!', E no devemos 
esquecer que, ao avaliar uma nova doutrina, no  suficiente o conhecimento de seu contedo positivo; seu lado negativo  quase igualmente importante, ou seja, o 
conhecimento daquilo que ela rejeita. Tambm seria um equvoco supor que a nova religio foi completada de um s golpe e surgiu em vida completamente armada, tal 
como Atena da cabea de Zeus. Tudo sugere antes que, no correr do reinado de Amenfis, ela tenha crescido pouco a pouco no sentido de uma clareza, congruncia, dureza 
e intolerncia cada vez maiores.  provvel que esse desenvolvimento se tenha realizado sob a influncia da violenta oposio  reforma do rei, surgida entre os 
sacerdotes de Amun. No sexto ano do reinado de Amenfis, esse antagonismo havia atingido um ponto tal, que o rei mudou seu nome, do qual o nome proscrito do deus 
Amun fazia parte. Em vez de 'Amenfis', denominou-se ento 'Akhenaten'., Mas no foi apenas do prprio nome que ele expungiu o do detestado deus: apagou-o tambm 
de todas as inscries, inclusive onde aparecia no nome de seu pai, Amenfis III. Pouco depois de alterar seu nome, Akhenaten abandonou a cidade de Tebas, dominada 
por Amun, e construiu para si uma nova capital real rio abaixo,  qual deu o nome de Akhenaten (o horizonte de Aten). Seu stio em runas  hoje conhecido como Tell 
el-'Amarna.,
         A perseguio por parte do rei incidiu mais duramente sobre Amun, mas no s sobre ele. Por todo o reino, foram fechados templos, proibido o servio divino, 
confiscadas as propriedades dos templos. Na verdade, o zelo do rei chegou ao ponto de fazer examinar os monumentos antigos, a fim de que a palavra 'deus' fosse nele 
obliterada,quando ocorresse no plural., No  de espantar que essas medidas tomadas por Akhenaten provocassem um estado de nimo de vingana fantica entre a classe 
sacerdotal suprimida e o povo comum insatisfeito, estado que pde encontrar expresso livre aps a morte do rei. A religio de Aten no se tornara popular; provavelmente 
permanecera restrita a um crculo estreito em torno da pessoa do rei. O fim de Akhenaten permanece envolto em obscuridade. Sabemos de alguns vagos sucessores, de 
vida efmera, de sua prpria famlia. J seu genro, Tut'ankhaten, foi obrigado a regressar a Tebas e a substituir, em seu nome, o nome do deus Aten pelo de Amun.* 
Seguiu-se um perodo de anarquia at que, em 1350 a.C., um general, Haremhab, obteve xito em restaurar a ordem. A gloriosa XVIII Dinastia estava no fim e, simultaneamente, 
suas conquistas na Nbia e na sia foram perdidas. Durante esse sombrio interregno, as antigas religies do Egito foram restabelecidas. A religio de Aten foi abolida. 
A cidade real de Akhenaten foi destruda e saqueada, e a memria dele proscrita como a de um criminoso. com um intuito particular que enfatizaremos agora certos 
pontos entre as caractersticas negativas da religio de Aten. Em primeiro lugar, tudo relacionado com mitos, magia e feitiaria  excludo dela., A seguir, a maneira 
pela qual se representava o deus-Sol no era mais, como no passado, atravs de uma pequena pirmide e um falco,, mas - e isso parece quase prosaico - por um disco 
redondo com raios a partir dele, raios que terminam em mos humanas. A despeito de toda a exuberante arte do perodo Amarna, nenhuma outra representao do deus-Sol 
- nenhuma imagem pessoal de Aten - foi encontrada, e pode-se confiantemente dizer que nenhuma o ser., Por fim, houve completo silncio sobre o deus dos mortos, 
Osris, e o reino dos mortos. Nem os hinos nem as inscries tumulares tomam qualquer conhecimento do que talvez estivesse mais perto dos coraes dos egpcios. 
O contraste com a religio popular no pode ser mais claramente demonstrado. 
         (3)
         ostaria agora de arriscar esta concluso: se Moiss era egpcio e se comunicou sua prpria religio aos judeus, ela deve ter sido a de Akhenaten, a religio 
de Aten.
         J comparei a religio judaica com a religio popular do Egito e demonstrei a oposio existente entre elas. Devo agora fazer uma comparao entre as religies 
judaica e de Aten, na expectativa de provar sua identidade original. Isso, estou ciente, no ser fcil. Graas  vingatividade dos sacerdotes de Amun, talvez saibamos 
muito pouco a respeito da religio mosaica em sua forma final, tal como foi fixada pela classe sacerdotal judaica, cerca de oitocentos anos mais tarde, em pocas 
ps-exlicas. Se, apesar desse estado desfavorvel do material, encontrarmos algumas indicaes que favoream nossa hiptese, poderemos atribuir-lhes um alto valor.
         Haveria um caminho mais certo para provar nossa tese de que a religio mosaica outra no era que a de Aten: a saber, se tivssemos uma confisso de f, 
uma declarao. Mas temo que nos seja dito que esse caminho est fechado para ns. A confisso judaica de f, como  bem sabido, proclama: 'Schema Jisroel Adonai 
Elohenu Adonai Echod', Se no  simplesmente por acaso que o nome de Aten (ou Atum) egpcio soa como a palavra hebraica Adonai [Senhor] e o nome da divindade sria 
Adnis - devendo-se isso, porm, a um parentesco primevo de fala e significado - ento a frmula judaica pode ser assim traduzida: 'Ouve, Israel, nosso deus Aten 
(Adonai)  o nico deus.' Infelizmente, sou totalmente incompetente para dar resposta a essa questo e pouco pude encontrar a respeito dela na leitura sobre o assunto.,Mas, 
com toda probabilidade, isso equivale a tornar as coisas fceis demais para ns. De qualquer modo, teremos de retornar mais uma vez aos problemas referentes ao nome 
do deus.,
          a fazer remontar o que possuem em comum a essa caracterstica Tanto as semelhanas quanto as diferenas entre as duas religies so facilmente discernveis, 
sem nos fornecerem muita luz. Ambas foram formas de monotesmo escrito, e estaremos inclinados, a priori, fundamental. Sob certos aspectos, o monotesmo judaico 
comportava-se ainda mais duramente do que o egpcio: ao proibir representaes pictricas de qualquer tipo, por exemplo. A diferena mais essencial ( parte os nome 
dos deuses) deve ser vista no fato de a religio judaica ser inteiramente desprovida de adorao solar, na qual a egpcia ainda encontrava apoio. Ao fazermos a comparao 
com a religio popular do Egito, tivemos a impresso de que, alm do contraste fundamental, um fator de contradio intencional desempenhava papel na diferena entre 
as duas religies. Essa impresso parecer justificada se, agora, ao fazermos a comparao, substituirmos a religio judaica pela religio de Aten, que, como sabemos, 
foi desenvolvida por Akhenaten em hostilidade deliberada  popular. Com toda razo ficamos surpresos por descobrir que a religio judaica nada tinha que ver com 
o prximo mundo ou com a vida aps a morte, embora uma doutrina desse tipo fosse compatvel com o mais estrito monotesmo. Contudo, a surpresa se desvanece quando 
tornamos da religio judaica para a de Aten e imaginamos que essa recusa foi extrada desta ltima, de uma vez que, para Akhenaten, ela constitua uma necessidade 
em sua luta contra a religio popular, na qual Osris, o deus dos mortos, desempenhava um papel maior, talvez, do que qualquer outro deus do mundo superior. A concordncia 
entre as religies judaica e de Aten nesse importante ponto  o primeiro argumento forte em favor de nossa tese. Viremos a saber que no  o nico.
         Moiss no apenas forneceu aos judeus uma nova religio; pode-se afirmar com igual certeza que ele introduziu para eles o costume da circunciso. Esse fato 
 de importncia decisiva para nosso problema e sequer foi levado em considerao.  verdade que o relato bblico o contradiz mais de uma vez. Por um lado, faz a 
circunciso remontar  era patriarcal, como sinal de um pacto entre Deus e Abrao; por outro, descreve, em passagem particularmente obscura, como Deus ficou irado 
com Moiss por ter negligenciado um costume que se tornara sagrado,, e procurou mat-lo; a esposa dele, porm, uma madianita, salvou-o da ira de Deus realizando 
rapidamente a operao., Estas, contudo, so deformaes que no nos devem desencaminhar; posteriormente, descobriremos a razo para elas. Permanece o fato de haver 
apenas uma s resposta para a questo de saber de onde os judeus derivaram o costume da circunciso - a saber, do Egito. Herdoto, o 'pai da Histria', conta-nos 
que o costume da circunciso por muito tempo fora indgena no Egito,, e suas afirmaes so confirmadas pelas descobertas em mmias e, na verdade, por pinturas nas 
paredes dos tmulos. Nenhum outro povo do Mediterrneo oriental, at onde sabemos, praticava esse costume, e pode-se com segurana supor que os semitas, os babilnios 
e os sumrios no eram circuncidados. A prpria histria da Bblia diz que isso  tpico dos habitantes de Cana; constitui uma premissa necessria para a aventura 
da filha de Jac e o prncipe de Siqum., A possibilidade de que os judeus tenham adquirido o costume da circunciso durante sua estada no Egito por outra maneira, 
que no a vinculao com o ensinamento religioso de Moiss, pode ser rejeitada como completamente despida de fundamento. Ora, tomando como certo que a circunciso 
era costume popular e universal no Egito, adotemos por um momento a hiptese de que Moiss era judeu, de que buscou libertar da servido seus compatriotas no Egito 
e de que os conduziu a desenvolver uma existncia nacional independente e autoconsciente em outro pas - que foi realmente o que aconteceu. Que sentido poderia ter, 
nesse caso, o fato de que, ao mesmo tempo, ele lhes tenha imposto um costume incmodo, que inclusive, at certo ponto, os transformava em egpcios e devia manter 
permanentemente viva a lembrana deles em relao ao Egito, ao passo que os esforos de Moiss s podiam visar  direo oposta, isto , a tornar alheio o povo  
terra de sua servido e a superar o anseio pelas 'panelas de carne' do Egito? No, o fato do qual partimos e a hiptese que lhe acrescentamos so to incompatveis 
entre si, que podemos atrever-nos a chegar a esta concluso: se Moiss deu aos judeus no apenas uma nova religio, como tambm o mandamento da circunciso, ele 
no foi um judeu mas um egpcio, e, nesse caso, a religio mosaica foi provavelmente uma religio egpcia, que, em vista de seu contraste com a religio popular, 
era a religio de Aten, com a qual a religio judaica posterior concorda em alguns aspectos marcantes.J indiquei que minha hiptese de que Moiss no era judeu, 
mas egpcio, criou um novo enigma. O desenvolvimento de sua conduta, que parecia facilmente inteligvel num judeu, era incompreensvel num egpcio. Se, contudo, 
colocarmos Moiss na poca de Akhenaten e o supusermos em contato com esse fara, o enigma se desfar, mostrando-se possveis os motivos que respondero a todas 
as nossas perguntas. Comecemos pela suposio de que Moiss era um aristocrata, um homem proeminente, talvez, na verdade, um membro da casa real, tal como a lenda 
diz a seu respeito. Indubitavelmente, estava cnscio de suas grandes capacidades, era ambicioso e enrgico; pode ter inclusive acalentado a idia de um dia vir a 
ser o lder de seu povo, de se tornar o governante do reino. Achando-se perto do fara, era um aderente convicto da nova religio, cujos pensamentos bsicos fizera 
seus. Quando o rei morreu e a reao se instalou, ele viu destrudas todas as suas esperanas e projetos; se no estivesse preparado para abjurar de todas as convices 
que lhe eram to caras, o Egito nada mais teria a lhe oferecer: ele perdera seu pas. Nesse dilema, encontrou uma soluo fora do comum. Akhenaten, o sonhador, afastara 
de si o povo e deixara seu imprio despedaar-se. A natureza mais enrgica de Moiss sentia-se melhor com o plano de fundar um novo reino, de encontrar um novo povo, 
a quem apresentaria, para adorao, a religio que o Egito desdenhara. Era, como podemos ver, uma tentativa herica de combater o destino, de compensar em dois sentidos 
as perdas em que a catstrofe de Akhenaten o envolvera. Talvez ele fosse, nessa poca, governador da provncia da fronteira (Gsen), onde certas tribos semitas se 
tinham estabelecido talvez j no perodo dos hicsos. A elas escolheu para ser seu novo povo - uma deciso histrica., Chegou a um acordo com elas, ps-se  sua testa 
e realizou o xodo 'com mo forte'., Em total contraste com a tradio bblica, podemos supor que o xodo realizou-sepacificamente e sem perseguio. A autoridade 
de Moiss tornou isso possvel e, quela poca, no havia autoridade central que pudesse ter interferido.
         De acordo com essa nossa construo, o xodo do Egito teria ocorrido durante o perodo que vai de 1358 a 1350 a.C., isto , aps a morte de Akhenaten e 
antes do restabelecimento, por Haremhab, da autoridade estatal., O objetivo da migrao s poderia ter sido a terra de Cana. Aps o colapso da dominao egpcia, 
hordas de belicosos arameus irromperam naquela regio, conquistando e saqueando, e demonstraram dessa maneira onde um povo capaz poderia conquistar novas terras 
para si. Tomamos conhecimento desses guerreiros pelas cartas encontradas, em 1887, na cidade em runas de Amarna. Nelas, eles so chamados de 'habiru', e o nome 
foi transferido (no sabemos como) para os invasores judeus posteriores - 'hebreus' -, aos quais as cartas de Amarna no podiam referir-se. Ao sul da Palestina tambm, 
em Cana, viviam as tribos que eram os parentes mais prximos dos judeus que ento abriam caminho para fora do Egito.
         Os motivos que descobrimos para o xodo como um todo aplicam-se tambm  introduo da circunciso. Estamos familiarizados com a atitude adotada pelas pessoas 
(tanto em naes, como individualmente) para com esse costume primevo, o qual mal  compreendido ainda. Aqueles que no praticam a circunciso, encaram-na como muito 
estranha e ficam um pouco horrorizados com ela, mas os que a adotaram, orgulham-se dela. Sentem-se exalados por ela, enobrecidos, por assim dizer, e olham com desprezo 
para os outros, a quem consideram sujos. Ainda hoje, inclusive, um turco injuriar um cristo chamando-o de 'co incircunciso'. Pode-se supor que Moiss, o qual, 
sendo egpcio, era ele prprio circuncidado, partilhava dessa atitude. Os judeus com quem partiu de seu pas deveriam servir-lhe como um substitutivo superior aos 
egpcios que deixara atrs de si. De modo algum os judeus deveriam ser inferiores a eles. Quis transform-los num 'povo santo', tal como est expressamente enunciado 
no texto bblico,, e, como sinal de sua consagrao, introduziu tambm entre eles o costume que os tornava, pelo menos, iguais aos egpcios. E ele s podia acolher 
bem o fato de que eles fossem isolados por tal sinal e mantidos separados dos povos estrangeiros entre os quais suas peregrinaes os levassem, tal como os prprios 
egpcios se tinham mantido separados de todos os estrangeiros.,
         Posteriormente, contudo, a tradio judaica comportou-se como se tivesse sido posta em desvantagem pela inferncia que estivemos tirando. Caso se admita 
que a circunciso foi um costume egpcio introduzido por Moiss, isso ser quase a mesma coisa que reconhecer que a religio que lhes foi dada por ele, era tambm 
uma religio egpcia. Houve bons motivos para negar esse fato, de maneira que a verdade sobre a circunciso tambm teve de ser contraditadada.
         
         (4)
         Nesse ponto, espero defrontar-me com uma objeo a minha hiptese. Essa hiptese situou Moiss, um egpcio, no perodo de Akhenaten. Fez sua deciso de 
assumir o povo judeu derivar das circunstncias polticas do pas naquela ocasio, e identificou a religio que ele apresentou ou imps a seus protegs como a religio 
de Aten, que, na realidade, tinha desmoronado no prprio Egito. Espero que me seja dito que apresentei essa estrutura de conjecturas com excessiva positividade, 
para a qual no existe base alguma no material. Acho que essa objeo no se justifica. J dei nfase ao fator de dvida em minhas observaes introdutrias; por 
assim dizer, coloquei esse fator fora dos colchetes e pode-se permitir que eu me poupe o trabalho de repeti-lo em vinculao a cada item dentro deles.
         Posso continuar o exame com algumas consideraes crticas elaboradas por mim mesmo. O cerne de minha hiptese - a dependncia do monotesmo judaico do 
episdio monotesta na histria egpcia - j fora suspeitado e mencionado por diversos autores. Poupo-me o trabalho de citar essas opinies aqui, pois nenhuma delas 
foi capaz de indicar como essa influncia pode ter entrado em operao. Ainda que, em nossa opinio, a influncia permanea vinculada  figura de Moiss, devemos 
tambm mencionar algumas outras possibilidades, em acrscimo quela que preferimos. No se deve supor que a queda da religio oficial de Aten tenha imposto uma interrupo 
completa  corrente monotesta no Egito. A classe sacerdotal de On, a partir da qual ela se iniciou, sobreviveu  catstrofe e pode ter continuado a influenciar, 
pela tendncia de suas idias, geraes posteriores a Akhenaten. Assim, a ao empreendida por Moiss  ainda concebvel, mesmo que no tenha vivido na poca de 
Akhenaten e no tenha cado sob sua influncia pessoal, quer fosse ele apenas um adepto, quer, talvez, um membro da classe sacerdotal de On. Essa possibilidade adiaria 
a data do xodo e a colocaria mais prxima da data geralmente adotada (no sculo XII), mas nada tem a recomend-la. Nossa compreenso interna (insight) dos motivos 
de Moiss se perderia e a facilitao do xodo pela anarquia dominante no pas no mais se aplicaria. Os sucessivos reis da XIX Dinastia estabeleceram um regime 
forte. S no perodo imediatamente posterior  morte do rei hertico, houve uma convergncia de todas as condies, tanto externas quanto internas, favorveis ao 
xodo.Os judeus possuem, independentemente da Bblia, uma copiosa literatura onde podem ser encontradas as lendas e mitos que se desenvolveram, no decurso dos sculos, 
em torno da imponente figura de seu primeiro lder e fundador de sua religio, lendas e mitos que tanto a iluminaram quanto a obscureceram. Disseminados nesse material, 
talvez existam fragmentos de tradio fidedigna para os quais no se encontrou lugar no Pentateuco. Uma lenda desse tipo fornece uma descrio atraente de como a 
ambio do homem Moiss encontrou expresso mesmo em sua infncia. Certa vez, quando o fara o tomara nos braos e, de brincadeira, suspendera-o no ar, o menino 
de trs anos apossou-se da coroa que estava na cabea do rei e a colocou sobre a sua. Esse augrio alarmou o rei, que no deixou de consultar seus conselheiros sobre 
ele. Existem, em outras partes, histrias de suas aes militares vitoriosas como general egpcio na Etipia, e, em vinculao a isso, de como fugiu do Egito porque 
tinha motivos para temer a inveja de um partido na Corte ou do prprio fara. O prprio relato bblico atribui a Moiss certas caractersticas, s quais pode-se 
muito bem dar crdito. Descreve-o como sendo de natureza irascvel, a encolerizar-se facilmente, tal como quando, indignado, matou o brutal feitor que estava maltratando 
um trabalhador judeu, ou quando, em sua ira pela apostasia do povo, quebrou as tbuas da Lei que trouxera do Monte de Deus [Sinai]; na verdade, o prprio Deus o 
puniu ao final por um ato impaciente, mas no nos  dito qual foi esse ato. Como um trao dessa espcie no constitui algo que sirva para sua glorificao, talvez 
possa corresponder a uma verdade histrica. Tampouco se pode excluir a possibilidade de que alguns dos traos caracterolgicos que os judeus incluram em sua primitiva 
representao de seu Deus - descrevendo-o como ciumento, severo e cruel -, possam ter sido, no fundo, derivados de uma rememorao de Moiss, pois, de fato, no 
fora um Deus invisvel, mas sim o varo Moiss que os tirara do Egito.
         Outro trao atribudo a Moiss possui direito especial a nosso interesse.  dito que Moiss era 'pesado de boca'; ele deve ter sofrido de uma inibio ou 
distrbio da fala. Por conseguinte, em suas supostas negociaes com o fara,precisou do apoio de Aaro, que  chamado de seu irmo., Essa, mais uma vez, pode ser 
uma verdade histrica, e constituiria uma contribuio bem-vinda  apresentao de um retrato vvido do grande homem. Contudo, tambm pode ter outra significao, 
mais importante. Pode recordar, de modo ligeiramente deformado, o fato de que Moiss falava outra lngua e no podia comunicar-se com seus neo-egpcios semticos 
sem intrprete, pelo menos no incio de suas relaes - uma nova confirmao, portanto, da tese de que Moiss era egpcio.
         Agora, porm, ou assim parece, nosso trabalho chegou a um final provisrio. No momento, no podemos tirar outras concluses de nossa hiptese de que Moiss 
era egpcio, tenha ela sido provada ou no. Nenhum historiador pode encarar a descrio bblica de Moiss e do xodo como algo mais do que um piedoso fragmento de 
fico imaginativa, que moldou uma tradio remota em benefcio de seus prprios intuitos tendenciosos. A forma original dessa tradio nos  desconhecida; deveramos 
contentar-nos em descobrir quais foram os intuitos deformantes, mas nossa ignorncia dos acontecimentos histricos nos mantm no escuro. O fato de nossa reconstruo 
no deixar lugar para uma srie de ostentaes da histria da Bblia, tais como as dez pragas, a passagem do Mar Vermelho e a solene entrega das leis no Monte Sinai, 
no nos desconcerta. No entanto, no poderemos tratar o assunto como sendo indiferente se nos encontrarmos em contradio com as descobertas das sbrias pesquisas 
histricas dos dias atuais.
         Esses historiadores modernos, dos quais podemos tomar Eduard Meyer (1906) como representante, concordam com a histria bblica num ponto decisivo. Tambm 
eles acham que as tribos judaicas, que mais tarde se desenvolveram no povo de Israel, adquiriram uma nova religio num determinado ponto do tempo. Contudo, segundo 
eles isso no se realizou no Egito ou ao sop de um montanha na Pennsula de Sinai, mas numa certa localidade conhecida como Merib-Cades, um osis distinguido por 
sua riqueza em fontes e poos, na extenso de terra ao sul da Palestina, entre a sada oriental da Pennsula de Sinai e a fronteira ocidental da Arbia. A eles 
assumiram a adorao de um deus Iav ou Jav, provavelmente da tribo rabe vizinha dos madianitas. Parece provvel que outras tribos da vizinhana tambm fossem 
seguidoras desse deus.
         Jav era, indiscutivelmente, um deus vulcnico. Ora, como  bem sabido, o Egito no possui vulces e as montanhas da Pennsula de Sinai nunca foram vulcnicas; 
por outro lado, existem vulces que podem ter sido ativos, at tempos recentes, ao longo da fronteira ocidental da Arbia. Assim, uma dessas montanhas deve ter sido 
Sinai-Horeb, considerado a morada de Jav. Apesar de todas as revises a que a histria bblica foi submetida, o retrato original do carter do deus pode ser reconstrudo, 
segundo Eduard Meyer: era um demnio sinistro e sedento de sangue, que vagueava pela noite e evitava a luz do dia.
         O mediador entre Deus e o povo, na fundao dessa religio, chamava-se Moiss. Era o genro do sacerdote madianita Jetro e cuidava de seus rebanhos quando 
recebeu a convocao de Deus. Foi tambm visitado por Jetro em Cades e recebeu alguns conselhos dele.4
         Embora Eduard Meyer diga,  verdade, que nunca duvidou de que havia certo mago histrico na verso da estada no Egito e da catstrofe para os egpcios, 
evidentemente no sabe como localizar e que uso fazer desse fato que ele reconhece. A nica coisa que se mostra pronto a fazer derivar do Egito  o costume da circunciso. 
Acrescenta duas importantes indicaes, que confirmam nossos argumentos anteriores: primeiro, que Josu ordenou que o povo fosse circuncidado, a fim de 'revolver 
de sobre vs o oprbrio [a desobedincia] do Egito', e, segundo, uma citao de Herdoto que diz que 'os prprios fencios (sem dvida os judeus) e os srios da 
Palestina admitem que aprenderam com os egpcios esse costume.Mas ele pouco tem a dizer em favor de um Moiss egpcio: 'O Moiss que conhecemos  o ancestral dos 
sacerdotes de Cades, isto , uma figura oriunda de uma lenda genealgica, colocada em relao a um culto, no uma personalidade histrica. Assim ( parte aqueles 
que aceitam as razes e ramificaes da tradio como verdade histrica), ningum que o tenha tratado,como figura histrica foi capaz de dar-lhe qualquer contedo, 
represent-lo como indivduo concreto ou apontar o que pode ter feito e qual pode ter sido seu trabalho histrico.
         Por outro lado, Meyer no se cansa de insistir na relao de Moiss com Cades e Madi: 'A figura de Moiss, que est intimamente ligada a Madi e aos centros 
de culto no deserto...e 'Essa figura de Moiss, portanto, est inseparavelmente vinculada a Cades (Mass e Merib), e isso  suplementado por ser ele genro do sacerdote 
madianita. Seu vnculo com o xodo, pelo contrrio, e toda a histria de sua juventude so inteiramente secundrios e simplesmente a conseqncia da interpolao 
de Moiss numa histria legendria encadeada e contnua.Meyer tambm aponta que todos os temas includos na histria da juventude de Moiss foram, sem exceo, abandonados 
mais tarde: 'Moiss em Madi no  mais um egpcio e neto do fara, mas um pastor a quem Jav se revelou. No relato das pragas, no se fala mais em suas vinculaes 
anteriores, embora um uso eficaz pudesse facilmente ter sido feito delas, e a ordem de matar os filhos [recm-nascidos] dos israelitas, fosse completamente esquecida. 
No xodo e na destruio dos egpcios, Moiss no desempenha papel algum; sequer  mencionado. O carter herico que a lenda de sua infncia pressupe est totalmente 
ausente do Moiss posterior; ele  apenas o homem de Deus, um taumaturgo equipado por Jav com poderes sobrenaturais.
         No podemos discutir a impresso de que esse Moiss de Cades e Madi, a quem a tradio podia realmente atribuir o erguimento de uma serpente de metal como 
um deus da cura, algum inteiramente diferente do aristocrtico egpcio por ns inferido, que apresentou ao povo uma religio em que toda a magia e todos os encantamentos 
eram proscritos nos termos mais estritos. Nosso Moiss egpcio no  menos diferente, talvez, do Moiss madianita do que o deus universal Aten o  do demnio Jav 
em sua morada no Monte de Deus. E se tivermos alguma f nos pronunciamentos dos historiadores recentes, teremos de admitir que o fio que tentamos tecer a partir 
de nossa hiptese de que Moiss era egpcio rompeu-se pela segunda vez. E dessa vez, parece, sem esperana de remendo. 
         
         (5)
         Inesperadamente, uma vez mais um caminho de fuga apresenta-se aqui. Os esforos para ver em Moiss uma figura que vai alm do sacerdote de Cades, e confirmar 
a grandeza com que a tradio o glorifica, no cessaram desde Eduard Meyer. (Cf. Gressmann [1913] e outros.) Em 1922, Ernest Sellin fez uma descoberta que influenciou 
decisivamente nosso problema. Descobriu no profeta Osias (segunda metade do sculo VIII a.C.) sinais inequvocos de uma tradio segundo a qual Moiss, o fundador 
da religio dos judeus, encontrou um final violento num levante de seu povo refratrio e obstinado, ao mesmo tempo que a religio por ele introduzida era repudiada. 
Essa tradio, contudo, no se restringe a Osias; reaparece na maioria dos profetas posteriores, e, na verdade, segundo Sellin, tornou-se a base de todas as expectativas 
messinicas mais tardias. Ao fim do cativeiro babilnico, surgiu entre o povo judeu a esperana de que o homem que fora to vergonhosamente assassinado retornasse 
dentre os mortos e conduzisse seu povo cheio de remorso, e talvez no apenas esse povo, para o reino da felicidade duradoura. A vinculao bvia disso com o destino 
do fundador de uma religio mais tardia no nos interessa aqui.
         Mais uma vez, naturalmente, no me acho em posio de julgar se Sellin interpretou corretamente as passagens tiradas dos profetas. Se estiver certo, porm, 
poderemos atribuir credibilidade histrica  tradio que ele identificou, pois tais coisas no so facilmente inventadas. No existe motivo tangvel para faz-lo, 
mas, se tais coisas realmente aconteceram,  fcil compreender que as pessoas estavam ansiosas por esquec-las. No precisamos aceitar todos os pormenores da tradio. 
Na opinio de Sellin, Shittim, na regio a leste do Jordo, deve ser encarada como a cena do ataque a Moiss. Contudo, logo veremos que essa regio no  aceitvel 
para nossas idias.
         Tomaremos de emprstimo a Sellin sua hiptese de que o egpcio Moiss foi assassinado pelos judeus e de que a religio que ele introduziu foi abandonada. 
Isso nos permite tecer para mais alm nossos fios, sem contradizer as descobertas autnticas da pesquisa histrica.  parte isso, porm, nos aventuraremos a manter 
independncia em relao s autoridades e a 'seguir nosso prprio caminho'. O xodo do Egito permanece nosso ponto de partida. Um nmero considervel de pessoas 
deve ter abandonado o pas com Moiss; um pequeno grupo no teria parecido valer a pena a esse homem ambicioso, com seus grandes objetivos em visita. Os imigrantes 
provavelmente viveram no Egito por tempo suficientemente longo para se terem desenvolvido numa populao bastante grande. Mas decerto no estaremos errados se presumirmos, 
com a maioria das autoridades, que apenas uma frao daquilo que posteriormente viria a ser o povo judeu experimentou os acontecimentos do Egito. Em outras palavras, 
a tribo que retornou do Egito juntou-se, posteriormente, na faixa de terra entre o Egito e Cana, com outras tribos aparentadas, que a se tinham estabelecido havia 
muito tempo. Essa unio, da qual surgiu o povo de Israel, encontrou expresso na adoo de uma nova religio, comum a todas as tribos, a religio de Jav - acontecimento 
que, segundo Eduard Meyer [1906, p. 60 e segs.], se realizou sob a influncia madianita em Cades. Mais tarde, o povo sentiu-se suficientemente forte para empreender 
a invaso da terra de Cana. No se harmonizaria com o curso dos eventos supor que a catstrofe ocorrida com Moiss e sua religio aconteceu no pas a leste do Jordo; 
deve ter acontecido muito antes da unio das tribos.
         No pode haver dvida de que elementos muito diferentes se uniram na construo do povo judeu, mas o que deve ter causado a maior diferena entre essas 
tribos foi o fato de elas terem experimentado ou no a estada no Egito e aquilo que se seguiu a essa estada. Considerando esse ponto, podemos dizer que a nao surgiu 
da unio de suas partes componentes, e a isso se ajusta o fato de, aps breve perodo de unidade poltica, ela se ter cindido em dois fragmentos - o reino de Israel 
e o reino de Jud. A histria gosta de reintegraes como essa, onde uma fuso posterior  desfeita e uma separao anterior reemerge. O exemplo mais impressivo 
disso foi fornecido, como  bem sabido, pela Reforma, a qual, aps um intervalo superior a mil anos, trouxe mais uma vez  luz a fronteira existente entre a Alemanha 
que fora outrora romana e a Alemanha que permanecera independente. No caso do povo judeu, no  possvel indicar uma reproduo to fiel do antigo estado de coisas; 
nosso conhecimento daqueles tempos  incerto demais para nos permitir afirmar que as tribos estabelecidas se reuniram mais uma vez no Reino do Norte, e que as retornadas 
do Egito se reuniram no Reino do Sul; contudo, tambm aqui a diviso posterior no pode ter ficado sem relao com a reunio anterior. O nmero dos ex-egpcios era 
provavelmente menor do que o dos outros, embora eles se tenham mostrado culturalmente mais fortes. Exerceram uma influncia mais poderosa sobre a evoluo posterior 
do povo, porque trouxeram consigo uma tradio que faltava aos outros.
         Talvez tenham trazido consigo algo mais tangvel do que uma tradio. Um dos maiores enigmas da pr-histria judaica  o da origem dos levitas. Eles so 
remontados a uma das doze tribos de Israel - a de Levi -, mas nenhuma tradio aventurou-se a dizer onde essa tribo estava originalmente localizada, ou qual a parte 
da terra conquistada de Cana que lhe foi atribuda Os levitas preenchiam os ofcios sacerdotais mais importantes, mas eram distintos dos sacerdotes. Um levita no 
 necessariamente um sacerdote; tampouco  o nome de uma casta. Nossa hiptese sobre a figura de Moiss sugere uma explicao.  inacreditvel que um grande senhor, 
como Moiss, o egpcio, se tivesse reunido desacompanhado a esse povo estranho. Sem dvida, deve ter trazido com ele um squito - seus seguidores mais chegados, 
escribas, criados domsticos. Estes  que foram originalmente os levitas. A tradio que alega que Moiss foi um levita parece ser uma deformao clara do seguinte 
fato: levitas eram os seguidores de Moiss. Essa soluo  apoiada pelo fato que j mencionei em meu ensaio anterior:  apenas entre os levitas que os nomes egpcios 
ocorrem mais tarde., Presume-se que um bom nmero desses seguidores de Moiss tenha escapado  catstrofe que desabou sobre ele e a religio que fundara. Eles se 
multiplicaram no decorrer das geraes seguintes, fundiram-se com o povo entre o qual viviam, mas permaneceram fiis a seu senhor, preservaram a memria dele e continuaram 
a tradio de suas doutrinas. Por ocasio da unio com os discpulos de Jav, formavam uma minoria influente, culturalmente superior ao resto.
         Apresento como hiptese provisria que, entre a queda de Moiss e o estabelecimento da nova religio em Cades, duas geraes, ou talvez mesmo um sculo, 
se passaram. No vejo meio de decidir se os neo-egpcios (como gostaria de cham-los aqui), isto , aqueles que retornaram do Egito, encontraram seus parentes tribais 
aps estes j terem adotado a religio de Jav, ou antes. A segunda possibilidade poderia parecer a mais provvel, mas, no resultado, no haveria diferena. O que 
aconteceu em Cades foi uma conciliao, em que a parte assumida pelas tribos de Moiss  inequvoca.
         Aqui, mais uma vez podemos invocar as provas fornecidas pela circunciso, a qual repetidamente nos foi de auxlio, tal como, por assim dizer, um fssil-chave 
fundamental. Esse costume tornou-se obrigatrio tambm na religio de Jav e, uma vez que estava indissoluvelmente vinculado ao Egito, sua adoo s pode ter sido 
uma concesso aos seguidores de Moiss, ou aos levitas entre estes, que no renunciariam a esse sinal de sua santidade, ver em[[1]]. Pelo menos isso de sua antiga 
religio eles desejavam salvar e, em troca, estavam prontos a aceitar a nova divindade e o que os sacerdotes de Madi lhes contaram a respeito dela. Talvez tenham 
conseguido ainda outras concesses. J mencionamos que o ritual judaico prescrevia certas restries ao emprego do nome de Deus. Em vez de 'Jav', a palavra 'Adonai 
[Senhor]' deve ser pronunciada.  tentador trazer essa prescrio para nosso contexto, mas  apenas uma conjectura sem qualquer outra base. A proibio incidente 
sobre o nome de um deus , como bem se sabe, um tabu das eras primevas. No compreendemos por que ele foi revivido precisamente na Lei Judaica, e no  impossvel 
que isso tenha acontecido sob a influncia de um novo motivo. No h necessidade de supor que a proibio era levada a cabo sistematicamente na construo de nomes 
pessoais teforos - ou seja, em compostos -, o nome do Deus Iav ou Jav podia ser livremente empregado (Jochanan, Ja, Josu, por exemplo.) Havia, contudo, circunstncias 
especiais vinculadas a esse nome. Como sabemos, a pesquisa bblica crtica supe que o Hexateuco teve duas fontes documentrias., Elas so distinguidas como J e 
E, porque uma delas utiliza 'Jav' como nome de Deus e a outra, 'Eloim'; 'Eloim',  verdade, no 'Adonai'. Mas podemos manter em mente a observao feita por uma 
de nossas autoridades: 'Os nomes diferentes constituem clara indicao de dois deuses originalmente diferentes'.
         Trouxemos  baila a reteno da circunciso como prova do fato de que fundao da religio em Cades envolvia uma conciliao. Podemos perceber sua natureza 
a partir dos relatos concordantes fornecidos por J e E, que assim retornam, nesse ponto, a uma fonte comum (uma tradio documentria ou oral). Seu intuito principal 
era demonstrar a grandeza e o poder do novo deus Jav. Como os seguidores de Moiss davam tanto valor  sua experincia do xodo do Egito, esse ato de libertao 
tinha de ser representado como devido a Jav, e forneceram-se ao evento aperfeioamentos que davam prova da terrificante grandeza do deus vulcnico, tais como a 
coluna de fumaa [nuvem] que se transformava  noite numa coluna de fogo e a tempestade que ps a nu o leito do mar por algum tempo, de maneira que os perseguidores 
foram afogados pelas guas que retornavam., Esse relato aproximou o xodo e a fundao da religio e renegou o longo intervalo ocorrido entre um e outro. Assim, 
tambm, a entrega da lei foi representada como a ocorrer no em Cades, mas ao sop do Monte de Deus, assinalada por uma erupo vulcnica. O relato, contudo, fez 
grave injustia  memria do homem Moiss; fora ele e no o deus vulcnico que libertara do Egito o povo. Desse modo, era-lhe devida uma compensao, e esta consistiu 
em o homem Moiss ser transferido para Cades ou para Sinai-Horeb e colocado no lugar dos sacerdotes madianitas. Descobriremos mais tarde que essa soluo satisfez 
outro intuito imperativamente premente. Dessa maneira, chegou-se, por assim dizer, a um acordo mtuo: permitiu-se a Jav, que vivia numa montanha em Madi, estender-se 
at o Egito, e, em troca disso, a existncia e a atividade de Moiss foram estendidas at Cades e o pas a leste do Jordo. Assim, ele foi fundido com a figura do 
fundador religioso posterior, o genro do madianita Jetro [[1]],e emprestou-lhe seu nome, Moiss. Desse segundo Moiss, contudo, no podemos fornecer uma descrio 
pessoal, to completamente foi ele eclipsado pelo primeiro, o egpcio Moiss, a menos que recolhamos as contradies existentes na descrio bblica do carter de 
Moiss. Ele  quase sempre representado como prepotente, de temperamento arrebatado e at mesmo violento, embora tambm seja descrito como o mais suave e paciente 
dos homens.Essas ltimas qualidades evidentemente se ajustariam mal ao Moiss egpcio, que teve de lidar com seu povo em to grandes e difceis assuntos; elas podem 
ter pertencido ao carter do outro Moiss, o madianita. Estamos, penso eu, justificados em separar as duas figuras e em presumir que o Moiss egpcio nunca esteve 
em Cades e nunca escutou o nome de Jav, e que o Moiss madianita nunca esteve no Egito e nada sabia de Aten. A fim de soldar as duas figuras, a tradio ou a lenda 
receberam a misso de trazer o Moiss egpcio a Madi, e vimos que mais de uma explicao disso era corrente.
         
         (6)
          Mais uma vez, estou preparado para me ver acusado de ter apresentado minha reconstruo da primitiva histria do povo de Israel com certeza demasiadamente 
grande e injustificada. No me sentirei muito severamente atingido por essa crtica, visto ela encontrar eco em meu prprio julgamento. Eu mesmo sei que minha estrutura 
possui seus pontos fracos, mas tem seus pontos fortes tambm. Em geral, minha impresso predominante  a de que vale a pena continuar o trabalho na direo que ele 
tomou.
         A narrativa bblica que temos perante ns contm dados histricos preciosos e, na verdade, valiosssimos, os quais, contudo, foram deformados pela influncia 
de poderosos intuitos tendenciosos e embelezados pelos produtos da inveno potica. No decorrer de nossos esforos at agora, pudemos detectar um desses intuitos 
deformantes,ver em [[1]].Essa descoberta nos aponta o caminho posterior. Temos de descobrir outros intuitos tendenciosos semelhantes. Se contratarmos meios de reconhecer 
as deformaes produzidas por esses propsitos, traremos  luz novos fragmentos do verdadeiro estado de coisas que jaz por trs deles.
         E comearemos ouvindo o que a pesquisa bblica crtica pode dizer-nos sobre a histria da origem do Hexateuco, os cinco livros de Moiss e o livro de Josu, 
os quais, somente eles, nos interessam aqui. A mais antiga fonte documentria  aceita como J (o autor javstico ou iavstico), que, em pocas mais recentes, foi 
identificado como sendo o sacerdote Ebiatar (Ebyatar), contemporneo do Rei Davi. Um pouco mais tarde - no se sabe quanto -, chegamos ao chamado autor elostico 
[E], que pertenceu ao Reino do Norte.3 Aps o colapso desse reino em 722 a.C., um sacerdote judeu combinou partes de J e E e efetuou alguns acrscimos de sua prpria 
autoria. Sua compilao  designada como JE. No sculo VII, o Deuteronmio, o quinto livro, foi acrescentado a isso. Supe-se que ele tenha sido encontrado completo 
no Templo. No perodo posterior  destruio do Templo (586 a.C.), durante e aps o Exlio, foi compilada a reviso conhecida como 'Cdigo Sacerdotal' e, no sculo 
V, a obra recebeu sua reviso final; desde ento no foi alterada em seus elementos essenciais.A histria do Rei Davi e seu perodo , mais provavelmente, obra de 
um contemporneo. Trata-se de escrito histrico genuno, quinhentos anos antes de Herdoto, o 'Pai da Histria'. Torna-se mais fcil compreender essa realizao 
se, segundo as linhas de nossa hiptese, pensarmos na influncia egpcia. Surge mesmo uma suspeita de que os israelitas daquele perodo primitivo - o que equivale 
a dizer, os escribas de Moiss - podem ter tido alguma parte na inveno do primeiro alfabeto.Naturalmente, est alm de nosso conhecimento descobrir at onde os 
relatos sobre tempos anteriores remontam a registros primitivos ou  tradio oral, e, em casos individuais, qual a durao do intervalo de tempo existente entre 
um acontecimento e seu registro. O texto, contudo, tal como o possumos hoje, nos dir bastante sobre suas prprias vicissitudes. Dois tratamentos mutuamente opostos 
deixaram suas marcas nele. Por um lado, foi submetido a revises que o falsificaram no sentido de seus objetivos secretos, mutilaram-no e amplificaram-no e, at 
mesmo, o transformaram em seu reverso; por outro, uma piedade solcita dirigiu-o e procurou conservar tudo tal como era, pouco importando se era coerente ou se se 
contradizia. Assim, em quase toda parte ocorreram lacunas observveis, repeties perturbadoras e contradies bvias, indicaes que nos revelam coisas que no 
se destinavam a serem comunicadas. Em suas implicaes, a deformao de um texto assemelha-se a um assassinato: a dificuldade no est em perpetrar o ato, mas em 
livrar-se de seus traos. Bem poderamos emprestar  palavra 'Entstellung [deformao]' o sentido duplo a que tem direito, mas do qual, hoje em dia, no se faz uso. 
Ela deveria significar no apenas 'mudar a aparncia de algo', mas tambm 'pr algo em outro lugar, deslocar'., Por conseguinte, em muitos casos de deformao textual, 
podemos no obstante esperar descobrir que o que foi suprimido ou renegado est oculto em outro lugar, embora modificado e despojado de seu contexto. Apenas, nem 
sempre ser fcil reconhec-lo.
         Os intuitos deformantes que estamos ansiosos por apreender j deviam ter estado em ao sobre as tradies antes que qualquer delas fosse registrada por 
escrito. J descobrimos um deles, talvez o mais poderoso de todos. Como dissemos, com o estabelecimento do novo Deus, Jav, em Cades, tornou-se necessrio fazer 
algo para glorific-lo. Seria mais correto dizer: tornou-se necessrio ajust-lo, abrir espao para ele, apagar os traos de religies mais antigas. Isso parece 
ter sido conseguido com completo sucesso com referncia  religio das tribos residentes: nada mais ouvimos dela. Com os que retornavam do Egito, isso no foi to 
fcil; eles no se deixariam ser privados do xodo, do varo Moiss ou da circunciso.  verdade que tinham estado no Egito, mas tinham-no abandonado, e, da por 
diante, todo sinal de influncia egpcia deveria ser renegado. Lidou-se com o homem Moiss deslocando-o para Madi e Cades, e fundindo-o com o sacerdote de Jav 
que fundou a religio. A circunciso, a indicao mais suspeita de dependncia para com o Egito, teve de ser mantida, mas no se pouparam esforos para desligar 
o costume do Egito - toda evidncia em contrrio.  apenas como negao deliberada do fato revelador que podemos explicar a passagem enigmtica e incompreensivelmente 
enunciada no xodo [iv, 24-6], segundo a qual, em certa ocasio, Jav ficou irado com Moiss por ele ter negligenciado a circunciso, e sua esposa madianita salvou-lhe 
a vida executando rapidamente a operao. Dentro em pouco, nos depararemos com outra inveno destinada a tornar incua a desconfortvel prova material.
         O fato de encontrarmos sinais de esforos feitos para negar explicitamente que Jav era um novo deus, estrangeiro aos judeus, mal pode ser descrito como 
sendo o aparecimento de novo intuito tendencioso; trata-se, antes, de uma continuao do anterior. Com esse objetivo em vista, as lendas dos patriarcas do povo - 
Abrao, Isaac e Jac - foram introduzidas. Jav asseverou que ele j era o deus desses antepassados, embora seja verdade que ele prprio teve de admitir que eles 
no o tinham adorado sob esse nome. No acrescenta, contudo, qual era o outro nome.E aqui estava a oportunidade para um golpe decisivo contra a origem egpcia do 
costume da circunciso: Jav, foi dito, j insistira nela com Abrao e a introduzira como penhor do pacto celebrado entre ele e este ltimo. Mas foi uma inveno 
particularmente inbil. Como marca destinada a distinguir determinada pessoa das outras e preferir aquela a estas, escolher-se-ia algo que no pudesse ser encontrado 
em outro povo, e no uma coisa que podia ser exibida, da mesma maneira, por milhes de outras pessoas. Um israelita que se tivesse transplantado para o Egito teria 
sido obrigado a reconhecer todo egpcio como irmo no pacto, como irmo em Jav.  impossvel que os israelitas que criaram o texto da Bblia pudessem ignorar o 
fato de a circunciso ser indgena ao Egito. A passagem em Josu [v, 9] citada por Eduard Meyer,ver em [[1]]admite isso sem discusso, mas, por esse prprio motivo, 
tinha de ser renegada a qualquer preo.
         No devemos esperar que as estruturas mticas da religio dem demasiada ateno  coerncia lgica. De outra maneira, o sentimento popular, justificadamente, 
poderia ter-se ofendido contra uma divindade que fez um pacto com seus antepassados, com obrigaes mtuas, e que depois, por sculos a fio, no mais concedeu ateno 
a seus scios humanos, at que, subitamente, lhe ocorreu manifestar-se de novo a seus descendentes. Ainda mais enigmtica  a noo de um deus que repentinamente 
'escolhe' um povo, que o declara como seu e a ele prprio como seu deus. Acredito que este  o nico exemplo desse tipo na histria das religies humanas. Comumente, 
deus e povo esto indissoluvelmente vinculados, so um s desde o prprio incio das coisas. Sem dvida, s vezes ouvimos falar de um povo que adquire um deus diferente, 
mas nunca de um deus que busca um povo diferente. Poderemos talvez entender esse acontecimento nico se relembrarmos as relaes existentes entre Moiss e o povo 
judeu. Moiss abaixara-se at os judeus, fizera-os o seu povo: eles eram o seu 'povo escolhido'.A introduo dos patriarcas serviu ainda a outro propsito. Eles 
tinham vivido em Cana e sua lembrana estava ligada a localidades especficas nesse pas.  possvel que eles prprios fossem, originalmente, heris canaanitas 
ou divindades locais, sendo depois tomados pelos israelitas imigrantes para a sua pr-histria. Apelando para os patriarcas, eles estavam, por assim dizer, afirmando 
seu carter indgena e defendendo-se contra o dio que se liga a um conquistador estrangeiro. Foi uma toro hbil declarar que o deus Jav estava apenas devolvendo-lhes 
o que seus antepassados tinham possudo outrora.
         Nas contribuies posteriores ao texto da Bblia, colocou-se em efeito a inteno de evitar a meno de Cades. O local em que a religio fora fundada foi 
definitivamente fixado como sendo o Monte de Deus, o Sinai-Horeb. No  fcil perceber o motivo para isso; talvez as pessoas no estivessem dispostas a ser lembradas 
da influncia de Madi. Mas todas as deformaes posteriores, especialmente as do perodo do Cdigo Sacerdotal, tinham outro objetivo em vista. No havia mais necessidade 
alguma de alterar descries de acontecimentos num sentido desejado, pois isso j tinha sido feito havia muito tempo. Mas tomou-se o cuidado de deslocar de volta 
ordens e instituies da poca atual para os tempos primitivos, o cuidado de fundament-los, via de regra, na legislao mosaica, de maneira a derivar disso sua 
reivindicao a serem sagrados e obrigatrios. Por mais que o retrato do passado possa ter sido assim falsificado, o procedimento no deixava de ter certa justificao 
psicolgica. Ele refletia o fato de que, no curso de longas eras - entre o xodo do Egito e a fixao dos textos da Bblia, sob Ezra e Neemias, cerca de oitocentos 
anos haviam transcorrido -, a religio de Jav tivera sua forma modificada em conformidade, ou talvez at em identidade, com a religio original de Moiss.
         E esse  o resultado essencial, a momentosa substncia, da histria da religio judaica.
         
         (7)
         De todos os acontecimentos de tempos primitivos que posteriormente poetas, sacerdotes e historiadores empreenderam elaborar, um se salienta, cuja supresso 
foi imposta pelos mais imediatos e melhores motivos humanos. Trata-se do assassinato de Moiss, o grande lder e libertador, descoberto por Sellin a partir de aluses 
nos escritos dos profetas. A hiptese de Sellin no pode ser chamada de fantstica;  bastante provvel. Moiss, derivando-se da escola de Akhenaten, no empregou 
mtodos diferentes dos que o rei usara; ele ordenou, forou sua f ao povo. A doutrina de Moiss pode ter sido inclusive mais dura do que a de seu mestre. Ele no 
tinha necessidade de manter o deus solar como apoio: a escola de On no possua significao para seu povo estrangeiro. Moiss, como Akhenaten, defrontou-se com 
o mesmo destino que espera todos os dspotas esclarecidos. O povo judeu, sob Moiss, era to capaz de tolerar uma religio to altamente espiritualizada e encontrar 
satisfao de suas necessidades no que ele tinha a oferecer quanto os egpcios da XVIII Dinastia. Em ambos os casos, aconteceu o mesmo: aqueles que tinham sido dominados 
e mantidos em falta levantaram-se e lanaram fora o fardo da religio que lhes fora imposta. Mas, ao passo que os dceis egpcios esperaram at que o destino removesse 
a figura sagrada de seu fara, os selvagens semitas tomaram o destino nas mos e livraram-se de seu tirano.
         Tampouco se pode sustentar que o texto remanescente da Bblia no nos d cincia de um fim desse tipo para Moiss. A descrio do 'pastoreio no deserto', 
que pode representar o perodo durante o qual Moiss governou, descreve uma sucesso de srias revoltas contra sua autoridade, as quais tambm foram, por ordem de 
Jav, suprimidas mediante sangrentos castigos.  fcil imaginar que uma dessas rebelies terminou de maneira diferente daquela que o texto sugere.A defeco do povo 
quanto  nova religio tambm  descrita no texto, na histria do bezerro de ouro. Nesse episdio, atravs de uma mudana engenhosa, o rompimento das tbuas da lei 
(que deve ser entendido simbolicamente: 'ele rompeu a lei')  transposto para o prprio Moiss, e sua indignao furiosa  atribuda como motivo desse rompimento.
         Chegou um tempo em que o povo comeou a lamentar o assassinato de Moiss e a procurar esquec-lo. Isso certamente aconteceu na poca da unio das duas partes 
do povo em Cades. Mas, quando o xodo e a fundao da religio no osis [de Cades] foram aproximados,ver em [[1]],e Moiss foi representado como relacionado com 
esta ltima, em vez de outro homem [o sacerdote madianita], no apenas as exigncias dos seguidores de Moiss foram satisfeitas, mas tambm o fato aflitivo de seu 
fim violento foi renegado com sucesso. Na realidade,  muito improvvel que Moiss pudesse ter tomado parte nas aes de Cades, ainda que sua vida no houvesse sido 
abreviada.
         Temos agora de fazer uma tentativa de elucidar as relaes cronolgicas desses acontecimentos. Colocamos o xodo no perodo posterior ao fim da XVIII Dinastia 
(1350 a.C.). Ele pode ter ocorrido ento ou um pouco depois, j que os cronistas egpcios incluram os anos supervenientes de anarquia no reinado de Haremhab, que 
lhes ps fim e durou at 1315 a.C. O ponto fixado seguinte (mas tambm nico) da cronologia  fornecido pela estela de [o fara] Merenptah (1225-15 a.C.), que se 
gaba de sua vitria sobre Isiraal (Israel) e da disperso de sua semente (?). O sentido a ser ligado a essa inscrio , infelizmente, duvidoso, supondo-se que prove 
que as tribos israelitas j estavam, nessa poca, estabelecidas em Cana. Eduard Meyer, corretamente, conclui a partir dessa estela que Merenptah no pode ter sido 
o fara do xodo, como levianamente foi anteriormente presumido. A data do xodo deve ter sido anterior. A questo de saber quem foi o fara do xodo, parece-me 
inteiramente ociosa. No houve fara do xodo, porque este ocorreu durante um interregno; tampouco a descoberta da estela de Merenptah lana qualquer luz sobre a 
possvel data da unio e fundao da religio em Cades. Tudo o que podemos dizer com certeza  que ocorreu em alguma ocasio entre 1350 e 1215 a.C. Desconfiamos 
de que o xodo ocorreu bastante perto do incio desses cem anos e os eventos de Cades no muito longe de seu fim. Gostaramos de reivindicar a maior parte desse 
perodo para o intervalo entre as duas ocorrncias, de uma vez que necessitamos de um tempo comparativamente longo para que as paixes das tribos que retornavam 
se esfriassem aps o assassinato de Moiss, e para a influncia de seus seguidores, os levitas, se tornasse to grande quanto a que est implcita na conciliao 
de Cades. Duas geraes, sessenta anos, poderiam aproximadamente bastar para isso, mas trata-se de um acerto apertado. O que  inferido da estela de Merenptah chega 
demasiado cedo para ns e, como reconhecemos que, nessa nossa hiptese, cada suposio se baseia em outra, temos de admitir que esse exame revela um lado fraco de 
nossa construo.  desafortunado que tudo que se relaciona com o estabelecimento do povo judeu em Cana seja to obscuro e confuso. Nossa nica sada consiste em 
supor que na estela o nome de 'Israel' no se relacione s tribos cuja sorte estamos tentando acompanhar e que, combinadas, formaram o povo posterior de Israel. 
Afinal de contas, o nome de 'habiru' (hebreus) foi transferido para essas mesmas pessoas no perodo Amarna, ver em [[1]].
         A unio dessas tribos numa nao, atravs da adoo da uma religio comum, no importa quando tenha ocorrido, facilmente poderia ter-se transformado num 
acontecimento bastante sem importncia na histria mundial. A nova religio seria arrastada pela corrente de eventos, Jav teria tido de ocupar seu lugar na procisso 
de deuses passados na viso de Flauberte todas as doze tribos se teriam 'perdido', e no apenas as dez que os anglo-saxes h tanto tempo andam procurando. O deus 
Jav, a quem o Moiss madianita ento apresentou um novo povo, provavelmente no era, sob aspecto algum, um ser proeminente. Um deus grosseiro, tacanho, local, violento 
e sedento de sangue prometera a seus seguidores dar-lhes 'uma terra que mana leite e mel'e os concitara a exterminar seus habitantes de ento 'ao fio da espada'. 
espantoso o quanto resta, apesar de todas as revises nas narrativas bblicas, que nos permita reconhecer a natureza original dele. Sequer  certo que sua religio 
fosse um monotesmo genuno, que negasse a divindade das deidades de outros povos. Provavelmente era suficiente que seu povo encarasse seu prprio deus como mais 
poderoso do que qualquer deus estrangeiro. Se, no obstante, subseqentemente, tudo tomou um curso diferente do que tais primrdios teriam levado a esperar, a causa 
s pode ser encontrada num nico fato. O Moiss egpcio dera a uma parte do povo uma noo mais altamente espiritualizada de deus, a idia de uma divindade nica 
a abranger o mundo inteiro, que era no menos amantssimo do que todo-poderoso, com averso a todo cerimonial e magia, e que apresentava aos homens, como seu objetivo 
mais elevado, uma vida na verdade e na justia, pois, por incompletas que sejam as descries que temos do lado tico da religio de Aten, no pode constituir fato 
sem importncia que Akhenaten comumente se referisse a si mesmo, em suas inscries, como 'vivendo em Ma'at' (Verdade, Justia). A longo prazo, no fez diferena 
que o povo tivesse rejeitado o ensinamento de Moiss (provavelmente pouco tempo depois) e o tivesse matado. A tradio desse ensinamento permaneceu e sua influncia 
alcanou (apenas gradativamente,  verdade, no decorrer dos sculos) aquilo que fora negado ao prprio Moiss. O deus Jav conseguira honras imerecidas quando, a 
partir da poca de Cades em diante, fora creditado com o feito da libertao realizada por Moiss, mas teve de pagar pesadamente por essa usurpao. A sombra do 
deus cujo lugar ele ocupara tornou-se mais forte do que ele prprio; ao final do processo de evoluo, a natureza do deus esquecido de Moiss veio  luz por trs 
da sua prpria. Ningum pode duvidar de que foi apenas a idia desse outro deus que capacitou o povo de Israel a sobreviver a todos os golpes do destino e o manteve 
vivo at nossos dias.
         No  mais possvel avaliar a parte assumida pelos levitas na vitria final do deus mosaico sobre Jav. Eles haviam tomado o partido de Moiss no passado, 
quando o acordo fora alcanado em Cades, numa lembrana ainda viva do amo de quem haviam sido o squito e os compatriotas. Durante os sculos que passaram desde 
ento, fundiram-se com o povo ou com a classe sacerdotal, e tornou-se funo principal dos sacerdotes desenvolver e supervisionar o ritual, e, ao lado disso, preservar 
a escritura sagrada e revis-la de acordo com seus fins. Mas todo sacrifcio e todo cerimonial, no fundo, no eram somente magia e feitiaria, tais como haviam sido 
incondicionalmente rejeitados pelo antigo ensinamento mosaico? Surgiu ento, dentre o povo, uma sucesso infindvel de homens que no eram ligados a Moiss em sua 
origem, mas que foram cativados na obscuridade: foram esses homens, os profetas, que incansavelmente pregaram a antiga doutrina mosaica - a de que a divindade desdenhava 
o sacrifcio e o cerimonial e pedia apenas f e uma vida na Verdade e na Justia (Ma'at). Os esforos dos profetas alcanaram sucesso duradouro; as doutrinas com 
que haviam restabelecido a velhaf tornaram-se o contedo permanente da religio judaica.  honra bastante para o povo judeu que tenha conseguido preservar tal tradio 
e produzir homens que lhe deram voz, ainda que a iniciativa para isso tenha provindo do exterior, de um grande forasteiro.
         No deveria sentir-me seguro em fornecer essa descrio, se no pudesse apelar para o julgamento de outros investigadores com conhecimento especializado, 
que perceberam a significao de Moiss para a religio judaica  mesma luz que eu, ainda que no tenham reconhecido sua origem egpcia. Assim, por exemplo, Sellin 
(1922, 52) escreve: 'Conseqentemente, temos de pintar a verdadeira religio de Moiss - sua crena num s Deus moral, que ele prega - como sendo, da por diante, 
necessariamente propriedade de um pequeno crculo do povo. No devemos, necessariamente, esperar encontr-la no culto oficial, na religio dos sacerdotes ou nas 
crenas do povo. Podemos, necessariamente, apenas calcular encontrar uma fasca ocasional e emergir, ora aqui, ora ali, da tocha espiritual que ele outrora ateara, 
descobrir que suas idias no pereceram inteiramente, mas estiveram silentemente em ao, aqui e ali, sobre crenas e costumes, at que, mais cedo ou mais tarde, 
mediante o efeito de experincias especiais ou de pessoas especialmente movidas pelo seu esprito, elas mais uma vez irromperam intensamente e conquistaram influncia 
sobre massas mais amplas da populao.  a partir desse ponto de vista que a histria da antiga religio de Israel deve, necessariamente, ser encarada. Todo aquele 
que procurar elaborar a religio mosaica segundo as linhas da religio que encontramos, segundo as crnicas, na vida do povo durante seus primeiros quinhentos anos 
em Cana, estar cometendo o mais grave erro metodolgico.' Volz (1907, 64) fala ainda mais claramente: acredita ele que 'a obra excelsa de Moiss foi compreendida 
e levada a cabo, a princpio apenas dbil e esparsamente, at que, no decorrer dos sculos, ela penetrou cada vez mais, e, por fim, encontrou-se, nos grandes profetas, 
com espritos semelhantes que continuaram a obra do homem solitrio.'
         E aqui, segundo parece, cheguei  concluso de meu estudo, que se dirigiu para o objetivo nico de introduzir a figura de um Moiss egpcio no nexo da histria 
judaica. Nossos achados podem ser assim expressos na frmula mais concisa. A histria judaica nos  familiar por suas dualidades: dois grupos de pessoas que se renem 
para formar a nao, dois reinos em que essa nao se divide, dois nomes de deuses nas fontes documentrias da Bblia. A elas, acrescentamos outras duas, novas: 
a fundao de duas religies - a primeira reprimida pela segunda, no obstante emergindo depois vitoriosamente, por trs dela, e dois fundadores religiosos, ambos 
chamados pelo mesmo nome de Moiss e cujas personalidades temos de distinguir uma da outra. Todas essas dualidades so as conseqncias necessrias da primeira: 
o fato de uma parte do povo ter tido uma experincia que tem de ser considerada como traumtica,  qual a outra parte escapou. Mais alm disso, haveria muita coisa 
a examinar, explicar e asseverar. Somente assim um interesse em nosso estudo puramente histrico encontraria sua verdadeira justificao. Em que reside a natureza 
real de uma tradio, em que repousa seu poder especial, quo impossvel  discutir a influncia pessoal, sobre a histria mundial, dos grandes homens tomados individualmente, 
qual o sacrilgio que se comete contra a esplndida diversidade da vida humana se se reconhecerem apenas os motivos que se originam das necessidades materiais, de 
que fontes algumas idias (e, especificamente, as religiosas) derivam seu poder de submeter tanto homens quanto povos a seu jogo - estudar tudo isso no caso especial 
da histria judaica seria tarefa sedutora. Continuar meu trabalho segundo linhas como essas seria descobrir um vnculo com as afirmativas que apresentei vinte e 
cinco anos atrs em Totem e Tabu [1912-13], mas no mais sinto que possua fora para faz-lo.
         
         III - MOISS, O SEU POVO E A RELIGIO MONOTESTA
         
         PARTE I
         
         NOTA PREAMBULAR I 
         ([Viena], antes de maro de 1938)
         
         Com a audcia daquele que tem pouco ou nada a perder, proponho-me pela segunda vez romper uma inteno bem fundada e acrescentar a meus dois ensaios sobre 
Moiss aparecidos em Imagoa parte final que retive. Terminei o ltimo ensaio com a assero de que sabia que minhas foras no seriam suficientes para isso. Quis 
significar, naturalmente, o debilitamento dos poderes criativos que acompanham a velhice,mas pensava tambm em outro obstculo.
         Estamos vivendo num perodo especialmente marcante. Descobrimos, para nosso espanto, que o progresso aliou-se  barbrie. Na Rssia Sovitica, dispuseram-se 
a melhorar as condies de vida de algumas centenas de milhes de pessoas que eram mantidas firmemente em sujeio. Foram suficientemente precipitados para retirar-lhes 
o 'pio' da religio e avisados o bastante para conceder-lhes uma razovel quantidade de liberdade sexual; ao mesmo tempo, porm, submeteram-nas  mais cruel coero 
e despojaram-nas de qualquer possibilidade de pensamento. Com violncia semelhante, o povo italiano est sendo treinado na organizao e no sentido de dever. Sentimos 
como um alvio de uma apreenso opressiva quando vemos, no caso do povo alemo, que uma recada numa barbrie quase pr-histrica pode ocorrer tambm sem estar ligada 
a quaisquer idias progressistas. De qualquer modo, as coisas revelaram-se tais, que, atualmente, as democracias conservadoras se tornaram as guardis do progresso 
cultural e, estranho  diz-lo,  precisamente a instituio da Igreja Catlica que ergue uma defesa poderosa contra a disseminao desse perigo  civilizao - 
a Igreja que at constitura o incansvel inimigo da liberdade de pensamento e dos progressos no sentido da descoberta da verdade!
         Estamos vivendo aqui, num pas catlico, sob a proteo dessa Igreja, incertos quanto ao tempo que essa proteo resistir. Mas, enquanto durar, naturalmente 
hesitamos em fazer algo que estaria sujeito a despertar a hostilidade da Igreja. No se trata de covardia, mas de prudncia. O novo inimigo, que desejamos evitar 
servir,  mais perigoso do que o antigo, com quem j havamos aprendido a entrar em acordo. As pesquisas psicanalticas que conduzimos so, em todo caso, encaradas 
com ateno suspeitosa pelo catolicismo. No sustentarei que isso seja injusto. Se nosso trabalho nos leva a uma concluso que reduz a religio a uma neurose da 
humanidade e explica seu enorme poder da mesma maneira que uma compulso neurtica em nossos pacientes individuais, podemos estar certos de atrair o ressentimento 
de nossos poderes governantes sobre ns. No que tenha algo a dizer que seja novo ou que no tenha dito claramente um quarto de sculo atrs, mas isso foi esquecido 
nesse nterim e no poderia deixar de ter efeito se o repetisse hoje e o ilustrasse por um exemplo que oferece um padro para todos os fundamentos religiosos. Conduziria 
provavelmente a sermos proibidos de exercer a psicanlise. Mtodos violentos de represso desse tipo no so, em verdade, de maneira alguma estranhos  Igreja; o 
fato , antes, que ela sente como invaso de seus privilgios algum mais fazer uso desses mtodos. Mas a psicanlise, que, no decurso de minha longa vida, foi a 
todas as partes, ainda no possui um lar que possa ser mais valioso para ela do que a cidade em que nasceu e se desenvolveu.
         No apenas acho, mas sei que me deixarei ser dissuadido por esse segundo obstculo, pelo perigo externo, de publicar a ltima parte de meu estudo sobre 
Moiss. Fiz ainda outra tentativa de afastar do caminho a dificuldade, dizendo-me que meus temores se baseiam numa superestimao de minha prpria importncia pessoal, 
que provavelmente ser completamente indiferente s autoridades que eu escolha escrever sobre Moiss e a origem das religies monotestas. Mas sinto-me incerto de 
meu julgamento sobre isso. Parece-me bem mais possvel que a malcia e o sensacionalismo contrabalancem qualquer falta de reconhecimento de mim no julgamento do 
mundo contemporneo. Assim, no entregarei este trabalho ao pblico. Mas isso no precisa impedir-me de escrev-lo, especialmente se j o pus por escrito no passado, 
dois anos atrs,de modo que s tenho de revis-lo e uni-lo aos dois ensaios que o precederam. Ele pode ento ser preservado s ocultas at que, algum dia, chegue 
a hora em que possa aventurar-se  luz sem perigo, ou at que se possa dizer a algum que chegue s mesmas concluses: 'Houve algum, em pocas mais sombrias, que 
pensou o mesmo que voc!'
         
         
         NOTA PREAMBULAR II 
         ([Londres], junho de 1938)
         
         As dificuldades bastante especiais que pesaram sobre mim durante a composio deste estudo relacionado  figura de Moiss - dvidas internas, assim como 
obstculos externos - resultaram no fato de este terceiro e conclusivo ensaio ser introduzido por dois prefcios diferentes, os quais se contradizem e, na verdade, 
se anulam mutuamente, pois, no breve espao de tempo existente entre os dois, ocorreu uma mudana fundamental nas circunstncias do autor. Na data anterior, eu estava 
vivendo sob a proteo da Igreja Catlica, e temia que a publicao de meu trabalho resultasse na perda dessa proteo e conjurasse uma proibio sobre o trabalho 
dos adeptos e estudiosos da psicanlise na ustria. Ento, subitamente, veio a invaso alem e o catolicismo mostrou ser, para empregar as palavras da Bblia, 'uma 
cana quebrada'. Na certeza de que seria agora perseguido no apenas por minha linha de pensamento, mas tambm por minha 'raa', acompanhado por muitos de meus amigos 
abandonei a cidade que, desde minha primeira infncia, fora meu lar durante setenta e oito anos.
         Encontrei a mais amistosa recepo na encantadora, livre e magnnima Inglaterra. Aqui vivo agora, hspede bem-vindo; posso exalar um suspiro de alvio agora 
que o peso foi tirado de mim e mais uma vez posso falar e escrever - quase disse 'e pensar' - como quero ou como devo. Aventuro-me a apresentar ao pblico a ltima 
parte de minha obra.
         No restam obstculos externos, ou, pelo menos, nenhum de que se deva ter medo. Nas poucas semanas de minha estada aqui, recebi incontveis saudaes de 
amigos que ficaram satisfeitos por minha chegada, e de estranhos desconhecidos e, na verdade, no envolvidos, que apenas queriam dar expresso  sua satisfao por 
eu ter encontrado liberdade e segurana aqui. E, alm disso, chegaram, com uma freqncia surpreendente para um estrangeiro, comunicaes de outro tipo, interessadas 
no estado de minha alma, apontando-me o caminho de Cristo e procurando esclarecer-me sobre o futuro de Israel. As boas pessoas que dessa maneira escrevem no podem 
ter sabido muito sobre mim, mas espero que quando este trabalho sobre Moiss se torne conhecido, em traduo, entre meus novos compatriotas, serei privado em muito 
da simpatia que tambm um certo nmero de outras pessoas sente agora por mim.Com referncia s dificuldades internas, uma revoluo poltica e uma mudana de domiclio 
nada poderiam alterar. No menos do que antes, sinto-me incerto face a meu prprio trabalho; falta-me a conscincia de unidade e de ser da mesma classe que deveria 
existir entre um autor e sua obra. No  como se houvesse ausncia de convico na correo de minha concluso. Adquiri-a um quarto de sculo atrs, quando, em 1912, 
escrevi meu livro sobre Totem e Tabu, e desde ento ela s se tornou mais firme. Desde aquela poca nunca duvidei de que os fenmenos religiosos s podem ser compreendidos 
segundo o padro dos sintomas neurticos individuais que nos so familiares - como o retorno de acontecimentos importantes, h muito tempo esquecidos, na histria 
primeva da famlia humana - e de que eles tm de agradecer exatamente a essa origem por seu carter compulsivo, e de que, por conseguinte, so eficazes sobre os 
seres humanos por fora da verdade histrica de seu contedo. Minha incerteza se instala apenas quando me pergunto se alcancei sucesso em provar essas teses no exemplo 
que aqui escolhi do monotesmo judaico. A meu senso crtico, este livro, que tem sua origem no homem Moiss, assemelha-se a uma danarina a equilibrar-se na ponta 
de um dedo do p. Se no tivesse podido encontrar apoio numa interpretao analtica do mito e passar da para a suspeita de Sellin sobre o fim de Moiss, tudo teria 
tido de permanecer sem ser escrito. De qualquer modo, demos agora o mergulho.
         
         A - A PREMISSA HISTRICA
         
         Aqui, pois, temos o pano de fundo histrico dos acontecimentos que absorveram nosso interesse. Em resultado das conquistas da XVIII Dinastia, o Egito tornou-se 
um imprio mundial. O novo imperialismo refletiu-se no desenvolvimento das idias religiosas, se no de todo o povo, pelo menos de seu estrato superior governante 
e intelectualmente ativo. Sob a influncia dos sacerdotes do deus solar em On (Helipolis), fortalecida talvez por impulsos provindos da sia, surgiu a idia de 
um deus universal Aten, a quem a restrio a um nico pas e a um nico povo no mais se aplicava. No jovem Amenfis IV, chegou ao trono um fara que no tinha interesse 
mais alto do que o desenvolvimento dessa idia de um deus. Ele promoveu a religio de Aten a religio estatal e, atravs dele, o deus universal tornou-se o nico 
deus: tudo o que se contava dos outros deuses era engano e mentira. Com magnfica inflexibilidade, ele resistiu a toda tentao ao pensamento mgico, e rejeitou 
a iluso, to cara aos egpcios, especificamente, de uma vida aps a morte. Num espantoso pressentimento de descobertas cientficas posteriores, identificou na energia 
da radiao solar a fonte de toda a vida sobre a Terra e adorou-a como smbolo do poder de seu deus. Gabava-se de sua alegria na criao e de sua vida em Ma'at (Verdade 
e Justia).
         Esse  o primeiro e talvez o mais claro caso de uma religio monotesta na histria humana; uma compreenso interna (insight) mais profunda dos determinantes 
histricos e psicolgicos de sua origem seria de valor incomensurvel. Entretanto, cuidou-se de que informaes demasiadas sobre a religio de Aten no chegassem 
at ns. J sob os dbeis sucessores de Akhenaten tudo o que ele havia criada entrou em colapso. A vingana da classe sacerdotal que ele havia suprimido grassou 
contra sua memria; a religio de Aten foi abolida, e a cidade capital do fara, estigmatizado como um criminoso, foi destruda e saqueada. Por volta de 1350 a.C., 
a XVIII Dinastia terminou; aps um perodo de anarquia, a ordem foi restaurada pelo general Haremhab, que reinou at 1315 a.C. A reforma de Akhenaten parecia ser 
um episdio fadado ao esquecimento.
         At aqui, o que est estabelecido historicamente; agora, comea nossa seqncia hipottica. Entre os que compunham o entourage de Akhenaten havia um homem 
talvez chamado Tuthmosis, como muitas outras pessoas daquela poca; o nome no  de grande importncia, exceto o fato de que seu segundo componente deve ter sido 
'-mose'. Achava-se ele numa elevada posio e era um adepto convicto da religio de Aten, mas, em contraste com o rei meditativo, era enrgico e apaixonado. Para 
ele, a morte de Akhenaten e a abolio da religio deste significaram o fim de todas as suas esperanas. S poderia permanecer no Egito como fora-da-lei ou como 
renegado. Talvez, como governador da provncia da fronteira, tenha entrado em contato com uma tribo semita que imigrara para ela algumas geraes antes. Pela necessidade 
de seu desapontamento e solido, voltou-se para esses estrangeiros e neles buscou compensao para suas perdas. Escolheu-os como seu povo e neles tentou realizar 
seus ideais. Aps ter abandonado o Egito com eles, acompanhado por seus seguidores, transformou-os em santos pelo sinal da circunciso, forneceu-lhe leis e introduziu-os 
nas doutrinas da religio de Aten, que os egpcios tinham acabado de rejeitar. Os preceitos que esse varo Moiss deu a seus judeus podem ter sido ainda mais severos 
do que os de seu senhor e mestre Akhenaten, e ele pode tambm ter abandonado a dependncia do deus solar de On, que Akhenaten continuara a seguir.
         Devemos tomar o perodo do interregno posterior a 1350 a.C. como a data do xodo do Egito. O intervalo de tempo que se seguiu, at o trmino da ocupao 
da terra de Cana,  particularmente inescrutvel. A pesquisa histrica moderna foi capaz de extrair dois fatos da obscuridade que a narrativa bblica deixou, ou 
melhor, criou, nesse ponto. O primeiro desses fatos, descobertos por Ernst Sellin  que os judeus, que, mesmo segundo a descrio da Bblia, eram obstinados e indisciplinados 
para com seu legislador e lder, levantaram-se contra ele um dia, mataram-no e livraram-se da religio de Aten que lhes fora imposta, tal como os egpcios se tinham 
livrado dela anteriormente. O segundo fato, demonstrado por Eduard Meyer,  que esses judeus que tinham retornado do Egito uniram-se mais tarde com tribos estreitamente 
relacionadas na regio entre a Palestina, a Pennsula de Sinai e a Arbia, e l, numa localidade bem regada por guas, chamada Cades, sob a influncia dos madianitas 
rabes, assumiram uma nova religio, a adorao do deus vulcnico Jav. Pouco depois disso, estavam prontos para invadir Cana como conquistadores.
         As relaes cronolgicas entre esses dois eventos e entre eles e o xodo do Egito so muito incertas. O ponto de referncia histrico mais aproximado  
fornecido por uma estela do fara Merenptah (que reinou at 1215 a.C.), a qual, no correr de uma descrio de campanhas na Sria e na Palestina, nomeia 'Israel' 
entre os inimigos derrotados. Se tomarmos a data dessa estela como um terminus ad quem, ficamos com aproximadamente um sculo (desde depois de 1350 at antes de 
1215 a.C.) para todo o decorrer dos acontecimentos, comeando com o xodo.  possvel, contudo, que o nome 'Israel' ainda no se relacionasse s tribos cuja sorte 
estamos acompanhando, e que, de fato, tenhamos um intervalo mais longo  nossa disposio. O estabelecimento, em Cana, do que deveria ser mais tarde o povo judeu 
certamente no foi uma conquista rapidamente completada, mas realizou-se em ondas e durante considerveis perodos de tempo. Se nos libertarmos da limitao imposta 
pela estela de Merenptah, poderemos ainda mais facilmente atribuir uma gerao (trinta anos) ao perodo de Moiss, e permitir que pelo menos duas geraes, e provavelmente 
mais, tenham decorrido at a poca da unio em Cades. O intervalo entre Cades e a irrupo em Cana precisa apenas ser curto. A tradio judaica, como foi demonstrado 
no ensaio anterior,ver em [[1]],dispunha de bons fundamentos para abreviar o intervalo entre o xodo e a fundao da religio em Cades, ao passo que o contrrio 
disso  do interesse de nosso relato.
         Tudo isso, contudo, ainda  histria, uma tentativa de preencher as lacunas em nosso conhecimento histrico e, em parte, uma repetio de meu segundo ensaio 
em Imago [Ensaio II, acima]. Nosso interesse acompanha a sorte de Moiss e de suas doutrinas, s quais o levante dos judeus apenas aparentemente ps fim. A partir 
da descrio fornecida pelo Javista, assentada por escrito por volta de 1000 a.C., mas sem dvida baseada em registros anteriores, descobrimos que a unio e a fundao 
da religio em Cades foram acompanhadas por um acordo em que os dois lados ainda so facilmente distinguveis. Uma das partes ficou interessada apenas em renegar 
a novidade e o carter estrangeiro do deus Jav e em aumentar sua reivindicao  devoo do povo; a outra estava ansiosa por no sacrificar-lhe preciosas lembranas 
da libertao do Egito e da grande figura do lder Moiss. O segundo lado conseguiu, tambm, introduzir tanto o fato quanto o homem no novo relato da pr-histria, 
retendo pelo menos o sinal externo da religio de Moiss - a circunciso -, e possivelmente estabelecendo certas restries ao uso do nome do novo deus. Como dissemos, 
os representantes dessas reivindicaes foram os descendentes dos seguidores de Moiss, os levitas, que estavam separados de seus contemporneos e compatriotas por 
apenas algumas geraes, e a que ainda estavam ligados  lembrana dele por uma recordao viva. A narrativa poeticamente embelezada que atribumos ao Javista, e 
a seu rival posterior, o Elosta, era algo como mausolus sob os quais, afastada do conhecimento de geraes posteriores, a verdadeira descrio daquelas primeiras 
coisas - a natureza da religio mosaica e o final violento do grande homem - deveriam, por assim dizer, encontrar seu descanso eterno. E se adivinhamos o que aconteceu 
corretamente, nada resta a respeito que seja enigmtico, mas bem poderia ter significado o ponto final do episdio de Moiss na histria do povo judeu.
         O notvel, porm,  que no foi esse o caso - que os efeitos mais poderosos da experincia do povo deveriam vir  luz apenas mais tarde e abrir caminho 
para a realidade no decorrer de muitos sculos.  improvvel que Jav diferisse muito em carter dos deuses dos povos e tribos circunvizinhos.  verdade que combateu 
com eles, tal como os prprios povos lutavam uns com os outros, mas no podemos supor que viesse  cabea de um adorador de Jav daqueles dias negar a existncia 
dos deuses de Cana, Moab ou Amalek, e assim por diante, mais do que negar a existncia dos povos que neles acreditavam.
         A idia monotesta, que flamejara com Akhenaten, mais uma vez escurecera e deveria permanecer nas trevas por longo tempo vindouro. Descobertas na ilha Elefantina, 
logo abaixo da Primeira Catarata do Nilo, forneceram-nos a surpreendente informao de que uma colnia militar judaica l estivera estabelecida durante sculos, 
e em cujo templo, juntamente com o deus principal Yahu, duas divindades femininas eram adoradas, uma delas denominada Anat-Yahu. Esses judeus,  verdade, estavam 
isolados de sua ptria-me e no tinham tomado parte no desenvolvimento religioso dela; o governo persa do Egito (do sculo V a.C.) transmitiu-lhes a informao 
das novas normas de adorao emitidas porJerusalm. Remontando a tempos anteriores, podemos dizer que o deus Jav certamente no apresentava semelhana com o deus 
mosaico. Aten fora um pacifista como o seu representante na Terra - ou, mais apropriadamente, como o seu prottipo, o fara Akhenaten, que ficou passivamente olhando 
enquanto o imprio mundial conquistado por seus ancestrais se desagregava. Sem dvida, Jav era mais apropriado a um povo que estava comeando a ocupar novas ptrias 
pela fora. E tudo no deus mosaico que merecia admirao estava muito alm da compreenso das massas primitivas.
         J disse - e, nesse ponto, alegrei-me por ter podido reivindicar um acordo com outros escritores - que o fato central do desenvolvimento da religio judaica 
foi que, com o decorrer do tempo, o deus Jav perdeu suas prprias caractersticas e comeou a assemelhar-se cada vez mais ao antigo deus de Moiss, Aten.  verdade 
que permaneceram diferenas s quais se estaria inclinado,  primeira vista, a atribuir grande importncia, mas que podem ser facilmente explicadas.
         No Egito, Aten comeara a dominar durante um perodo afortunado de posse estabelecida, e mesmo quando o imprio comeou a oscilar, seus seguidores tinham 
podido voltar as costas  perturbao e continuar a louvar suas criaes e delas desfrutar. O povo judeu estava fadado a experimentar uma srie de graves provas 
e penosos eventos; seu deus tornou-se duro e severo e, por assim dizer, envolto em tristeza. Manteve a caracterstica de ser um deus universal, a reinar sobre todos 
os pases e povos, mas o fato de sua adorao ter passado dos egpcios para os judeus encontrou expresso na crena adicional de que estes ltimos eram seu povo 
escolhido, cujas obrigaes especiais acabariam por receber tambm uma recompensa especial. Pode no ter sido fcil ao povo reconciliar uma crena em ser preferido 
por seu deus onipotente com as tristes experincias de seu infeliz destino. Mas eles no se deixaram abalar em suas convices; aumentaram seu prprio sentimento 
de culpa a fim de sufocar suas dvidas a respeito de Deus, e pode ser que, por fim, tenham apontado para os 'inescrutveis desgnios da Providncia', como as pessoas 
piedosas fazem at hoje. Se eles se sentiram inclinados a se espantar por ele ter permitido que um agressor violento aps outro surgisse, os expulsasse e os maltratasse 
- assrios, babilnios, persas - ainda puderam reconhecer o poder dele no fato de todos esses perversos inimigos terem sido, por sua vez, conquistados e seus imprios 
se terem desvanecido.
         Sob trs importantes aspectos, o deus posterior dos judeus tornou-se, ao final, semelhante ao velho deus mosaico. O primeiro e decisivo ponto  que ele 
foi verdadeiramente reconhecido como o nico deus, ao lado do qual qualquer outro deus era impensvel. O monotesmo de Akhenaten foi levado a srio por um povo inteiro; 
na verdade, esse povo apegou-se tanto a essa idia, que ela se tornou o principal contedo de sua vida intelectual e no lhe deixou interesse para outras coisas. 
Sobre isso, o povo e a classe sacerdotal que se tinha tornado dominante entre ele estavam acordes. Mas, enquanto os sacerdotes exauriam esforos em erguer o cerimonial 
para a sua adorao, entraram em oposio com intensas correntes dentro do povo, que buscavam reviver duas outras das doutrinas de Moiss sobre seu deus. As vozes 
dos Profetas nunca se cansaram de declarar que Deus desprezava o cerimonial e o sacrifcio, e exigia apenas que as pessoas acreditassem nele e levassem uma vida 
de verdade e justia. E quando louvavam a simplicidade e a santidade da vida no deserto, estavam certamente sob a influncia dos ideais mosaicos.
          hora de levantar a questo de saber se existe qualquer necessidade de invocar a influncia de Moiss como causa da forma final assumida pela idia judaica 
de Deus, ou se no seria suficiente presumir um desenvolvimento espontneo para a intelectualidade mais elevada no correr de uma vida cultural a se estender por 
centenas de anos. H duas coisas a serem ditas sobre essa possvel explicao, que colocaria fim a todas as nossas enigmticas conjecturas. Em primeiro lugar, ela 
no explica nada. No caso dos gregos - indiscutivelmente, um povo altamente dotado -, as mesmas condies no conduziram ao monotesmo, mas  desintegrao de sua 
religio politesta e ao incio do pensamento filosfico. No Egito, at onde podemos compreender, o monotesmo cresceu como um subproduto do imperialismo. Deus era 
um reflexo do fara, que era soberano absoluto de um grande imprio mundial. Com os judeus, as condies polticas eram altamente desfavorveis ao desenvolvimento 
da idia de um deus nacional exclusivo para a de um soberano universal do mundo. E onde foi que essa minscula e impotente nao achou a arrogncia de declarar-se 
a si prpria filha favorita do grande Senhor? O problema da origem do monotesmo entre os judeus permaneceria assim irresolvido, ou teramos de nos contentar com 
a resposta comum segundo a qual o monotesmo era expresso do gnio religioso peculiar desse povo.  bem sabido que o gnio  incompreensvel e irresponsvel; portanto, 
no devemos traz-lo  baila como explicao at que toda outra soluo nos tenha falhado.
         Alm disso, deparamo-nos com o fato de que os prprios registros e escritos histricos judaicos nos apontam o caminho, asseverando bastante definidamente 
- dessa vez, sem contradizer-se - que a idia de um deus nico foi trazida ao povo por Moiss. Se h uma objeo  fidedignidade dessa afirmao,  a de que a reviso 
sacerdotal do texto que temos perante ns faz, obviamente, demasiadas coisas remontarem a Moiss. Instituies tais como as ordenaes rituais, que datam inequivocamente 
de pocas posteriores, so dadas como mandamentos mosaicos, com a clara inteno de lhes emprestar autoridade. Isso certamente nos fornece fundamentos para suspeita, 
mas no o suficiente para uma rejeio, pois o motivo mais profundo para um exagero desse tipo  bvio. A narrativa sacerdotal busca estabelecer uma continuidade 
entre seu perodo contemporneo e o remoto passado mosaico; busca repudiar exatamente o que descrevemos como sendo o fato mais notvel da histria religiosa judaica, 
a saber, a existncia de uma lacuna hiante entre a legislao de Moiss e a religio judaica posterior - lacuna que foi, a princpio, preenchida pela adorao de 
Jav, e s lentamente remendada depois. Ela discute esse curso de eventos por todos os modos possveis, embora sua correo histrica esteja estabelecida para alm 
de qualquer dvida, desde que, no tratamento especfico dado ao texto bblico, provas superabundantes foram deixadas para prov-lo. Aqui, a reviso sacerdotal tentou 
algo semelhante  deformao tendenciosa que transformou o novo deus Jav no deus dos Patriarcas,ver em [[1]].Se levarmos em considerao esse motivo do Cdigo Sacerdotal, 
acharemos difcil reter nossa crena a partir da assero de que foi realmente o prprio Moiss que forneceu a idia monotesta aos judeus. Estaremos ainda mais 
prontos a dar assentimento j que podemos dizer de onde Moiss derivou essa idia, a qual, certamente, os sacerdotes judeus no conheciam mais.
         E, aqui, algum poderia perguntar o que lucramos fazendo remontar o monotesmo judaico ao egpcio. Isso simplesmente leva o problema a voltar um pouco mais 
para trs: no nos diz nada sobre a gnese da idia monotesta. A resposta  que no se trata de questo de lucro, mas de investigao. Talvez possamos aprender 
algo a partir dela, se descobrimos o curso real dos eventos.
         
         
         
         B - O PERODO DE LATNCIA E A TRADIO 
         
         Confessamos a crena, portanto, de que a idia de um deus nico, bem como a rejeio do cerimonial magicamente eficaz e a nfase dada s exigncias ticas 
feitas em seu nome, foram de fato doutrinas mosaicas, s quais de incio nenhuma ateno foi prestada, mas que, aps um longo intervalo ter transcorrido, entraram 
em operao e acabaram por tornar-se permanentemente estabelecidas. Como explicaremos um efeito retardado desse tipo e onde nos deparamos com um fenmeno semelhante?
         Ocorre-nos em seguida que tais coisas no so infreqentemente encontradas nas esferas mais variadas e que elas provavelmente acontecem atravs de uma srie 
de maneiras que so compreensveis com maior ou menor facilidade. Tomemos, por exemplo, a histria de uma nova teoria cientfica, tal como a teoria da evoluo, 
de Darwin. A princpio, ela defrontou-se com acerbada rejeio e foi violentamente discutida durante dcadas; contudo, no foi preciso mais de uma gerao para ser 
reconhecida como um grande passo  frente no sentido da verdade. O prprio Darwin conquistou a honra de ter uma sepultura ou cenotfio na Abadia de Westminster. 
Um caso como esse deixa-nos pouco a esclarecer. A nova verdade desperta resistncias emocionais; estas encontram expresso em argumentos pelos quais as provas em 
favor da teoria impopular no podem ser discutidas; o combate de opinies toma um certo perodo de tempo; desde o princpio, h adeptos e oponentes; tanto o nmero 
quanto o peso dos primeiros continuam a crescer, at que, por fim, levam a palma; durante todo o tempo de luta, o assunto com que ela se relaciona jamais  esquecido. 
Mal nos surpreendemos que o curso inteiro dos acontecimentos tome uma extenso considervel de tempo, e provavelmente no apreciamos suficientemente que aquilo em 
que estamos interessados constitui um processo de psicologia de grupo.
         No h dificuldade em encontrar, na vida mental de um indivduo, uma analogia que corresponde exatamente a esse processo. Tal seria o caso se uma pessoa 
aprendesse algo de novo para ela, que, com base em certas provas, teria de reconhecer como sendo verdadeiro, mas que contradiz alguns de seus desejos e choca algumas 
convices que lhe so preciosas. A seguir, essa pessoa hesitar, buscar razes que a capacitem a lanar dvidas sobre essa coisa nova, e, por algum tempo, ela 
lutar consigo mesma, at que, finalmente, admitir para si: 'De qualquer modo,  assim, embora no me seja fcil aceitar, embora me seja aflitivo ter de acreditar. 
O que a partir disso aprendemos  simplesmente que leva tempo para a atividade raciocinante do ego superar as objees sustentadas por intensas catexias afetivas. 
A semelhana entre esse caso e aquele que estamos nos esforando por compreender no  muito grande.
         O prximo exemplo para o qual nos voltamos parece ter ainda menos em comum com nosso problema. Pode acontecer que um homem que experimentou algum acidente 
assustador - coliso ferroviria, por exemplo, - deixe a cena desse evento aparentemente inclume. No decorrer das semanas seguintes, contudo, desenvolve uma srie 
de sintomas psquicos e motores graves, os quais s podem ser remontados a seu choque,  concusso, ou ao que quer que seja. Agora, esse homem tem uma 'neurose traumtica'. 
Trata-se de um fato inteiramente ininteligvel - o que equivale a dizer: novo. O tempo decorrido entre o acidente e o primeiro aparecimento dos sintomas  descrito 
como sendo o 'perodo de incubao', numa clara aluso  patologia das doenas infecciosas. Refletindo, deve impressionar-nos que, apesar da diferena fundamental 
entre os dois casos - o problema da neurose traumtica e do monotesmo judaico -, exista, no obstante, um ponto de concordncia; a saber: a caracterstica que poderia 
ser descrita como 'latncia'. Segundo nossa ousada hiptese, na histria da religio judaica houve, aps a defeco em relao  religio de Moiss, um longo perodo 
durante o qual no se detectou sinal algum da idia monotesta, do desprezo pelo cerimonial, ou da grande nfase dada  tica. Assim, ficamos preparados para a possibilidade 
de que a soluo de nosso problema deva ser procurada numa situao psicolgica especfica.
         J descrevemos repetidamente o que sucedeu em Cades, quando as duas partes do que mais tarde viria a ser o povo judeu se reuniram para receber uma nova 
religio. Naqueles que, por um lado, estiveram no Egito, as lembranas do xodo e da figura de Moiss eram ainda to fortes e vvidas, que exigiram sua incluso 
numa descrio dos primeiros tempos. Eram netos, talvez, de pessoas que conheceram o prprio Moiss, e alguns ainda se sentiam, eles prprios, egpcios, e portavam 
nomes egpcios. Mas tinham bons motivos para reprimir a lembrana da sorte que seu lder e legislador encontrara. O intuito determinante da outra parte do povo era 
glorificar o novo deus e discutir sua condio de estrangeiro. Ambas as partes possuam o mesmo interesse em repudiar o fato de terem tido uma religio anterior 
e a natureza do contedo dela. Foi desse modo que ocorreu o primeiro acordo, provavelmente logo registrado por escrito. O povo oriundo do Egito trouxera consigo 
a escrita e o desejo de escrever histria; mas longo tempo deveria passar-se antes que a escrita histrica compreendesse que estava comprometida com uma veracidade 
inabalvel. Inicialmente, ela no tinha escrpulos em modelar suas narrativas segundo as necessidades e os propsitos do momento, como se ainda no tivesse reconhecido 
o conceito de falsificao. Em resultado dessas circunstncias, pde desenvolver-se uma discrepncia entre o registro escrito e a transmisso oral do mesmo material 
- a tradio. O que fora omitido ou alterado no registro escrito poderia muito bem ter sido preservado intacto na tradio. Esta constitua no s um suplemento, 
mas, ao mesmo tempo, uma contradio do escrito histrico. Estava menos sujeita  influncia de intuitos deformantes e talvez, em certos pontos, inteiramente isenta 
deles; poderia, portanto, ser mais verdica do que o relato registrado por escrito. Sua fidedignidade, contudo, padecia do fato de ser menos estvel e menos definida 
do que a descrio escrita, e exposta a numerosas mudanas e alteraes quando era transmitida, de uma gerao para outra, atravs da comunicao oral. Uma tradio 
dessa espcie poderia defrontar-se com variados tipos de destino. O que deveramos esperar mais, seria que ela fosse esmagada pelo relato escrito, incapacitada de 
erguer-se contra este, se tornasse cada vez mais esmaecida e, finalmente, passasse para o esquecimento. Mas ela poderia defrontar-se com outros destinos: um deles 
seria o de que a prpria tradio terminasse num registro escrito, e ainda teremos de lidar com outros,  medida que progredimos.
         O fenmeno da latncia na histria da religio judaica, com o qual estamos lidando, pode ser explicado, portanto, pela circunstncia de que os fatos e as 
idias que foram intencionalmente repudiados pelos que podem ser chamados de historiadores oficiais, nunca se perderam realmente. Informaes sobre eles persistiram 
em tradies que sobreviveram entre o povo. Na verdade, como Sellin nos assegura, houve realmente uma tradio sobre o fim de Moiss que contradizia redondamente 
a descrio oficial e que estava muito mais perto da verdade. O mesmo, podemos presumir, tambm se aplicou a outras coisas que aparentemente deixaram de existir 
ao mesmo tempo que Moiss - a alguns dos contedos da religio mosaica que tinham sido inaceitveis para a maioria de seus contemporneos.
         O fato marcante com que somos aqui confrontados , contudo, que essas tradies, em vez de se tornarem mais fracas com o tempo, se tornaram cada vez mais 
poderosas no decorrer dos sculos, impuseram sua entrada nas revises posteriores dos relatos oficiais e, finalmente, se mostraram suficientemente fortes para exercer 
influncia decisiva nos pensamentos e aes do povo. No momento,  verdade, os determinantes que tornaram possvel esse resultado esto fora de nosso conhecimento.
         Esse fato  to notvel, que nos sentimos justificados em examin-lo de novo. Nosso problema est abrangido nele. O povo judeu abandonou a religio de Aten 
que lhes foi dada por Moiss e voltou-se para a adorao de outro deus que pouco diferia dos Baalim dos povos vizinhos. Todos os esforos tendenciosos de pocas 
posteriores fracassaram em disfarar esse fato vergonhoso. Mas a religio mosaica no se desvaneceu sem deixar trao; algum tipo de lembrana dela manteve-se viva: 
uma tradio possivelmente obscurecida e deformada. E foi essa tradio de um grande passado que continuou a operar (do fundo da cena, por assim dizer), que gradativamente 
adquiriu cada vez mais poder sobre as mentes das pessoas e que, ao final, conseguiu transformar o deus Jav no deus mosaico e redespertar para a vida a religio 
de Moiss que fora introduzida e, depois, abandonada havia longos sculos. Que uma tradio assim mergulhada no olvido exercesse efeito to poderoso sobre a vida 
mental de um povo constitui uma idia pouco familiar para ns. Aqui, encontramo-nos no campo da psicologia grupal, onde no nos sentimos  vontade. Procuramos em 
volta, em busca de analogias, de fatos que sejam pelo menos de natureza semelhante, ainda que em campos diferentes. E fatos desse tipo, acredito, podem ser encontrados.
         Durante o perodo em que, entre os judeus, o retorno da religio de Moiss estava em preparao, o povo grego descobriu-se na posse de um acervo excepcionalmente 
rico de lendas tribais e mitos hericos. Acredita-se que o sculo IX ou VIII a.C. viu a origem das duas epopias homricas, que hauriram seu material nesse crculo 
de lendas. Com nossa atual compreenso interna (insight) psicolgica, poderamos, muito antes de Schliemann e Evans, ter levantado a questo de saber de onde os 
gregos conseguiram todo o material legendrio elaborado por Homero e os grandes dramaturgos ticos em suas obras-primas. A resposta teria tido de ser a de que esse 
povo provavelmente experimentara em sua pr-histria um perodo de brilhantismo externo e eflorescncia cultural perecido numa catstrofe histrica, do qual uma 
obscura tradio sobrevivia nessas lendas. As pesquisas arqueolgicas de nossos dias confirmaram agora essa suspeita, que no passado certamente teria sido pronunciada 
como sendo audaciosa demais. Essas pesquisas revelaram as provas da impressionante civilizao minico-miceniana, que provavelmente chegou ao fim na Grcia continental 
antes de 1250 a.C. Dificilmente uma aluso a ela pode ser encontrada nos historiadores gregos da poca posterior; no mximo, uma observao de que houve um tempo 
em que os cretenses exerciam o comando do mar, e o nome do rei Minos e de seu palcio, o Labirinto. Isso  tudo; alm disso nada remanesceu, exceto as tradies 
de que os poetas se apossaram.
         As epopias nacionais de outros povos - alemes, indianos, finlandeses - tambm vieram  luz.  tarefa dos historiadores da literatura investigar se podemos 
presumir em relao  sua origem os mesmos determinantes que os dos gregos. Uma tal investigao renderia, acredito, um resultado positivo. Aqui est o determinante 
que identificamos: um fragmento de pr-histria que, imediatamente depois, estaria sujeito a parecer rico em contedo, importante, esplndido, e sempre, talvez, 
herico, mas que jaz to atrs, em tempos to remotos, que apenas uma tradio obscura e incompleta informa as geraes posteriores sobre ele. Sentiu-se surpresa 
por que a epopia, como forma artstica, se tenha extinguido em pocas posteriores. A explicao pode ser que sua causa determinante no existe mais. O velho material 
foi utilizado e, para todos os eventos posteriores, a escrita histrica tomou o lugar da tradio. Os maiores feitos hericos de nossos dias no foram capazes de 
inspirar um poema pico, e mesmo Alexandre, o Grande, tinha direito a se lamentar de no encontrar um Homero.
         As eras h muito tempo passadas exercem uma grande e freqentemente enigmtica atrao para a imaginao dos homens. Sempre que esto insatisfeitos com 
seu ambiente atual - e isso acontece quase sempre - se voltam para o passado e esperam ser agora capazes de demonstrar a verdade do imperecvel sonho de uma Idade 
de Ouro. Provavelmente ainda se encontram sob o encantamento de sua infncia, que lhes  apresentada por sua memria no imparcial como uma poca de ininterrupta 
felicidade.
         Se tudo o que resta do passado so as incompletas e enevoadas lembranas que chamamos de tradio, isso oferece ao artista uma atrao peculiar, pois, nesse 
caso, ele fica livre para preencher as lacunas da memria de acordo com os desejos de sua imaginao e para retratar o perodo que quer reproduzir segundo suas intenes. 
Quase se poderia dizer que, quanto mais vaga uma tradio, mais til ela se torna para um poeta. No precisamos,portanto, ficar surpresos pela importncia da tradio 
para a escrita imaginativa, e a analogia com a maneira pela qual as epopias so determinadas nos deixar mais inclinados a aceitar a estranha hiptese de que foi 
a tradio de Moiss que, para os judeus, alterou a adorao de Jav no sentido da antiga religio mosaica. Contudo, sob outros aspectos, os dois casos ainda so 
muito diferentes. Por um lado, o resultado  um poema; por outro,  uma religio, e, nesse ltimo caso, presumimos que, sob o acicate da tradio, ele foi reproduzido 
com uma fidelidade para a qual o exemplo da epopia naturalmente no pode oferecer contrapartida. Por conseguinte, resta muita coisa de nosso problema para justificar 
a necessidade de analogias mais apropriadas.
         
         C - A ANALOGIA
         
         A nica analogia satisfatria com o notvel curso de acontecimentos que encontramos na histria da religio judaica reside num campo aparentemente remoto, 
mas  bastante completa e aproxima-se da identidade. Nela, mais uma vez nos deparamos com o fenmeno da latncia, o surgimento de manifestaes ininteligveis, a 
exigir uma explicao, e um acontecimento precoce, e depois esquecido, como determinante necessrio. Encontramos tambm a caracterstica da compulso, que se impe 
 mente juntamente com uma subjugao do pensamento lgico, aspecto que, por exemplo, no entrou em considerao na gnese do poema pico.
         A analogia  encontrada na psicopatologia, na gnese das neuroses humanas, num campo, equivale a dizer, pertencente  psicologia dos indivduos, ao passo 
que os fenmenos religiosos, naturalmente, tm de ser considerados como parte da psicologia grupal. Veremos que essa analogia no  to surpreendente como a princpio 
se poderia pensar; na verdade, ela se assemelha mais a um postulado.
         Denominanos traumas aquelas impresses, cedo experimentadas e mais tarde esquecidas, a que concedemos to grande importncia na etiologia das neuroses. 
Podemos deixar de lado a questo de saber se a etiologia das neuroses em geral pode ser encarada como traumtica. A objeo bvia a isso  que no  possvel, em 
todos os casos, descobrir um trauma manifesto na histria primitiva do indivduo neurtico. Com freqncia, devemos resignar-nos a dizer que tudo o que temos perante 
ns  uma reao anormal, fora do comum, a experincias e exigncias que afetam a todos, mas so elaboradas e tratadas por outras pessoas de uma outra maneira, que 
pode ser chamada de normal. Quando no temos nada mais  nossa disposio para explicar uma neurose, exceto disposies hereditrias e constitucionais, ficamos naturalmente 
tentados a dizer que ela no foi adquirida, mas desenvolvida.
         Quanto a isso, porm, dois pontos devem ser enfatizados. Em primeiro lugar, a gnese de uma neurose invariavelmente remonta a impresses muito primitivas 
da infncia. Em segundo,  verdade que existem casos que se distinguem como 'traumticos' porque seus efeitos remontam inequivocamente a uma ou mais impresses poderosas 
nessas pocas primitivas - impresses que escaparam de ser lidadas normalmente, de maneira que se fica inclinado a julgar que, se no tivessem ocorrido, tampouco 
a neurose teria surgido. Seria bastante para nossos fins se fssemos obrigados a restringir a analogia de que estamos  procura a esses casos traumticos. Mas o 
hiato entre os dois grupos [de casos] no parece ser intransponvel.  inteiramente possvel unir os dois determinantes etiolgicos numa s concepo; trata-se simplesmente 
da questo de como definir 'traumtico'. Se presumirmos que a experincia adquire seu carter traumtico apenas em resultado de um fator quantitativo - isto , que 
em cada caso  um excesso de exigncia o responsvel por uma experincia que evoca reaes patolgicas fora do comum -, ento poderemos facilmente chegar ao expediente 
de dizer que algo age como um trauma no caso de determinada constituio, mas, no caso de outra, no teria tal efeito. Dessa maneira, atingimos o conceito de uma 
'srie complementar' deslizante, tal como  chamada1 na qual dois fatores convergem para o preenchimento de um requisito etiolgico. Uma parte menor de um dos fatores 
 equilibrada por uma parte maior do outro via de regra, ambos operam em conjunto e  somente nas duas extremidades da srie que se pode discutir se um motivo simples 
est em ao. Aps mencionar isso, podemos desprezar, como sendo irrelevante para a analogia que estamos buscando, a distino entre etiologias traumticas e no-traumticas.
         Apesar do risco de repetio, talvez seja bom reunir aqui os fatos que abrangem a analogia que nos  significativa. So os seguintes. Nossas pesquisas demonstraram 
que aquilo que chamamos de fenmenos (sintomas) de uma neurose so o resultado de certas experincias e impresses que, por essa mesma razo, encaramos como traumas 
etiolgicos. Temos agora duas tarefas perante ns: descobrir (1) caractersticas comuns dessas experincias e (2) as dos sintomas neurticos, e, assim procedendo, 
no precisamos evitar traar um quadro um tanto esquemtico.
         (1) (a) Todos esses traumas ocorrem na primeira infncia at aproximadamente o quinto ano de idade. Impresses da poca em que uma criana est comeando 
a falar ressaltam como sendo de particular interesse; os perodos entre as idades de dois e quatro anos parecem ser os mais importantes; no se pode determinar com 
certeza quanto tempo aps o nascimento esse perodo de receptividade comea. (b) As experincias em apreo so, via de regra, totalmente esquecidas, no so acessveis 
 memria e incidem dentro do perodo de amnsia infantil, geralmente interrompida por alguns resduos mnmicos isolados, conhecidos como 'recordaes encobridoras'. 
(c) Elas relacionam-se a impresses de natureza sexual e agressiva, e, indubitavelmente, tambm a danos precoces ao ego (mortificaes narcsicas). Com relao a 
isso, deve-se observar que essas crianas de tenra idade no estabelecem distino ntida entre atos sexuais e agressivos, como o fazem posteriormente. (Cf. a m 
interpretao do ato sexual, num sentido sdico.) O predomnio do fator sexual , naturalmente, mais marcante e exige considerao terica.
         Esses trs pontos - o aparecimento bastante precoce dessas experincias (durante os cinco primeiros anos de vida), o fato de serem esquecidas, e seu contedo 
sexual-agressivo - esto estreitamente intervinculados. Os traumas so ou experincias sobre o prprio corpo do indivduo ou percepes sensrias, principalmente 
de algo visto e ouvido, isto , experincias ou impresses. A intervinculao desses trs pontos  estabelecida por uma teoria, um produto do trabalho de anlise 
que, apenas ele, pode provocar um conhecimento das experincias esquecidas, ou, para express-lo do modo mais vivo, embora tambm mais incorretamente, traz-las 
de volta  memria. A teoria  que, em contraste com a opinio popular, a vida sexual dos seres humanos (ou o que a ela corresponde mais tarde) apresenta uma eflorescncia 
precoce que chega ao fim por volta do quinto ano, sendo seguida pelo que  conhecido como perodo de latncia (at a puberdade), em que no h desenvolvimento ulterior 
da sexualidade e, na verdade, o que fora atingido experimenta uma retrogresso. Essa teoria  confirmada pela investigao anatmica do crescimento dos rgos genitais 
internos; ela nos leva a supor que a raa humana descende de uma espcie animal que atingiu a maturidade sexual aos cinco anos e desperta a suspeita de que o adiamento 
da vida sexual e seu desencadeamento difsico [em duas ondas] esto intimamente vinculados  funo de hominizao. Os seres humanos parecem ser os nicos organismos 
animais com um perodo de latncia e um retardamento sexual desse tipo. Investigaes efetuadas em primatas (que, at onde sei, no esto disponveis) seriam indispensveis 
para a verificao dessa teoria. No pode ser psicologicamente indiferente que o perodo de amnsia infantil coincida com esse perodo primitivo da sexualidade. 
Pode ser que esse estado de coisas fornea o verdadeiro determinante para a possibilidade da neurose, que , em certo sentido, uma prerrogativa humana e, desse ponto 
de vista, aparece como um vestgio - um 'survival' - de tempos primevos, tal como certas partes de nossa anatomia corporal.
         (2) Dois pontos devem ser acentuados quanto s caractersticas ou peculiaridades comuns dos fenmenos neurticos: (a) Os efeitos dos traumas so de dois 
tipos, positivos e negativos. Os primeiros so tentativas de pr o trauma em funcionamento mais uma vez, isto , recordar a experincia esquecida ou, melhor ainda, 
torn-la real, experimentar uma repetio dela de novo, ou, mesmo que ela seja apenas um relacionamento emocional primitivo, reviv-la num relacionamento anlogo 
com outra pessoa. Resumimos esses esforos sob o nome de 'fixaes' no trauma e como uma 'compulso a repetir'. Eles podem ser percebidos no que passa por ser um 
ego normal e, como tendncias permanentes nele, podem emprestar-lhe traos caracterolgicos inalterveis, embora, ou melhor, precisamente por causa disso, sua verdadeira 
base e origem histricas estejam esquecidas. Assim, um homem que passou a infncia numa ligao excessiva e atualmente esquecida com a me pode passar toda a vida 
procurando uma esposa de quem possa conseguir ser nutrido e apoiado. Uma menina que foi tornada objeto de uma seduo sexual na infncia pode orientar sua vida sexual 
posterior de maneira a constantemente provocar ataques semelhantes. Pode-se facilmente adivinhar que, a partir de tais descobertas sobre o problema da neurose, podemos 
penetrar numa compreenso da formao do carter em geral.
         As reaes negativas seguem o objetivo oposto: que nada dos traumas esquecidos seja recordado e repetido. Podemos resumi-las como 'reaes defensivas'. 
Sua expresso principal constitui aquilo que  chamado de 'evitaes', que se podem intensificar em 'inibies' e 'fobias'. Essas reaes negativas tambm efetuam 
as contribuies mais poderosas para a cunhagem do carter. Fundamentalmente, elas so fixaes no trauma, tanto quanto seus opostos, exceto por serem fixaes com 
intuito contrrio. Os sintomas de neurose, no sentido mais estrito, so conciliaes em que ambas as tendncias procedentes dos traumas se renem, de maneira que 
a cota, ora de uma, ora de outra tendncia, encontre nelas expresso preponderante. Essa oposio entre as reaes d incio a conflitos que, no curso comum dos 
acontecimentos, no conseguem chegar a qualquer concluso.
         (b) Todos esses fenmenos, tanto os sintomas quanto as restries ao ego e as modificaes estveis de carter, possuem uma qualidade compulsiva: isso equivale 
a dizer que tm uma grande intensidade psquica e, ao mesmo tempo, apresentam uma independncia de grandes conseqncias quanto  organizao dos outros processos 
mentais, que se ajustam  exigncias do mundo externo real e obedecem s leis do pensamento lgico. Eles [os fenmenos patolgicos] so insuficientemente ou de modo 
algum influenciados pela realidade externa, no lhe concedeu ateno ou a seus representantes psquicos, de maneira que podem facilmente entrar em oposio ativa 
a ambos. So, poder-se-ia dizer, um Estado dentro de um Estado, um partido inacessvel, com o qual a cooperao  impossvel, mas que pode alcanar xito em dominar 
o que  conhecido como partido normal e for-lo a seu servio. Se isso acontecer, acarreta uma dominao, por parte de uma realidade psquica interna, sobre a realidade 
do mundo externo, e est aberto o caminho para a psicose. Mesmo se as coisas no vo at esse ponto, a inibio prtica dessa situao dificilmente pode ser superestimada. 
A inibio sobre a vida daqueles que so dominados por uma neurose e sua incapacidade de viver constituem fator muito importante numa sociedade humana, e podemos 
identificar em seu estado uma expresso direta de sua fixao numa parte primitiva de seu passado.
         E agora investiguemos a latncia, que, em vista da analogia, est fadada a nos interessar especialmente. Um trauma na infncia pode ser imediatamente seguido 
por um desencadeamento neurtico, uma neurose infantil, com uma abundncia de esforos de defesa, e acompanhada pela formao de sintomas. Esta neurose pode durar 
um tempo considervel e provocar perturbaes acentuadas, mas pode tambm seguir um curso latente e no ser notada. Via de regra, as defesas levam a palma nisso; 
seja como for, alteraes do ego, comparveis a cicatrizes, so deixadas atrs. S raramente uma neurose infantil prossegue, sem interrupo, numa neurose adulta. 
Muito mais freqentemente ela  sucedida por um perodo de desenvolvimento aparentemente no perturbado - curso de coisas apoiado ou tornado possvel pela interveno 
do perodo fisiolgico da latncia. S posteriormente realiza-se a mudana com que a neurose definitiva se torna manifesta, como um efeito retardado do trauma. Isso 
ocorre ou na irrupo da puberdade ou algum tempo depois. No primeiro caso, isso sucede porque as reaes e alteraes do ego provocadas pela defesa se mostram agora 
um estorvo no lidar com as novas tarefas da vida, de maneira que graves conflitos surgem entre as exigncias do mundo externo real e o ego, que busca manter a organizao 
a que penosamente chegou em sua luta defensiva. O fenmeno de uma latncia das neuroses entre as primeiras reaes ao trauma e o desencadeamento posterior da doena 
deve ser considerado como tpico. Essa ltima doena tambm pode ser encarada como uma tentativa de cura - como mais um esforo para reconciliar com o resto aquelas 
partes do ego que foram expelidas (split off) pela influncia do trauma, e uni-las num todo poderoso vis--vis o mundo externo. Contudo, uma tentativa desse tipo 
raramente tem xito, a menos que o trabalho de anlise venha em sua ajuda, e mesmo ento, nem sempre; finda, com bastante freqncia, por uma devastao ou fragmentao 
completa do ego, ou por ele ser esmagado pela parte que foi precocemente expelida e que  dominada pelo trauma.
         A fim de convencer o leitor, seria necessrio fornecer relatrios pormenorizados das histrias da vida de numerosos neurticos. Entretanto, em vista da 
difuso e dificuldade do assunto, isso destruiria completamente o carter do presente trabalho. Transform-lo-ia numa monografia sobre a teoria das neuroses e, ainda 
assim, provavelmente s teria efeito sobre aquela minoria de leitores que optaram pelo estudo e a prtica da psicanlise como seu trabalho de vida. Visto que estou 
dirigindo-me aqui a uma audincia mais ampla, s posso pedir ao leitor para conceder-me uma certa crena provisria na descrio abreviada que forneci acima, e isso 
deve ser acompanhado por uma admisso de minha parte de que as implicaes a que estou agora conduzindo-o s precisam ser aceitas se as teorias em que se baseiam 
se mostrarem corretas.
         No obstante, posso tentar contar a histria de um caso isolado que apresenta com especial clareza algumas das caractersticas de neurose que mencionei. 
No devemos esperar, naturalmente, que um nico caso demonstre tudo, e precisaremos no nos sentir desapontados se seu tema geral estiver muito afastado do tpico 
para o qual estou buscando uma analogia.
         Um menininho que, como to freqentemente acontece nas famlias de classe mdia, partilhara do quarto de dormir dos pais durante os primeiros anos de sua 
vida, tivera repetidas e, na verdade, regulares oportunidades de observar atos sexuais entre os pais - de ver algumas coisas e ouvir outras mais - numa idade em 
que mal aprendera a falar. Em sua neurose posterior, que irrompeu imediatamente depois de sua primeira emisso espontnea, o primeiro e mais perturbador dos sintomas 
foi o distrbio do sono. Era extraordinariamente sensvel a barulhos  noite e, uma vez acordado, no conseguia dormir de novo. Esse distrbio do sono era um verdadeiro 
sintoma de conciliao. Por um lado, constitua expresso de sua defesa contra as coisas que havia experimentado  noite, e, por outro, uma tentativa de restabelecer 
o estado de viglia em que pudera escutar aquelas impresses.
         A criana foi prematuramente despertada, por observaes desse tipo, a uma masculinidade agressiva e comeou a excitar seu pequeno pnis com a mo e a tentar 
variados assaltos sexuais  me, identificando-se assim com o pai, em cujo lugar se colocava. Isso prosseguiu at que, por fim, a me proibiu-o de tocar no pnis 
e ameaou-o ainda de contar a seu pai, que o castigaria tirando-lhe fora o rgo pecaminoso. Essa ameaa de castrao exerceu um efeito traumtico extraordinariamente 
poderoso sobre o menino. Ele abandonou sua atividade sexual e alterou seu carter. Em vez de se identificar com o pai, ficou com medo dele, adotou para com ele uma 
atitude passiva e, atravs de travessuras ocasionais, provocava-o  administrao de castigos corporais, que tinham para ele significado sexual, de maneira a assim 
poder identificar-se com sua maltratada me. Apegou-se  me cada vez mais ansiosamente, como se no pudesse passar sem o amor dela por um s momento, visto que 
percebia nele uma proteo contra o perigo de castrao que o ameaava do lado do pai. Nessa modificao do complexo de dipo, passou ele seu perodo de latncia, 
que foi livre de quaisquer distrbios acentuados. Tornou-se um menino exemplar e era muito bem-sucedido na escola.
         At agora, acompanhamos o efeito imediato do trauma e confirmamos o fato da latncia.
         A chegada da puberdade trouxe consigo a neurose manifesta e revelou seu segundo sintoma principal - a impotncia sexual. Perdera a sensibilidade do pnis, 
no tentava toc-lo, no se arriscava a aproximar-se de uma mulher para fins sexuais. Sua atividade sexual permanecia limitada  masturbao psquica, acompanhada 
por fantasia sado-masoquista nas quais no era difcil identificar ramificaes de suas primitivas observaes da relao sexual entre os pais. A onda de masculinidade 
intensificada que a puberdade trouxera consigo foi empregada num dio furioso ao pai e na insubordinao a ele. Essa relao extremada com o pai, ousada ao ponto 
de autodestruio, era responsvel tanto por seu fracasso na vida quanto por seus conflitos com o mundo externo. Ele tinha de ser um fracasso em sua profisso, porque 
o pai o forara a segui-la. Tampouco fazia amigos e nunca esteve em bons termos com seus superiores.
         Quando, onerado por esses sintomas e incapacidades, ele por fim, depois da morte do pai, encontrou uma esposa, emergiram nele, como se constitussem o cerne 
de seu ser, traos caracterolgicos que tornavam o contato com ele tarefa difcil para aqueles que o rodeavam. Desenvolveu uma personalidade completamente egosta, 
desptica e brutal, que claramente sentia necessidade de dominar e insultar outras pessoas. Constitua uma cpia fiel de seu pai, tal como formara uma imagem deste 
em sua memria, o que equivale a dizer, uma revivescncia da identificao com o pai que, no passado, ele assumira como rapazinho, por motivos sexuais. Nessa parte 
da histria, reconhecemos o retorno do reprimido, o qual (juntamente com os efeitos imediatos do trauma e o fenmeno da latncia) descrevemos como estando situado 
entre as caractersticas essenciais de uma neurose.
         
         D - APLICAO
         
         Trauma primitivo - defesa - latncia - desencadeamento da doena neurtica - retorno parcial reprimido: tal  a frmula que estabelecemos para o desenvolvimento 
de uma neurose. O leitor  agora convidado a dar o passo de supor que ocorreu na vida da espcie humana algo semelhante ao que ocorre na vida dos indivduos, de 
supor, isto , que tambm aqui ocorreram eventos de natureza sexualmente agressiva, que deixaram atrs de si conseqncias permanentes, mas que foram, em sua maioria, 
desviados e esquecidos, e que aps uma longa latncia entraram em vigor e criaram fenmenos semelhantes a sintomas, em sua estrutura e propsito.
         Acreditamos que podemos adivinhar esses eventos e nos propomos demonstrar que suas conseqncias semelhantes a sintomas so os fenmenos da religio. Visto 
que o surgimento da idia da evoluo no mais deixa lugar para dvidas de que a raa humana possui uma pr-histria, e visto que esta  desconhecida - isto , esquecida 
-, uma concluso desse tipo carrega quase o peso de um postulado. Quando aprendemos que, em ambos os casos, os traumas operantes e esquecidos se referem  vida na 
famlia humana, podemos acolher isso como um prmio altamente bem-vindo e imprevisto, que no foi invocado por nossos estudos at esse ponto.
         Apresentei essas asseres j um quarto de sculo atrs, em meu Totem e Tabu (1912-13), e basta que eu as repita aqui. Minha construo parte de um enunciado 
de Darwin (1871, 2, p. 362 e seg.] e inclui uma hiptese de Atkinson [1903, p. 220 e seg.]. Afirma ela que, em pocas primevas, o homem primitivo vivia em pequenas 
hordas cada uma das quais sob o domnio de um macho poderoso. Nenhuma data pode ser atribuda a isso; tampouco isso se acha sincronizado s pocas geolgicas que 
nos so conhecidas;  provvel que essas criaturas humanas no tivessem progredido muito no desenvolvimento da fala. Uma parte essencial da construo  a hiptese 
de que os eventos que me disponho a descrever ocorreram a todos os homens primitivos, isto , a todos os nossos antepassados. A histria  contada sob forma enormemente 
condensada, como se tivesse acontecido numa s ocasio, ao passo que, de fato, ela abrange milhares de anos e se repetiu incontveis vezes durante esse longo perodo. 
O macho forte era senhor e pai de toda a horda, e irrestrito em seu poder, que exercia com violncia. Todas as fmeas eram propriedade sua - esposas e filhas de 
sua prpria horda, e algumas, talvez, roubadas de outras hordas. A sorte dos filhos era dura: se despertavam o cime do pai, eram mortos, castrados, ou expulsos. 
Seu nico recurso era reunirem-se em pequenas comunidades, arranjarem esposas para si atravs do rapto, e, quando um ou outro deles podia ter xito nisso, elevarem-se 
a uma posio semelhante  do pai, na horda primeva. Por razes naturais, os filhos mais novos ocupavam uma posio excepcional. Eram protegidos pelo amor de suas 
mes e podiam tirar vantagem da idade crescente do pai e suced-lo quando de sua morte. Podemos detectar, em lendas e contos de fadas, ecos tanto da expulso dos 
filhos mais velhos quanto do favorecimento dos mais novos.
         O primeiro passo decisivo no sentido de uma modificao nesse tipo de organizao 'social' parece ter sido que os irmos expulsos, vivendo numa comunidade, 
uniram-se para derrotar o pai e, como era costume naqueles dias, devoraram-no cru. No h necessidade de esquivar-se a esse canibalismo; ele continuou bem adiante, 
em pocas posteriores. O ponto essencial, contudo,  que atribumos a esses homens primitivos as mesmas atitudes emocionais que pudemos estabelecer pela investigao 
analtica nos primitivos da poca atual - em nossos filhos. Isto , supomos que eles no apenas odiaram e temeram o pai, mas tambm o honraram como modelo, e que 
cada um deles desejou ocupar seu lugar na realidade. Podemos, se assim for, compreender o canibalismo como uma tentativa de assegurar uma identificao com ele, 
pela incorporao de um pedao seu.
         Deve-se supor que, aps o parricdio, um tempo considervel se passou, durante o qual os irmos disputaram uns com os outros a herana do pai, que cada 
um deles queria para si sozinho. Uma compreenso dos perigos e da inutilidade dessas lutas, uma rememorao do ato de liberao que haviam realizado juntos, e os 
vnculos emocionais mtuos que haviam surgido durante o perodo de sua expulso, conduziram por fim a um acordo entre eles, a uma espcie de contrato social. A primeira 
forma de organizao social ocorreu com uma renncia ao instinto, um reconhecimento das obrigaes mtuas, a introduo de instituies definidas, pronunciadas inviolveis 
(sagradas), o que equivale a dizer, os primrdios da moralidade e da justia.Cada indivduo renunciou a seu ideal de adquirir a posio do pai para si e de possuir 
a me e as irms. Assim, surgiram o tabu do incesto e a injuno  exagomia. Boa parte do poder absoluto liberado pelo afastamento do pai passou para as mulheres; 
veio um perodo de matriarcado. A recordao do pai persistiu nesse perodo da 'aliana fraterna'. Um animal poderoso - a princpio, talvez, sempre um que tambm 
era temido - foi escolhido como substituto do pai. Uma escolha desse tipo pode parecer estranha, mas o abismo que os homens estabeleceram mais tarde entre eles prprios 
e os animais no existia para os novos primitivos, nem tampouco existe para nossas crianas, cujas fobias animais podemos compreender como sendo medo do pai. Com 
relao ao animal totmico, a dicotomia original na relao emocional com o pai (ambivalncia) foi inteiramente mantida. Por um lado, o totem era encarado como ancestral 
de sangue e esprito protetor do cl, a ser adorado e protegido, e, por outro, marcava-se um festival em que se lhe achava preparado o mesmo destino que o pai primevo 
havia encontrado. Ele era morto e devorado por todos os membros da tribo, em comum. (A refeio totmica, segundo Robertson Smith [1894].) Esse grande festival, 
na realidade, era uma celebrao triunfante da vitria dos filhos combinados sobre o pai.
         Qual  o lugar da religio com relao a isso? Penso que estamos completamente justificados em encarar o totemismo, com sua adorao de um substituto paterno, 
com sua instituio de festivais comemorativos e de proibies cuja infrao era punida pela morte, estamos justificados, dizia eu, em encarar o totemismo como a 
primeira forma em que a religio se manifestou na histria humana, e em confirmar o fato de ele ter sido vinculado, desde o incio, aos regulamentos sociais e s 
obrigaes morais. Aqui, s podemos fornecer o levantamento mais resumido dos outros desenvolvimentos da religio. Eles, sem dvida, progrediram paralelamente com 
os avanos culturais da raa humana e com as modificaes na estrutura das comunidades humanas.
         O primeiro passo para longe do totemismo foi a humanizao do ser que era adorado. Em lugar dos animais, aparecem deuses humanos, cuja derivao do totem 
no  escondida. O deus ainda  representado sob a forma de um animal ou, pelo menos, com um rosto de animal, ou o totem se torna o companheiro favorito do deus, 
inseparvel dele, ou a lenda nos conta que o deus matou esse animal exato, que era, afinal de contas, apenas um estdio preliminar dele prprio. Em certo ponto dessa 
evoluo, que no  facilmente determinado, aparecem grandes deusas-mes provavelmente antes mesmo dos deuses masculinos, persistindo aps, por longo tempo, ao lado 
destes. Nesse meio tempo, uma grande revoluo social ocorrera. O matriarcado fora sucedido pelo restabelecimento de uma ordem patriarcal. Os novos pais,  verdade, 
jamais conquistaram a onipotncia do pai primevo; havia muitos deles que viviam juntos em associaes maiores do que a horda. Estavam obrigados a se manter em bons 
termos uns com os outros, e permaneceram sob as limitaes das ordenanas sociais.  provvel que as deusas-mes se tenham originado na poca do cerceamento do matriarcado, 
como compensao da desateno s mes. As divindades masculinas aparecem a princpio com filhos, ao lado das grandes mes, e s mais tarde assumem claramente as 
caractersticas de figuras paternas. Esses deuses masculinos do politesmo refletem as condies existentes durante a era patriarcal. So numerosos, mutuamente restritivos, 
e ocasionalmente subordinados a um deus superior. O passo seguinte, contudo, nos conduz ao tema que aqui nos interessa: ao retorno de um deus-pai nico, de domnio 
ilimitado.
         Tem-se de admitir que esse levantamento histrico possui lacunas e  incerto em alguns pontos. Mas todo aquele que esteja inclinado a pronunciar nossa construo 
da histria primeva como sendo puramente imaginria estaria subestimando gravemente a riqueza e o valor probatrio do material nela contido. Grandes partes do passado, 
que aqui foram reunidas num todo, esto historicamente atestadas: totemismo e as confederaes masculinas, por exemplo. Outras partes sobreviveram em rplicas excelentes. 
Assim, as autoridades freqentemente se impressionaram pela maneira fiel mediante a qual o sentido e o contedo da antiga refeio totmica so repetidos no rito 
da Comunho Crist, na qual o crente incorpora o sangue e a carne de seu deus, em forma simblica. Numerosas relquias da era primeva esquecida sobrevieram nas lendas 
populares e nos contos de fadas, e o estudo analtico da vida mental das crianas proporcionou inesperada abundncia de material para preencher as lacunas em nosso 
conhecimento dos tempos primitivos. Como contribuies  nossa compreenso da relao do filho com o pai, de to grande importncia, basta-me apenas apresentar as 
fobias animais, o medo, que nos impressiona como to estranho, de ser comido pelo pai, e a enorme intensidade do pavor de ser castrado. Nada existe de inteiramente 
fabricado em nossa construo, nada que no possa apoiar-se em fundamentos slidos.
         Se nossa descrio da histria primeva  aceita como, em geral, digna de crdito, dois tipos de elementos sero identificados nas doutrinas e rituais religiosos: 
por um lado, fixaes na histria antiga da famlia e sobrevivncias dela, e, por outro, revivescncias do passado e retornos, aps longos intervalos, daquilo que 
fora esquecido.  essa ltima parte, at agora desprezada e, portanto, no compreendida, que vai ser demonstrada aqui, pelo menos num caso impressivo.
         Vale a pena acentuar especialmente o fato de que cada parte que retorna do olvido afirma-se com fora peculiar, exerce uma influncia incomparavelmente 
poderosa sobre as pessoas na massa, e ergue uma reivindicao irresistvel  verdade, contra a qual as objees lgicas permanecem impotentes: uma espcie de 'credo 
quia absurdum'. Essa caracterstica fora do comum s pode ser compreendida segundo o modelo dos delrios dos psicticos. H muito tempo compreendemos que uma parte 
de verdade esquecida jaz oculta nas idias delirantes, que quando aquela retorna tem de se apresentar com deformaes e ms compreenses, e que a convico compulsiva 
que se liga ao delrio surge desse cerne de verdade e se espalha para os erros que a envolvem. Temos de conceder a existncia de um ingrediente como esse, do que 
pode ser chamado de verdade histrica, tambm nos dogmas da religio, os quais,  verdade, apresentam o carter de sintomas psicticos, mas que, como fenmenos grupais, 
fogem  maldio do isolamento.
         Nenhuma outra parte da histria da religio se nos tornou to clara quanto a introduo do monotesmo no judasmo e sua continuao no cristianismo, se 
deixamos de lado o desenvolvimento, que podemos traar no menos ininterruptamente, do animal totmico ao deus humano, com seus companheiros regulares. (Cada um 
dos quatro evangelistas cristos ainda possui seu prprio animal favorito.) Se provisoriamente aceitarmos o imprio mundial dos faras como causa determinante do 
surgimento da idia monotesta, veremos que essa idia, libertada de seu solo nativo e transferida para outro povo, foi, aps longo perodo de latncia, assumida 
por este, por ele preservada como uma possesso preciosa, e, por sua vez, ela prpria o manteve vivo, por fornecer-lhe o orgulho de ser um povo escolhido: foi  
religio de seu pai primevo que ligou sua esperana de recompensa, de distino e, finalmente, de domnio mundial. Essa ltima fantasia de desejo, h muito tempo 
abandonada pelo povo judeu, ainda sobrevive entre os inimigos desse povo, na crena numa conspirao por parte dos 'Velhos de Sion'. Reservamos para exame em pginas 
posteriores a maneira pela qual as peculiaridades especiais da religio monotesta, tomada de emprstimo ao Egito, afetaram o povo judeu, e como estava fadada a 
deixar uma marca permanente em seu carter, atravs de sua rejeio da magia e do misticismo, de seu convite a avanos em intelectualidade, e de seu incentivo s 
sublimaes; como o povo, extasiado pela posse da verdade, esmagado pela conscincia de ser escolhido, veio a ter uma alta opinio do que  intelectual e a dar nfase 
ao que  moral, e como seus melanclicos destinos e seus desapontamentos na realidade serviram apenas para intensificar todas essas tendncias. De momento, seguiremos 
seu desenvolvimento em outra direo.
         O restabelecimento do pai primevo em seu direitos histricos constituiu um grande passo  frente, mas no podia ser o fim. As outras partes da tragdia 
pr-histrica insistiam em ser reconhecidas. No  fcil discernir o que colocou esse processo em movimento. Parece como se um crescente sentimento de culpa se tivesse 
apoderado do povo judeu, ou, talvez, de todo o mundo civilizado da poca, como um precursor de retorno do material reprimido, at que, por fim, um desses judeus 
encontrou, ao justificar um agitador poltico-religioso, ocasio para desligar do judasmo uma nova religio - a crist. Paulo, um judeu romano de Tarso, apoderou-se 
desse sentimento de culpa e o fez remontar corretamente  sua fonte original. Chamou essa fonte de 'pecado original'; fora um crime contra Deus, e s podia ser expiado 
pela morte. Com o pecado original, a morte apareceu no mundo. Na verdade, esse crime merecedor de morte fora o assassinato do pai primevo posteriormente deificado. 
Mas o assassinato no era recordado; ao invs, havia uma fantasia de sua expiao, e, por essa razo, essa fantasia podia ser saudada como uma mensagem de redeno 
(evangelium). Um filho de Deus se permitira ser morto sem culpa e assim tomara sobre si prprio a culpa de todos os homens. Tinha de ser um filho, visto que fora 
o assassinato de um pai.  provvel que tradies de mistrios orientais e gregos tenham exercido influncia na fantasia da redeno. O essencial nela parece ter 
sido a prpria contribuio de Paulo. No sentido mais prprio, ele foi um homem de disposio inatamente religiosa: os traos sombrios do passado espreitavam em 
sua mente, prontos a irromperem para suas regies mais conscientes.
         Que o redentor se sacrificara sem culpa era evidentemente uma deformao tendenciosa, que oferecia dificuldades para a compreenso lgica, pois como podia 
algum sem culpa do ato do assassinato tomar sobre si a culpa dos assassinos, permitindo-se ser morto? Na realidade histrica, no havia tal contradio. O 'redentor' 
no podia ser outro seno a pessoa mais culpada, o cabea da reunio de irmos que havia derrotado o pai. A meu juzo, temos de deixar indecidido se houve esse rebelde 
principal e cabea.  possvel, mas temos tambm de manter em mente que cada um do grupo de irmos certamente tinha desejo de cometer o feito por si prprio, sozinho, 
e criar assim uma posio excepcional para si e encontrar um substituto para sua identificao com o pai, que estava tendo de ser abandonada e se estava fundindo 
na comunidade. Se no houve tal cabea, ento Cristo foi o herdeiro de uma fantasia de desejo que permaneceu irrealizada; se houve, ento ele foi seu sucessor e 
sua reencarnao. Mas no importa que aquilo que temos aqui seja uma fantasia ou o retorno de uma realidade esquecida; seja como for, a origem do conceito de um 
heri deve ser encontrada neste ponto; o heri que sempre se rebela contra o pai e o mata sob a uma forma outra. Aqui tambm est a verdadeira base para a 'culpa 
trgica' do heri do teatro, que, de outra maneira,  difcil de explicar. Mal se pode duvidar de que o heri e o coro do teatro grego representem o mesmo heri 
rebelde e o grupo de irmos, e no  sem significncia que, na Idade Mdia, aquilo com que o teatro se iniciou de novo foi a representao da histria da Paixo.
         J dissemos que a cerimnia crist da Sagrada Comunho, na qual o crente incorpora o sangue e a carne do Salvador, repete o contedo da antiga refeio 
totmica, indubitavelmente apenas em seu significado agressivo. A ambivalncia que domina a relao com o pai foi claramente demonstrada,contudo, no desfecho final 
da inovao religiosa. Ostensivamente visando a propiciar o deus paterno, termina por ele ser destronado e por livrar-se dele. O judasmo fora uma religio do pai; 
o cristianismo tornou-se uma religio do filho. O antigo Deus Pai tombou para trs de Cristo; Cristo, o Filho, tomou seu lugar, tal como todo filho tivera esperanas 
de faz-lo, nos tempos primevos. Paulo, que conduziu o judasmo  frente, tambm o destruiu. Fora de dvida, ele deveu seu sucesso, no primeiro caso, ao fato de, 
atravs da idia do redentor, exorcizar o sentimento de culpa da humanidade, mas deveu-o tambm  circunstncia de ter abandonado o carter 'escolhido' de seu povo 
e seu sinal visvel - a circunciso -, de maneira que a nova religio podia ser uma religio universal, a abranger todos os homens. Ainda que no fato de Paulo dar 
esse passo um papel possa ter sido desempenhado por seu desejo pessoal de vingana pela rejeio de sua inovao nos crculos judaicos, ele, contudo, restaurou tambm 
uma caracterstica da antiga religio de Aten; afastou uma restrio que essa religio havia adquirido quando fora transmitida a um novo veculo, o povo judeu.
         Sob certos aspectos, a nova religio significou uma regresso cultural, comparada com a mais antiga, a judaica, tal como regularmente acontece quando uma 
nova massa de povo, de um nvel mais baixo, consegue ingresso  fora ou recebe admisso. A religio crist no manteve o alto nvel em coisas da mente a que o judasmo 
se havia alado. No era mais estritamente monotesta, tomou numerosos rituais simblicos de povos circunvizinhos, restabeleceu a grande deusa-me e achou lugar 
para introduzir muitas das figuras divinas do politesmo, apenas ligeiramente veladas, ainda que em posies subordinadas. Acima de tudo, como a religio de Aten 
e a religio mosaica que a seguiu haviam feito, no excluiu o ingresso de elementos surpersticiosos, mgicos e msticos, que deveriam mostrar-se como uma inibio 
grave sobre o desenvolvimento intelectual dos dois mil anos seguintes.
         O triunfo do cristianismo foi um novo triunfo dos sacerdotes de Amun sobre o deus de Akhenaten, aps um intervalo de mil e quinhentos anos e num palco mais 
amplo. E, contudo, na histria da religio - isto , com referncia ao retorno do reprimido - o cristianismo constitua um avano e, a partir dessa poca, a religio 
judaica foi, at certo ponto, um fssil.
         Valeria pena entender como foi que a idia monotesta causou uma impresso to profunda exatamente sobre o povo judeu, e como foram eles capazes de mant-la 
to tenazmente.  possvel, penso, encontrar uma resposta. O destino trouxera o grande feito e o malfeito dos dias primevos, a morte do pai, para mais perto do povo 
judeu, fazendo-o repeti-lo na pessoa de Moiss, uma destacada figura paterna. Tratou-se de um caso de 'atuao' (acting out) ao invs de recordao, como sucede 
to amide com os neurticos durante o trabalho de anlise.  sugesto de que deviam recordar, que lhes foi feita pela doutrina de Moiss, reagiram, contudo, pelo 
repdio de sua ao; permaneceram detidos no reconhecimento do grande pai e bloquearam assim seu acesso ao ponto a partir do qual, mais tarde, Paulo deveria iniciar 
sua continuao da histria primeva. Dificilmente pode ser questo indiferente ou fortuita que a morte violenta de outro grande homem se tenha tornado tambm o ponto 
de partida da nova criao religiosa de Paulo. Tratava-se de um homem a quem um pequeno nmero de adeptos na Judia encarava como sendo o Filho de Deus e o Messias 
anunciado, e a quem, igualmente, uma parte da histria da infncia inventada para Moiss foi posteriormente transferida ver em[[1]], mas de quem, na verdade, pouco 
mais conhecemos, com certeza, do que de Moiss: se ele foi realmente o grande mestre retratado pelos Evangelhos, ou se, antes, no foram o fato e as circunstncias 
de sua morte que foram decisivos para a importncia que sua figura adquiriu. O prprio Paulo, que se tornou apstolo, no o conhecera.
         A morte de Moiss por seu povo judeu, identificada por Sellin a partir de traos dela na tradio (e tambm, estranho  diz-lo, aceita pelo jovem Goethe 
sem qualquer prova), torna-se assim parte indispensvel de nossa construo, um vnculo importante entre o evento olvidado dos tempos primevos e seu surgimento posterior 
sob a forma de religies monotestas.  plausvel conjecturar que o remorso pelo assassinato de Moiss forneceu o estmulo para a fantasia de desejo do Messias, 
que deveria retornar e conduzir seu povo  redeno e ao prometido domnio mundial. Se Moiss foi o primeiro Messias, Cristo tornou-se seu substituto e sucessor, 
e Paulo poderia exclamar para os povos, com certa justificao histrica: Olhai! O Messias realmente veio: ele foi assassinado perante vossos olhos!' Alm disso, 
tambm, existe um fragmento de verdade histrica na ressurreio de Cristo, pois ele foi o Moiss ressurrecto e, por trs deste, o pai primevo retornado da horda 
primitiva, transfigurado e, como o filho, colocado no lugar do pai.O pobre povo judeu, que, com sua obstinao habitual, continuava a repudiar o assassinato do pai, 
expiou-o pesadamente no decurso do tempo. Defrontou-se constantemente com a recriminao: 'Vocs mataram nosso Deus!' E essa censura  verdadeira, se for corretamente 
traduzida. Colocada em relao com a histria das religies, ela diz: 'Vocs no admitem que mataram Deus (a figura primeva de Deus, o pai primevo, e suas reencarnaes 
posteriores).' Deveria haver um acrscimo, declarando-se: 'Fizemos a mesma coisa,  verdade, mas o admitimos, e, desde ento, fomos absolvidos.' Nem todas as censuras 
com que o anti-semitismo persegue os descendentes do povo judeu podem apelar para justificao semelhante. Um fenmeno de tal intensidade e permanncia como o dio 
do povo pelos judeus deve, naturalmente, possuir mais de um fundamento, alguns deles claramente derivados da realidade, que no exigem interpretao, e outros a 
jazer mais profundamente, derivados de fontes ocultas, que poderiam ser consideradas as razes especficas. Dos primeiros, a censura por serem estrangeiros  talvez 
a mais dbil, visto que em muitos lugares hoje dominados pelo anti-semitismo, os judeus estavam entre as partes mais antigas da populao, ou mesmo l se encontravam 
antes dos atuais habitantes. Isso se aplica, por exemplo,  cidade de Colnia,  qual os judeus chegaram junto com os romanos, antes que fosse ocupada pelos germnicos. 
Outros fundamentos para odiar os judeus so mais fortes; assim, as circunstncias de eles viverem, em sua maior parte, como minorias entre outros povos, pois o sentimento 
comunal dos grupos exige, a fim de complet-lo, a hostilidade para com alguma minoria externa, e a debilidade numrica dessa minoria excluda encoraja sua supresso. 
H, contudo, duas outras caractersticas dos judeus que so inteiramente imperdoveis. A primeira  o fato de, sob alguns aspectos, serem diferentes de suas naes 
'hospedeiras'. No so fundamentalmente diferentes, pois no so asiticos, de uma raa estrangeira, conforme seus inimigos sustentam, mas compostos, na maioria, 
de remanescentes dos povos mediterrneos e herdeiros da civilizao mediterrnea. So, no obstante, diferentes, com freqncia diferentes de maneira indefinvel, 
especialmente dos povos nrdicos, e a intolerncia dos grupos  quase sempre, de modo bastante estranho, exibida mais intensamente contrapequenas di ferenas do 
que contra diferenas fundamentais. O outro ponto possui um efeito ainda maior: a saber, que eles desafiam toda opresso, que as perseguies mais cruis no conseguiram 
extermin-los e que, na verdade, pelo contrrio, exibem uma capacidade de manter o que  seu na vida comercial e, onde so admitidos, de efetuar contribuies valiosas 
a todas as formas de atividade cultural.
         Os motivos mais profundos do dio pelos judeus esto enraizados nas mais remotas eras passadas; operam desde o inconsciente dos povos, e acho-me preparado 
para descobrir que, a princpio, no parecero crveis. Aventuro-me a asseverar que o cime para com o povo que se declarou o filho primognito e favorito de Deus 
Pai ainda hoje no foi superado entre os outros povos;  como se estes tivessem pensado que havia verdade na reivindicao. Ademais, entre os costumes pelos quais 
os judeus se tornam separados, o da circunciso causou impresso desagradvel e sinistra, que deve ser explicada, indubitavelmente, por ela relembrar a temida castrao 
e, juntamente com ela, uma parte do passado primevo que fora alegremente esquecida. E finalmente, como ltimo motivo dessa srie, no devemos esquecer que todos 
os povos que hoje sobressaem em seu dio pelos judeus se tornaram cristos apenas em pocas histricas tardias, amide impulsionados a isso por sanguinolenta coero. 
Poder-se-ia dizer que todos eles so 'mal batizados'. Sobrou-lhes, sob delgado verniz de cristianismo, aquilo que eram seus ancestrais, que adoravam um politesmo 
brbaro. Ainda no superaram um ressentimento contra a nova religio que lhes foi imposta, mas deslocaram esse ressentimento para a fonte de onde o cristianismo 
os foi buscar. O fato de os Evangelhos contarem uma histria que se desenrola entre judeus e que, na verdade, trata apenas de judeus, tornou-lhes fcil esse deslocamento. 
Seu dio pelos judeus , no fundo, um dio pelos cristos, e no precisamos surpreender-nos de que, na revoluo nacional-socialista alem, essa relao ntima entre 
as duas religies monotestas encontre expresso to clara no tratamento hostil que  dado a ambas.
         
         E - DIFICULDADES 
         
         Talvez, pelo que disse, tenha tido sucesso em estabelecer a analogia entre os processos neurticos e os acontecimentos religiosos e, assim, em indicar a 
origem insuspeitada dos ltimos. Nessa transferncia da psicologia individual para a de grupo, duas dificuldades surgem, a diferirem em natureza e importncia, para 
as quais agora nos devemos voltar.
         A primeira delas  que lidamos aqui apenas com um exemplo isolado da copiosa fenomenologia das religies, e no lanamos luz sobre quaisquer outras. Pesarosamente 
tenho de admitir que sou incapaz de dar mais do que esse nico exemplo e que meu conhecimento tcnico  insuficiente para completar a investigao. A minhas informaes 
limitadas, posso talvez acrescentar que o caso da fundao da religio maometana me parece assemelhar-se a uma repetio abreviada da judaica, da qual emergiu como 
imitao. Parece, na verdade, que o Profeta pretendia originalmente aceitar o judasmo completamente, para si e para seu povo. A retomada do grande e nico pai primevo 
trouxe aos rabes uma extraordinria exaltao de sua autoconfiana, que conduziu a grandes sucessos mundiais mas neles exauriu-se. Al mostrou-se muito mais grato 
a seu povo escolhido do que Jav ao seu. Mas o desenvolvimento interno da nova religio logo se interrompeu, talvez por lhe faltar a profundidade que, no caso judaico, 
fora causada pelo assassinato do fundador de sua religio. As religies aparentemente racionalistas do Leste so, em sua essncia, venerao dos ancestrais e detiveram-se 
tambm num estdio primitivo da reconstruo do passado. Se  verdade que nos povos primitivos da atualidade o reconhecimento de um ser supremo  o nico contedo 
de sua religio, s podemos encarar isso como uma atrofia do desenvolvimento religioso e coloc-la em relao com os incontveis casos de neuroses rudimentares que 
podem ser observadas no outro campo. Por que tanto num caso quanto no outro as coisas no foram mais alm, nosso conhecimento , em ambos, insuficiente para dizer-nos. 
Podemos apenas atribuir a responsabilidade aos dotes individuais desses povos,  direo tomada por sua atividade e sua condio social geral. Alm disso,  boa 
regra no trabalho de anlise contentar-se em explicar o que realmente est perante ns e no procurar explicar o que no aconteceu.
         A segunda dificuldade sobre essa transferncia para a psicologia de grupo  muito mais importante, j que coloca um problema novo, de natureza fundamental. 
Esse problema levanta a questo de saber sob que forma a tradio operante na vida do povo se apresenta, questo que no ocorre com os indivduos, visto que  solucionada 
pela existncia, no inconsciente, de traos mnmicos do passado. Retornemos a nosso exemplo histrico. Atribumos o acordo de Cades  sobrevivncia de uma tradio 
poderosa entre aqueles que tinham retornado do Egito. Esse caso no envolve problema algum. Segundo nossa teoria, uma tradio desse tipo baseava-se em lembranas 
conscientes de comunicaes orais que as pessoas ento vivas tinham recebido de seus ancestrais de apenas duas ou trs geraes atrs, ancestrais que, eles prprios, 
tinham sido participantes e testemunhas oculares dos acontecimentos em apreo. Mas podemos acreditar na mesma coisa dos sculos posteriores, ou seja, que a tradio 
ainda tivesse base num reconhecimento normalmente transmitido de av para neto? No  mais possvel dizer, como no primeiro caso, quais foram as pessoas que preservaram 
esse conhecimento e o transmitiram oralmente. Segundo Sellin, a tradio do assassinato de Moiss esteve sempre na posse dos crculos sacerdotais, at que acabou 
por encontrar expresso por escrito, o que, e somente isso, permitiu a Sellin descobri-las. Mas ela s pode ter sido conhecida de algumas pessoas; no constitua 
propriedade pblica. E isso  suficiente para explicar seu efeito?  possvel atribuir a um conhecimento como esse, detido por poucas pessoas, o poder de produzir 
uma emoo to duradoura nas massas, ao chegar ao seu conhecimento? Parece antes que, tambm nas massas ignorantes, deve ter havido algo que era, de certa maneira, 
aparentado ao conhecimento dos poucos, e que foi encontrar esse conhecimento a meio caminho quando ele foi enunciado.
         A deciso  tornada ainda mais difcil quando nos voltamos para o caso anlogo, nos tempos primevos.  bastante certo que, no decurso de milhares de anos, 
foi esquecido o fato de que houvera um pai primevo, com as caractersticas que conhecemos, e qual fora a sua sorte; tampouco podemos supor que existisse qualquer 
tradio oral disso, como no caso de Moiss. Em que sentido, ento, uma tradio se torna importante? Sob que forma pode ter estado presente?
         A fim de torn-lo mais fcil aos leitores que no desejam ou no esto preparados para mergulhar num complicado estado de coisas psicolgicas, anteciparei 
o resultado da investigao que deve seguir-se. Em minha opinio, existe, a esse respeito, uma conformidade quase completa entre o indivduo e o grupo: tambm no 
grupo uma impresso do passado  retida em traos mnmicos inconscientes. No caso do indivduo, acreditamos que podemos ver claramente. O trao mnmico de sua experincia 
primitiva foi nele preservado, mas numa condio psicolgica especial. Pode-se dizer que o indivduo sempre o conheceu, tal como se conhece a respeito do reprimido. 
Aqui formamos idias, que podem ser confirmadas sem dificuldades atravs da anlise, de como algo pode ser esquecido e depois reaparecer, aps algum tempo. O que 
 esquecido no se extingue, mas  apenas 'reprimido'; seus traos mnmicos esto presentes em todo seu frescor, mas isolados por 'anticatexias.' Eles no podem 
entrar em comunicao com outros processos intelectuais; so inconscientes - inacessveis  conscincia. Pode ser tambm que certas partes do reprimido, havendo 
escapado ao processo [de represso], permaneam acessveis  lembrana e ocasionalmente emerjam na conscincia, mas, mesmo assim, se encontrem isoladas, como corpos 
estranhos sem conexo com o restante. Pode ser assim, mas no precisa s-lo; a represso tambm pode ser completa e  com essa alternativa que lidaremos no que se 
segue.
         O reprimido mantm seu impulso ascendente, seu esforo para abrir caminho at a conscincia. Ele consegue seu objetivo em trs condies: (1) se a fora 
da anticatexia  diminuda por processos patolgicos que tomam conta da outra parte [da mente] que chamamos de ego, ou por uma distribuio diferente das energias 
catexiais nesse ego, como acontece normalmente no estado de sono; (2) se os elementos instintuais que se ligam ao reprimido recebem um reforo especial (do qual 
o melhor exemplo so os processos que ocorrem durante a puberdade); e (3) se, em qualquer ocasio na experincia recente, ocorrem impresses ou vivncias que se 
assemelham to estreitamente ao reprimido, que so capazes de despert-lo. No ltimo caso, a experincia recente  reforada pela energia latente do reprimido e 
este entra em funcionamento por trs da experincia recente e com a ajuda dela. Em nenhuma dessas trs alternativas, o que at ento foi reprimido ingressa na conscincia 
de modo suave ou inalterado; tem sempre de defrontar-se com deformaes que do testemunho da influncia da resistncia (no inteiramente superada) que surge da 
anticatexia, da influncia modificadora da experincia recente, ou de ambas.
         A diferena entre um processo psquico ser consciente ou inconsciente serviu-nos como critrio e meio de orientao. O reprimido  inconsciente. Ora, simplificaria 
agradavelmente as coisas se essa frase admitisse inverso, isto , se a diferena entre qualidades de consciente (Cs.) e inconsciente (Ics.) coincidisse com a distino 
existente entre 'pertencente ao ego' e 'reprimido'. O fato de existirem coisas isoladas e inconscientes como essas em nossa vida mental j seria suficientemente 
novo e importante. Na realidade, porm, a posio  mais complicada.  verdade que tudo que  reprimido  inconsciente, mas no  verdade que tudo que pertena ao 
ego seja consciente. Constatamos que a conscincia  uma qualidade transitria, que se liga a um processo psquico apenas de passagem. Para nossos fins, portanto, 
temos de substituir 'consciente' por 'capaz de ser consciente' e chamamos essa qualidade de 'pr-consciente' (Pcs.). Dizemos, ento, de modo mais correto, que o 
ego  principalmente pr-consciente (virtualmente consciente), mas que partes do ego so inconscientes.
         O estabelecimento desse ltimo fato nos demonstra que as qualidades sobre as quais at aqui nos apoiamos so insuficientes para nos orientar na obscuridade 
da vida psquica. Temos de introduzir uma outra distino que no  mais qualitativa, mas topogrfica e, o que lhe d valor especial, simultaneamente gentica. Distinguimos, 
agora, em nossa vida psquica (que encaramos como um aparelho composto de diversas instncias, distritos ou provncias) uma determinada regio que chamamos de ego 
propriamente dito e uma outra que denominamos de id. O id  a mais antiga das duas; o ego desenvolveu-se a partir dele, como uma camada cortical, atravs da influncia 
do mundo externo.  no id que todos os nossos instintos primrios esto em ao; todos os processos no id se realizam inconscientemente. O ego, como j dissemos, 
coincide com a regio do pr-consciente; inclui partes que normalmente permanecem inconscientes. O curso dos acontecimentos no id e sua interao mtua so governados 
por leis inteiramente diferentes das que prevalecem no ego. Foi, na verdade, a descoberta dessas diferenas que nos conduziu  nossa viso e que a justifica.
         O reprimido deve ser considerado como pertencente ao id e sujeito aos mesmos mecanismos; distingue-se dele apenas quanto  sua gnese. A diferenciao se 
cumpre no mais primitivo perodo da vida, enquanto o ego se est desenvolvendo a partir do id. Nessa poca, uma parte do contedo do id  absorvida pelo ego e elevada 
ao estado pr-consciente; outra parte  afetada por esse traslado e permanece atrs, no id, como o inconsciente propriamente dito. No curso ulterior da formao 
do ego, contudo, certas impresses e processos psquicos do ego so excludos [isto , expelidos] dele atravs de um processo defensivo; a caracterstica de serem 
pr-conscientes  deles retirada, de modo que so mais uma vez reduzidos a serem partes componentes do id. Aqui, ento, temos o 'reprimido' no id. No que concerne 
 relao entre as duas provncias mentais, presumimos portanto que, por um lado, processos inconscientes do id so levados ao nvel do pr-consciente e incorporados 
ao ego, e que, por outro lado, material pr-consciente do ego pode seguir o caminho oposto e ser devolvido ao id. O fato de posteriormente uma regio especial - 
a do 'superego' - separar-se do ego est fora de nosso interesse atual.
         Tudo isso pode parecer longe de ser simples, mas, quando nos reconciliamos com essa viso espacial fora do comum do aparelho psquico, ela no pode apresentar 
dificuldades especficas para a imaginao. Acrescentarei ainda o comentrio de que a topografia psquica que aqui desenvolvi nada tem que ver com a anatomia do 
crebro, e, na realidade, entra em contato com ela apenas num ponto. O que  insatisfatrio nesse quadro - e estou ciente disso to claramente quanto qualquer um 
- se deve  nossa completa ignorncia da natureza dinmica dos processos mentais. Dizemo-nos que o que distingue uma idia consciente de outra pr-consciente, e 
esta de uma inconsciente, s pode ser uma modificao, ou talvez uma distribuio diferente, de energia psquica. Falamos de catexias e hipercatexias, mas, alm 
disso, achamo-nos sem qualquer conhecimento sobre o assunto, ou mesmo sem qualquer ponto de partida para uma hiptese de trabalho til. Do fenmeno da conscincia, 
podemos pelo menos dizer que esteve originalmente ligado  percepo. Todas as sensaes que se originam da percepo de estmulos penosos, tcteis, auditivos ou 
visuais, so as mais prontamente conscientes. Os processos de pensamento, e tudo o que possa ser anlogo a eles no id, so, em si prprios, inconscientes, e obtm 
acesso  conscincia vinculando-se aos resduos mnmicos de percepes visuais e auditivas ao longo do caminho da funo da fala. Nos animais, aos quais esta falta, 
as condies devem ser de tipo mais simples.
         As impresses dos traumas primitivos, das quais partimos, no so traduzidas para o pr-consciente ou so rapidamente devolvidas pela represso para o estado 
de id. Seus resduos mnmicos, nesse caso, so inconscientes e operam a partir do id. Acreditamos que podemos facilmente seguir suas vicissitudes ulteriores, enquanto 
se trata do que foi experimentado pelo prprio indivduo. Mas uma nova compilao surge quando nos damos conta da probabilidade de que aquilo que pode ser operante 
na vida psquica de um indivduo pode incluir no apenas o que ele prprio experimentou, mas tambm coisas que esto inatamente presentes nele, quando de seu nascimento, 
elementos com uma origem filogentica - uma herana arcaica. Surgem ento as questes de saber em que consiste essa herana, o que contm, e qual  a sua prova.
         A resposta imediata e mais certa  que ela consiste em certas disposies [inatas], caractersticas de todos os organismos vivos: isto , na capacidade 
e tendncia de ingressar em linhas especficas de desenvolvimento e de reagir, de maneira especfica, a certas excitaes, impresses e estmulos. Visto a experincia 
demonstrar que, a esse respeito, existem distines entre os indivduos da espcie humana, a herana arcaica deve incluir essas distines; elas representam o que 
identificamos como sendo o fator constitucional no indivduo. Ora, desde que todos os seres humanos, em todos os acontecimentos de seus primeiros dias, tm aproximadamente 
as mesmas experincias, eles reagem a elas, tambm, de maneira semelhante. Pde, portanto, surgir uma dvida sobre se no deveramos incluir essas reaes, juntamente 
com suas distines individuais, na herana arcaica. Essa dvida deve ser posta de lado: nosso conhecimento da herana arcaica no  ampliado pelo fato dessa semelhana.
         No obstante, a pesquisa analtica trouxe-nos alguns resultados que nos do motivo para reflexo. Temos, em primeiro lugar, a universalidade do simbolismo 
na linguagem. A representao simblica de determinado objeto por outro - a mesma coisa aplica-se a aes -  familiar a todos os nossos filhos e lhes vem, por assim 
dizer, como coisa natural. No podemos demonstrar, em relao a eles, como a aprenderam, e temos de admitir que, em muitos casos, aprend-la  impossvel. Trata-se 
de um conhecimento original que os adultos, posteriormente, esquecem.  verdade que o adulto faz uso dos mesmos smbolos em sonhos, mas no os compreende a menos 
que um analista os interprete para ele, e, mesmo ento, fica relutante em acreditar na traduo. Se ele faz uso de uma das figuras de retrica muito comuns em que 
esse simbolismo lhe fugiu completamente. Ademais, o simbolismo despreza as diferenas de linguagem; investigaes provavelmente demonstrariam que ele  ubquo - 
o mesmo para todos os povos. Aqui, ento, parecemos ter um exemplo seguro de uma herana arcaica a datar do perodo em que a linguagem se desenvolveu. Mas ainda 
se poderia tentar outra interpretao. Poder-se-ia dizer que estamos lidando com vinculaes de pensamento entre idias - vinculaes que foram estabelecidas durante 
o desenvolvimento da fala e que tm de ser repetidas agora, toda vez que, num indivduo, o desenvolvimento da fala tem de ser percorrido. Seria assim um caso de 
herana de uma disposio instintual, e, mais uma vez, no constituiria contribuio para nosso problema.
         O trabalho da anlise, entretanto, trouxe  luz algo mais que excede em importncia o que at agora consideramos. Quando estudamos as reaes a traumas 
precoces, ficamos amide bastante surpresos por descobrir que elas no se limitam estritamente ao que o prprio indivduo experimentou, mas dele divergem de uma 
maneira que se ajusta muito melhor ao modelo de um evento filogentico, e, em geral, s podem ser explicadas por tal influncia. O comportamento de crianas neurticas 
para com os pais nos complexos de dipo e de castrao abunda em tais reaes, que parecem injustificadas no caso individual e s se tornam inteligveis filogeneticamente 
- por sua vinculao com a experincia de geraes anteriores. Valeria bem a pena apresentar esse material, para o qual posso apelar aqui, perante o pblico, de 
forma reunida. Seu valor probatrio parece-me suficientemente forte para que me aventure a dar um passo  frente e postule a assertiva de que a herana arcaica dos 
seres humanos abrange no apenas disposies, mas tambm um tema geral: traos de memria da experincia de geraes anteriores. Dessa maneira, tanto a extenso 
quanto a importncia da herana arcaica seriam significativamente ampliadas.
         Refletindo mais, tenho de admitir que me comportei, por longo tempo, como se a herana de traos de memria da experincia de nossos antepassados, independentemente 
da comunicao direta e da influncia da educao pelo estabelecimento de um exemplo, estivesse estabelecida para alm de discusso. Quando falei da sobrevivncia 
de uma tradio entre um povo ou da formao do carter de um povo, tinha principalmente em mente uma tradio herdada desse tipo, e no uma tradio transmitida 
pela comunicao. Ou, pelo menos, no fiz distino entre as duas e no me dei claramente conta de minha audcia em negligenciar faz-lo. Minha posio, sem dvida, 
 tornada mais difcil pela atitude atual da cincia biolgica, que se recusa a ouvir falar na herana dos caracteres adquiridos por geraes sucessivas. Devo, contudo, 
com toda modstia, confessar que, todavia, no posso passar sem esse fator na evoluo biolgica. Na verdade, no  a mesma coisa que est em questo nos dois casos: 
num, trata-se de caracteres adquiridos que so difceis de apreender; no outro, de traos de memria de acontecimentos externos - algo tangvel, por assim dizer. 
Mas bem pode ser que, no fundo, no possamos imaginar um sem o outro.
         Se presumirmos a sobrevivncia desses traos de memria na herana arcaica, teremos cruzado o abismo existente entre psicologia individual e de grupo: podemos 
lidar com povos tal como fazemos com um indivduo neurtico. Sendo certo que, atualmente, no temos provas mais fortes da presena de traos de memria na herana 
arcaica do que os fenmenos residuais do trabalho da anlise que exigem uma derivao filogentica, ainda assim essas provas nos parecem suficientemente fortes para 
postular que esse  o fato. Se no for, no avanaremos, quer na anlise quer na psicologia de grupo. A audcia no pode ser evitada.
         E, mediante essa punio, estamos efetuando algo mais. Estamos diminuindo o abismo que perodos anteriores de arrogncia humana rasgaram entre a humanidade 
e os animais. Se se quiser encontrar qualquer explicao dos chamados instintos dos animais, que permitem que eles se comportem, desde o incio, numa nova situao 
da vida como se fosse antiga e conhecida, se se quiser encontrar qualquer explicao dessa vida instintiva dos animais, ela s pode ser a de que eles trazem consigo 
as experincias da espcie para sua prpria e nova existncia - isto , que preservaram recordaes do que foi experimentado por seus antepassados. A posio do 
animal humano, no fundo, no seria diferente. Sua prpria herana arcaica corresponde aos instintos dos animais, ainda que seja diferente em extenso e contedo.Aps 
esse exame, no hesito em declarar que os homens sempre souberam (dessa maneira especial) que um dia possuram um pai primevo e o assassinaram.
         Duas outras questes devem agora ser respondidas. Primeiro, sob que condies uma recordao desse tipo ingressa na herana arcaica? E, segundo, em que 
circunstncias pode ela tornar-se ativa - isto , progredir para a conscincia a partir de seu estado inconsciente no id, ainda que sob forma alterada e deformada. 
A resposta  primeira pergunta  fcil de formular: a recordao ingressa na herana arcaica se o acontecimento foi suficientemente importante, repetido com bastante 
freqncia, ou ambas as coisas. No caso do parricdio, ambas as condies so atendidas. Da segunda questo, h que dizer o seguinte. Um grande nmero de influncias 
pode estar relacionado, mas nem todas so necessariamente conhecidas. Um desenvolvimento espontneo tambm  concebvel, segundo a analogia do que acontece em certas 
neuroses. Contudo, o que, certamente,  de importncia decisiva  o despertar do trao da memria esquecido por uma repetio real e recente do acontecimento. O 
assassinato de Moiss constituiu uma repetio desse tipo e, posteriormente, o suposto assassinato judicial de Cristo, de maneira que esses acontecimentos vm para 
o primeiro plano como causas. Parece como se a gnese do monotesmo no pudesse passar sem essas ocorrncias. Somos lembrados das palavras do poeta:
         Was unsterblich im Gesang soll leben,Mus im Leben untergehen.
         E, por fim, uma observao que traz  baila um argumento psicolgico. Uma tradio que se baseasse unicamente na comunicao no poderia conduzir ao carter 
compulsivo que se liga aos fenmenos religiosos. Ela seria escutada, julgada e talvez posta de lado, como qualquer outra informao oriunda do exterior; nunca atingiria 
o privilgio de ser liberada da coero do pensamento lgico. Ela deve ter experimentado a sorte de ser reprimida, o estado de demorar-se no inconsciente, antes 
de ser capaz de apresentar efeitos to poderosos quando de seu retorno, de colocar as massas sob seu fascnio, como vimos com espanto, e, at aqui, sem compreenso, 
no caso da tradio religiosa. E essa considerao pesa consideravelmente em favor de acreditarmos que as coisas realmente aconteceram da maneira por que tentamos 
retrat-las ou, pelo menos, de algum modo semelhante.
         
         
         
         PARTE II - RESUMO E RECAPITULAO 
         
         A parte deste estudo que se segue no pode ser entregue ao pblico sem extensas explicaes e desculpas, pois ela nada mais  do que uma repetio fiel 
(e, quase sempre, palavra por palavra) da primeira parte [do terceiro Ensaio], abreviada em algumas de suas indagaes crticas e aumentada com acrscimos referentes 
ao problema de saber como surgiu o carter especial do povo judeu. Estou ciente de que um mtodo de exposio como esse  to inconveniente quanto pouco artstico, 
e eu mesmo o deploro sem reservas. Por que no o evitei? No me  difcil descobrir a resposta para isso, mas no  fcil confessar. Descobri-me incapaz de apagar 
os traos da histria da origem da obra, o que foi, de qualquer modo, fora do comum.
         Na realidade, ela foi escrita duas vezes: pela primeira vez, alguns anos atrs, em Viena, onde no pensei que fosse possvel public-la. Decidi abandon-la, 
mas ela me atormentou como um fantasma insepulto e descobri uma sada tornando independentes duas partes suas e publicando-as em nosso peridico Imago: o ponto de 
partida psicanaltico de todo o assunto, 'Moiss, um Egpcio' [Ensaio I], e a construo histrica sobre isso erigida, 'Se Moiss fosse Egpcio...' [Ensaio II]. 
O restante, que inclua o que estava realmente aberto  objeo e era perigoso - a aplicao [desses achados]  gnese do monotesmo e a viso da religio em geral 
-, eu retive, para sempre, segundo pensava. Ento, em maro de 1938, veio a inesperada invaso alem, que me forou a abandonar meu lar, mas tambm me libertou da 
ansiedade de que minha publicao pudesse conjurar uma proibio da psicanlise num lugar onde ainda era tolerada. Mal chegara  Inglaterra quando achei irresistvel 
a tentao de tornar acessvel ao mundo o conhecimento que eu havia retido, e comecei a revisar a terceira parte de meu estudo para acomod-lo s duas partes que 
j tinham sido publicadas. Isso, naturalmente, envolvia uma predisposio parcial do material. No tive xito, contudo, em incluir a totalidade dele em minha segunda 
verso; por outro lado, no podia decidir-me a abandonar inteiramente as verses primitivas. E assim aconteceu que adotei o expediente de ligar, sem modificao, 
toda uma parte da primeira apresentao  segunda, o que acarretou a desvantagem de envolver extensa repetio.
         Poderia, contudo, consolar-me com a reflexo de que as coisas que estou tratando so, seja como for, to novas e importantes, independentemente de quanto 
a minha descrio delas  correta, que no pode constituir desventura que o pblico seja obrigado a ler a mesma coisa sobre elas duas vezes. H coisas que deveriam 
ser ditas mais de uma vez e que no podem ser ditas com freqncia suficiente. Mas o leitor deve decidir, de sua prpria e livre vontade, entre estender-se sobre 
o assunto ou retornar a ele. No deve ser sub-repticiamente levado a ver a mesma coisa apresentada a ele duas vezes num s livro. Trata-se de uma inpcia cuja culpa 
deve ser assumida pelo autor. Infelizmente, o poder criativo de um autor nem sempre obedece  sua vontade: o trabalho avana como pode e com freqncia se apresenta 
a ele como algo independente ou at mesmo estranho.
         
         
         
         
         
         
         A - O POVO DE ISRAEL 
         
         Se est claro em nossa mente que um procedimento como o nosso, o de aceitar o que nos parece til no material que nos  apresentado, rejeitar o que no 
nos convm e reunir os diferentes fragmentos de acordo com a probabilidade psicanaltica, se mantemos claro que uma tcnica desse tipo no pode dar qualquer certeza 
de que cheguemos  verdade, ento pode-se justamente perguntar por que estamos empreendendo este trabalho. A resposta constitui um apelo ao resultado do trabalho. 
Se abandonarmos grandemente a rigidez dos requisitos que se exigem de uma investigao histrico-psicolgica, talvez seja possvel lanar luz sobre problemas que 
sempre pareceram merecer ateno e que acontecimentos recentes impuseram de novo  nossa observao. Como sabemos, de todos os povos que viveram ao redor da bacia 
do Mediterrneo na Antiguidade, o povo judeu  quase o nico que ainda existe em nome e tambm em substncia. Ele enfrentou infortnios e maus tratos com uma capacidade 
sem precedentes de resistncia; desenvolveu sincera antipatia de todos os outros povos. Ficaramos alegres em compreender mais a respeito da fonte dessa viabilidade 
dos judeus e a respeito de como suas caractersticas esto vinculadas  sua histria.
         Podemos partir de um trao caracterolgico dos judeus que domina sua relao com os outros. No h dvida de que eles tm uma opinio particularmente elevada 
de si prprios, de que se consideram mais eminentes, de posio mais alta, superiores a outros povos - dos quais tambm se distinguem por muitos de seus costumes. 
Ao mesmo tempo, so inspirados por uma confiana peculiar na vida, tal como a que se deriva da posse secreta de algum bem precioso, uma espcie de otimismo: pessoas 
idosas cham-lo-iam de confiana em Deus.
         Conhecemos a razo desse comportamento e qual  seu tesouro secreto. Eles realmente se consideram o povo escolhido de Deus, acreditam que esto especialmente 
prximos dele, e isso os torna orgulhosos e confiantes. Relatos dignos de f dizem-nos que se comportavam nos tempos helensticos tal como se comportam hoje, de 
maneira que o judeu completo j estava l, e os gregos, entre os quais e junto dos quais viveram, reagiram s caractersticas judaicas do mesmo modo que seus 'hospedeiros' 
de hoje. Poder-se-ia pensar que reagiram como se eles tambm acreditassem na superioridade que o povo de Israel reivindicara para si. Quando se  favorito declarado 
do pai temido, no se precisa ficar surpreso com o cime dos prprios irmos e irms, e a lenda judaica de Jos e seus irmos mostra muito bem aonde esse cime pode 
conduzir. O curso da histria mundial parecia justificar a presuno dos judeus, visto que, quando mais tarde agradou a Deus enviar  humanidade um Messias e redentor, 
mas uma vez escolheu-o entre o povo judeu. Os outros povos poderiam ento ter tido ocasio para dizer a si prprios: 'Na verdade, eles estavam com a razo; eles 
so o povo escolhido de Deus.' Ao invs, porm, o que aconteceu foi que a redeno por parte de Jesus Cristo s intensificou o dio deles pelos judeus, ao passo 
que estes ltimos, eles prprios, no obtinham vantagem alguma desse segundo ato de favoritismo, j que no reconheceram o redentor.
         Com base em nossos debates anteriores, podemos agora asseverar que foi o varo Moiss que imprimiu esse trao - significante para todo o tempo - no povo 
judeu. Ele elevou a sua auto-estima, assegurando-lhe ser o povo escolhido de Deus, prescreveu-lhe a santidade,ver em [[1]],e comprometeu-o a ser separado dos outros. 
No que aos outros povos faltasse auto-estima. Tal como acontece hoje, tambm naqueles dias cada nao se julgava melhor do que qualquer outra. Mas a auto-estima 
dos judeus recebeu de Moiss um arrimo religioso: ela tornou-se parte de sua f religiosa. Devido  sua relao especialmente ntima com seu Deus, adquiriram uma 
parcela da grandeza dele. E visto sabermos que por trs do Deus que escolhera os judeus e os libertara do Egito ergue-se a figura de Moiss, que fizera precisamente 
isso ostensivamente por ordem de Deus, aventuramo-nos a declarar que foi esse homem Moiss que criou os judeus.  a ele que esse povo deve no s sua tenacidade 
de vida, mas tambm muito da hostilidade que experimentou e ainda experimenta. 
         
         B - O GRANDE HOMEM 
         
         Como  possvel a um homem isolado desenvolver uma eficcia to extraordinria para poder formar um povo a partir de indivduos e famlias ocasionais, cunh-los 
com seu carter definitivo e determinar seu destino por milhares de anos? No constitui uma hiptese como essa uma recada na modalidade de pensamento que levou 
aos mitos de um criador e  adorao de heris, em pocas em que a redao da histria nada mais era do que uma relao das faanhas e destinos de indivduos isolados, 
de dominadores ou conquistadores? A tendncia moderna  antes no sentido de fazer remontar os acontecimentos da histria humana a fatores mais ocultos, gerais e 
impessoais,  influncia irresistvel das condies econmicas, a alteraes em hbitos alimentares, a avanos no uso de materiais e ferramentas, a migraes ocasionais 
provocadas por aumentos de populao e mudanas climticas. Os indivduos no tm nisso outro papel a desempenhar que o de expoentes ou representantes de tendncias 
grupais, que esto fadadas a encontrar expresso, e a encontram, nesses indivduos especficos, em grande parte por acaso.
         Trata-se de linhas de abordagem perfeitamente justificveis, mas elas nos fornecem ocasio de chamar a ateno para uma importante discrepncia entre a 
atitude assumida por nosso rgo de pensamento e a disposio das coisas no mundo, as quais se imagina sejam apreendidas por intermdio de nosso pensamento.  suficiente 
para nossa necessidade de descobrir causas (que, com efeito,  imperativa) que cada acontecimento tenha uma causa desmontvel. Mas na realidade que jaz fora de ns, 
esse dificilmente  o caso; pelo contrrio, cada acontecimento parece ser supradeterminado e prova ser efeito de diversas causas convergentes. Assustadas pela imensa 
complicao dos acontecimentos,nossas investigaes tomam o partido de determinada correlao contra outra e estabelecem contradies que no existem, mas que s 
surgiram devido a uma ruptura de relaes mais abrangentes. Por conseguinte, se a investigao de um caso especfico nos demonstra a influncia transcendente de 
uma personalidade isolada, no  preciso que nossa conscincia nos censure por nos termos, atravs dessa hiptese, precipitado em desafio da doutrina da importncia 
dos fatores gerais e impessoais. H lugar, em princpio, para ambas as coisas. No caso da gnese do monotesmo, contudo, no podemos apontar para fator externo, 
exceto o que j mencionamos - que esse desenvolvimento esteve vinculado ao estabelecimento de relaes mais estreitas entre naes diferentes e  construo de um 
grande imprio.Reservamos assim um lugar para os 'grandes homens' na cadeia, ou melhor, na rede de causas. Mas talvez no seja inteiramente intil indagar sob que 
condies conferimos esse ttulo de honra. Ficaremos surpresos em descobrir que nunca  muito fcil dar uma resposta a essa questo. Uma primeira formulao - 'fazemo-lo 
se um homem possui em grau especialmente alto qualidades que valorizamos grandemente' - claramente erra o alvo, sob todos os aspectos. A beleza, por exemplo, e a 
fora muscular, por invejveis que possam ser, no constituem reivindicaes  'grandeza'. Pareceria, ento, que as qualidades tm de ser mentais - distines psquicas 
e intelectuais. Com referncias a estas, somos detidos pela considerao de que, todavia, no descreveramos sem hesitao algum como sendo um grande homem simplesmente 
porque foi extraordinariamente eficiente em alguma esfera especfica. Certamente no o faramos no caso de um mestre de xadrez ou de um virtuoso num instrumento 
musical, mas no muito facilmente, tampouco, no caso de um eminente artista ou cientista. Em tais casos, naturalmente e falaramos dele como um grande poeta, pintor, 
matemtico ou fsico, ou como um pioneiro no campo desta ou daquela atividade, mas nos abstemos de pronunci-lo um grande homem. Se sem hesitao declaramos que, 
por exemplo, Goethe, Leonardo da Vinci e Beethoven foram grandes homens, temos de ser levados a isso por algo mais do que admirao por suas esplndidas criaes. 
Se precisamente exemplos como esses no se interpusessem, nos ocorreria provavelmente a idia de que o nome de 'grande homem'  reservado de preferncia para homens 
de ao - conquistadores,generais, governantes -, e isso em reconhecimento da grandeza de suas realizaes, da fora dos efeitos a que deram origem. Mas tambm isso 
 insatisfatrio, sendo inteiramente contraditado por nossa condenao de tantas figuras inteis cujos efeitos sobre seu mundo contemporneo e sobre a posterioridade 
no podem, todavia, ser discutidos. Tampouco poderemos escolher o sucesso como sinal de grandeza, quando refletimos sobre a maioria dos grandes homens que, ao invs 
de o alcanarem, pereceram no infortnio.No momento, ento, estamos inclinados a decidir que no vale a pena procurar uma conotao do conceito de 'grande homem' 
que no seja ambiguamente determinada. Esse conceito parece ser apenas um reconhecimento frouxamente empregado e um tanto arbitrariamente conferido de um desenvolvimento 
excessivamente grande de certas qualidades humanas, com alguma aproximao ao sentido original e literal de 'grandeza'. Temos de lembrar, tambm, que no estamos 
interessados tanto na essncia dos grandes homens quanto na questo dos meios pelos quais eles influenciam seus semelhantes. Manteremos, contudo, essa investigao 
to sucinta quanto possvel, visto que ela ameaa conduzir-nos para longe de nosso objetivo.Permitam-nos, portanto, tomar como certo que um grande homem influencia 
seus semelhantes por duas maneiras: por sua personalidade e pela idia que ele apresenta. Essa idia pode acentuar alguma antiga imagem de desejo das massas, ou 
apontar um novo objetivo de desejo para elas, ou lanar de algum outro modo seu encantamento sobre as mesmas. Ocasionalmente - e esse  indubitavelmente o caso mais 
primrio -, a personalidade funciona por si s e a idia desempenha papel bastante trivial. Nem por um s momento nos achamos s escuras quanto a saber por que um 
grande homem se torna um dia importante. Sabemos que na massa humana existe uma poderosa necessidade de uma autoridade que possa ser admirada, perante quem nos curvemos, 
por quem sejamos dirigidos e, talvez, at maltratados. J aprendemos com a psicologia dos indivduos qual  a origem dessa necessidade das massas. Trata-se de um 
anseio pelo pai que  sentido por todos, da infncia em diante, do mesmo pai a quem o heri da lenda se gaba de ter derrotado. E pode ento comear a raiar em ns 
que todas as caractersticas com que aparelhamos os grandes homens so caractersticas paternas, e que a essncia dos grandes homens, pela qual em vo buscamos, 
reside nessa conformidade. A deciso de pensamento, a fora de vontade, a energia da ao fazem parte do retrato de um pai - mas, acima de tudo, a autonomia e a 
independncia do grande homem, sua indiferena divina que pode transformar-se em crueldade. Tem-se de admir-lo, pode-se confiar nele, mas no se pode deixar de 
tem-lo, tambm. Deveramos ter sidolevados a entender isso pela prpria expresso: quem, seno o pai, pode ter sido o 'homem grande' na infncia? No h dvida 
de que foi um poderoso prottipo de um pai que, na pessoa de Moiss, se curvou at os pobres escravos judeus para lhes assegurar que eram seus filhos queridos. E 
no menos esmagador deve ter sido o efeito sobre eles da idia de um Deus nico, eterno e todo poderoso, para quem no eram humildes demais para que com eles fizesse 
um pacto e prometesse cuidar deles se permanecessem leais  sua adorao. Provavelmente no lhes foi fcil distinguir a imagem do varo Moiss da de seu Deus e, 
nisso, o sentimento estava com a razo, pois Moiss pode ter introduzido traos de sua prpria personalidade no carter do seu Deus - tais como seu temperamento 
irado e sua inquietude. E se, assim sendo, eles mataram um dia seu grande homem, estavam apenas repetindo um malfeito que em tempos antigos fora cometido, como prescrito 
pela lei, contra o Rei Divino e que, como sabemos, remontava a um prottipo ainda mais antigo.
         Se, por um lado, vemos assim a figura do grande homem exalada a propores divinas, por outro, contudo, temos de recordar que tambm o pai foi outrora 
uma criana. A grande idia religiosa que o homem Moiss representava no era, em nossa opinio, propriedade sua: ele a tomara do Rei Akhenaten. E este, cuja grandeza 
como fundador de uma religio est inequivocamente estabelecida, pode talvez ter seguido sugestes que lhe chegaram - de partes prximas ou distantes da sia - atravs 
de sua me ou por outros caminhos.
         No podemos seguir a cadeia de acontecimentos mais alm, mas se identificamos corretamente esses primeiros passos, a idia monotesta retornou como um bumerangue 
 terra de sua origem. Assim, parece infrutfero tentar fixar o crdito devido a um indivduo, em relao a uma nova idia.  claro que muitos tiveram parte em seu 
desenvolvimento e lhe deram contribuies. E, mais uma vez, seria obviamente injusto interromper abruptamente a cadeia de causas em Moiss e desprezar o que foi 
efetuado por aqueles que o sucederam e levaram  frente suas idias, os Profetas judaicos. A semente do monotesmo fracassou em amadurecer no Egito. A mesma coisa 
poderiater acontecido em Israel, aps o povo ter-se libertado da religio onerosa e exigente. Mas constantemente surgiram, no povo judeu, homens que reviveram a 
tradio a esmaecer-se, que renovaram as admonies e as exigncias feitas por Moiss, e que no descansaram at que aquilo que estava perdido fosse mais uma vez 
estabelecido. No curso de constantes esforos, atravs dos sculos, e finalmente devido a duas grandes reformas, uma antes e outra aps o exlio babilnico, efetuou-se 
a transformao do deus popular Jav no Deus cuja adorao fora imposta aos judeus por Moiss. E provas da presena de uma aptido psquica peculiar nas massas que 
se tinham tornado o povo judeu so reveladas pelo fato de terem sido capazes de produzir tantos indivduos preparados para assumir o nus da religio de Moiss, 
em troca da recompensa de ser o povo escolhido e talvez por alguns outros prmios de grau semelhante.
         
         C - O AVANO EM INTELECTUALIDADE
         
         A fim de ocasionar resultados psquicos duradouros num povo,  claro que no basta assegurar-lhes que foram escolhidos pela divindade. O fato tambm deve 
ser-lhes provado de alguma maneira, se  que devem crer nele e tirar conseqncias da crena. Na religio de Moiss, o xodo do Egito serviu como prova; Deus, ou 
Moiss em seu nome, nunca se cansava de apelar para essa prova de favor. A festa da Pscoa foi introduzida a fim de manter a lembrana desse acontecimento, ou, antes, 
injetou-se numa festa de antiga criao o contedo dessa lembrana: o xodo pertencia a um passado enevoado. No presente, os sinais do favor de Deus eram decididamente 
escassos; a histria do povo apontava antes para seu desfavor. Os povos primitivos costumavam depor seus deuses ou at mesmo castig-los, se deixavam de cumprir 
seu dever de assegurar-lhes vitria, felicidade e conforto. Em todos os perodos, os reis no foram tratados de modo diferente dos deuses; uma antiga identidade 
assim se revela: uma origem a partir de uma raiz comum. Assim, tambm os povos modernos tm o hbito de expulsar seus reis se a glria do reinado deles  conspurcada 
por derrotas e as perdas correspondentes em territrio e dinheiro. Por que o povo de Israel, contudo, apegou-se cada vez mais submissamente a seu Deus quanto pior 
era tratado por este,  um problema que, por ora, temos de deixar de lado.
         Esse problema pode incentivar-nos a indagar se a religio de Moiss trouxe ao povo algo mais alm de uma acentuao de sua auto-estima, devida  sua conscincia 
de ter sido escolhido. E, na verdade, outro fator pode ser facilmente encontrado. Essa religio trouxe tambm aos judeus uma concepo muito mais grandiosa de Deus, 
ou, como poderamos dizer mais modestamente, a concepo de um Deus mais grandioso. Todo aquele que acreditasse nesse Deus possua algum tipo de parte em sua grandeza, 
ele prprio poderia sentir-se exalado. Para um descrente, isso no  inteiramente auto-evidente, mas talvez possamos torn-lo mais fcil de compreender se apontarmos 
para o senso de superioridade sentido por um britnico num pasestrangeiro que se tornou inseguro devido a uma insurreio - sentimento completamente ausente no 
cidado de qualquer pequeno Estado continental. Pois o britnico conta o fato de que seu Government enviar um navio de guerra se um s dos cabelos de sua cabea 
for tocado, e que os rebeldes compreendem isso muito bem - ao passo que o pequeno Estado no possui navio de guerra algum. Assim, o orgulho da grandeza do British 
Empire tem raiz tambm na conscincia da maior segurana - da proteo - desfrutada pelo indivduo britnico. Isso pode assemelhar-se  concepo de um Deus grandioso. 
E, visto que mal se pode ter o direito de auxiliar Deus na administrao do mundo, o orgulho da grandeza de Deus se funde com o orgulho de ser escolhido por ele.
         Entre os preceitos da religio de Moiss h um que  de importncia maior do que parece inicialmente. Trata-se da proibio contra fabricar uma imagem de 
Deus - a compulso a adorar um Deus que no se pode ver. Nisso, suspeito eu, Moiss excedia a rigidez da religio de Aten. Talvez ele simplesmente quisesse ser coerente: 
seu Deus, nesse caso, no teria nome nem semblante. Talvez fosse uma nova medida contra abusos mgicos. Mas, se essa proibio fosse aceita, deveria ter um efeito 
profundo, pois significava que uma percepo sensria recebia um lugar secundrio quanto ao que poderia ser chamado de idia abstrata - um triunfo da intelectualidade 
sobre a sensualidade, ou, estritamente falando, uma renncia instintual, com todas as suas seqncias psicolgicas necessrias.
         Isso pode no parecer bvio  primeira vista, e, antes que possa proporcionar convico, temos de recordar outros processos do mesmo carter no desenvolvimento 
da civilizao humana. O mais antigo desses, e talvez o mais importante, est fundido  obscuridade das eras primevas. Seus assombrosos efeitos compelem-nos a asseverar 
sua ocorrncia. Em nossos filhos, em adultos que so neurticos, bem como em povos primitivos, deparamo-nos com o fenmeno mental que descrevemos como sendo uma 
crena na 'onipotncia de pensamentos'. Em nosso juzo, esse fenmeno reside numa superestimao da influncia que nossos atos mentais (nesse caso, intelectuais) 
podem exercer na alterao do mundo externo. No fundo, toda a magia, precursora de nossa tecnologia, repousa nessa premissa. Tambm toda amagia das palavras encontra 
aqui seu lugar, e a convico do poder ligado ao conhecimento e  pronncia de um nome. A 'onipotncia de pensamentos' foi, supomos ns, expresso do orgulho da 
humanidade no desenvolvimento da fala, que resultou em to extraordinrio avano das atividades intelectuais. Escancarou-se o novo reino da intelectualidade, no 
qual idias, lembranas e inferncias se tornaram decisivas, em contraste com a atividade psquica inferior que tinha como seu contedo as percepes diretas pelos 
rgos sensrios. Esse foi, indiscutivelmente, um dos mais importantes estdios no caminho da hominizao ver em [[1]].
         Podemos muito mais facilmente apreender outro processo, de data posterior. Sob a influncia de fatores externos nos quais no precisamos ingressar aqui 
e que tambm, em parte, so insuficientemente conhecidos, aconteceu que a ordem social matriarcal foi sucedida pela patriarcal, o que, naturalmente, acarretou uma 
revoluo nas condies jurdicas at ento predominantes. Um eco dessa revoluo parece ainda ser audvel na Orstia, de squilo. Mas esse afastamento da me para 
o pai aponta, alm disso, para uma vitria da intelectualidade sobre a sensualidade - isto , para um avano em civilizao, j que a maternidade  provada pela 
evidncia dos sentidos, ao passo que a paternidade  uma hiptese, baseada numa inferncia e numa premissa. Tomar partido, dessa maneira, por um processo de pensamento, 
de preferncia a uma percepo sensria, provou ser um passo momentoso.
         Em algum lugar entre os dois acontecimentos que mencionei, ocorreu outro que apresenta a mxima afinidade com o que estamos investigando na histria da 
religio. Os seres humanos viram-se obrigados, em geral, a reconhecer as foras 'intelectuais [geistige]', isto , foras que no podem ser apreendidas pelos sentidos 
(particularmente pela vista), mas que no obstante produzem efeitos indubitveis e, na verdade, extremamente poderosos. Se nos apoiarmos na prova da linguagem, foi 
o movimento do ar que proporcionou o prottipo da intelectualidade [Geistigkeit], pois o intelecto [Geist] deriva seu nome de um sopro de vento - 'animus', 'spiritus', 
e o hebraico 'ruach (flego)'. Isso conduziu tambm descoberta da mente [Seele (alma)] como o princpio intelectual [geistigen] nos seres individuais. A observao 
encontrou o movimento do ar mais uma vez na respirao dos homens, que cessa quando eles morrem. At o dia de hoje, um homem moribundo 'exala o esprito [Selle]'. 
Agora, contudo, o mundo dos espritos [Geisterreich] jaz aberto aos homens. Eles estavam preparados para atribuir a alma [Seele] que tinham descoberto em si prprios 
a tudo na Natureza. O mundo inteiro era animado [beseelt], e a cincia, que surgiu to mais tarde, muito teve de fazer para mais uma vez despir parte do mundo de 
sua alma; na verdade, mesmo nos dias de hoje, ela no completou essa tarefa.
         A proibio mosaica elevou Deus a um grau superior de intelectualidade; abriu-se ento o caminho para novas alteraes na idia de Deus, as quais ainda 
temos de descrever. Mas podemos considerar primeiro outro efeito da proibio. Todos os avanos em intelectualidade desse tipo tm, como conseqncia, o aumento 
da auto-estima do indivduo, tornando-o orgulhoso, de maneira que se sente superior a outras pessoas que permaneceram sob o encantamento da sensualidade. Moiss, 
como sabemos, transmitiu aos judeus um exaltado sentimento de serem um povo escolhido. A desmaterializao de Deus trouxe uma nova e valiosa contribuio para o 
secreto tesouro desse povo. O infortnio poltico da nao ensinou-o a apreciar em seu justo valor a nica possesso que lhe restou - sua literatura. Imediatamente 
aps a destruio do Templo em Jerusalm por Tito, o rabino Jochanan ben Zakkai solicitou permisso para abrir a primeira escola de Tor em Jabn. Dessa poca em 
diante, a Escritura Sagrada e o interesse intelectual por ela mantiveram reunido o povo dispersado.
         Tudo isso  geralmente sabido e aceito. Tudo o que eu quis fazer foi acrescentar que esse desenvolvimento caracterstico da natureza judaica foi introduzido 
pela proibio mosaica contra adorar a Deus numa forma visvel.
         A permanncia concedida aos labores intelectuais atravs de cerca de dois mil anos na vida do povo judeu teve, naturalmente, seu efeito. Ela ajudou a controlar 
a brutalidade e a tendncia  violncia, aptas a aparecer onde odesenvolvimento da fora muscular constitui o ideal popular. A harmonia no cultivo da atividade intelectual 
e fsica, tal como alcanada pelo povo grego, foi negada aos judeus. Nessa dicotomia, a deciso deles foi pelo menos a favor da alternativa mais digna.
         
         D - A RENNCIA AO INSTINTO
         
         No  bvio nem imediatamente compreensvel por que um avano em intelectualidade, um retrocesso da sensualidade, deva elevar a autoconsiderao tanto de 
um indivduo quanto de um povo. Esse avano parece pressupor a existncia de um padro definido de valor e de alguma outra pessoa ou instncia que o sustente. Para 
uma explicao, voltemo-nos para um caso anlogo na psicologia individual, caso que chegamos a compreender.
         Se o id de um ser humano d origem a uma exigncia instintual de natureza agressiva ou ertica, o mais simples e natural  que o ego, que tem o aparelho 
de pensamento e o aparelho muscular  sua disposio, satisfaa a exigncia atravs de uma ao. Essa satisfao do instinto  sentida pelo ego como prazer, tal 
como sua no satisfao indubitavelmente se tornaria fonte de desprazer. Ora, pode surgir um caso em que o ego se abstenha de satisfazer o instinto, por causa de 
obstculos externos, a saber, se percebesse que a ao em apreo provocaria um srio perigo ao ego. Uma absteno da satisfao desse tipo, a renncia a um instinto 
por causa de um obstculo externo - ou, como podemos dizer, em obedincia ao princpio da realidade -, no  agradvel em caso algum. A renncia ao instinto conduziria 
a uma tenso duradoura, devida ao desprazer, se no fosse possvel reduzir a intensidade do prprio instinto mediante deslocamentos de energia. A renncia instintual, 
contudo, pode tambm ser imposta por outras razes, as quais corretamente descrevemos como internas. No curso do desenvolvimento de um indivduo, uma parte das foras 
inibidoras do mundo externo  internalizada e constri-se no ego uma instncia que confronta o restante do ego num sentido observador, crtico e proibidor. Chamamos 
essa nova instncia de superego. Doravante o ego, antes de colocar em funcionamento as satisfaes instintuais exigidas pelo id, tem de levar em conta no simplesmente 
os perigos do mundo externo, mas tambm as objees do superego, e ter ainda mais fundamentos para abster-se de satisfazer o instinto. Mas onde a renncia instintual, 
quando se d por razes externas,  apenas desprazerosa, quando ela se deve a razes internas, em obedincia ao superego, ela tem um efeito econmico diferente. 
Em acrscimo s inevitveis conseqncias desprazerosas, ela tambm traz ao ego um rendimento de prazer - uma satisfao substitutiva, por assim dizer. O ego se 
sente elevado; orgulha-se da renncia instintual, como se ela constitusse uma realizao de valor. Acreditamos quepodemos entender o mecanismo desse rendimento 
de prazer. O superego  o sucessor e o representante dos pais (e educadores) do indivduo, que lhe supervisionaram as aes no primeiro perodo de sua vida; ele 
continua as funes deles quase sem mudana. Mantm o ego num permanente estado de dependncia e exerce presso constante sobre ele. Tal como na infncia, o ego 
fica apreensivo em pr em risco o amor de seu senhor supremo; sente sua aprovao como libertao e satisfao, e suas censuras como tormentos de conscincia. Quando 
o ego traz ao superego o sacrifcio de uma renncia instintual, ele espera ser recompensado recebendo mais amor deste ltimo. A conscincia de merecer esse amor 
 sentida por ele como orgulho. Na poca em que a autoridade ainda no fora internalizada como superego, poderia ter havido a mesma relao entre a ameaa de perda 
do amor e as reivindicaes do instinto; havia um sentimento de segurana e satisfao quando se conseguia uma renncia instintual por amor ao pas. Mas esse sentimento 
feliz s poderia assumir o peculiar carter narcsico de orgulho depois que a prpria autoridade se tivesse tornado parte do ego.
         Que auxlio essa explicao da satisfao que surge da renncia instintual nos d no sentido de compreendermos os processos que desejamos estudar - a elevao 
da autoconsiderao quando existem avanos em intelectualidade? Muito pouco, parece. As circunstncias so inteiramente diferentes. No se trata de qualquer renncia 
instintual e no existe segunda pessoa alguma ou instncia por cujo amor o sacrifcio  feito. Logo sentiremos dvidas sobre essa ltima assero. Pode-se dizer 
que o grande homem  exatamente a autoridade por cujo amor a realizao  levada a cabo; e, visto que o prprio grande homem opera por virtude de sua semelhana 
com o pai, no h necessidade de sentir surpresa se, na psicologia de grupo, o papel de superego cabe a ele. Desse modo, isso tambm se aplicaria ao homem Moiss 
em relao ao povo judeu. Com referncia ao outro ponto, contudo, nenhuma analogia pode ser estabelecida. Um avano em intelectualidade consiste em decidir contra 
a percepo sensria direta, em favor do que  conhecido como processos intelectuais superiores - isto , lembranas, reflexes e inferncias. Consiste, por exemplo, 
em decidir que a paternidade  mais importante do que a maternidade, embora no possa, como esta ltima, ser estabelecida pela prova dos sentidos, e que, por essa 
razo, a criana deve usar o nome do pai e ser herdeira dele. Ou declara que nosso Deus  o maior e o mais poderoso, embora seja invisvel como uma rajada de vento 
ou como a alma. A rejeio de uma exigncia instintual sexual ou agressiva parece ser algo inteiramente diferente disso. Ademais, no caso de alguns avanos em intelectualidade 
- no caso da vitria do patriarcado, por exemplo -, nopodemos apontar a autoridade que estabelece o padro que deve ser considerado superior. Nesse caso, no pode 
ser o pai, visto que ele s  elevado a autoridade pelo prprio avano. Somos assim defrontados pelo fenmeno de que, no curso do desenvolvimento da humanidade, 
a sensualidade  gradativamente superada pela intelectualidade e que os homens se sentem orgulhosos e exalados por cada avano desse tipo. Contudo, somos incapazes 
de dizer por que isso deve ser assim. Acontece ainda, posteriormente, que a prpria intelectualidade  superada pelo fenmeno emocional bastante enigmtico da f. 
Aqui, temos o famoso 'credo quia absurdum', e, mais uma vez, todo aquele que tenha alcanado xito nisso encara-o como uma realizao suprema. Talvez o elemento 
comum em todas essas situaes psicolgicas seja outra coisa. Talvez os homens simplesmente afirmem que aquilo que  mais difcil  superior, e seu orgulho seja 
meramente seu narcisismo aumentado pela conscincia de uma dificuldade vencida.
         Essas certamente no so consideraes muito frutferas, e poder-se-ia pensar que nada tm que ver, de modo algum, com nossa investigao a respeito do 
que determinou o carter do povo judeu. Isso s nos seria proveitoso, mas uma certa vinculao com nosso problema  no obstante revelada por um fato que posteriormente 
nos interessar ainda mais. A religio que comeou com a proibio de fabricar uma imagem de Deus transforma-se cada vez mais, no decurso dos sculos, numa religio 
de renncias instintuais. No  que ela exija abstinncia sexual; contenta-se com uma acentuada restrio da liberdade sexual. Deus, contudo, afasta-se inteiramente 
da sexualidade e eleva-se para o ideal de perfeio tica. Mas a tica  uma limitao do instinto. Os profetas nunca se cansaram de asseverar que Deus nada exige 
de seu povo seno uma conduta de vida justa e virtuosa - isto , absteno de toda satisfao instintual, que ainda  condenada como impura tambm por nossa mortalidade 
atual. E mesmo a exigncia de crena nele parece ficar em segundo lugar, em comparao com a seriedade desses requisitos ticos. Dessa maneira, a renncia instintual 
parece desempenhar um papel preeminente na religio, mesmo que no se tivesse salientado nela desde o incio.
         Aqui  o lugar, contudo, para uma interpelao, a fim de evitar um mal-entendido. Ainda que possa parecer que a renncia instintual e a tica nela fundada 
no faam parte do contedo essencial da religio, geneticamente, contudo, elas esto bastante intimamente vinculadas  religio.O totemismo, a forma mais primitiva 
de religio que identificamos, traz consigo, como constituintes indispensveis de seu sistema, uma srie de ordens e proibies que no possuem outra significao, 
naturalmente, que a de renncias instintuais: a adorao do totem, que inclui uma proibio contra danific-lo ou mat-lo; a exogamia - isto , a renncia s apaixonadamente 
desejadas mes e irms da horda -, a concesso de direitos iguais a todos os membros da aliana fraterna - isto , a restrio da inclinao para a rivalidade violenta 
entre eles. Nesses regulamentos, devem ser visto os primrdios de uma ordem moral e social. No nos escapa que dois motivos diferentes esto em ao aqui. As duas 
primeiras proibies operam do lado do pai, que foi eliminado: do continuidade a sua vontade, por assim dizer. A terceira ordem - a concesso de direitos iguais 
aos irmos aliados - despreza essa vontade; justifica-se por um apelo  necessidade de manter permanentemente a nova ordem que sucedeu ao afastamento do pai, pois, 
de outra maneira, uma recada no estado anterior se tornaria inevitvel.  aqui que as ordens sociais divergem das outras, as quais, como poderamos dizer, se derivam 
diretamente de vinculaes religiosas.
         A parte essencial desse curso de acontecimentos repete-se no desenvolvimento abreviado do indivduo humano. Tambm aqui  autoridade dos pais da criana 
- essencialmente, a de seu pai autocrtico, a amea-la com seu poder de punir - que lhe exige uma renncia ao instinto e que por ela decide o que lhe deve ser concedido 
e proibido. Mais tarde, quando a Sociedade e o superego assumiram o lugar dos pais, o que na criana era chamado de 'bem-comportado' ou 'travesso',  descrito como 
'bom' e 'mau', ou 'virtuoso' e 'vicioso'. Mas ainda  sempre a mesma coisa - renncia instintual sob a presso da autoridade que substitui e prolonga o pai.
         Uma nova profundidade  adicionada a essas descobertas quando examinamos o notvel conceito de santidade. O que  que realmente nos parece 'santo' de preferncia 
a outras coisas que valorizamos altamente e reconhecemos como importantes? Por um lado, a vinculao de santidade ousacralidade com o religioso  inequvoca. Nela 
se insiste enfaticamente: tudo que  religioso  sagrado, ela  o prprio cerne da sacralidade. Por outro lado, nosso julgamento  perturbado pelas numerosas tentativas 
de aplicar as caractersticas de sacralidade a tantas outras coisas - pessoas, instituies, funes - que pouco tm que ver com a religio. Esses esforos servem 
a propsito bvios e tendenciosos. Comecemos pelo carter proibitivo que est to firmemente ligado  sacralidade. O sagrado  obviamente algo em que no se pode 
tocar. Uma proibio sagrada possui um tom emocional muito forte, mas, na realidade, nenhuma base racional. Por que, por exemplo, deveria o incesto com uma filha 
ou irm ser um crime to especialmente grave - to pior de que qualquer outra relao sexual? Se pedirmos uma base racional, certamente nos ser dito que todos os 
nossos sentimentos se revoltam contra isso. Mas isso apenas significa que as pessoas encaram a proibio como auto-evidente e no conhecem base alguma para ela.
          bastante fcil demonstrar a futilidade de tal explicao. O que  representado como insultante a nossos mais sagrados sentimentos constitua costume universal 
- poderamos cham-lo de um uso tornado sagrado - entre as famlias dominantes dos antigos egpcios e de outros povos primitivos. Era aceito como coisa natural que 
o fara tomasse a irm como sua primeira e principal esposa, e os sucessores dos faras, os Ptolomeus gregos, no hesitaram em seguir esse modelo. Somos compelidos, 
antes, a uma compreenso de que o incesto - nesse caso, entre irmo e irm - constitua um privilgio retirado dos mortais comuns e reservado aos reis como representantes 
dos deuses, tal como, semelhantemente, nenhuma objeo se fazia a relaes incestuosas dessa espcie no mundo das lendas grega e germnica. Pode-se suspeitar de 
que a escrupulosa insistncia sobre a igualdade de nascimento entre nossa aristocracia  uma relquia sobre esse antigo privilgio, e pode-se estabelecer que, em 
resultado do cruzamento consangneo praticado durante tantas geraes nos estratos sociais mais elevados, a Europa  hoje governada por membros de uma nica famlia 
e de uma segunda.
         A evidncia do incesto entre deuses, reis e heris ajuda-nos tambm a lidar com outra tentativa, que busca explicar biologicamente o horror ao incesto e 
faz-lo remontar a um obscuro conhecimento dos danos causados pelo cruzamento consangneo. Sequer  certo, entretanto, que exista algumperigo de danos por causa 
desse cruzamento, quanto mais dizer que povos primitivos pudessem t-lo identificado e contra ele reagido. Do mesmo modo, a incerteza na definio dos graus permitidos 
e proibidos de parentesco pouco argumenta em favor da hiptese de que um 'sentimento natural' constitui a base suprema do horror ao incesto.
         Nossa construo da pr-histria nos fora a outra explicao. A ordem em favor da exogamia, da qual o horror ao incesto  a expresso negativa, era um 
produto da vontade do pai e deu continuidade a essa vontade depois que ele foi afastado. Da provm a fora de seu tom emocional e a impossibilidade de descobrir 
uma base racional para ela - isto , sua sacralidade. Confiantemente esperamos que uma investigao de todos os outros casos de proibio sagrada conduza  mesma 
concluso que  do horror ao incesto: que aquilo que  sagrado originalmente nada mais era do que o prolongamento da vontade do pai primevo. Isso tambm lanaria 
luz sobre a ambivalncia at aqui incompreensvel das palavras que expressam o conceito de sacralidade. Trata-se da ambivalncia que em geral domina a relao com 
o pai. [O latim] 'sacer' significa no apenas 'sagrado', 'consagrado', mas tambm algo que s podemos traduzir por 'infame', 'detestvel', (e.g., 'auri sacra fames').
          Mas a vontade do pai no era apenas algo que no podia ser tocado, que se tinha de ter em elevado respeito, mas tambm algo perante o que se tremia, por 
exigir uma penosa renncia instintual. Quando ouvimos que Moiss tornou santo seu povo,ver em [[1]],pela introduo do costume da circunciso, compreendemos o significado 
profundo dessa assero. A circunciso  o substituto simblico da castrao que o pai primevo outrora infligira aos filhos na plenitude de seu poder absoluto, e 
todo aquele que aceitava esse smbolo demonstrava atravs disso que estava preparado para submeter-se  vontade do pai, mesmo que esta lhe impusesse o mais penoso 
sacrifcio.
         Retornando  tica, podemos dizer, em concluso, que uma parte de seus preceitos se justifica racionalmente pela necessidade de delimitar os direitos da 
sociedade contra o indivduo, os direitos do indivduo contra a sociedade, e os dos indivduos uns contra os outros. Mas o que nos parece to grandioso a respeito 
da tica, to misterioso e, de modo mstico, to auto-evidente, deve essas caractersticas  sua vinculao com a religio,  sua origem na vontade do pai.
         
         E - O QUE  VERDADEIRO EM RELIGIO
         
         Quo invejveis, para aqueles de ns que so pobres de f, parecem ser aqueles investigadores que esto convencidos da existncia de um Ser Supremo! Para 
esse grande Esprito, o mundo no oferece problemas, pois ele prprio criou todas as suas instituies. Quo amplas, exaustivas e definitivas so as doutrinas dos 
crentes, comparadas com as laboriosas, insignificantes e fragmentrias tentativas de explicao que constituem o mximo que somos capazes de conseguir! O Esprito 
divino, que , ele prprio, ideal da perfeio tica, plantou nos homens o conhecimento desse ideal e, ao mesmo tempo, o impulso a assemelhar suas prprias naturezas 
a ele. Eles percebem diretamente o que  superior e mais nobre e o que  inferior e mais vil. Sua vida afetiva se regula de acordo com sua distncia do ideal, em 
qualquer momento. Quando dele se aproximam - em seu perilio, por assim dizer -, -lhes trazida alta satisfao; quando, em seu aflio, se tornam distantes dele, 
a punio  o severo desprazer. Tudo isso  estabelecido to simples e inabalavelmente. S podemos lamentar que certas experincias da vida e observaes do mundo 
nos tornem impossvel aceitar a premissa da existncia de tal Ser Supremo. Como se no mundo j no houvesse enigmas suficientes, -nos proposto o novo problema de 
compreender como essas outras pessoas puderam adquirir sua crena no Ser Divino de onde essa crena obteve seu imenso poder, que esmaga 'a razo e a cincia'.
         Retornemos ao problema mais modesto que nos ocupou at aqui. Desejvamos explicar a origem do carter especial do povo judeu, carter que provavelmente 
tornou possvel sua sobrevivncia at os dias presentes. Descobrimos que o homem Moiss imprimiu nesse povo esse carter dando-lhes uma religio que aumentou tanto 
sua auto-estima que ele se julgou superior a todos os outros povos. Depois disso, sobreviveram mantendo-se apartados dos outros. Misturas de sangue pouco interferiram 
nisso, visto que o que os mantinha unidos era um fator ideal, a posse em comum de certa riqueza intelectual e emocional. A religio de Moiss conduziu a esse resultado 
porque (1) permitiu ao povo participar da grandiosidade de uma nova idia de Deus, (2) afirmou que esse povo fora escolhido por esse grandeDeus e destinado a receber 
provas de seu favor especial, e (3) imps ao povo um avano em intelectualidade que, bastante importante em si mesmo, lhe abriu o caminho, em acrscimo,  apreciao 
do trabalho intelectual e a novas renncias aos instintos.
         Foi a isso que chegamos. E, embora no queiramos retirar nada, no podemos esconder de ns que, de uma ou outra maneira,  insatisfatrio. A causa, por 
assim dizer, no combina com o efeito; o fato que desejamos explicar parece-nos ser de magnitude diferente de tudo pelo qual o explicamos. Talvez todas as investigaes 
que at aqui fizemos no tenham revelado a totalidade da motivao, mas apenas certa camada superficial, e talvez, por trs desta, outro fator muito importante aguarde 
a descoberta? Em vista da extraordinria complexidade de toda a causao na vida e na histria, algo dessa espcie era de esperar.
         O acesso a essa motivao mais profunda pareceria ter sido fornecido num ponto especfico dos debates anteriores. A religio de Moiss no produziu seus 
efeitos de imediato, mas de modo notavelmente indireto. Isso no quer dizer simplesmente que ela no funcionou logo em seguida, que levou longos perodos de tempo, 
centenas de anos, para desdobrar todo o seu efeito, pois isso  auto-evidente quando se trata de imprimir o carter de um povo. A restrio, porm, relaciona-se 
a um fato que derivamos da histria da religio judaica, ou, se quiserem, nela introduzimos. Dissemos que, aps certo tempo, o povo judeu rejeitou a religio de 
Moiss mais uma vez; se o fez completamente ou se reteve alguns de seus preceitos  coisa que no podemos adivinhar. Se supusermos que, no longo perodo da tomada 
de Cana e da luta com os povos que a habitavam, a religio de Jav no diferiu essencialmente da adorao de outros Baalim,ver em[[1]],encontrar-nos-emos em terreno 
histrico, apesar de todos os tendenciosos esforos posteriores para lanar um vu sobre esse envergonhante estado de coisas.
         A religio de Moiss, contudo, no desapareceu sem deixar trao. Uma espcie de lembrana sua sobreviveu, obscurecida e deformada, apoiada, talvez, entre 
membros individuais da classe sacerdotal, mediante antigos registros. E foi essa tradio de um grande passado que continuou a operar em segundo plano, por assim 
dizer, que gradativamente conquistou cada vez mais poder sobre as mentes dos homens, e finalmente conseguiu transformar o deus Jav no Deus de Moiss e chamar de 
volta  vida a religio de Moiss, que se estabelecera e fora depois abandonada, muitos sculos antes.
         Numa parte anterior deste Estudo [ver em[1]], consideramos qual presuno parecer inevitvel se quisermos achar compreensvel esse feito da tradio.
         
         F - O RETORNO DO REPRIMIDO
         
         H uma quantidade de processos semelhantes entre os que a investigao analtica da vida mental nos ensinou a conhecer. Alguns deles so descritos como 
patolgicos; outros se contam entre a diversidade dos acontecimentos normais. Mas isso pouco importa, j que as fronteiras entre os dois [os patolgicos e os normais] 
no esto nitidamente traadas, seus mecanismos so em grande parte os mesmos, sendo de muito maior importncia saber se as alteraes em apreo se realizam no prprio 
ego ou se confrontam com ele como estranhas a ele - caso em que so conhecidas como sintomas.
         Da massa de material, apresentarei primeiramente alguns casos que se relacionam com o desenvolvimento do carter. Tome-se, por exemplo, a moa que atingiu 
um estado da mais decidida oposio  me. Ela cultivou todas aquelas caractersticas que percebeu faltarem  me, e evitou tudo que a lembrasse da mesma. Podemos 
suplementar isso, dizendo que, em seus primeiros anos, como toda criana do sexo feminino, adotou uma identificao com a me e agora se rebela energicamente contra 
ela. Mas quando essa moa se casa e se torna, ela prpria, esposa e me, no precisamos surpreender-nos por descobrir que ela comea a ficar cada vez mais parecida 
com a me a quem tanto antagonizou, at que finalmente a identificao com esta, identificao que ela supera,  inequivocamente restabelecida. O mesmo tambm acontece 
com os rapazes; inclusive o grande Goethe, que, no perodo de seu gnio, decerto olhava com desprezo para seu inflexvel e pedante pai, em sua velhice desenvolveu 
traos que faziam parte do carter deste. O resultado pode tornar-se ainda mais notvel quando o contraste entre as duas personalidades  mais ntido. Um jovem cujo 
destino foi crescer ao lado de um pai intil, comeou por transformar-se, em desafio a ele, numa pessoa capaz, digna de confiana e honrada. No apogeu da vida, seu 
carter se inverteu, e da por diante comportou-se como se tivesse tomado aquele mesmo pai como modelo. A fim de no perdermos a vinculao com nosso tema, devemos 
manter em mente o fato de que, no incio de tal curso de acontecimentos, h sempre uma identificao com o pai na primeira infncia. Esta  posteriormente repudiada 
e at mesmo supercompensada, mas, ao final, mais uma vez se estabelece.
         H muito tempo  do conhecimento comum que as experincias dos cinco primeiros anos de uma pessoa exercem efeito determinante sobre suavida, efeito que 
mais tarde pode enfrentar. Muita coisa que merece ser sabida poderia ser dita sobre a maneira como essas impresses precoces se mantm contra quaisquer influncias 
em perodos mais maduros da vida - mas isso no seria pertinente aqui. Contudo, pode ser menos conhecido que a influncia compulsiva mais forte surge de impresses 
que incidem na criana numa poca em que teramos de encarar seu aparelho psquico como ainda no completamente receptivo. O fato, em si, no pode ser posto em dvida, 
mas  to enigmtico que podemos torn-lo mais compreensvel comparando-o a uma exposio fotogrfica que pode ser revelada aps qualquer intervalo de tempo e transformada 
num retrato. No obstante, fico contente em indicar que essa nossa incmoda descoberta foi antecipada por um escritor imaginativo, com a audcia que  permitida 
aos poetas. E.T.A. Hoffmann costumava fazer remontar a riqueza das figuras que se lhe punham  disposio para seus escritos criativos a imagens e impresses mutantes 
que experimentara durante uma viagem de algumas semanas, numa carruagem de correio, quando ainda era um beb ao seio da me. O que as crianas experimentaram na 
idade de dois anos e no compreenderam, nunca precisa ser recordado por elas, exceto em sonhos; elas s podem vir a saber disso atravs do tratamento psicanaltico. 
Em alguma poca posterior, entretanto, isso irromper em sua vida com impulsos obsessivos, governar suas aes, decidir de suas simpatias e antipatias e, com muita 
freqncia, determinar sua escolha de um objeto amoroso, para a qual quase sempre  impossvel encontrar uma base racional. No podemos enganar-nos sobre os dois 
pontos em que esses fatos fazem aflorar nosso problema.
         Em primeiro lugar, h a distncia do perodo em apreo, que  reconhecido aqui como o verdadeiro determinante - no estado especial da lembrana que, por 
exemplo, no caso dessas experincias infantis, classificamos de 'inconsciente'. Esperamos encontrar nisso uma analogia com o estado que estamos procurando atribuir 
 tradio na vida mental do povo. No foi fcil, com efeito, introduzir a idia do inconsciente na psicologia de grupo.
         [Em segundo lugar], contribuies regulares so feitas aos fenmenos de que estamos  procura pelos mecanismos que levam  formao dasneuroses. Aqui, mais 
uma vez, os acontecimentos determinantes ocorrem nas primeiras pocas infantis; s que o acento no se coloca sobre o tempo mas sobre os processos pelos quais o 
acontecimento  enfrentado, pela reao a ele. Esquematicamente, podemos descrev-lo da seguinte maneira. Em resultado da experincia, surge uma experincia instintual 
que reclama satisfao. O ego recusa essa satisfao, seja porque est paralisado pela magnitude da exigncia, seja porque a reconhece como um perigo. O primeiro 
desses fundamentos  o mais primrio; ambos equivalem  evitao de uma situao de perigo. O ego desvia o perigo pelo processo da represso. O impulso instintual 
, de alguma maneira, inibido, e esquecida sua causa precipitante, com suas percepes e idias concomitantes. Isso, contudo, no constitui o fim do processo: o 
instinto ou reteve suas foras ou as rene novamente ou  redespertado por alguma nova causa precipitante. Logo aps, ele renova sua exigncia, e, como o caminho 
 satisfao normal lhe permanece fechado pelo que podemos chamar de cicatriz da represso, alhures, em algum ponto fraco, ele abre para si outro caminho ao que 
 conhecido como satisfao substitutiva, que vem  luz como sintoma, sem a aquiescncia do ego, mas tambm sem sua compreenso. Todos os fenmenos da formao de 
sintomas podem ser justamente descritos como o 'retorno do reprimido'. Sua caracterstica distintiva, contudo,  a deformao, de grandes conseqncias, a qual o 
material que retorna foi submetido, quando comparado com o original. Pensar-se- talvez que esse ltimo grupo de fatos nos levou para muito longe da semelhana com 
a tradio, mas no devemos lamentar se nos trouxe para mais perto dos problemas da renncia ao instinto.
         
         G - VERDADE HISTRICA
         
         Empreendemos todos esses desvios psicolgicos a fim de tornar mais crvel para ns que a religio de Moiss s transmitiu seu efeito ao povo judeu como 
uma tradio.  provvel que no tenhamos conseguido mais do que um certo grau de probabilidade. Suponhamos, contudo, que tivemos xito em provar isso completamente. 
Ainda assim permaneceria a impresso de que simplesmente satisfizemos o fator qualitativo do que foi exigido, mas no o fator quantitativo. H um elemento de grandiosidade 
a respeito de tudo o que se relaciona  origem da religio, decerto inclusive  da judaica, e esse elemento no foi igualado pelas explicaes que at aqui fornecemos. 
Deve estar envolvido algum outro fator, com o qual h pouco que seja anlogo e nada que seja da mesma espcie, algo nico, algo da mesma ordem de magnitude do que 
dele surgiu, como a prpria religio.Ver em [[1]]
         Tentemos abordar o assunto a partir da direo oposta. Compreendemos como um homem primitivo tem necessidade de um deus como criador do universo, como chefe 
de seu cl, como protetor pessoal. Esse deus assume posio por trs dos pais mortos [do cl], a respeito de quem a tradio ainda tem algo a dizer. Um homem de 
dias posteriores, de nossos prprios dias, comporta-se da mesma maneira. Tambm ele permanece infantil e tem necessidade de proteo, inclusive quando adulto; pensa 
que no pode passar sem o apoio de seu deus. Tudo isso  indiscutvel. Menos fcil, porm,  compreender por que s pode haver um nico deus, por que precisamente 
o avano do henotesmo ao monotesmo adquire uma significncia esmagadora. No h dvida,  verdade, como j explicamos ver em[[1]e[2]],de que o crente participa 
da grandeza de seu deus e, quanto maior este, mais digna de confiana  a proteo que pode oferecer. Mas o poder de um deus no pressupe necessariamente que ele 
seja o nico. Muitos povos encaravam apenas como uma glorificao de seu deus principal que ele governasse outras divindades que lhe eram inferiores, e no pensavam 
que diminusse sua grandeza a existncia de outros deuses alm dele. Indubitavelmente, seesse deus se tornasse universal e tivesse todos os pases e povos como sua 
preocupao, isso significaria um sacrifcio da intimidade, tambm. Era como se se partilhasse o prprio deus com os estrangeiros, e havia que compensar isso pela 
estipulao de se ser preferido por ele. Podemos ainda argumentar que a idia de um nico deus significa, em si prpria, um avano em intelectualidade, mas  impossvel 
considerar esse ponto to altamente.
         Os crentes piedosos, contudo, sabem como preencher adequadamente essa lacuna bvia na motivao. Dizem que a idia de um deus nico produziu um efeito to 
esmagador sobre os homens porque se tratava de uma parte da verdade eterna, a qual, longo tempo oculta, por fim veio  luz, estando ento fadada a conduzir todos 
consigo. Temos de admitir que um fator desse tipo , por fim, algo que iguala a magnitude, tanto do assunto quanto do seu efeito.
         Tambm ns gostaramos de aceitar essa soluo. Mas uma dvida se apresenta a ns. O piedoso argumento repousa numa premissa otimista e idealista. No foi 
possvel demonstrar, em relao a outros assuntos, que o intelecto humano possua um faro particularmente bom para a verdade, ou que a mente humana demonstre qualquer 
inclinao especial para reconhec-la. Encontramos antes, pelo contrrio, que nosso intelecto facilmente se extravia sem qualquer aviso, e que nada  mais facilmente 
acreditado por ns do que aquilo que, sem referncia  verdade, vem ao encontro de nossas iluses carregadas de desejo. Temos, por esta razo, de acrescentar uma 
reserva  nossa concordncia. Ns tambm acreditamos que a soluo piedosa contm a verdade - mas a verdade histrica, no a verdade material. E assumimos o direito 
de corrigir uma certa deformao a que essa verdade foi submetida em seu retorno. Isso equivale a dizer que no acreditamos que exista um nico e grande deus hoje, 
mas que, em tempos primevos, houve uma pessoa isolada que estava fadada a parecer imensa nessa poca e que, posteriormente, retornou na memria dos homens, elevada 
 divindade.
         J presumimos que a religio de Moiss foi, inicialmente, rejeitada e semi-esquecida, irrompendo posteriormente como uma tradio. Estamos agora presumindo 
que esse processo estava sendo repetido pela segunda vez. Quando Moiss trouxe ao povo a idia de um deus nico, ela no constituiu uma novidade, mas significou 
a revivescncia de uma experincia das eras primevas da famlia humana, a qual havia muito tempo se desvanecera na memria consciente dos homens. Mas ela fora to 
importante e produzira ou preparara o caminho para mudanas to profundamente penetrantes na vida dos homens, que no podemos evitar crer que deixara atrs de si, 
na mente humana, alguns traos permanentes, os quais podem ser comparados a uma tradio.Aprendemos das psicanlises de indivduos que suas impresses mais primitivas, 
recebidas numa poca em que a criana mal era capaz de falar, produzem, numa ou noutra ocasio efeitos de um carter compulsivo, sem serem, elas prprias, conscientemente 
recordadas. Acreditamos que temos o direito de fazer a mesma presuno sobre as experincias mais primitivas da totalidade da humanidade. Um desses efeitos seria 
o surgimento da idia de um nico e grande deus - idia que deve ser reconhecida como uma lembrana que foi deformada. Uma idia como essa possui um carter compulsivo: 
ela deve ser acreditada. At o ponto em que  deformada, ela pode ser descrita como um delrio; na medida em que traz um retorno do passado, deve ser chamada de 
verdade. Tambm os delrios psiquitricos contm um pequeno fragmento de verdade e a convico do paciente estende-se dessa verdade para seus invlucros delirantes.
         O que se segue daqui at o fim,  uma repetio ligeiramente modificada dos debates da Parte I [do presente (terceiro) ensaio].
         Em 1912, tentei, em meu Totem e Tabu, reconstruir a antiga situao da qual essas conseqncias decorreram. Assim procedendo, fiz uso de certas idias tericas 
apresentadas por Darwin, Atkinson e, particularmente, Robertson Smith, e combinei-as com os achados e indicaes derivados da psicanlise. De Darwin tomei de emprstimo 
a hiptese de que os seres humanos originalmente viviam em pequenas hordas, cada uma das quais sob o governodesptico de um macho mais velho que se apropriava de 
todas as fmeas e castigava ou se livrava dos machos mais novos, inclusive os filhos. De Atkinson, em continuao dessa descrio, tomei a idia de que esse sistema 
patriarcal terminou por uma rebelio por parte dos filhos, que se reuniram em bando contra o pai, o derrotaram e o devoraram em comum. Baseando-me na teoria totmica 
de Robertson Smith, presumi que, subseqentemente, a horda paterna cedeu lugar ao cl fraterno totmico. A fim de poder viver em paz uns com os outros, os irmos 
vitoriosos renunciaram s mulheres por cuja causa, afinal de contas, haviam matado o pai, e instituram a exogamia. O poder dos pais foi rompido e as famlias se 
organizaram em matriarcado. A atitude emocional ambivalente dos filhos para com o pai permaneceu em vigor durante a totalidade do seu desenvolvimento posterior. 
Um animal especfico foi colocado em lugar do pai, como totem. Era encarado como ancestral e esprito protetor, e no podia ser ferido ou morto. Uma vez por ano, 
toda a comunidade masculina se reunia numa refeio cerimonial, em que o animal totmico (adorado em todas as outras ocasies) era despedaado e devorado em comum. 
Ningum podia ausentar-se dessa refeio: ela era a repetio cerimonial da morte do pai, com a qual a ordem social, as leis morais e a religio haviam iniciado. 
A conformidade entre a refeio totmica de Robertson Smith e a Ceia do Senhor crist impressionara certo nmero de escritores antes de mim.Ver em [ [1][2]].
         At o dia de hoje, atenho-me firmemente a essa construo. Repetidamente defrontei-me com violentas censuras por no ter alterado minhas opinies em edies 
posteriores de meus livros, apesar do fato de etnolgos mais recentes terem unanimemente rejeitado as hipteses de Robertson Smith e em parte apresentado outras 
teorias, totalmente divergentes. Posso dizer em resposta que esses avanos ostensivos me so bem conhecidos. Mas no fui convencido quer da correo dessas inovaes, 
quer dos erros de Robertson Smith. Uma negao no  uma refutao, uma inovao no  necessariamente um avano. Acima de tudo, porm, no sou etnlogo, mas psicanalista. 
Tenho o direito de extrair, da literatura etnolgica, o que possa necessitar para o trabalho de anlise. Os escritos de Robertson Smith - um homem de gnio - forneceram-me 
valiosos pontos de contato com o material psicolgico da anlise e indicaes para seu emprego. Nunca me encontrei em campo comum com seus opositores.
         
         H - O DESENVOLVIMENTO HISTRICO
         
         No posso aqui repetir pormenorizadamente o contedo de Totem e Tabu. Mas tenho de tentar preencher a longa extenso existente entre aquele hipottico perodo 
primevo e a vitria do monotesmo, nos tempos histricos. Aps a instituio da combinao de cl fraterno, matriarcado, exogamia e totemismo, comeou um desenvolvimento 
que deve ser descrito como um lento 'retorno do reprimido'. Aqui, no estou empregando o termo 'o reprimido' em seu sentido prprio. O que est em tela  algo na 
vida de um povo que  passado, perdido de vista, relegado, e que nos aventuramos a comparar com o que  reprimido na vida mental de um indivduo. No podemos,  
primeira vista, dizer sob que forma esse passado existiu durante o tempo de seu eclipse. No nos  fcil transferir os conceitos da psicologia individual para a 
psicologia de grupo, e no acho que ganhemos alguma coisa introduzindo o conceito de um inconsciente 'coletivo'. O contedo do inconsciente, na verdade, , seja 
l como for, uma propriedade universal, coletiva, da humanidade. Por ora, pois, teremos de nos arranjar com o uso de analogias. Os processos da vida dos povos que 
estamos estudando aqui so muito semelhantes queles que nos so familiares na psicopatologia; contudo, no so inteiramente os mesmos. Temos de finalmente decidir-nos 
por adotar a hiptese de que os precipitados psquicos do perodo primevo se tornaram propriedade herdada, a qual, em cada nova gerao, no exigia aquisio, mas 
apenas um redespertar. Nisso, temos em mente o exemplo do que  certamente o simbolismo 'inato' que deriva do perodo do desenvolvimento da fala, familiar a todas 
as crianas sem que elas sejam instrudas, e que  o mesmo entre todos os povos, apesar de suas diferentes lnguas. O que talvez ainda nos possa faltar em certeza 
aqui  compensado por outros produtos da pesquisa psicanaltica. Descobrimos que, em certo nmero de relaes importantes, nossas crianas reagem, no de maneira 
correspondente s suas prprias experincias, mas instintivamente, como animais, de um modo que s  explicvel como aquisio filogentica.O retorno do reprimido 
realizou-se de modo lento e decerto no espontneo, mas sob a influncia de todas as mudanas em condies de vida que preenchem a histria da civilizao humana. 
No posso fornecer aqui um levantamento desses determinantes, no mais do que uma enumerao fragmentria dos estdios desse retorno. O pai mais uma vez tornou-se 
o cabea da famlia, mas de modo algum era to absoluto quanto o pai da horda primeva o fora. O animal totmico foi substitudo por um deus, numa srie de transies 
que ainda so muito claras. Inicialmente, o deus em forma humana ainda portava uma cabea de animal; mais tarde, transformou-se, de preferncia, nesse animal especfico, 
e, posteriormente, este foi consagrado a ele e constituiu-se em seu assistente preferido, ou, ento, o deus matava o animal e portava-lhe o nome, como epteto. Entre 
o animal totmico e o deus, surgiu o heri, amide como passo preliminar no sentido de deificao. A idia de uma divindade suprema parece ter comeado cedo, a princpio 
apenas de maneira indistinta sem interferir nos interesses cotidianos dos homens.  medida que tribos e povos se reuniam em unidades maiores, os deuses tambm se 
organizavam em famlias e hierarquias. Um deles era com freqncia elevado a senhor supremo sobre deuses e homens. Aps isso, deu-se hesitadamente o passo seguinte 
de prestar respeito apenas a um s deus, e, finalmente, tomou-se a deciso de conceder todo poder a um deus nico e de no tolerar outros deuses alm dele. Somente 
assim foi que a supremacia do pai da horda primeva foi restabelecida e as emoes referentes a ele puderam ser repetidas.
         O primeiro efeito de encontrar o ser que por tanto tempo estivera faltando e pelo qual se ansiara foi esmagador e semelhante  descrio tradicional da 
entrega das leis no Monte Sinai. Admirao, temor respeitoso e agradecimento por ter encontrado graa a seus olhos - a religio de Moiss no conhecia outros que 
no fossem esses sentimentos positivos para com o deus pai. A convico de sua irresistibilidade, a submisso  sua vontade no poderiam ter sido mais indiscutidas 
no desamparado e intimidado filho do pai da horda - na verdade, esses sentimentos s se tornaram plenamente inteligveis quando transpostos para o ambiente primitivo 
e infantil. Os impulsos emocionais de uma criana so intensa e inexaurivelmente profundos, num grau inteiramente diferente dos de um adulto; s o xtase religioso 
pode traz-los de volta. O enlevo da devoo a Deus foi assim a primeira reao ao retorno do grande pai.
         A direo a ser tomada por essa religio paterna foi, dessa maneira, estabelecida para todo o tempo. Contudo, isso no levou seu desenvolvimento a um final. 
A ambivalncia faz parte da essncia da relao com o pai: nodecurso do tempo, tambm a hostilidade no podia deixar de despertar, o que mais uma vez impulsionou 
os filhos a matarem seu admirado e temido pai. No havia lugar, na estrutura da religio de Moiss, para uma expresso direta do dio assassino pelo pai. Tudo o 
que podia vir  luz era uma reao poderosa contra ele - um sentimento de culpa por causa dessa hostilidade, uma m conscincia por ter pecado contra Deus e por 
no ter deixado de pecar. Esse sentimento de culpa, que foi ininterruptamente mantido desperto pelos Profetas, e que cedo constituiu parte essencial do sistema religioso, 
possua ainda outra motivao superficial que habilmente disfarava sua verdadeira origem. As coisas estavam indo mal para o povo; as esperanas que repousavam no 
favor de Deus no eram comprimidas; no era fcil manter a iluso, amada acima de tudo o mais, de ser o povo escolhido de Deus. Se queriam evitar renunciar a essa 
felicidade, um sentimento de culpa devido  sua prpria pecaminosidade oferecia um meio bem-vindo de exculpar Deus: no mereciam mais do que serem punidos por ele, 
visto no terem obedecido a seus mandamentos. E, impulsionados pela necessidade de satisfazer esse sentimento de culpa, que era insacivel e provinha de fontes muito 
mais profundas, tinham de fazer com que esses mandamentos se tornassem ainda mais estritos, mais meticulosos e, at mesmo mais triviais. Num novo arroubo de ascetismo 
moral, impuseram-se mais e mais novas renncias instintuais e por essa maneira atingiram - em doutrina e preceito, pelo menos - alturas ticas que permaneceram inacessveis 
aos outros povos da Antiguidade. Muitos judeus consideram essa consecuo de alturas ticas como a segunda caracterstica principal e a segunda grande realizao 
de sua religio. A maneira pela qual ela est vinculada  primeira - a idia de um deus nico - deveria ficar clara a partir de nossas consideraes. Essas idias 
ticas no podem, contudo, renegar sua origem a partir do sentimento de culpa sentido por causa de uma hostilidade recalcada para com Deus. Elas possuem a caracterstica 
- incompleta e incapaz de concluso - de formaes reativas neurticas obsessivas; podemos adivinhar tambm que servem aos propsitos secretos de punio.
         O desenvolvimento ulterior leva-nos para alm do judasmo. O remanescente do que retornou do trgico drama do pai primevo no foi mais reconcilivel, de 
maneira alguma, com a religio de Moiss. O sentimento de culpa daqueles dias estava muito longe de restringir exclusivamente ao povo judeu; apoderara-se de todos 
os povos mediterrneos como um aptico malaise, uma premonio de calamidade para a qual ningum podia sugerir uma razo. Os historiadores de nossos dias falam de 
envelhecimento da antiga civilizao, mas suspeito de que aprenderam apenas causas acidentaise contribuintes desse humor deprimido dos povos. A elucidao dessa 
situao de depresso surgiu do judasmo. Independentemente de todas as aproximaes e preparaes do mundo circunvizinho, foi afinal de contas no esprito de um 
judeu, Saulo de Tarso (que, como cidado romano, chamava-se Paulo), que a compreenso pela primeira vez emergiu: 'a razo por que somos to infelizes  que matamos 
Deus, o pai,' E  inteiramente compreensvel que ele s pudesse apreender esse fragmento de verdade no disfarce delirante da boa notcia: 'estamos libertos de toda 
culpa, uma vez que um de ns sacrificou a vida para absolver-nos.' Nessa frmula, a morte de Deus naturalmente no foi mencionada, mas um crime que tinha de ser 
explicado pelo sacrifcio de uma vtima s poderia ter sido um assassinato. E o passo intermedirio entre o delrio e a verdade histrica foi proporcionado pela 
garantia de que derivou da fonte da verdade histrica, essa nova f derrubou todos os obstculos. O sentimento bem-aventurado de ser escolhido foi substitudo pelo 
sentimento liberador da redeno. Mas o fato do parricdio, retornando  memria da humanidade, teve de superar resistncias maiores do que o outro fato, que constitura 
o tema geral do monotesmo; ele tambm foi obrigado a submeter-se a uma deformao mais poderosa. O crime inominvel foi substitudo pela hiptese do que deve ser 
descrito como um indistinto 'pecado original'.
         O pecado original e a redeno pelo sacrifcio de uma vtima tornaram-se as pedras fundamentais de nova religio fundada por Paulo. Deve permanecer incerto 
se houve um cabea e instigador ao crime entre o bando de irmos que se rebelou contra o pai primevo, ou se tal figura foi criada posteriormente pela imaginao 
de artistas criativos, a fim de se transformarem em heris, tendo sido ento introduzida na tradio. Aps a doutrina crist ter queimado a estrutura do judasmo, 
recolheu componentes de muitas outras fontes, renunciou a uma srie de caractersticas do monotesmo puro e adaptou-se, em muitos pormenores, aos rituais de outros 
povos mediterrneos. Foi como se o Egito mais uma vez se vingasse dos herdeiros de Akhenaten. Vale a pena notar como a nova religio lidou com a antiga ambivalncia 
na relao com o pai. Seu contedo principal foi,  verdade, a reconciliao com o Deus pai, a expiao pelo crime cometido contra ele, mas o outro lado da relao 
emocional mostrava-se no fato de o filho, que tomara a expiao sobre si, tornar-se um deus, ele prprio, ao lado do pai, e, na realidade, em lugar deste.O cristianismo, 
tendo surgido de uma religio paterna, tornou-se uma religio filial. No escapou ao destino de ter de livrar-se do pai.
         Apenas uma parte do povo judeu aceitou a nova doutrina. Aqueles que a recusaram ainda hoje so chamados de judeus. Devido a essa ciso, tornaram-se ainda 
mais nitidamente separados dos outros povos do que antes. Foram obrigados a ouvir a nova comunidade religiosa (que, ao lado de judeus, inclua egpcios, gregos, 
srios, romanos e, por fim, germnicos) censur-los por terem matado Deus. Na ntegra, essa censura diria o seguinte: 'Eles no aceitaro como algo verdadeiro que 
assassinaram Deus, ao passo que ns o admitimos e fomos limpos dessa culpa.'  fcil, portanto, ver quanta verdade reside por trs da censura. Exigir-se-ia uma investigao 
especial para descobrir por que foi impossvel aos judeus reunirem-se nesse passo  frente, que estava implcito, apesar de todas as suas deformaes, pela admisso 
de ter matado Deus. Em certo sentido, eles, dessa maneira, tomaram uma trgica carga de culpa sobre si prprios, e viram-se obrigados a pagar uma pesada penitncia 
por isso.
         Talvez nossa investigao tenha alcanado um pouco de luz sobre a questo de saber como o povo judeu adquiriu as caractersticas que o distinguem. Uma luz 
menor foi lanada sobre o problema de saber como foi que puderam reter sua individualidade at o dia de hoje. Mas respostas exaustivas para tais enigmas no podem, 
com justia, ser pedidas ou esperadas. Uma contribuio, a ser julgada  vista das limitaes que mencionei de incio,ver em[[1]], tudo o que posso oferecer.
         
         











ESBOO DE PSICANLISE (1940 [1938])
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         
         ABRISS DER PSYCHOANALYSE
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1940   Int. Z. Psychoanal. Imago, 25, (1), 7-67.
         1941   G. W., 17, 63-138.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         An Outline of Psychoanalysis
         
1940   Int. J. Psycho-Anal., 21, (1) 27-82. (Trad. de James Strachey.)
  1949   Londres, Hogarth Press e Instituto de Psicanlise. ix + 84 pgs. (Reimpresso revista da acima, em forma de livro.)
         1949        Nova Iorque, Norton, 127 pgs. (Reimpresso da acima.)
         
         A atual  uma verso consideravelmente revista da traduo publicada em 1949.
         
         Quando este trabalho foi publicado pela primeira vez, tanto em alemo quanto em ingls, fez-se acompanhar de dois resumos do pequeno trabalho escrito por 
Freud na mesma poca, "Some Elementary Lessons in Psycho-Analysis" (1940b [1938]). Esses resumos apareceram como nota de rodap no Captulo IV da verso alem e 
como apndice na inglesa. O trabalho do qual foram extrados no resumo foi publicado na ntegra pouco depois (aparece na [1]do vol. XXIII da Standard Edition),e 
a nota de rodap e o apndice foram conseqentemente omitidos das reimpresses subseqentes do presente trabalho.
         Por um descuido lamentvel, o "Prefcio" do autor ver em ([1]) foi omitido da reimpresso das G.W. e, assim, s pode ser encontrado, em alemo, no Zeitschrift. 
Deve-se observar que o Volume XVII das Gesammelte Werke, que foi o primeiro de seus volumes a ser publicado (1941), foi tambm lanado simultaneamente, com pgina 
de rosto e encadernao diferentes, como Schriften aus dem Nachlass. (Trabalhos Pstumos).
         O manuscrito de todo este trabalho acha-se redigido de forma inusitadamente abreviada, sobretudo o terceiro captulo ("O Desenvolvimento da Funo Sexual",ver 
em [1]), em grande parte, muito abreviado, com a omisso, por exemplo, dos artigos definidos e indefinidos e de muitos verbos principais- no que poderia ser descrito 
como um estilo telegrfico. Os coordenadores alemes, segundo nos informam, ampliaram essas abreviaes. O sentido geral no se acha em dvida e, embora a editorao 
seja, em certos pontos, um pouco livre, pareceu mais simples aceit-la e traduzir a verso fornecida pelas Gesammelte Werke.
         A Parte I do trabalho no recebeu ttulo por parte do autor. Os coordenadores alemes adotaram, para esse fim, "Die Natur des Psychischen" ("A Natureza 
do Psquico"), que  subttulo do pequeno trabalho escrito na poca e j citado aqui, "Some Elementary Lessons in Psycho-Analysis" ver em ([1] do Vol. XXIII da Standard 
Edition). Para a presente edio, imaginou-se um ttulo bastante mais geral.
         H uma certa controvrsia quanto  poca em que Freud comeou a escrever o Esboo. Segundo Ernest Jones (1957, 255), "comeou-o durante o tempo de espera 
em Viena" - o que significaria abril ou maio de 1938. O manuscrito, contudo, traz em sua pgina inicial a data de "22 de julho", o que confirma a opinio dos coordenadores 
alemes de que o trabalho foi comeado em julho de 1938, equivale a dizer, logo aps a chegada de Freud a Londres, no incio de junho. No comeo de setembro, ele 
j havia escrito 63 folhas do Esboo, quando teve de interromper o trabalho para submeter-se a uma operao muito sria, e no mais retomou-o, embora tivesse comeado, 
pouco depois, outro trabalho expositivo ("Some Elementary Lessons in Psycho-Analysis"), que logo foi interrompido tambm.
         Assim, o Esboo deve ser descrito como inacabado, mas  difcil consider-lo incompleto. O ltimo captulo,  verdade,  mais curto que o resto e bem poderia 
ter prosseguido com o exame de coisas como sentimento de culpa, embora isto j houvesse sido aflorado no Captulo VI. Em geral, contudo, a questo de at onde e 
em que direo Freud teria continuado o livro  intrigante, pois o programa estabelecido pelo autor em seu prefcio parece ter sido cumprido de maneira bastante 
satisfatria.
         Na longa sucesso dos trabalhos expositivos de Freud, o Esboo apresenta um carter nico. Os outros, sem exceo, visam a explicar a Psicanlise a um pblico 
estranho a ela, um pblico com graus e tipos mais variados de abordagem geral ao tema de Freud, mas, sempre, um pblico relativamente ignorante. No se pode dizer 
isto do Esboo. Deve-se entender claramente que no se trata de um livro para principiantes, sendo algo muito mais semelhante a um "curso de atualizao" para estudantes 
adiantados. Em todo ele, espera-se que o leitor esteja familiarizado no apenas com a abordagem geral de Freud  Psicologia, mas tambm com os pormenores de seus 
achados e teoria. Exemplificando, umas duas aluses muito sucintas ao papel desempenhado pelos traos mnmicos de impresses sensoriais verbais,ver em ([1]e[2]),dificilmente 
seriam inteligveis a quem no se achasse familiarizado com certo nmero de difceis argumentos do ltimo captulo de A Interpretao de Sonhos e da seo final 
do artigo metapsicolgico sobre "O Inconsciente". E, ainda, as consideraes muito escassas, em dois outros lugares, sobre a identificao e sua relao com objetos 
amorosos abandonados,ver em ([1] e [2]),implicam o conhecimento de, pelo menos, o Captulo III de The Ego and the Id. Mas aqueles que j esto familiarizados com 
as obras de Freud acharo este Esboo um eplogo fascinante. Uma nova luz  lanada sobre todos os pontos que ele aborda - as teorias mais fundamentais ou as observaes 
clnicas mais pormenorizadas - e tudo  debatido no vocabulrio de sua mais recente terminologia. H mesmo aluses ocasionais e desenvolvimentos inteiramente novos, 
sobretudo na parte final do Captulo VIII, onde a questo da diviso (splitting) do ego e o seu repdio de partes do mundo externo, tal como exemplificada no caso 
do fetichismo, recebe considerao ampliada. Tudo isto demonstra que, aos 82 anos de idade, Freud ainda possua um dom espantoso de efetuar uma abordagem nova ao 
que poderia parecer tpicos muito batidos. Em parte alguma, talvez, atinge o seu estilo nvel mais alto de conciso e lucidez. Todo o trabalho nos d uma sensao 
de liberdade em sua apresentao, o que  talvez de se esperar na ltima descrio, por parte de um mestre, das idias de que foi o criador.
         
         ESBOO DE PSICANLISE [PREFCIO]
         
         O objetivo deste trabalho breve  reunir os princpios da Psicanlise e enunci-los, por assim dizer, dogmaticamente, sob a forma mais concisa e nos termos 
mais inequvocos. Sua inteno, naturalmente, no  compelir  crena ou despertar convico.
         Os ensinamentos da Psicanlise baseiam-se em nmero incalculvel de observaes e experincias, e somente algum que tenha repetido estas observaes em 
si prprio e em outras pessoas acha-se em posio de chegar a um julgamento prprio sobre ela.




PARTE I - [A MENTE E O SEU FUNCIONAMENTO]
         
         CAPTULO I - O APARELHO PSQUICO
         
         A Psicanlise faz uma suposio bsica, cuja discusso se reserva ao pensamento filosfico, mas a justificao da qual reside em seus resultados. Conhecemos 
duas espcie de coisas sobre o que chamamos nossa psique (ou vida mental): em primeiro lugar, seu rgo corporal e cena de ao, o crebro (ou sistema nervoso), 
e, por outro lado, nossos atos de conscincia, que so dados imediatos e no podem ser mais explicados por nenhum outro tipo de descrio. Tudo o que jaz entre eles 
-nos desconhecido, e os dados no incluem nenhuma relao direta entre estes dois pontos terminais de nosso conhecimento. Se existisse, no mximo permitir-nos-ia 
uma localizao exata dos processos da conscincia e no nos forneceria auxlio no sentido de compreend-los.Nossas duas hipteses partem desses fins ou incios 
de nosso conhecimento. A primeira delas est relacionada com a locao. Presumimos que a vida mental  funo de um aparelho ao qual atribumos as caractersticas 
de ser extenso no espao e de ser constitudo por diversas partes - ou seja, que imaginamos como semelhante a um telescpio, microscpio, ou algo desse gnero. No 
obstante algumas tentativas anteriores no mesmo sentido, a elaborao sistemtica de uma concepo como esta constitui uma novidade cientfica.
         Chegamos ao nosso conhecimento deste aparelho psquico pelo estudo do desenvolvimento individual dos seres humanos.  mais antiga destas localidades ou 
reas de ao psquica damos o nome de id. Ele contm tudo o que  herdado, que se acha presente no nascimento, que est assente na constituio - acima de tudo, 
portanto, os instintos, que se originam da organizao somtica e que aqui [no id] encontram uma primeira expresso psquica, sob formas que nos so desconhecidas.
         Sob a influncia do mundo externo que nos cerca, uma poro do id sofreu um desenvolvimento especial. Do que era originalmente uma camada cortical, equipada 
com rgos para receber estmulos e com disposies para agir como um escudo protetor contra estmulos, surgiu uma organizao especial que, desde ento, atua como 
intermediria entre o id e o mundo externo. A esta regio de nossa mente demos o nome de ego.
         So estas as principais caractersticas do ego: em conseqncia da conexo preestabelecida entre a percepo sensorial e a ao muscular, o ego tem sob 
seu comando o movimento voluntrio. Ele tem a tarefa de autopreservao. Com referncia aos acontecimentos externos, desempenha essa misso dando-se conta dos estmulos, 
armazenando experincias sobre eles (na memria), evitando estmulos excessivamente intensos (mediante a fuga), lidando com os estmulos moderados (atravs da adaptao) 
e, finalmente, aprendendo a produzir modificaes convenientes no mundo externo, em seu prprio benefcio (atravs da atividade). Com referncia aos acontecimentos 
internos, em relao ao id, ele desempenha essa misso obtendo controle sobre as exigncias dos instintos, decidindo se elas devem ou no ser satisfeitas, adiando 
essa satisfao para ocasies e circunstncias favorveis no mundo externo ou suprimindo inteiramente as suas excitaes.  dirigido, em sua atividade, pela considerao 
das tenses produzidas pelos estmulos, estejam essas tenses nele presentes ou sejam nele introduzidas. A elevao dessas tenses , em geral, sentida como desprazer, 
e o seu abaixamento, como prazer.  provvel, contudo, que aquilo que  sentido como prazer ou desprazer no seja a altura absoluta dessa tenso, mas sim algo no 
ritmo das suas modificaes. O ego se esfora pelo prazer e busca evitar o desprazer. Um aumento de desprazer esperado e previsto  enfrentado por um sinal de ansiedade; 
a ocasio de tal aumento, quer ele ameace de fora ou de dentro,  conhecida como um perigo. De tempos em tempos, o ego abandona sua conexo com um mundo externo 
e se retira para o estado de sono, no qual efetua alteraes de grande alcance em sua organizao.  de inferir-se do estado de sono que essa organizao consiste 
numa distribuio especfica de energia mental.
         O longo perodo da infncia, durante o qual o ser humano em crescimento vive na dependncia dos pais, deixa atrs de si, como um precipitado, a formao, 
no ego, de um agente especial no qual se prolonga a influncia parental. Ele recebeu o nome de superego. Na medida em que este superego se diferencia do ego ou se 
lhe ope, constitui uma terceira fora que o ego tem de levar em conta.
         Uma ao por parte do ego  como deve ser se ela satisfaz simultaneamente as exigncias do id, do superego e da realidade - o que equivale a dizer: se  
capaz de conciliar as suas exigncias umas com as outras. Os pormenores da relao entre o ego e o superego tornam-se completamente inteligveis quando so remontados 
 atitude da criana para com os pais. Esta influncia parental, naturalmente, inclui em sua operao no somente a personalidade dos prprios pais, mas tambm a 
famlia, as tradies raciais e nacionais por eles transmitidas, bem como as exigncias do milieu social imediato que representam. Da mesma maneira, o superego, 
ao longo do desenvolvimento de um indivduo, recebe contribuies de sucessores e substitutos posteriores aos pais, tais como professores e modelos, na vida pblica, 
de ideais sociais admirados. Observar-se- que, com toda a sua diferena fundamental, o id e o superego possuem algo comum: ambos representam as influncias do passado 
- o id, a influncia da hereditariedade; o superego, a influncia, essencialmente, do que  retirado de outras pessoas, enquanto o ego  principalmente determinado 
pela prpria experincia do indivduo, isto , por eventos acidentais e contemporneos.
         Pode-se supor que este quadro esquemtico geral de um aparelho psquico aplique-se tambm aos animais superiores que se assemelham mentalmente ao homem. 
Temos de presumir que um superego se acha presente onde quer que, como  o caso do homem, exista um longo perodo de dependncia na infncia. Uma distino entre 
o ego e id  uma suposio inevitvel. A Psicologia Animal ainda no tomou a seu cargo o interessante problema que  aqui apresentado.
         
         CAPTULO II - A TEORIA DOS INSTINTOS 
         
         O poder do id expressa o verdadeiro propsito da vida do organismo do indivduo. Isto consiste na satisfao de suas necessidades inatas. Nenhum intuito 
tal como o de manter-se vivo ou de proteger-se dos perigos por meio da ansiedade pode ser atribudo ao id. Essa  a tarefa do ego, cuja misso  tambm descobrir 
o mtodo mais favorvel e menos perigoso de obter a satisfao, levando em conta o mundo externo. O superego pode colocar novas necessidades em evidncia, mas sua 
funo principal permanece sendo a limitao das satisfaes.
         As foras que presumimos existir por trs das tenses causadas pelas necessidades do id so chamadas de instintos. Representam as exigncias somticas que 
so feitas  mente. Embora sejam a suprema causa de toda atividade, elas so de natureza conservadora; o estado, seja qual for, que um organismo atingiu d origem 
a uma tendncia a restabelecer esse estado assim que ele  abandonado.  assim possvel distinguir um nmero determinado de instintos, e, na prtica comum, isto 
 realmente feito. Para ns, contudo, surge a importante questo de saber se no ser possvel fazer remontar todos esses numerosos instintos a uns poucos bsicos. 
Descobrimos que os instintos podem mudar de objetivo (atravs do deslocamento) e tambm que podem substituir-se mutuamente, a energia de um instinto transferindo-se 
para outro. Este ltimo processo  ainda insuficientemente compreendido. Depois de muito hesitar e vacilar, decidimos presumir a existncia de apenas dois instintos 
bsicos, Eros e o instinto destrutivo. (O contraste entre os instintos de autopreservao e a preservao da espcie, assim como o contraste entre o amor do ego 
e o amor objetal, incidem dentro de Eros.) O objetivo do primeiro desses instintos bsicos  estabelecer unidades cada vez maiores e assim preserv-las - em resumo, 
unir; o objetivo do segundo, pelo contrrio,  desfazer conexes e, assim, destruir coisas. No caso do instinto destrutivo, podemos supor que seu objetivo final 
 levar o que  vivo a um estado inorgnico. Por essa razo, chammo-lo tambm de instinto de morte. Se presumirmos que as coisas vivas apareceram mais tarde que 
as inanimadas e delas se originaram, ento o instinto de morte se ajusta  frmula que propusemos, a qual postula que os instintos tendem a retornar a um estado 
anterior. No caso de Eros (ou instinto do amor), no podemos aplicar esta frmula. Faz-lo pressuporia que a substncia viva foi outrora uma unidade posteriormente 
desmembrada e que se esfora no sentido da reunio.
         Nas funes biolgicas, os dois instintos bsicos operam um contra o outro ou combinam-se mutuamente. Assim, o ato de comer  uma destruio do objeto como 
o objetivo final de incorpor-lo, e o ato sexual  um ato de regresso com o intuito da mais ntima unio. Esta ao concorrente e mutuamente oposta dos dois instintos 
fundamentais d origem a toda a variedade de fenmenos da vida. A analogia de nossos dois instintos bsicos estende-se da esfera das coisas vivas at o par de foras 
opostas - atrao e repulso - que governa o mundo orgnico.
         Modificaes nas propores da fuso entre os instintos apresentam os resultados mais tangveis. Um excesso de agressividade sexual transformar um amante 
num criminoso sexual, enquanto uma ntida diminuio no fator agressivo torna-lo- acanhado ou impotente.
         No se pode pensar em restringir um ou outro dos instintos bsicos a uma das regies da mente. Eles, necessariamente, tm de ser encontrados em toda parte. 
Podemos imaginar um estado inicial como sendo o estado em que a energia total disponvel de Eros, a qual, doravante, mencionaremos como ''libido", acha-se presente 
no ego-id ainda indiferenciado e serve para neutralizar as tendncias destrutivas que esto simultaneamente presentes. (No dispomos de um termo anlogo a "libido" 
para descrever a energia do instinto destrutivo.) Num estgio posterior, torna-se relativamente fcil acompanhar as vicissitudes da libido, mas isto  mais difcil 
com o instinto destrutivo.
         Enquanto esse instinto opera internamente, como instinto de morte, ele permanece silencioso; s nos chama a ateno quando  desviado para fora,como instinto 
de destruio. Parece ser essencial  preservao do indivduo que esse desvio ocorra e o aparelho muscular serve a esse intuito. Quando o superego se estabelece, 
quantidades considerveis do instinto agressivo fixam-se no interior do ego e l operam autodestrutivamente. Este  um dos perigos para a sade com que os seres 
humanos se defrontam em seu caminho para o desenvolvimento cultural. Conter a agressividade , em geral, nocivo e conduz  doena ( mortificao). Uma pessoa num 
acesso de raiva com freqncia demonstra como a transio da agressividade, que foi impedida, para a autodestrutividade,  ocasionada pelo desvio da agressividade 
contra si prpria: arrancar os cabelos ou esmurrar a face, embora, evidentemente, tivesse preferido aplicar esse tratamento a outrem. Uma poro de autodestrutividade 
permanece interna, quaisquer que sejam as circunstncias, at que, por fim, consegue matar o indivduo, talvez no antes de sua libido ter sido usada ou fixada de 
uma maneira desvantajosa. Assim,  possvel suspeitar de que, de uma maneira geral, o indivduo morre de seus conflitos internos, mas que a espcie morre de sua 
luta malsucedida contra o mundo externo se este mudar a ponto de as adaptaes adquiridas pela espcie no serem suficientes para lidar com as dificuldades surgidas.
          difcil dizer algo do comportamento da libido no id e no superego. Tudo o que sabemos sobre ela relaciona-se com o ego, no qual, a princpio, toda a cota 
disponvel de libido  armazenada. Chamamos a este estado absoluto de narcisismo primrio. Ele perdura at o ego comear a catexizar as idias dos objetos com a 
libido, a transformar a libido narcsica em libido objetal. Durante toda a vida, o ego permanece sendo o grande reservatrio, do qual as catexias libidinais so 
enviadas aos objetos e para o qual elas so tambm mais uma vez recolhidas, exatamente como uma ameba se conduz com os seus pseudpodos.  somente quando uma pessoa 
se acha completamente apaixonada que a cota principal de libido  transferida para o objeto e este, at certo ponto, toma o lugar do ego. Uma caracterstica da libido 
que  importante na vida  a sua mobilidade, a facilidade com que passa de um objeto para outro. Isto deve ser contrastado com a fixao da libido a objetos especficos, 
a qual freqentemente persiste durante toda a vida.No se pode discutir que a libido tenha fontes somticas, que ela flua para o ego de diversos rgos e partes 
do corpo. Isto se v mais claramente no caso daquela poro da libido que, por seu objetivo instintivo,  descrita como excitao sexual. As partes mais proeminentes 
do corpo de que esta libido se origina so conhecidas pelo nome de "zonas ergenas", embora, de fato, o corpo inteiro seja uma zona ergena desse tipo. A maior parte 
do que conhecemos sobre Eros - isto , sobre o seu expoente, a libido - foi obtida de um estudo da funo sexual, que, na verdade, segundo a opinio dominante, ainda 
que no segundo a nossa teoria, coincide com Eros. Pudemos formar uma imagem da maneira como o impulso sexual, que est destinado a exercer uma influncia decisiva 
em nossa vida, desenvolve-se gradativamente a partir de contribuies sucessivas de um certo nmero de instintos componentes que representam zonas ergenas especficas.
         
         
         
         
         
         
         CAPTULO III - O DESENVOLVIMENTO DA FUNO SEXUAL 
         
         Segundo a opinio predominante, a vida sexual humana consiste essencialmente numa busca de colocar o prprio rgo genital em contato com o de algum do 
sexo oposto. A isto acham-se associados, como fenmenos acessrios e atos introdutrios, beijar esse corpo alheio, olhar para ele e toc-lo. Imagina-se que essa 
busca faa seu aparecimento na puberdade - isto , na idade da maturidade sexual - e esteja a servio da reproduo. No obstante, sempre foram conhecidos certos 
fatos que no se encaixam na estreita moldura desta viso. (1) Constitui um fato marcante existirem pessoas que s so atradas por indivduos de seu prprio sexo 
e pelo rgo genital deles. (2)  igualmente notrio existirem pessoas cujos desejos se comportam exatamente como os sexuais, mas que, ao mesmo tempo, desprezam 
inteiramente o rgo sexual ou sua utilizao normal; as pessoas deste tipo so conhecidas como "pervertidas". (3) E, por fim,  uma coisa notvel que algumas crianas 
(que so, por causa disso, encaradas como degeneradas) tenham um interesse muito precoce pelo seu rgo genital e apresentem nele sinais de excitao.
         Bem se pode acreditar que a Psicanlise tenha provocado espanto e oposio quando, em parte com base nesses fatos negligenciados, contradisse todas as opinies 
populares sobre a sexualidade. Os seus principais achados so os seguintes:
         (a) A vida sexual no comea apenas na puberdade, mas inicia-se, com manifestaes claras, logo aps o nascimento.
         (b)  necessrio fazer uma distino ntida entre os conceitos de "sexual" e "genital". O primeiro  o conceito mais amplo e inclui muitas atividades que 
nada tm que ver com os rgos genitais.
         (c) A vida sexual inclui a funo de obter prazer das zonas do corpo, funo que, subseqentemente,  colocada a servio da reproduo. As duas funes 
muitas vezes falham em coincidir completamente.
         O interesse principal focaliza-se naturalmente na primeira destas afirmaes, a mais inesperada de todas. Descobriu-se que, na tenra infncia, existem sinais 
de atividade corporal a que somente um antigo preconceito poderia negar o nome de sexual e que se acha ligada a fenmenos psquicos com que nos deparamos mais tarde, 
na vida ertica adulta - tais como a fixao a objetos especficos, o cime, e assim por diante. Descobriu-se ainda, entretanto, que esses fenmenos que surgem na 
tenra infncia fazem parte de um curso ordenado de desenvolvimento, que atravessam um processo regular de aumento, chegando a um clmax por volta do final do quinto 
ano de idade, aps o qual segue-se uma acalmia. Durante esta, o progresso se interrompe, muita coisa  desaprendida e h muito retrocesso. Aps o fim deste perodo 
de latncia, como  chamado, a vida sexual avana mais uma vez, com a puberdade; poderamos dizer que tem uma segunda eflorescncia. E aqui deparmo-nos com o fato 
de o incio da vida sexual ser difsico, de ele ocorrer em duas ondas - algo que  desconhecido, exceto no homem, e que, evidentemente, tem uma relao importante 
com a hominizao. No  um fato sem importncia que os acontecimentos deste perodo primitivo, exceto esses poucos resduos, sejam vtimas da amnsia infantil. 
Os nossos pontos de vista sobre a etiologia das neuroses e a nossa tcnica de terapia analtica derivam-se dessas concepes e nosso rasteio dos processos desenvolvimentais 
nesse primeiro perodo forneceu tambm provas para outras concluses mais.
         O primeiro rgo a surgir como zona ergena e a fazer exigncias libidinais  mente , da poca do nascimento em diante, a boca. Inicialmente, toda a atividade 
psquica se concentra em fornecer satisfao s necessidades dessa zona. Primariamente,  natural, essa satisfao est a servio da autopreservao, mediante a 
nutrio; mas a fisiologia no deve ser confundida com a psicologia. A obstinada persistncia do beb em sugar d prova, em estgio precoce, de uma necessidade de 
satisfao que, embora se origine da ingesto da nutrio e seja por ela instigada, esfora-se todavia por obter prazer independentemente da nutrio e, por essa 
razo, pode e deve ser denominada de sexual.
         Durante esta fase oral, j ocorrem esporadicamente impulsos sdicos, juntamente com o aparecimento dos dentes. Sua amplitude  muito maior na segunda fase, 
que descrevemos como anal-sdica, por ser a satisfao ento procurada na agresso e na funo excretria. Nossa justificativa para incluir na libido os impulsos 
agressivos baseia-se na opinio de que o sadismo constitui uma fuso instintiva de impulsos puramente libidinais e puramente destrutivos, fuso que, doravante, persiste 
ininterruptamente.
         A terceira fase  conhecida como flica, que , por assim dizer, uma precursora da forma final assumida pela vida sexual e j se assemelha muito a ela. 
 de se notar que no so os rgos genitais de ambos os sexos que desempenham um papel nesta fase, mas apenas o masculino (o falo). Os rgos genitais femininos 
por muito tempo permanecem desconhecidos; nas tentativas das crianas de compreender os processos sexuais, elas se rendem  respeitvel teoria da cloaca - teoria 
que tem justificao gentica.
         Com a fase flica, e ao longo dela, a sexualidade da tenra infncia atinge seu apogeu e aproxima-se da sua dissoluo. A partir da, meninos e meninas tm 
histrias diferentes. Ambos comearam a colocar sua atividade intelectual a servio de pesquisas sexuais; ambos partem da premissa da presena universal do pnis. 
Mas agora os caminhos dos sexos divergem. O menino ingressa na fase edipiana; comea a manipular o pnis e, simultaneamente, tem fantasias de executar algum tipo 
de atividade com ele em relao  sua me, at que, devido ao efeito combinado de uma ameaa de castrao e da viso da ausncia de pnis nas pessoas do sexo feminino, 
vivencia o maior trauma de sua vida e este d incio ao perodo de latncia, com todas as suas conseqncias. A menina, depois de tentar em vo fazer as mesmas coisas 
que o menino, vem a reconhecer sua falta de pnis ou, antes, a inferioridade de seu clitris, com efeitos permanentes sobre o desenvolvimento de seu carter; como 
resultado deste primeiro desapontamento em rivalidade, ela com freqncia comea a voltar as costas inteiramente  vida sexual
         Seria um erro supor que essas trs fases se sucedem de forma clara. Uma pode aparecer em aditamento a outra; podem sobrepor-se e podem estar presentes lado 
a lado. Nas primeiras fases, os diferentes componentes dos instintos empenham-se na busca de prazer independente uns dos outros; na fase flica, h os primrdios 
de uma organizao que subordina os outros impulsos  primazia dos rgos genitais e determina o comeo de uma coordenao do impulso geral em direo ao prazer 
na funo sexual. A organizao completa s se conclui na puberdade, numa quarta fase, a genital. Estabelece-se ento um estado de coisas em que (1) algumas catexias 
libidinais primitivas so retidas, (2) outras so incorporadas  funo sexual como atos auxiliares, preparatrios, cuja satisfao produz o que  conhecido como 
pr-prazer, e (3) outros impulsos so excludos da organizao, e so ou suprimidos inteiramente (reprimidos) ou empregados no ego de outra maneira, formando traos 
de carter ou experimentando a sublimao, com deslocamento de seus objetivos.
         Este processo nem sempre  realizado de modo perfeito. As inibies em seu desenvolvimento manifestam-se como os muitos tipos de distrbio da vida sexual. 
Quando  assim, encontramos fixaes da libido a condies de fases anteriores, cujo impulso, que  independente do objetivo sexual normal,  descrito como perverso. 
Uma dessas inibies do desenvolvimento , por exemplo, a homossexualidade, quando ela  manifesta. A anlise mostra que em todos os casos um vnculo objetal de 
carter homossexual esteve presente e, na maioria dos casos, persistiu em estado latente. A situao complica-se porque, via de regra, os processos necessrios a 
um desfecho normal no se acham completamente presentes ou ausentes, mas parcialmente presentes, de maneira que o resultado final fica dependente dessas relaes 
quantitativas. Nessas circunstncias, a organizao genital , na verdade, obtida, mas faltam-lhe aquelas pores da libido que no avanaram com o resto e permaneceram 
fixadas em objetos e metas pr-genitais. Este enfraquecimento revela-se numa tendncia, se h ausncia de satisfao genital ou se existem dificuldades no mundo 
externo real, de a libido retornar a suas catexias pr-genitais anteriores (regresso).
         Durante o estudo das funes sexuais, chegamos a uma certeza preliminar, ou melhor, a uma suspeita, de duas descobertas que logo mais se ver serem de importncia 
para todo o nosso campo. Em primeiro lugar, as manifestaes normais e anormais por ns observadas (isto , fenomenologia do assunto) necessitam ser descritas do 
ponto de vista de sua dinmica e economia (em nosso caso, do ponto de vista da distribuio quantitativa da libido). E, em segundo, a etiologia dos distrbios que 
estudamos deve ser procurada na histria do desenvolvimento do indivduo - ou seja, no comeo de sua vida.
         
         CAPTULO IV - QUALIDADES PSQUICAS 
         
         Descrevi a estrutura do aparelho psquico e as energias ou foras que nele so ativas, e delineei num exemplo notrio a maneira como essas energias (principalmente 
a libido) organizam-se numa funo fisiolgica que serve ao propsito da preservao da espcie. Nada havia, nisso tudo, que demonstrasse a caracterstica inteiramente 
peculiar do que  psquico,  parte, naturalmente, o fato emprico de que esse aparelho e essas energias so as bases das funes que descrevemos como nossa vida 
mental. Voltar-me-ei agora para algo que  exclusivamente caracterstico do psquico, e que, na verdade, de acordo com opinio largamente aceita, coincide com ele, 
 excluso de tudo o mais.
         O ponto de partida dessa investigao  um fato sem paralelo, que desafia toda explicao ou descrio - o fato da conscincia. No obstante, quando se 
fala da conscincia, sabemos imediatamente, e pela experincia mais pessoal, o que se quer dizer com isso. Muitas pessoas, tanto ligadas  cincia [psicolgica] 
quanto estranhas a ela, satisfazem-se com a suposio de que s a conscincia  psquica; nesse caso a Psicologia no ter seno de fazer a discriminao entre fenmenos 
psquicos, percepes, sentimentos, processos de pensamento e volies. No entanto, h uma concordncia geral no sentido de que esses processos conscientes no formam 
seqncias ininterruptas, completas em si mesmas; assim, no haveria alternativa para a pressuposio de que existem processos fsicos ou somticos concomitantes 
aos psquicos e que teramos de reconhecer necessariamente como mais completos que as seqncias psquicas, visto que alguns teriam processos conscientes paralelos 
a eles, mas outros no. Sendo assim, torna-se plausvel dar nfase, em Psicologia, a esses processos somticos, ver neles a verdadeira essncia do psquico e procurar 
outra determinao dos processos conscientes. A maioria dos filsofos, entretanto, assim como muitas outras pessoas, discute isso e declara que a idia de algo psquico 
ser inconsciente  autocontraditria.Mas  isso precisamente que a Psicanlise  obrigada a afirmar, e esta  a sua segunda hiptese fundamental ver em [[1]].Ela 
explica os fenmenos concomitantes supostamente somticos como sendo o que  verdadeiramente psquico, e assim, em primeira instncia, menospreza a qualidade da 
conscincia. No est sozinha ao assim proceder. Alguns pensadores (como Theodor Lipps por exemplo) afirmaram a mesma coisa nas mesmas palavras e a insatisfao 
geral com a viso costumeira do que  psquico resultou numa exigncia cada vez mais urgente da incluso, no pensamento psicolgico, de um conceito de inconsciente, 
embora essa experincia tenha assumido forma to indefinida e obscura que no poderia ter nenhuma influncia sobre a cincia.
         Pode parecer que essa disputa entre Psicanlise e Filosofia fosse apenas uma frvola questo de definio - se o nome "psquico" deve ser aplicado a uma 
ou outra seqncia de fenmenos. Na realidade, porm, este passo tornou-se da mais alta significao. Enquanto a psicologia da conscincia nunca foi alm das seqncias 
rompidas que eram obviamente dependentes de algo mais, a outra viso, que sustenta que o psquico  inconsciente em si mesmo, capacitou a Psicologia a assumir seu 
lugar entre as cincias naturais como uma cincia. Os processos em que est interessada so, em si prprios, to incognoscveis quanto aqueles de que tratam as outras 
cincias, a Qumica ou a Fsica, por exemplo; mas  possvel estabelecer as leis a que obedecem e seguir suas relaes mtuas e interdependentes ininterruptas atravs 
de longos trechos - em resumo, chegar ao que  descrito como uma "compreenso" do campo dos fenmenos de novas hipteses e criao dos novos conceitos, e estes no 
devem ser pormenorizados com indcio de embarao de nossa parte, mas, pelo contrrio, merecem ser apreciados como um enriquecimento da Cincia. Podem pretender, 
como aproximaes, o mesmo valor dos andaimes intelectuais correspondentes encontrados em outras cincias naturais e esperamos que sejam modificados, corrigidos 
e mais precisamente determinados  medida que uma maior experincia for acumulada e filtrada. Assim, tambm estar inteiramente de acordo com nossas expectativas 
que os conceitos e princpios bsicos da nova cincia (instinto,energia nervosa, etc.) permaneam por tempo considervel no menos indeterminados que os das cincias 
mais antigas (fora, massa, atrao, etc.).
         Toda cincia se baseia em observaes e experincias a que se chegou atravs do veculo de nosso aparelho psquico. Mas visto que a nossa cincia tem por 
assunto esse prprio aparelho, a analogia acaba aqui. Efetuamos nossas observaes atravs do mesmo aparelho perceptivo, precisamente com o auxlio das rupturas 
na seqncia de ocorrncias "psquicas": preenchemos o que  omitido fazendo dedues plausveis e traduzindo-as em material consciente. Desta maneira construmos, 
por assim dizer, uma seqncia de ocorrncias conscientes que  complementar aos processos psquicos inconscientes. A relativa certeza de nossa cincia psquica 
baseia-se na fora aglutinante dessas dedues. Quem quer que se aprofunde em nosso trabalho descobrir que nossa tcnica tem fundamentos para defender-se contra 
qualquer crtica.
         Ao longo deste trabalho, as distines que descrevemos como qualidades psquicas se impem  nossa ateno. No h necessidade de caracterizar o que chamamos 
de "consciente":  o mesmo que a conscincia dos filsofos e do senso comum. Tudo o mais que  psquico , em nosso ponto de vista; "o inconsciente". Logo somos 
levados a fazer uma diviso importante nesse inconsciente. Alguns processos se tornam facilmente conscientes; podem depois deixar de ser conscientes, mas podem mais 
uma vez tornar-se conscientes sem qualquer dificuldade: como as pessoas dizem, podem ser reproduzidos ou lembrados. Isto nos faz lembrar que a conscincia , em 
geral, um estado altamente fugaz. O que  consciente  consciente s por um momento. Se nossas percepes no confirmaram isto, a contradio  apenas aparente; 
explica-se pelo fato de que os estmulos que levam  percepo podem persistir por considerveis perodos, de maneira que, entrementes, a percepo deles pode ser 
repetida. A posio global torna-se clara em relao  percepo consciente de nossos processos de pensamento: tambm estes podem persistir por algum tempo, mas 
podem tambm, da mesma maneira, passar num relmpago. Tudo o que for inconsciente e que se comporte desta maneira, que pode assim facilmente trocar o estado inconsciente 
pelo consciente, , portanto, preferivelmente descrito como "capaz de tornar-se consciente" ou como pr-consciente. A experincia nos ensinou que  muito difcil 
um processo psquico, por complicado que seja, que no possa ocasionalmente permanecer pr-consciente, ainda que, via de regra, force o seu caminho para a conscincia, 
como dizemos. H outros processos psquicos e material psquico que no tm um acesso to fcil a se tornarem conscientes, mas tm de ser inferidos, reconhecidos 
e traduzidos para forma consciente atravs da maneira descrita. Para tal material, reservamos o nome de inconsciente propriamente dito.
         Atribumos, assim, trs qualidades aos processos psquicos: eles so conscientes, pr-conscientes ou inconscientes. A diviso entre as trs classes de material 
que possui estas qualidades no  absoluta nem permanente. O que  pr-consciente se torna consciente, como vimos, sem qualquer assistncia de nossa parte; o que 
 inconsciente pode, atravs de nossos esforos, vir a ser consciente, e, no processo, temos muitas vezes a impresso de estar superando resistncias muito fortes. 
Quando tentamos fazer isto com outra pessoa, no devemos esquecer que o preenchimento consciente das lacunas de percepo - a construo que lhe estamos apresentando 
- no significa ainda que tenham conseguido tornar consciente o material inconsciente em questo. Tudo isso  verdadeiro na medida em que o material se acha nele 
presente em dois registros uma vez na reconstruo consciente que foi fornecida e, alm disso, em seu estado inconsciente original. Os nossos esforos continuados 
geralmente acabam conseguindo tornar consciente esse material inconsciente, em conseqncia do que os dois registros so levados a coincidir. A quantidade de esforos 
que temos de dispender, pela qual avaliamos a resistncia contra a conscientizao do material, varia de magnitude segundo os casos individuais. Exemplificando, 
o que ocorre num tratamento analtico como resultado de nossos esforos pode tambm ocorrer espontaneamente: um material que ordinariamente  inconsciente pode se 
transformar em pr-consciente e, ento, tornar-se consciente - coisa que acontece, em grande escala, nos estados psicticos. Disto inferimos que a manuteno de 
certas resistncias internas constitui um sine qua non da normalidade. Um relaxamento de resistncias como este, com um conseqente impulsionamento para a frente 
do material inconsciente, realiza-se normalmente no estado de sono, e ocasiona assim uma pr-condio necessria  construo de sonhos. Inversamente, o material 
pr-consciente pode tornar-se temporariamente inacessvel e bloqueado por resistncias - como acontece quando algo  temporariamente esquecido ou foge  memria 
- ou um pensamento pr-consciente pode ser mesmo temporariamente devolvido ao estado inconsciente, como parece ser uma pr-condio no caso dos chistes. Veremos 
que uma transformao semelhante de volta de material ou processos pr-conscientes ao estado inconsciente desempenha grande papel na causa dos distrbios neurticos.
         A teoria das trs qualidades do psquico, descrita assim de maneira generalizada e simplificada, pode parecer mais uma fonte de confuso ilimitada do que 
um auxlio no sentido do esclarecimento. Mas no se deve esquecer que, de fato, ela no  absolutamente uma teoria, mas sim um primeiro inventrio dos fatos de nossas 
observaes, que se mantm to preso a esses fatos quanto possvel e no tenta explic-los. As complicaes que ela revela podem pr em relevo as dificuldades peculiares 
que temos de enfrentar em nossas investigaes.  de se esperar, entretanto, que chegaremos a uma compreenso mais clara desta prpria teoria se determinarmos as 
relaes existentes entre as qualidades psquicas e as regies ou agncias do aparelho psquico que postulamos - embora estas relaes tambm estejam longe de ser 
simples.
         O processo de algo tornar-se consciente est, acima de tudo, ligado s percepes que nossos rgos sensoriais recebem do mundo externo. Do ponto de vista 
topogrfico, portanto, trata-se de um fenmeno que se efetua no crtex mais externo do ego.  verdade que tambm recebemos informaes conscientes do interior do 
corpo - os sentimentos, que na realidade exercem em nossa vida mental uma influncia mais peremptria do que as percepes externas; ademais, em certas circunstncias, 
os prprios rgos sensoriais transmitem sentimentos, sensaes de dor, alm das percepes que lhes so especficas. No entanto, desde que essas sensaes (como 
as chamamos, em contraste com as percepes conscientes) emanam tambm dos rgos terminais e desde que encaramos todas elas como prolongamentos ou ramificaes 
da camada cortical, continuamos a poder manter a afirmao feita acima [no incio deste pargrafo]. A nica distino seria que, em relao aos rgos terminais 
de sensao e sentimento, o prprio corpo tomaria o lugar do mundo externo.
         Processos conscientes na periferia do ego e tudo o mais no ego inconsciente - esse seria o estado de coisas mais simples que poderamos imaginar. E tal 
pode ser de fato o estado que predomina nos animais. Nos homens, porm, h uma complicao adicional, atravs da qual os processos internos do ego podem adquirir 
tambm a qualidade de conscincia. Este o trabalho da funo da fala, que leva o material ao ego numa firme conexo com resduos mnmicos de percepes visuais, 
porm, mais particularmente, auditivas. Da por diante, a periferia perceptiva da camada cortical pode ser excitada em muito maior grau a partir de dentro tambm, 
acontecimentos internos como passagens de idias e processos de pensamentos podem tornar-se conscientes, e exige-se um artifcio especial para fazer a distino 
entre as duas possibilidades - um artifcio conhecido como teste de realidade. A equao "percepo = realidade (mundo externo)" no mais se sustenta. Erros, que 
podem ento facilmente surgir e surgem com regularidade nos sonhos, so chamados de alucinaes.
         O interior do ego, que encerra, acima de tudo, os processos de pensamento, possui a qualidade de ser pr-consciente. Esta  caracterstica do ego e s a 
ele pertence. No seria correto, entretanto, pensar que a vinculao com os resduos mnmicos da fala seja uma pr-condio necessria ao estado pr-consciente. 
Ao contrrio, esse estado independe de uma vinculao com eles, embora a presena dessa vinculao torne segura a deduo da natureza pr-consciente de um processo. 
O estado pr-consciente, caracterizado, por um lado, pelo acesso  conscincia e, por outro, pela vinculao com os resduos da fala,  todavia algo peculiar, cuja 
natureza no se esgota nessas duas caractersticas. Prova disto  o fato de que grandes pores do ego, e particularmente do superego, a que no se pode negar a 
caracterstica de pr-conscincia, permanecem, no obstante, em sua maior parte, inconscientes no sentido fenomenolgico da palavra. No sabemos porque isto tem 
de ser assim. Tentaremos, a seguir, atacar o problema da verdadeira natureza do pr-consciente.
         A nica qualidade predominante no id  a de ser inconsciente. Id e inconsciente acham-se to intimamente ligados quanto ego e pr-consciente; na verdade, 
no primeiro caso, a vinculao  ainda mais exclusiva. Se voltarmos o olhar para a histria do desenvolvimento de um indivduo e de seu aparelho psquico, poderemos 
perceber uma distino importante no id. Originalmente, com efeito, tudo era id; o ego desenvolveu-se a partir dele, atravs da influncia contnua do mundo externo. 
No decurso desse lento desenvolvimento, alguns dos contedos do id foram transformados no estado pr-consciente e assim incorporados ao ego; outros de seus contedos 
permaneceram no id, imutveis, como o seu ncleo dificilmente acessvel. Durante esse desenvolvimento, entretanto, o jovem e dbil ego devolveu ao estado inconsciente 
algo do material que havia incorporado, abandonou-o, e comportou-se da mesma maneira em relao a algumas novas impresses que poderia ter incorporado, de modo que 
estas, havendo sido rejeitadas, s podiam deixar um vestgio no id. Em considerao  sua origem, falamos desta ltima parte do id como o reprimido. Pouco importa 
que no possamos sempre traar uma linha ntida entre essas duas categorias de contedos do id. Elas coincidem aproximadamente com a distino entre o que se achava 
originalmente presente, inato, e o que foi adquirido ao longo do desenvolvimento do ego.
         Tendo j estabelecido a dissecao topogrfica do aparelho psquico em um ego e um id, com os quais a diferena de qualidade entre pr-consciente e inconsciente 
corre paralela, e havendo concordado em que esta qualidade deve ser considerada apenas como indicao da diferena e no como sua essncia, uma outra questo se 
nos apresenta. Se as coisas so assim, qual  a verdadeira natureza do estado que  revelado no id pela qualidade de ser inconsciente e, no ego, pela de ser pr-consciente, 
e em que consiste a diferena entre eles?
         Disso, porm, nada sabemos. E a profunda obscuridade do pano de fundo de nossa ignorncia  escassamente iluminada por alguns lampejos de percepo interna 
(insight). Aqui aproximamo-nos do segredo ainda velado da natureza do psquico. Presumimos, como as outras cincias naturais nos levaram a esperar, que na vida mental 
esteja em ao alguma espcie de energia, mas no temos nada em que nos basear que nos capacite a aproximarmo-nos de um conhecimento dela atravs de analogias com 
outras formas de energia. Parecemos reconhecer que a energia nervosa ou psquica ocorre de duas formas, uma livremente mvel, e outra, em comparao, presa; falamos 
de catexias e hipercatexias do material psquico, e at mesmo aventuramo-nos a supor que uma hipercatexia ocasiona uma espcie de sntese de processos diferentes 
- uma sntese no curso da qual a energia livre  transformada em energia presa. Mais longe que isto, ainda no avanamos. De qualquer modo, atemo-nos firmemente 
 opinio de que a distino entre o estado inconsciente e o pr-consciente reside em relaes dinmicas desse tipo, que explicariam como  que, espontaneamente 
ou com a nossa assistncia, um pode se transformar no outro.
         Por trs de todas essas incertezas, contudo, reside um fato novo, cuja descoberta devemos  pesquisa psicanaltica. Descobrimos que os processos no inconsciente 
ou no id obedecem a leis diferentes daqueles do ego pr-consciente. Denominamos essas leis, em sua totalidade, de processo primrio, em contraste com o processo 
secundrio, que dirige o curso das ocorrncias no pr-consciente, no ego. No cmputo geral, portanto, o estudo das qualidades psquicas provou, afinal de contas, 
no ser infrutfero.
         
         
         
         
         CAPTULO V - A INTERPRETAO DE SONHO COMO ILUSTRAO 
         
         Uma investigao de estados estveis, normais, em que as fronteiras do ego so resguardadas contra o id mediante resistncias (anticatexias) e se agentam 
firmes, e nos quais o superego no se distingue do ego, por trabalharem juntos harmoniosamente - uma investigao desse tipo pouco nos ensinaria. A nica coisa que 
pode ajudar-nos so estados de conflito e tumulto, quando os contedos do id inconsciente tm perspectiva de forar caminho para o ego, e a conscincia e o ego mais 
uma vez se pem na defensiva contra essa invaso.  somente nestas condies que podemos fazer as observaes que confirmaro ou corrigiro nossas afirmaes sobre 
os dois parceiros. Ora, nosso sono noturno  precisamente um estado desse tipo, e, por essa razo, a atividade psquica durante o sono, que percebemos como sonhos, 
 o nosso objeto de estudo mais favorvel. Dessa maneira, tambm, evitamos a acusao costumeira de basearmos nossas construes da vida mental normal em achados 
patolgicos, pois os sonhos so ocorrncias comuns na vida de uma pessoa normal, por mais que suas caractersticas possam diferir das produes de nossa vida desperta. 
Os sonhos, como todos sabem, podem ser confusos, ininteligveis ou positivamente absurdos, o que dizem pode contradizer tudo o que sabemos da realidade, e comportamo-nos 
neles como pessoas insanas, visto que, enquanto estamos sonhando, atribumos realidade objetiva ao contedo do sonho.
         Encontramos nosso caminho para a compreenso ("interpretao") de um sonho presumindo que o que lembramos como sendo o sonho depois de termos acordado no 
 o verdadeiro processo onrico, mas apenas uma faade por trs da qual esse processo jaz escondido. Aqui temos a nossa distino entre o contedo manifesto de um 
sonho e os pensamentos onricos latentes. O processo que produz aquele a partir desse  descrito como elaborao onrica. O estudo da elaborao onrica nos ensina, 
atravs de um exemplo excelente, a maneira como o material inconsciente oriundo do id (originalmente inconsciente e da mesma maneira inconsciente reprimido) fora 
seu caminho at o ego, torna-se pr-consciente e, em conseqncia da oposio do ego, experimenta as modificaes que conhecemos como deformao onrica. No existem 
aspectos de um sonho que no possam ser explicados desta maneira.
          melhor comear ressaltando que a formao de um sonho pode ser provocada de duas maneiras diferentes. Ou um impulso instintivo que  comumente suprimido 
(um desejo inconsciente) encontra durante o sono fora suficiente para fazer-se sentido pelo ego, ou um impulso que sobrou da vida desperta, uma seqncia pr-consciente 
de pensamento, com todos os impulsos conflitantes a ela ligados, recebe reforos, durante o sono, de um elemento inconsciente. Em resumo, os sonhos podem originar-se 
do id ou do ego. O mecanismo da formao de sonhos  em ambos os casos o mesmo e assim tambm a pr-condio dinmica necessria. O ego d prova de sua derivao 
original do id fazendo cessar ocasionalmente suas funes e permitindo uma reverso a um estado anterior de coisas. Isto  logicamente desencadeado pelo rompimento 
das suas relaes com o mundo externo e pela retirada de suas catexias dos rgos dos sentidos. Justifica-se assim dizermos que surge no nascimento um instinto de 
retornar  vida intra-uterina que foi abandonada - um instinto de dormir. O sono  um retorno desse tipo ao tero. Visto que o ego desperto governa a motilidade, 
esta funo  paralisada no sono e, por conseguinte, uma boa parte das inibies impostas ao id inconsciente torna-se suprflua. A retirada ou reduo destas "anticatexias" 
d assim ao id o que  agora uma liberdade inofensiva.
         As provas do papel desempenhado pelo id inconsciente na formao dos sonhos so abundantes e convincentes. (a) A memria  muito mais ampla nos sonhos que 
na vida de viglia. Os sonhos trazem  tona recordaes que o sonhador esqueceu, que lhe so inacessveis quando est acordado. (b) Os sonhos fazem uso irrestrito 
de smbolos lingsticos, cujos significados so, na maioria, desconhecidos da pessoa que sonha. Nossa experincia, contudo, permite-nos confirmar o seu sentido. 
Eles provavelmente originam-se de fases mais antigas do desenvolvimento da fala. (c) A memria muito freqentemente reproduz em sonhos impresses da tenra infncia 
de quem sonha, das quais podemos definitivamente dizer que foram no apenas esquecidas, mas que se tornaram inconscientes devido  represso. Isso explica o auxlio 
- geralmente indispensvel - que nos  proporcionado pelos sonhos nas tentativas que fazemos, durante o tratamento analtico das neuroses, de reconstruir o incio 
da vida do sonhador. (d) Alm disso, os sonhos trazem  luz material que no pode ter-se originado nem da vida adulta de quem sonha nem de sua infncia esquecida. 
Somos obrigados a consider-lo parte da herana arcaica que uma criana traz consigo ao mundo, antes de qualquer experincia prpria, influenciada pelas experincias 
de seus antepassados. Descobrimos a contrapartida desse material filogentico nas lendas humanas mais antigas e em costumes que sobreviveram. Dessa maneira, os sonhos 
constituem uma fonte da pr-histria humana que no deve ser menosprezada.Mas o que torna os sonhos to valiosos para nos dar uma compreenso interna (insight)  
a circunstncia de que, quando o material inconsciente abre seu caminho para o ego, ele traz consigo as suas prprias modalidades de funcionamento. Isto significa 
que os pensamentos pr-conscientes em que o material inconsciente encontrou sua expresso so manejados no curso da elaborao onrica como se fossem partes inconscientes 
do id; e, no caso do mtodo alternativo de formao dos sonhos, os pensamentos pr-conscientes que obtiveram reforo de um impulso instintivo inconsciente so rebaixados 
ao estado inconsciente. Somente dessa maneira  que aprendemos as leis que regulam a passagem de acontecimentos no inconsciente e os aspectos em que diferem das 
regras que nos so familiares no pensamento desperto. Assim, a elaborao onrica  essencialmente um exemplo do trabalho inconsciente dos processos de pensamento 
pr-conscientes. Tomando-se uma analogia da histria: conquistadores invasores governam um pas conquistado, no segundo o sistema jurdico que l encontram em vigor, 
mas de acordo com o seu prprio.  entretanto um fato inequvoco que o resultado da elaborao onrica  uma conciliao. A organizao do ego no est todavia paralisada 
e sua influncia pode ser vista na distoro imposta ao material inconsciente e naquilo que so freqentemente tentativas muito ineficazes de dar ao resultado total 
uma forma no demasiado inaceitvel pelo ego (reviso secundria). Em nossa analogia, isso seria uma expresso da resistncia contnua do povo derrotado.
         As leis que governam a passagem de acontecimentos no inconsciente, e que assim vm  luz, so bastante notveis e bastam para explicar a maior parte do 
que nos parece estranho nos sonhos. Acima de tudo, h uma tendncia impressionante  condensao, uma inclinao para formar novas unidades a partir de elementos 
que, em nosso pensamento de viglia, certamente teramos mantido separados. Em conseqncia disso, um elemento isolado do sonho manifesto freqentemente representa 
um grande nmero de pensamentos onricos latentes, como se fosse uma aluso conjunta a todos eles; e, em geral, o mbito do sonho manifesto  extraordinariamente 
pequeno em comparao com a riqueza de material de que se originou. Outra peculiaridade da elaborao onrica, no inteiramente independente da anterior,  a facilidade 
com que intensidades psquicas (catexias) so deslocadas de determinado elemento para outro de maneira que com freqncia acontece que um elemento que era de pequena 
importncia nos pensamentos onricos aparea como o aspecto mais claro, e, por conseguinte, mais importante do sonho manifesto e vice-versa, que elementos essenciais 
dos pensamentos onricos sejam representados no sonho manifesto apenas por ligeiras aluses. Ademais, via de regra, a existncia de pontos em comum inteiramente 
insignificantes entre dois elementos  suficiente para permitir  elaborao onrica substituir um pelo outro em todas as operaes ulteriores.  fcil imaginar 
quanto esses mecanismos de condensao e deslocamento podem aumentar a dificuldade de interpretar um sonho e de revelar as relaes existentes entre o sonho manifesto 
e os pensamentos onricos latentes. Da prova da existncia dessas duas tendncias  condensao e ao deslocamento, nossa teoria infere que, no id inconsciente, a 
energia se acha num estado livremente mvel e que o id d mais valor  possibilidade de descarregar quantidades de excitao do que a qualquer outra considerao; 
e nossa teoria faz uso dessas duas peculiaridades ao definir o carter do processo primrio que atribumos ao id.
         O estudo da elaborao onrica nos ensinou muitas outras caractersticas dos processos do inconsciente que so to notveis quanto importantes, mas s devemos 
mencionar aqui algumas delas. As regras que regem a lgica no tm peso no inconsciente; ele poderia ser chamado de Reino do Ilgico. Impulsos com objetivos contrrios 
coexistem lado a lado no inconsciente, sem que surja qualquer necessidade de acordo entre eles. Ou no tm nenhuma influncia um sobre o outro, ou, se tm, nenhuma 
deciso  tomada, mas acontece um acordo que  absurdo, visto envolver detalhes mutuamente incompatveis. A isso est ligado o fato de que os contrrios no so 
mantidos separados, mas tratados como se fossem idnticos, de maneira que, no sonho manifesto, qualquer elemento pode tambm possuir o significado do seu oposto. 
Certos fillogos descobriram que o mesmo  vlido nas lnguas mais antigas e que contrrios tais como "forte-fraco", "claro-escuro" e "alto-profundo" foram originalmente 
expressos pelas mesmas razes, at que duas modificaes diferentes da palavra primitiva estabeleceram a distino entre os dois significados. Resduos desse duplo 
significado original parecem ter sobrevivido mesmo numa lngua altamente desenvolvida como o latim, no uso de palavras como "altus" ("alto" e "profundo") e "sacer" 
("sagrado" e "infame"). [Cf. Moses and Monotheism, S.E. 21, p. 121.]
         Em vista da complicao e ambigidade das relaes existentes entre o sonho manifesto e o contedo latente que jaz por trs dele,  naturalmente justificvel 
perguntar como afinal de contas  possvel deduzir um a partir do outro e se tudo o que temos para prosseguir no ser apenas um palpite feliz, auxiliado talvez 
por uma traduo dos smbolos que ocorrem no sonho manifesto. Pode-se dizer, em resposta, que na grande maioria dos casos o problema pode ser satisfatoriamente solucionado, 
mas somente com a ajuda das associaes aos elementos do contedo manifesto feitas pelo prprio sonhador. Qualquer outro procedimento  arbitrrio e no pode produzir 
resultado certo. Mas as associaes do sonhador trazem  luz ligaes intermedirias que podemos inserir na lacuna entre os dois [entre o contedo manifesto e o 
latente] e com o auxlio dos quais podemos restabelecer o contedo latente do sonho e "interpret-lo". No  de admirar se esse trabalho de interpretao (atuando 
numa direo oposta  da elaborao onrica) fracassa s vezes em chegar a numa certeza completa.
         Resta-nos dar uma explicao dinmica do porqu de o ego adormecido se dar o trabalho da elaborao onrica. A explicao, felizmente,  fcil de encontrar. 
Com a ajuda do inconsciente, todo sonho em processo de formao faz uma exigncia ao ego - a satisfao de um instinto, se o sonho se origina do id; a soluo de 
um conflito, a remoo de uma dvida ou a formao de uma inteno, se o sonho se origina de um resduo da atividade pr-consciente na vida de viglia. O ego adormecido, 
contudo, est focalizado no desejo de manter o sono; ele sente essa exigncia como uma perturbao e procura livrar-se dela. O ego consegue realizar isto atravs 
do que parece ser um ato de submisso: ele satisfaz a exigncia com o que, nas circunstncias,  uma realizao inofensiva de um desejo e, assim livra-se dele. Esta 
substituio da exigncia pela realizao de um desejo permanece sendo a funo essencial da elaborao onrica. Talvez valha a pena ilustrar isso com trs exemplos 
simples - um sonho de fome, um sonho de convenincia e um sonho induzido pelo desejo sexual. Uma necessidade de comida faz-se sentir numa pessoa que sonha durante 
o sono; ela sonha com uma refeio deliciosa e continua a dormir. Naturalmente, estava aberta a essa pessoa a escolha de despertar e comer algo ou de continuar o 
sono. Decidiu em favor do ltimo e satisfez a fome por meio do sonho - por enquanto, pelo menos, pois se a fome persistisse, teria de acordar, apesar de tudo. Aqui 
temos o segundo exemplo: uma pessoa adormecida tinha de acordar para chegar na hora ao seu trabalho no hospital. Continuou, porm, a dormir, e teve um sonho de que 
j se achava no hospital - mas como um paciente, que no tem necessidade de levantar-se. Ou, ainda, durante a noite tornou-se ativo um desejo de gozo de um objeto 
sexual proibido, a esposa de um amigo. Ele sonha ento que est tendo relaes sexuais - no, na verdade, com essa pessoa, mas com outra do mesmo nome e que lhe 
, de fato, indiferente; ou a luta contra o desejo pode encontrar expresso na amante que permanece inteiramente annima.
         Naturalmente, todos os casos no so to simples. Sobretudo em sonhos que se originaram de resduos no tratados do dia anterior, e que s obtiveram um 
reforo inconsciente durante o estado de sono, com freqncia no  tarefa fcil descobrir a fora motivadora inconsciente e sua realizao de desejo, mas podemos 
admitir que sempre esto l. A tese de que os sonhos so realizaes de desejos facilmente despertar ceticismo, quando  lembrado quantos sonhos possuem um contedo 
realmente aflitivo ou chegam at a despertar a pessoa que sonha em ansiedade, inteiramente  parte dos numerosos sonhos sem qualquer tom de sentimento definido. 
Mas a objeo baseada nos sonhos de ansiedade no pode ser sustentada contra a anlise. No se deve esquecer que os sonhos so invariavelmente o produto de um conflito, 
que eles so uma espcie de estrutura de conciliao. Algo que  uma satisfao para o id inconsciente pode, por essa mesma razo, ser causa de ansiedade para o 
ego.
          medida que a elaborao onrica progride, s vezes o inconsciente pressiona com mais xito e outras o ego se defende com maior energia. Os sonhos de ansiedade 
so muitas vezes aqueles cujo contedo experimentou a menor deformao. Se a exigncia feita pelo inconsciente  grande demais para que o ego adormecido esteja em 
posio de desvi-la pelos meios  sua disposio, ele abandona o desejo de dormir e retorna  vida desperta. Estaremos tomando toda experincia em considerao 
se dissermos que o sonho  invariavelmente uma tentativa de livrar-se de uma perturbao do sono por meio de uma realizao de desejo, de maneira que o sonho  um 
guardio do sono. A tentativa pode alcanar xito mais ou menos completo; pode tambm fracassar, e, nesse caso, a pessoa acorda, ao que parece, despertada precisamente 
pelo sonho. Do mesmo modo, tambm, existem ocasies em que aquela excelente pessoa, o vigia noturno, cuja misso  guardar o sono da cidadezinha, no tem outra alternativa 
seno fazer soar o alarma e despertar a populao adormecida.
         Encerrarei estas consideraes com um comentrio que justificar o tempo que concedi ao problema da interpretao de sonhos. A experincia mostrou que os 
mecanismos inconscientes que viemos a conhecer atravs do estudo da elaborao onrica e que nos forneceram a explicao da formao dos sonhos tambm nos auxiliam 
a entender os enigmticos sintomas que atraem nosso interesse para neuroses e psicoses. Uma semelhana dessa espcie no pode deixar de despertar grandes esperanas 
em ns.
         
         





























PARTE II - O TRABALHO PRTICO
         
         CAPTULO VI - A TCNICA DA PSICANLISE 
         
         Um sonho, ento,  uma psicose, com todos os absurdos, delrios e iluses de uma psicose. Uma psicose de curta durao sem dvida, inofensiva, at mesmo 
dotada de uma funo til, introduzida com o consentimento do indivduo e concluda por um ato de sua vontade. Ainda assim  uma psicose e com ela aprendemos que 
mesmo uma alterao da vida mental to profunda como essa pode ser desfeita e dar lugar  funo normal. Ser ento uma ousadia muito grande pretender que tambm 
deve ser possvel submeter as temidas doenas espontneas da vida mental  nossa influncia e promover a sua cura?
         J conhecemos certo nmero de coisas preliminares a esse empreendimento. De acordo com nossa hiptese,  funo do ego enfrentar as exigncias levantadas 
por suas trs relaes de dependncia - da realidade, do id e do superego - e no obstante, ao mesmo tempo, preservar a sua prpria organizao e manter a sua prpria 
autonomia. A pr-condio necessria aos estados patolgicos em debate s pode ser um enfraquecimento relativo ou absoluto do ego, que torna impossvel a realizao 
de suas tarefas. A exigncia mais severa feita ao ego  provavelmente a sujeio das reivindicaes instintivas do id, para o que ele  obrigado a fazer grandes 
dispndios de energia em anticatexias. Mas as exigncias feitas pelo superego tambm podem tornar-se to poderosas e inexorveis que o ego pode ficar paralisado, 
por assim dizer, frente s suas outras tarefas. Podemos desconfiar de que, nos conflitos econmicos que surgem neste ponto, o id e o superego freqentemente fazem 
causa comum contra o ego arduamente pressionado que tenta apegar-se  realidade a fim de conservar o seu estado normal. Se os outros dois se tornam fortes demais, 
conseguem afrouxar e alterar a organizao do ego, de maneira que sua relao correta com a realidade  perturbada ou at mesmo encerrada. Vimos isto acontecer no 
sonhar: quando o ego se desliga da realidade do mundo externo, desliza, sob a influncia do mundo interno, para a psicose.Nosso plano de cura baseia-se nessas descobertas. 
O ego acha-se enfraquecido pelo conflito interno e temos de ir em seu auxlio. A posio  semelhante  de uma guerra civil que tem de ser decidida pela assistncia 
de um aliado vindo de fora. O mdico analista e o ego enfraquecido do paciente, baseando-se no mundo externo real, tm de reunir-se num partido contra os inimigos, 
as exigncias instintivas do id e as exigncias conscienciosas do superego. Fazemos um pacto um com o outro. O ego enfermo nos promete a mais completa sinceridade 
- isto , promete colocar  nossa disposio todo o material que a sua autopercepo lhe fornece; garantimos ao paciente a mais estrita discrio e colocamos a seu 
servio a nossa experincia em interpretar material influenciado pelo inconsciente. Nosso conhecimento destina-se a compensar a ignorncia do paciente e a devolver 
a seu ego o domnio sobre regies perdidas de sua vida mental. Esse pacto constitui a situao analtica.
         Mal acabamos de dar esse passo e um primeiro desapontamento nos espera, uma primeira advertncia contra o excesso de confiana. Se o ego do paciente vai 
ser um aliado til em nosso trabalho comum, deve - por mais rdua que tenha sido a presso das foras hostis - ter conservado uma certa coerncia e algum fragmento 
de compreenso das exigncias da realidade. Mas isto no  de se esperar do ego de um psictico; ele no pode cumprir um pacto desse tipo; na verdade, mal poder 
engajar-se. Muito cedo ter-nos- abandonado, bem como  ajuda que lhe oferecemos, e nos juntado s partes do mundo externo que no querem dizer mais nada para ele. 
Assim, descobrimos que temos de renunciar  idia de experimentar nosso plano de cura com os psicticos - renunciar a ele talvez para sempre ou talvez apenas por 
enquanto, at que tenhamos encontrado um outro plano que se lhes adapte melhor.
         Existe, entretanto, outra classe de pacientes psquicos que visivelmente se assemelha muito de perto aos psicticos - o vasto nmero de pessoas que sofrem 
de graves neuroses. Os determinantes de sua doena, bem como seus mecanismos patognicos, devem ser os mesmos ou, pelo menos, muito semelhantes. Mas o ego mostrou-se 
mais resistente e tornou-se menos desorganizado. Muitos deles, apesar da doena e das inadequaes dela decorrentes, foram capazes de manter-se na vida real. Esses 
neurticos podem mostrar-se prontos a aceitar nosso auxlio. Limitaremos a eles nosso interesse e veremos at onde e mediante que mtodos seremos capazes de "cur-los".
         Com os neurticos, ento, fazemos nosso pacto: sinceridade completa de um lado e discrio absoluta do outro. Isso soa como se estivssemos apenas visando 
ao posto de um padre confessor. Mas h uma grande diferena, porque o que desejamos ouvir de nosso paciente no  apenas o que sabe e esconde de outras pessoas; 
ele deve dizer-nos tambm o que no sabe. Com este fim em vista, fornecemos-lhe uma definio mais detalhada do que queremos dizer com sinceridade. Fazemo-lo comprometer-se 
a obedecer  regra fundamental da anlise, que dali em diante dever dirigir o seu comportamento para conosco. Deve dizer-nos no apenas o que pode dizer intencionalmente 
e de boa vontade, coisa que lhe proporcionar um alvio semelhante ao de uma confisso, mas tambm tudo o mais que a sua auto-observao lhe fornece, tudo o que 
lhe vem  cabea, mesmo que lhe seja desagradvel diz-lo, mesmo que lhe parea sem importncia ou realmente absurdo. Se, depois dessa injuno, conseguir pr sua 
autocrtica fora de ao, nos apresentar uma massa de material - pensamentos, idias, lembranas - que j esto sujeitos  influncia do inconsciente, que, muitas 
vezes, so seus derivados diretos, e que assim nos colocam em condio de conjeturar sobre o material inconsciente reprimido do paciente e de ampliar, atravs das 
informaes que lhe fornecemos, o conhecimento do ego a respeito do inconsciente.
         Mas o ego est longe de contentar-se em desempenhar o papel de nos trazer passiva e obedientemente o material que pedimos e de aceitar nossa traduo do 
mesmo e nela acreditar. Acontece um certo nmero de outras coisas, algumas das quais poderamos ter previsto, mas tambm outras que esto destinadas a surpreender-nos. 
A mais notvel  a seguinte: o paciente no fica satisfeito de encarar o analista,  luz da realidade, como um auxiliar e conselheiro que, alm do mais,  remunerado 
pelo trabalho que executa e que se contentaria com um papel semelhante ao de guia numa difcil escalada de montanha. Pelo contrrio, o paciente v nele o retorno, 
a reencarnao, de alguma importante figura sada de sua infncia ou do passado, e, conseqentemente, transfere para ele sentimentos e reaes que, indubitavelmente, 
aplicam-se a esse prottipo. Essa transferncia logo demonstra ser um fator de importncia inimaginvel, por um lado, instrumento de insubstituvel valor e, por 
outro, uma fonte de srios perigos. A transferncia  ambivalente: ela abrange atitudes positivas (de afeio), bem como atitudes negativas (hostis) para com o analista, 
que, via de regra,  colocado no lugar de um ou outro dos pais do paciente, de seu pai ou de sua me. Enquanto  positiva, ela nos serve admiravelmente. Altera toda 
a situao analtica; empurra para o lado o objetivo racional que tem o paciente para ficar sadio e livre de seus achaques. Em lugar disso, surge o objetivo de agradar 
o analista e de conquistar o seu aplauso e amor. Este passa a ser a verdadeira fora motivadora da colaborao do paciente; o seu ego fraco torna-se forte; sob essa 
influncia realiza coisas que, ordinariamente, estariam alm de suas foras; desiste dos sintomas e aparenta ter-se restabelecido - simplesmente por amor ao analista. 
Este pode modestamente admitir para si prprio que se disps a uma empresa difcil sem suspeitar sequer dos extraordinrios poderes que estariam sob seu comando.
         Ademais, a relao de transferncia traz consigo duas outras vantagens. Se o paciente coloca o analista no lugar do pai (ou me), est tambm lhe concedendo 
o poder que o superego exerce sobre o ego, visto que os pais foram, como sabemos, a origem de seu superego. O novo superego dispe agora de uma oportunidade para 
uma espcie de ps-educao do neurtico; ele pode corrigir erros pelos quais os pais foram responsveis ao educ-lo. A essa altura, cabe uma advertncia contra 
o mau uso dessa nova influncia. Por mais que o analista possa ficar tentado a transformar-se num professor, modelo e ideal para outras pessoas, e criar homens  
sua prpria imagem, no deve esquecer que essa no  a sua tarefa no relacionamento analtico, e que, na verdade, ser desleal a essa tarefa se permitir-se ser levado 
por suas inclinaes. Se o fizer, estar apenas repetindo um equvoco dos pais, que esmagaram a independncia do filho atravs de sua influncia, e estar simplesmente 
substituindo a primitiva dependncia do paciente por uma nova. Em todas as suas tentativas de melhorar e educar o paciente, o analista deve respeitar a individualidade 
deste. A influncia que possa legitimamente permitir-se ser determinada pelo grau de inibio no desenvolvimento apresentado pelo paciente. Alguns neurticos permaneceram 
to infantis que, tambm na anlise, s podem ser tratados como crianas.
         Outra vantagem ainda da transferncia  que, nela, o paciente produz perante ns, com clareza plstica, uma parte importante da histria de sua vida, da 
qual, de outra maneira, ter-nos-ia provavelmente fornecido apenas um relato insuficiente. Ele a representa diante de ns, por assim dizer, em vez de apenas nos contar.
         E, agora, o outro lado da situao. Uma vez que a transferncia reproduz a relao do paciente com seus pais, ela assume tambm a ambivalncia dessa relao. 
Quase inevitavelmente acontece que, um dia, sua atitude positiva para com o analista se transforma em negativa, hostil. Tambm isso, via de regra,  uma repetio 
do passado. Sua obedincia ao pai (se se tratar do pai), sua corte para obter as simpatias deste, tem razes num desejo ertico para ele voltado. Numa ocasio ou 
noutra, esta exigncia pressionar seu caminho no sentido da transferncia e insistir em ser satisfeita. Na situao analtica, ela s pode defrontar-se com a frustrao. 
Relaes sexuais reais entre pacientes e analista esto fora de cogitao e mesmo os mtodos mais sutis de satisfao, tais como preferncia, intimidade, etc., s 
so concedidos parcialmente pelo analista. Uma rejeio desse tipo  tomada como ocasio para a mudana; provavelmente as coisas aconteceram da mesma maneira na 
infncia do paciente.
         Os sucessos teraputicos que ocorreram sob a influncia da transferncia positiva esto sujeitos  suspeita de serem de natureza sugestiva. Se a transferncia 
negativa leva a melhor, eles so soprados como farelo ao vento. Observamos com horror que todo o nosso esforo e labuta at ali foi em vo. Na verdade, o que poderamos 
ter considerado como ganho intelectual permanente por parte do paciente, a sua compreenso da Psicanlise e sua confiana na eficcia desta, subitamente se desvanece. 
Ele se comporta como uma criana que no tem poder de julgamento prprio, mas que cegamente acredita em qualquer pessoa que ame e em ningum que lhe seja estranho. 
O perigo desses estados de transferncia evidentemente reside em o paciente no compreender a sua natureza e tom-los por experincias novas e reais, em vez de reflexos 
do passado. Se ele (ou ela) se d conta do forte desejo ertico que se acha escondido por trs da transferncia muda, sente-se ento insultado e desprezado, odeia 
o analista como seu inimigo e est pronto a abandonar a anlise. Em ambos esses casos extremos, esqueceu o pacto que fez no incio do tratamento e que se tornou 
intil para a continuao do trabalho comum.  tarefa do analista tirar constantemente o paciente da iluso que o ameaa e mostrar-lhe sempre que o que ele toma 
por uma vida nova e real  um reflexo do passado. E para que no caia num estado em que fique inacessvel a qualquer prova, o analista toma o cuidado de que nem 
o amor nem a hostilidade atinjam um grau extremo. Isto se faz preparando o paciente, em tempo, para estas possibilidades e no negligenciando os primeiros sinais 
delas. Um manejo cuidadoso da transferncia, de acordo com essa orientao, , via de regra, extremamente compensador. Se conseguimos, como geralmente acontece, 
esclarecer o paciente quanto  verdadeira natureza dos fenmenos de transferncia, teremos tirado uma arma poderosa da mo de sua resistncia e convertido perigos 
em lucros, pois um paciente nunca se esquece novamente do que experimentou sob a forma de transferncia; ela tem uma fora de convico maior do que qualquer outra 
coisa que possa adquirir por outros modos.
         Achamos muito indesejvel que o paciente atue fora da transferncia, em vez de recordar. A conduta ideal para os nossos fins seria que ele se comportasse 
to normalmente quanto possvel fora do tratamento e expressasse suas reaes anormais somente na transferncia.
         O mtodo pelo qual fortalecemos o ego enfraquecido tem como ponto de partida uma ampliao do autoconhecimento. Isso, naturalmente, no  toda a histria, 
mas apenas seu primeiro passo. A perda de tal conhecimento significa, para o ego, uma abdicao de poder e influncia;  o primeiro sinal tangvel de que est sendo 
encurralado e tolhido pelas exigncias do id e do superego. Por conseguinte, a primeira parte do auxlio que temos a oferecer  um trabalho intelectual de nossa 
parte e um incentivo ao paciente para nele colaborar. Esse primeiro tipo de atividade, como sabemos, destina-se a preparar o caminho para outra tarefa, mais difcil. 
No perderemos de vista o elemento dinmico nessa tarefa, mesmo durante o seu estgio preliminar. Coletamos o material para o nosso trabalho de uma variedade de 
fontes - do que nos  transmitido pelas informaes que nos so dadas pelo paciente e por suas associaes livres, do que ele nos mostra nas transferncias, daquilo 
a que chegamos pela interpretao de seus sonhos e do que ele revela atravs de lapsos ou parapraxias. Todo esse material ajuda-nos a fazer construes acerca do 
que lhe aconteceu e foi esquecido, bem como sobre o que lhe est acontecendo no momento, sem que o compreenda. Nisso tudo, porm, nunca deixamos de fazer uma distino 
rigorosa entre o nosso conhecimento e o conhecimento dele. Evitamos dizer-lhe imediatamente coisas que muitas vezes descobrimos num primeiro estgio, e evitamos 
dizer-lhe a totalidade do que achamos que descobrimos. Refletimos cuidadosamente a respeito de quando lhe comunicaremos o conhecimento de uma de nossas construes 
e esperamos pelo que nos parea ser o momento apropriado - o que nem sempre  fcil de decidir. Via de regra, adiamos falar-lhe de uma construo ou explicao at 
que ele prprio tenha chegado to perto dela que s reste um nico passo a ser dado, embora esse passo seja, de fato, a sntese decisiva. Se procedemos doutra maneira 
e o esmagamos com nossas interpretaes antes que esteja preparado para elas, nossa informao ou no produziria efeito algum ou, ento, provocaria uma violenta 
irrupo da resistncia que tornaria o avano de nosso trabalho mais difcil ou poderia mesmo ameaar interromp-lo por completo. Mas se preparamos tudo adequadamente, 
com freqncia acontece que o paciente imediatamente confirma nossa construo e ele prprio recorda o acontecimento interno ou externo que esqueceu. Quanto mais 
exatamente a construo coincidir com os pormenores do que foi esquecido, mais fcil ser-lhe- assentir. Nesse assunto em particular, o nosso conhecimento tornar-se-, 
ento, tambm o seu conhecimento.
         Com a meno de resistncia, chegamos  segunda e mais importante parte de nossa tarefa. J dissemos que o ego se protege contra a invaso de elementos 
indesejveis provenientes do inconsciente e do id reprimido por meio de anticatexias, que devem permanecer intactas para poderem funcionar normalmente. Quanto mais 
premido o ego se sente, mais convulsivamente se apega (como num susto) a essas anticatexias, a fim de proteger o que resta de si contra outras irrupes. Mas esse 
intuito defensivo de maneira alguma concorda com os objetivos de nosso tratamento. O que desejamos, pelo contrrio,  que o ego, que se tornou afoito pela certeza 
de nosso auxlio, atreva-se a tomar a ofensiva, a fim de reconquistar o que foi perdido. E  aqui que nos damos conta da fora dessas anticatexias, sob a forma de 
resistncias ao nosso trabalho. O ego recua, em alarma, ante tais empreendimentos, que parecem perigosos e ameaam com o desprazer; para no nos falhar, tem de ser 
constantemente incentivado e apaziguado. Essa resistncia, que persiste durante todo o tratamento e se renova a cada novo perodo de trabalho,  conhecida, no muito 
corretamente, como resistncia devida  represso. Descobriremos que no  a nica com que nos defrontamos.  interessante notar que, nessa situao, as divises 
partidrias so, at certo ponto, invertidas: pois o ego luta contra o nosso estmulo, enquanto o inconsciente, que comumente  nosso adversrio, vem em nosso auxlio, 
visto possuir um "impulso ascendente" natural e no desejar nada melhor que pressionar alm de suas fronteiras estabelecidas, at o ego, e, assim, at a conscincia. 
A luta que se desenvolve, se alcanamos nosso fim e podemos induzir o ego a superar suas resistncias,  realizada sob nossa direo e com nossa assistncia. O seu 
desfecho  indiferente, quer resulte na aceitao por parte do ego, aps novo exame, de uma exigncia instintiva que at ento rejeitara, quer a rejeite de novo, 
desta vez definitivamente. Em qualquer desses casos, um perigo permanente foi liquidado, o mbito do ego foi ampliado e um dispndio intil de energia tornou-se 
desnecessrio.
         A superao das resistncias  a parte de nosso trabalho que exige mais tempo e maior esforo. Ela vale a pena, contudo, pois ocasiona uma alterao vantajosa 
do ego, a qual ser mantida independentemente do resultado da transferncia e se manter firme na vida. Trabalhamos tambm, simultaneamente, para livrar-nos da alterao 
do ego que foi ocasionada sob a influncia do inconsciente, pois onde quer que pudemos detectar qualquer de seus derivados no ego, apontamos-lhes sua origem ilegtima 
e incentivamos o ego a rejeit-los. Ser lembrado que foi uma das pr-condies necessrias de nosso pacto de ajuda que qualquer alterao desse tipo no ego, devida 
 intruso de elementos inconscientes, no deveria ir alm de certa medida.
         Quanto mais nosso trabalho progride e mais profundamente a nossa compreenso interna (insight) penetra na vida mental dos neurticos, mais claramente se 
impem  nossa observao dois novos fatores, os quais exigem a mais rigorosa ateno, como fontes de resistncia. Ambos so completamente desconhecidos do paciente, 
nenhum deles poderia ter sido levado em conta quando o nosso pacto foi feito; tampouco originam-se do ego do paciente. Ambos podem ser englobados sob a denominao 
nica de "necessidade de estar doente ou de sofrer", mas tm origens diferentes, embora, sob certos aspecto, sejam de natureza aparentada. O primeiro desses dois 
fatores  o sentimento de culpa ou conscincia de culpa, como  chamado, embora o paciente no o sinta e no se d conta dele. Trata-se, evidentemente, da parte 
da resistncia que  contribuio de um superego particularmente severo e cruel. O paciente no deve ficar bom, mas tem de permanecer doente, pois no parece melhorar. 
Essa resistncia no interfere concretamente em nosso trabalho intelectual, mas torna-o inoperante; na verdade, com freqncia nos permite remover determinada forma 
de sofrimento neurtico, mas est imediatamente pronta a substitu-la por outra, ou, talvez, por alguma doena somtica. O sentimento de culpa explica tambm a cura 
ou melhora de graves neuroses que ocasionalmente observamos depois de infortnios reais: tudo o que importa  que o paciente seja desgraado - de que maneira, no 
tem importncia. A resignao sem queixas com que essas pessoas freqentemente se acomodam  sua rdua sorte  muito notvel, mas tambm reveladora. Para desviar 
essa resistncia, somos obrigados a restringir-nos a torn-la consciente e a tentar promover a lenta demolio do superego hostil.
          menos fcil demonstrar a existncia da outra resistncia, para a qual os nossos meios de combate so especialmente inadequados. Existem alguns neurticos 
em quem, a julgar por todas as suas reaes, o instinto de autopreservao na realidade foi invertido. Eles parecem visar a nada mais que  autoleso e  autodestruio. 
 possvel tambm que as pessoas que, de fato, terminam por cometer suicdio pertenam a esse grupo.  de se presumir que, em tais pessoas, efetuaram-se defuses 
de instinto de grandes conseqncias, em conseqncia do que houve uma liberao de quantidades excessivas do instinto destrutivo voltado para dentro. Os pacientes 
dessa espcie no podem tolerar o restabelecimento mediante o nosso tratamento e lutam contra ele com todas as suas foras. Mas temos de confessar que se trata de 
caso que ainda no conseguimos explicar completamente.
         Lancemos mais um olhar sobre a situao a que chegamos, em nossa tentativa de trazer auxlio ao ego neurtico do paciente. Esse ego no  mais capaz de 
cumprir a tarefa que lhe foi estabelecida pelo mundo externo (inclusive a sociedade humana). Nem todas as suas experincias se acham  sua disposio; uma grande 
parte de seu estoque de lembranas lhe fugiu. Sua atividade est inibida por rigorosas proibies oriundas do superego e sua energia  consumida em vs tentativas 
de desviar as exigncias do id.Alm disso, como resultado de contnuas irrupes por parte do id, sua organizao acha-se danificada, no  mais capaz de qualquer 
sntese correta, est dilacerada por impulsos mutuamente opostos, por conflitos no resolvidos e por dvidas no solucionadas. Para comear, conseguimos que o ego 
do paciente assim enfraquecido participe do trabalho puramente intelectual de interpretao, que visa a provisoriamente preencher as lacunas em seu patrimnio mental 
e a transferir-nos a autoridade de seu superego; incentivmo-lo a aceitar a luta contra cada exigncia individual feita pelo id e a vencer as resistncias que surgem 
em conexo com isso. Ao mesmo tempo, restauramos a ordem no ego detectando o material e os impulsos que foraram caminho a partir do inconsciente e expmo-los  
crtica, remontando-os  sua origem. Servimos ao paciente em diversas funes, como autoridade e substituto dos pais, como professor e educador, e fizemos o melhor 
por ele se, como analistas, elevamos os processos mentais de seu ego a um nvel normal, transformamos o que se tornou inconsciente e reprimido em material pr-consciente, 
e assim devolvmo-lo, mais uma vez,  posse de seu ego. Do lado do paciente, alguns fatores racionais trabalham em nosso favor, tais como a necessidade de restabelecimento, 
que tem seu motivo nos sofrimentos dele, e o interesse intelectual que possamos ter-lhe despertado pelas teorias e revelaes da Psicanlise; de muito maior fora, 
porm,  a transferncia positiva com que ele nos recebe. Lutando contra ns, por outro lado, esto a transferncia negativa, a resistncia do ego devido  represso 
(isto , seu desprazer por ter de abrir-se ao rduo trabalho que lhe  imposto), o sentimento de culpa que surge de sua relao com o superego e a necessidade dos 
seus instintos [do paciente]. A parte ocupada pelos dois ltimos fatores decide se o caso deve ser considerado leve ou grave. Fora esses, pode-se discernir alguns 
outros fatores como tendo relao favorvel ou desfavorvel. Uma certa inrcia psquica, uma indolncia da libido, que no est disposta a abandonar suas fixaes, 
no podem ser olhadas com bons olhos; a capacidade do paciente de sublimar seus instintos desempenha um grande papel e assim tambm a sua capacidade de elevar-se 
acima da vida grosseira dos instintos, bem como, ainda, o relativo poder de suas funes intelectuais.
         No ficaremos desapontados, mas, pelo contrrio, acharemos perfeitamente inteligvel, se chegarmos  concluso de que o desfecho final da luta em que nos 
empenhamos depende de relaes quantitativas da cota de energia que podemos mobilizar no paciente, em nosso favor, comparada  soma de energia das foras que trabalham 
contra ns. Aqui, mais uma vez, Deus acha-se do lado dos grandes batalhes.  verdade que nem sempre conseguimos ganhar, mas, pelo menos, podemos geralmente identificar 
por que foi que no vencemos. Aqueles que estiverem acompanhando a nossa exposio apenas por interesse teraputico provavelmente se afastaro com desprezo, aps 
esta admisso. Aqui, porm, estamos interessados na terapia apenas na medida em que ela funciona atravs de meios psicolgicos e, por enquanto, no possumos outra. 
O futuro pode ensinar-nos a exercer influncia direta, atravs de substncias qumicas especficas, nas quantidades de energia e na sua distribuio no aparelho 
mental. Pode ser que existam outras possibilidades ainda no imaginadas de terapia. De momento, porm, nada temos de melhor  nossa disposio do que a tcnica da 
psicanlise, e, por essa razo, apesar de suas limitaes, ela no deve ser menosprezada.
         
         CAPTULO VII - UM EXEMPLO DE TRABALHO PSICANALTICO
         
         Chegamos a uma familiaridade geral com o aparelho psquico, com as partes, rgos e reas de ao de que se compe, com as foras que nele operam e com 
as funes atribudas s partes. As neuroses e as psicoses so os estados em que se manifestam distrbios no funcionamento do aparelho. Escolhemos as neuroses como 
assunto de nosso estudo porque somente elas parecem acessveis aos mtodos psicolgicos de nossa interveno. Enquanto estamos tentando influenci-las, coligimos 
observaes que nos proporcionam um quadro de sua origem e da maneira como elas surgem.
         Enunciarei antecipadamente um de nossos principais achados, antes de prosseguir com minha descrio. As neuroses (diferentemente das molstias infecciosas, 
por exemplo) no possuem determinantes especficos. Seria ocioso buscar nelas excitantes patognicos. Elas se transformam gradualmente, atravs de fceis transies, 
no que  descrito como normal, e, por outro lado, dificilmente existe qualquer estado reconhecido como normal em que indicaes de traos neurticos no possam ser 
apontadas. Os neurticos possuem aproximadamente as mesmas disposies inatas que as outras pessoas, tm as mesmas experincias e as mesmas tarefas a desempenhar. 
Por que , ento, que vivem de modo to pior e com to grande dificuldade, e, no processo, padecem de mais sentimentos de desprazer, ansiedade e sofrimento?
         No precisamos embaraar-nos para encontrar uma resposta a esta pergunta. O que deve ser tido como responsvel pela inadequao e sofrimentos dos neurticos 
so desarmonias quantitativas. A causa determinante de todas as formas assumidas pela vida mental humana deve, na verdade, ser buscada na ao recproca entre as 
disposies inatas e as experincias acidentais. Ora, um determinado instinto pode ser inatamente forte ou fraco demais, ou uma determinada capacidade pode ser sustada 
ou desenvolvida de modo insuficiente na vida. Por outro lado, as impresses e experincias externas podem fazer exigncias de intensidade diferente a pessoas diferentes 
e aquilo que  passvel de ser manejado pela constituio de uma pessoa pode ser uma tarefa impossvel para a de outra. Essas diferenas quantitativas determinaro 
a variedade dos resultados.
         Muito cedo acharemos, contudo, que esta explicao  insatisfatria: ela  muito geral, explica demasiado. A etiologia apresentada aplica-se a todos os 
casos de sofrimento, infelicidade ou incapacidade mental, mas nem todos os estados desse tipo podem ser denominados de neurticos. As neuroses possuem caractersticas 
especficas, so infelicidades de um tipo determinado. Dessa maneira, temos de, afinal de contas, esperar encontrar causas especficas para elas. Ou podemos adotar 
a suposio de que, entre as tarefas com que a vida mental tem de lidar, h algumas nas quais se pode muito facilmente fracassar, de modo que a peculiaridade dos 
fenmenos da neurose, que quase sempre so to notveis, decorreria disto, sem que necessitssemos retirar nossas asseres anteriores. Se acreditamos que as neuroses 
no diferem, em qualquer aspecto essencial, do normal, o seu estudo promete render valiosas contribuies para o conhecimento do normal. Pode ser que assim descubramos 
os "pontos fracos" de uma organizao normal.
         A suposio que acabamos de fazer encontra confirmao. As experincias analticas nos ensinam que existe, de fato, uma exigncia instintiva para com a 
qual as tentativas de com ela lidar muito facilmente fracassam ou conseguem um sucesso insatisfatrio, e que h um perodo da vida que aparece exclusiva ou predominantemente 
em conexo com a gerao de uma neurose. Esses dois fatores - a natureza do instinto e o perodo de vida relacionado - exigem considerao separada, embora estejam 
intimamente ligados.
         Podemos falar com um bom grau de certeza sobre o papel desempenhado pelo perodo da vida. Parece que as neuroses so adquiridas somente na tenra infncia 
(at a idade de seis anos), ainda que seus sintomas possam no aparecer at muito mais tarde. A neurose da infncia pode tornar-se manifesta por um curto tempo ou 
pode mesmo nem ser notada. Em todo caso, a doena neurtica posterior se liga ao preldio na infncia.  possvel que aquelas que so conhecidas como neuroses traumticas 
(devido a um susto excessivo ou graves choques somticos, tais como desastres ferrovirios, soterramentos, etc.) constituem exceo a isto; suas relaes com determinantes 
na infncia at aqui fugiram  investigao. No h dificuldade em explicar esta preferncia etiolgica pelo primeiro perodo da infncia. As neuroses so, como 
sabemos, distrbios do ego e no  de admirar que o ego, enquanto  dbil, imaturo e incapaz de resistncia, fracasse em lidar com tarefas que, posteriormente, seria 
capaz de enfrentar com a mxima facilidade. Nessas circunstncias, exigncias instintivas provenientes do interior, no menos que excitaes oriundas do mundo externo, 
operam como "traumas", particularmente se certas disposies inatas as vo encontrar a meio caminho. O ego desamparado defende-se delas por meio de tentativas de 
fuga (represses), que posteriormente se mostram ineficazes e que envolvem restries permanentes ao futuro desenvolvimento. O dano infligido ao ego por suas primeiras 
experincias d-nos a impresso de ser desproporcionadamente grande, mas podemos fazer uma analogia com as diferenas dos resultados produzidos pela picada de uma 
agulha numa massa de clulas no ato da diviso celular (como nas experincias de Roux) e no animal crescido que se desenvolveu a partir delas. Nenhum indivduo humano 
 poupado de tais experincias traumticas; nenhum escapa s represses a que elas do origem. Essas reaes discutveis por parte do ego podem talvez ser indispensveis 
para a consecuo de outro objetivo que  estabelecido para o mesmo perodo da vida: no espao de poucos anos, a pequena criatura primitiva deve transformar-se num 
ser humano civilizado; ela tem de atravessar um perodo imensamente longo de desenvolvimento cultural humano de uma forma abreviada de maneira quase misteriosa. 
Isso se torna possvel pela disposio hereditria, mas quase nunca pode ser conseguido sem o auxlio adicional da educao, da influncia parental, que, como precursora 
do superego, restringe a atividade do ego mediante proibies e punies, e incentiva ou fora o estabelecimento de represses. No devemos, portanto, esquecer de 
incluir a influncia da civilizao entre os determinantes da neurose.  fcil, como podemos ver, a um brbaro ser sadio; para um homem civilizado, a tarefa  rdua. 
O desejo de um ego poderoso e desinibido pode parecer-nos inteligvel, mas, tal como nos  ensinado pelos tempos em que vivemos, ele , no sentido mais profundo, 
hostil  civilizao. E visto que as exigncias da civilizao so representadas pela educao familiar, no devemos esquecer o papel desempenhado por essa caracterstica 
biolgica da espcie humana - o prolongado perodo de sua dependncia infantil - na etiologia das neuroses.
         Com referncia ao outro ponto - o fator instintivo especfico - deparamo-nos com uma discrepncia interessante entre a teoria e a experincia. Teoricamente, 
no h objeo a supor que qualquer tipo de exigncia instintiva possa ocasionar as mesmas represses e suas conseqncias, mas nossa observao demonstra-nos, invariavelmente, 
at onde podemos julgar, que as excitaes que desempenham esse papel patognico se originam dos instintos componentes da vida sexual. Os sintomas das neuroses, 
poder-se-ia dizer, so, sem exceo, ou uma satisfao substitutiva de algum impulso sexual ou medidas para impedir tal satisfao, e, via de regra, so conciliaes 
entre as duas, do tipo que ocorre em consonncia com as leis que operam entre contrrios, no inconsciente. A lacuna em nossa teoria no pode, presentemente, ser 
preenchida e nossa deciso torna-se mais difcil pelo fato de a maioria dos impulsos da vida sexual no ser de natureza puramente ertica, mas surgir de combinaes 
do instinto ertico com partes do instinto destrutivo. Mas no se pode duvidar de que os instintos que se manifestam fisiologicamente como sexualidade desempenham 
um papel preeminente e inesperadamente grande na causao das neuroses - se  um papel exclusivo,  o que resta a ser decidido. Deve-se tambm ter em mente que, 
no curso do desenvolvimento cultural, nenhuma outra funo foi to enrgica e extensamente repudiada como precisamente a funo sexual. A teoria tem de satisfazer-se 
com algumas aluses que revelam uma conexo mais profunda: o fato de que o primeiro perodo da infncia, durante o qual o ego comea a diferenciar-se do id,  tambm 
o perodo da primeira eflorescncia sexual, que chega a um fim com o perodo de latncia; o de que dificilmente pode ser fortuito que este momentoso perodo inicial 
mais tarde venha a ser vtima da amnsia infantil, e, por fim, o de que as modificaes biolgicas na vida sexual (tais como o incio difsico da uno que j mencionamos, 
o desaparecimento do carter peridico da excitao sexual e a transformao na relao entre menstruao feminina e excitao masculina) - o de que essas inovaes 
na sexualidade devem ter sido de alta importncia na evoluo dos animais para o homem. Deixa-se para a cincia do futuro reunir numa nova compreenso esses dados 
ainda isolados. No  na Psicologia, mas na Biologia, que h uma lacuna aqui. No estaremos errados, talvez, em dizer que o ponto fraco na organizao do ego parece 
residir em sua atitude para com a funo sexual, como se a anttese biolgica entre autopreservao e preservao da espcie houvesse encontrado expresso psicolgica 
neste ponto.
         A experincia analtica convenceu-nos da completa verdade da afirmao, ouvida com tanta freqncia, de que a criana psicologicamente  pai do adulto e 
de que os acontecimentos de seus primeiros anos so de importncia suprema em toda a sua vida posterior. Ter, assim, interesse especial para ns algo que possa 
ser descrito como a experincia central deste perodo da infncia. Nossa ateno  atrada primeiro pelos efeitos de certas influncias que no se aplicam a todas 
as crianas, embora sejam bastante comuns - tais como o abuso sexual de crianas por adultos, sua seduo por outras crianas (irmos ou irms) ligeiramente mais 
velhas que elas e, o que no esperaramos, ficarem elas profundamente excitadas por ver ou ouvir, em primeira mo, um comportamento sexual entre adultos (seus pais), 
principalmente numa poca em que no se pensaria que pudessem interessar-se por tais impresses ou compreend-las, ou serem capazes de record-las mais tarde.  
fcil confirmar at onde essas experincias despertam a suscetibilidade de uma criana e foram os seus prprios impulsos sexuais para certos canais dos quais depois 
no se podem safar. Visto essas impresses estarem sujeitas  represso, seja em seguida, seja logo que buscam retornar como lembranas, constituem elas o determinante 
para a compulso neurtica que depois tornar impossvel ao ego controlar a funo sexual e provavelmente o far voltar as costas permanentemente a essa funo. 
Se ocorre esta ltima reao, o resultado ser uma neurose; se no ocorre, desenvolver-se- uma variedade de perverses, ou a funo, que  de importncia imensa 
no apenas para a reproduo, mas tambm para toda a modelao da vida, tornar-se- impossvel de manejar.
         Por mais instrutivos que casos desse tipo possam ser, um grau ainda mais alto de interesse deve ligar-se  influncia de uma situao pela qual toda criana 
est destinada a passar e que decorre inevitavelmente do fato de ser ela cuidada por outras pessoas e viver com os pais durante um perodo prolongado. Estou pensando 
no complexo de dipo, assim denominado porque sua substncia essencial pode ser encontrada na lenda grega do rei dipo, a qual felizmente pde chegar at ns na 
verso de um grande dramaturgo. O heri grego matou o pai e tomou a me como esposa. Que assim tenha procedido inintencionalmente, visto no os conhecer como pais, 
constitui um desvio dos fatos analticos que podemos facilmente compreender e que, na verdade, reconheceremos como inevitvel.
         Neste ponto, temos de fazer relatos separados do desenvolvimento de meninos e meninas (de indivduos dos sexos masculino e feminino), pois  agora que a 
diferena entre os sexos encontra expresso psicolgica pela primeira vez. Defrontamo-nos aqui com o grande enigma do fato biolgico da dualidade dos sexos: trata-se 
de um fato supremo para o nosso conhecimento; ele desafia qualquer tentativa de remont-lo a algo mais. A Psicanlise no contribuiu em nada para o esclarecimento 
deste problema, que, no h dvida, incide de todo na rea da Biologia. Na vida mental, encontramos apenas reflexos desta grande anttese e sua interpretao torna-se 
mais difcil pelo fato, h muito suspeitado, de que ningum se limita s modalidades de reao de um nico sexo; h sempre lugar para as dos sexo oposto, da mesma 
maneira que o corpo carrega, juntamente com os rgos plenamente desenvolvidos de determinado sexo, rudimentos atrofiados, e com freqncia inteis, dos do outro. 
Para distinguir entre masculino e feminino, na vida mental, usamos o que , sem dvida alguma, uma equao emprica, convencional e inadequada: chamamos de masculino 
tudo o que  forte e ativo, e de feminino tudo o que  fraco e passivo. Este fato da bissexualidade psicolgica dificulta tambm todas as nossas investigaes sobre 
o assunto e torna-as mais difceis de descrever.
         O primeiro objeto ertico de uma criana  o seio da me que a alimenta; a origem do amor est ligada  necessidade satisfeita de nutrio. No h dvida 
de que, inicialmente, a criana no distingue entre o seio e o seu prprio corpo; quando o seio tem de ser separado do corpo e deslocado para o "exterior", porque 
a criana to freqentemente o encontra ausente, ele carrega consigo, como um "objeto", uma parte das catexias libidinais narcsicas originais. Este primeiro objeto 
 depois completado na pessoa da me da criana, que no apenas a alimenta, mas tambm cuida dela e, assim, desperta-lhe um certo nmero de outras sensaes fsicas, 
agradveis e desagradveis. Atravs dos cuidados com o corpo da criana, ela se torna seu primeiro sedutor. Nessas duas relaes reside a raiz da importncia nica, 
sem paralelo, de uma me, estabelecida inalteravelmente para toda a vida como o primeiro e mais forte objeto amoroso e como prottipo de todas as relaes amorosas 
posteriores - para ambos os sexos. Em tudo isso, o fundamento filogentico leva tanto a melhor sobre a experincia acidental da pessoa, que no faz diferena que 
uma criana tenha realmente sugado o seio ou sido criada com mamadeira e nunca desfrutado da ternura do cuidado de uma me. Em ambos os casos, o desenvolvimento 
da criana toma o mesmo caminho; pode ser que, no segundo caso, seu anseio posterior torne-se ainda mais forte. E, por mais tempo que tenha sido amamentada ao seio 
materno, ficar sempre com a convico, depois de ter sido desmamada, de que sua amamentao foi breve e muito pouca.
         Este prefcio no  suprfluo, pois ele pode elevar nossa compreenso da intensidade do complexo de dipo. Quando um menino (a partir da idade de dois ou 
trs anos) ingressou na fase flica de seu desenvolvimento libidinal, est sentindo sensaes prazerosas em seu rgo sexual e aprendeu a proporcionar-se essas sensaes 
 vontade, mediante a estimulao manual, ele se torna o amante da me. Quer possu-la fisicamente, das maneiras que adivinhou de suas observaes e intuies sobre 
a vida sexual, e tenta seduzi-la mostrando-lhe o rgo masculino que est orgulhoso de possuir. Numa palavra, a sua masculinidade, precocemente despertada, procura 
ocupar o lugar do pai junto a ela; este, at aqui, seja como for, constitua um modelo invejado para o menino, devido  fora fsica que nele percebe e  autoridade 
de que o acha investido. O pai agora se torna um rival que se interpe em seu caminho e de quem gostaria de livrar-se. Se, enquanto o pai est ausente,  permitido 
 criana partilhar do leito da me e se, quando ele volta, ela  mais uma vez afastada, a sua satisfao quando o pai desaparece e o seu desapontamento quando surge 
novamente so experincias profundamente sentidas. Este  o tema do complexo de dipo que a lenda grega traduziu do mundo da fantasia de uma criana para a suposta 
realidade. Nas condies de nossa civilizao, ele est invariavelmente fadado a um fim assustador.
         A me do menino compreende muito bem que a excitao sexual dele relaciona-se com ela, mais cedo ou mais tarde reflete que no  correto permitir-lhe continuar. 
Pensa estar fazendo certo proibindo-lhe manipular seu rgo genital. Sua proibio tem pouco efeito; no mximo, ocasiona uma certa modificao em seu mtodo de obter 
satisfao. Por fim, a me adota medidas mais severas; ameaa tirar fora dele a coisa com que a est desafiando. Geralmente, a fim de tornar a ameaa mais assustadora 
e mais crvel, delega a execuo ao pai do menino, dizendo que contar a este e que ele lhe cortar fora o pnis.  estranho dizer que esta ameaa funciona somente 
se outra condio foi preenchida antes ou depois dela. Em si prpria, parece inconcebvel demais para o menino que tal coisa possa acontecer. Entretanto, se na ocasio 
da ameaa ele pode recordar a aparncia dos rgos genitais femininos ou se pouco depois tem uma viso deles - de rgos genitais, equivale a dizer, a que falta 
realmente essa parte supremamente valorizada, ento ele toma a srio que ouviu e, caindo sob a influncia do complexo de castrao, experimenta o trauma mais srio 
de sua vida em incio.
         Os resultados da ameaa de castrao so multifrios e incalculveis; afetam a totalidade das relaes do menino com o pai e a me e, mais tarde, com os 
homens e as mulheres em geral. Via de regra, a masculinidade da criana  incapaz de resistir a este primeiro choque. A fim de preservar seu rgo sexual, ele renuncia 
 posse da me de modo mais ou menos completo; sua vida sexual com freqncia fica permanentemente dificultada pela proibio. Se um forte componente feminino, tal 
como o chamamos, acha-se presente nele, a fora deste  aumentada por esta intimidao de sua masculinidade. Ele cai numa atitude passiva para com o pai, tal como 
a que atribui  me.  verdade que, em conseqncia da ameaa, abandonou a masturbao, mas no as atividades de sua imaginao que a acompanhavam. Pelo contrrio, 
visto serem esta agora a nica forma de satisfao sexual que lhe resta, entrega-se a elas mais do que antes e, nessas fantasias, embora ainda continue a identificar-se 
com o pai, tambm se identifica, simultnea e talvez predominantemente, com a me. Derivados e produtos modificados dessas primeiras fantasias masturbatrias geralmente 
abrem caminho em seu futuro ego e desempenham um papel na formao de seu carter. Independentemente deste encorajamento de sua feminilidade, o medo e o dio do 
pai cresceram muito em intensidade. A masculinidade do menino se retrai, por assim dizer, numa atitude desafiadora em relao ao pai, a qual dominar o seu comportamento 
posterior, na sociedade humana, de maneira compulsiva. Um resduo de sua fixao ertica na me com freqncia subsiste sob a forma de uma dependncia excessiva 
dela, e isto persiste como uma espcie de servido s mulheres.Ele no mais se aventura a amar a me, mas no pode correr o risco de no ser amado por ela, pois, 
nesse caso, ficaria em perigo de ser por ela trado e entregue ao pai para a castrao. A experincia completa, com todos os seus antecedentes e conseqncias, dos 
quais minha descrio s pde dar uma seleo,  submetida a uma represso altamente enrgica, e, tal como se torna possvel pelas leis que operam no id inconsciente, 
todos os impulsos e reaes emocionais mutuamente conflitantes que esto sendo postos em movimento nessa ocasio so preservados no inconsciente e ficam prontos 
a perturbar o desenvolvimento posterior do ego, aps a puberdade. Quando o processo somtico de maturao sexual d nova vida s antigas fixaes libidinais que 
aparentemente haviam sido superadas, a vida sexual mostrar ser inibida, sem homogeneidade e dividida em impulsos mutuamente conflitantes.
         Est fora de dvida,  verdade, que o impacto da ameaa de castrao sobre a vida sexual incipiente de um menino nem sempre tem essas conseqncias temveis. 
Depender, mais uma vez, das relaes quantitativas, de quanto dano  causado e de quanto  evitado. Toda a ocorrncia, que pode provavelmente ser encarada como 
a experincia central dos anos de infncia,o maior problema do incio da vida e a fonte mais intensa de inadequao posterior,  to completamente esquecida que 
sua reconstruo, durante o trabalho de anlise, se defronta nos adultos com a descrena mais decidida. Na verdade, a averso a ela  to grande que as pessoas tentam 
silenciar qualquer meno ao assunto proscrito e os mais bvios lembretes dele so menosprezados por uma estranha cegueira intelectual. Pode-se ouvir objetar, por 
exemplo, que a lenda do rei dipo no tem de fato nenhuma conexo com a construo feita pela anlise: os casos so inteiramente diferentes, visto dipo no saber 
que o homem a quem matara era seu pai e a mulher com que casara era sua me. O que no se leva em conta a  que uma deformao desse tipo  inevitvel se se faz 
uma tentativa de manejo potico do material, e que no h introduo de material estranho, mas apenas um emprego hbil dos fatores apresentados pelo tema. A ignorncia 
de dipo constitui representao legtima do estado inconsciente em que, para os adultos, toda a experincia caiu, e a fora coercitiva do orculo, que torna ou 
deveria tornar inocente o heri,  um reconhecimento da inevitabilidade do destino que condenou todo filho a passar pelo complexo de dipo. Foi ainda ressaltado, 
por parte das fileiras psicanalticas, quo facilmente o enigma de outro heri dramtico, o procrastinador de Shakespeare, Hamlet, pode ser solucionado tendo como 
ponto de referncia o complexo de dipo, desde que o prncipe fracassou na tarefa de punir outrem pelo que coincidia com a substncia de seu prprio desejo edipiano 
- em conseqncia do que a falta geral de compreenso por parte do mundo literrio demonstrou quo pronto est o grosso da humanidade a aferrar-se s suas represses 
infantis.Entretanto, mais de um sculo antes do surgimento da Psicanlise, o filsofo francs Diderot deu testemunho da importncia do complexo de dipo, ao expressar 
a diferena entre os mundos primitivo e civilizado nesta frase: "Si le peti sauvage tait abandonn  lui mme, qu'il conservt toute son imbcilit, et qu'il runt 
au peu de raison de l'enfant au berceau la violence des passions de l'homme de trente ans, il tordrait le col  son pre et coucherait avec sa mre" Aventuro-me 
a dizer que, se a Psicanlise no pudesse gabar-se de mais nenhuma realizao alm da descoberta do complexo de dipo reprimido, s isso j lhe daria direito a ser 
includa entre as preciosas nova aquisies da humanidade.
         Os efeitos do complexo de castrao nas meninas so mais uniformes e no menos profundos. Uma criana do sexo feminino, naturalmente, no tem necessidade 
de recear a perda do pnis; ela reage, todavia, ao fato de no ter recebido um. Desde o incio, inveja nos meninos a posse dele; pode-se dizer que todo o seu desenvolvimento 
se realiza  sombra da inveja do pnis. Ela comea por efetuar vs tentativas de fazer o mesmo que os meninos e, mais tarde, com maior sucesso, faz esforos por 
compensar a sua falta - esforos que podem conduzir, afinal, a uma atitude feminina normal. Se, durante a fase flica, tenta obter prazer com um menino, pela estimulao 
manual de seus rgos genitais, com freqncia acontece fracassar em obter satisfao suficiente e estende os julgamentos de inferioridade de seu pnis atrofiado 
a todo o seu eu (self). Via de regra, cedo desiste da masturbao, visto no ter desejos de ser lembrada da superioridade de seu irmo ou companheiro de brincadeiras, 
e volta as costas completamente  sexualidade.
         Se uma menina persiste em seu primeiro desejo - transformar-se em menino - em casos extremos, acabar homossexual manifesta, ou, doutra maneira, apresentar 
traos marcantemente masculinos no encaminhamento de sua vida futura, escolher uma vocao masculina, e assim por diante. O outro caminho  feito atravs do abandono 
da me que amou: a filha, sob a influncia de sua inveja do pnis, no pode perdoar  me hav-la trazido ao mundo to insuficientemente aparelhada. Em seu ressentimento 
por isto, abandona a me e coloca em lugar dela outra pessoa, como objeto de seu amor - o pai. Se se perdeu um objeto amoroso, a reao mais bvia  identificar-se 
com ele, substitu-lo dentro de si prpria, por assim dizer, mediante a identificao. Este mecanismo vem agora em auxlio da menina. A identificao com a me pode 
ocupar o lugar da ligao com ela. A filha se pe no lugar da me, como sempre fizera em seus brinquedos; tenta tomar o lugar dela junto ao pai e comea a odiar 
a me que costumava amar, e isso por dois motivos: por cime e por mortificao pelo pnis que lhe foi negado. Sua nova relao com o pai pode comear tendo por 
contedo um desejo de ter o pnis dele  sua disposio, mas culmina noutro desejo - ter um filho dele como um presente. O desejo de um beb ocupou assim o lugar 
do desejo de um pnis, ou, pelo menos, dele foi dissociado e expelido (split off).
          interessante que a relao entre o complexo de dipo e o complexo de castrao assuma forma to diferente - uma forma oposta, na realidade - no caso das 
mulheres, quando comparada com a dos homens. Nos indivduos do sexo masculino, como vimos, a ameaa de castrao d fim ao complexo de dipo; nas mulheres, descobrimos 
que, ao contrrio,  a falta de um pnis que as impele ao seu complexo de dipo. Pouco prejuzo  causado a uma mulher se ela permanece em sua atitude edipiana feminina. 
(O termo "complexo de Electra'' foi proposto para esta.) Nesse caso, escolher o marido pelas caractersticas paternas dele e estar pronta a reconhecer a sua autoridade. 
O seu anseio de possuir um pnis, que , na realidade, insacivel, pode encontrar satisfao se ela for bem-sucedida em completar o seu amor pelo rgo estendendo-o 
ao portador do rgo, tal como aconteceu anteriormente, quando progrediu do seio da me para a me como uma pessoa completa.
         Se perguntarmos a um analista o que a sua experincia demonstrou serem as estruturas mentais menos acessveis  influncia em seus pacientes, a resposta 
ser: numa mulher, o desejo de um pnis; num homem, a atitude feminina para com o seu prprio sexo, cuja pr-condio, naturalmente, seria a perda do pnis.
         
         
         
















PARTE III - O RENDIMENTO TERICO
         
         CAPTULO VIII - O APARELHO PSQUICO E O MUNDO EXTERNO 
         
         Todas as descobertas e hpoteses gerais que apresentei no primeiro captulo foram feitas atravs de um pormenorizado trabalho laborioso e paciente, do tipo 
de que dei um exemplo no captulo anterior. Podemos agora ceder  tentao de fazer um levantamento das ampliaes de conhecimentos que conseguimos atravs de um 
trabalho como esse e considerar quais os caminhos que abrimos para avanos ulteriores. Em relao a isto, nos impressiona o fato de termos sido obrigados, com tanta 
freqncia, a aventurar-nos alm das fronteiras da cincia da Psicologia. Os fenmenos de que estamos tratando no pertencem somente  Psicologia; tm um lado orgnico 
e biolgico tambm, e, por conseguinte, no decorrer de nossos esforos para construir a Psicanlise, fizemos tambm algumas importantes descobertas biolgicas e 
no pudemos evitar a estruturao de novas hipteses biolgicas.
         Por ora, porm, atenhamo-nos  Psicologia. Vimos que no  cientificamente vivel traar uma linha de demarcao entre o que  psiquicamente normal e anormal, 
de maneira que esta distino, apesar de sua importncia prtica, possui apenas um valor convencional. Estabelecemos assim um direito a chegar a uma compreenso 
da vida normal da mente a partir do estudo de seus distrbios - o que no seria admissvel se esses estados patolgicos, as neuroses e as psicoses, tivessem causas 
especficas operando  maneira de corpos estranhos.
         O estudo de um distrbio mental que ocorre durante o sono, que  passageiro e inofensivo, e que, na verdade, desempenha uma funo til, nos deu uma chave 
para a compreenso das doenas mentais, que so permanentes e prejudiciais  vida. E podemos agora aventurar-nos  afirmao de que a psicologia da conscincia no 
era mais capaz de compreender o funcionamento normal da mente do que de compreender os sonhos. Os dados da autopercepo consciente, os quais, somente eles, se achavam 
 sua disposio, mostraram-se sob todos os aspectos inadequados para sondar a profuso e complexidade dos processos da mente, para revelar as suas interligaes 
e assim reconhecer os determinantes de suas perturbaes.
         A hiptese que adotamos, de um aparelho psquico que se estende no espao, convenientemente reunido, desenvolvido pelas exigncias da vida, que d origem 
aos fenmenos da conscincia somente em um determinado ponto e sob certas condies - essa hiptese nos colocou em posio de estabelecer a Psicologia em bases semelhantes 
s de qualquer outra cincia, tal como, por exemplo, a Fsica. Em nossa cincia, tal como nas outras, o problema  o mesmo: por trs dos atributos (qualidades) do 
objeto em exame que se apresenta diretamente  nossa percepo, temos de descobrir algo que  mais independente da capacidade receptiva particular de nossos rgos 
sensoriais e que se aproxima mais do que se poderia supor ser o estado real das coisas. No temos esperana de poder atingir esse estado em si mesmo, visto ser evidente 
que tudo de novo que inferimos deve, no obstante, ser traduzido de volta para a linguagem das nossas percepes, da qual nos  simplesmente impossvel libertar-nos. 
Mas aqui reside a verdadeira natureza e limitao de nossa cincia.  como se devssemos dizer, em Fsica: "Se pudssemos ver de modo bastante claro, descobriramos 
que o que parece ser um corpo slido  constitudo de partculas de tal e qual formato e tamanho, a ocupar tais e quais posies relativas." Enquanto isso, tentamos 
aumentar ao mximo possvel a eficincia de nossos rgos sensoriais mediante auxlios artificiais, mas pode-se esperar que todos os esforos desse tipo no conseguiro 
atingir o resultado ltimo. A realidade sempre permanecer sendo "incognoscvel". O rendimento trazido  luz pelo trabalho cientfico de nossas percepes sensoriais 
primrias consistir numa compreenso interna (insight) das ligaes e relaes dependentes que esto presentes no mundo externo, que podem de alguma maneira ser 
fidedignamente reproduzidas ou refletidas no mundo interno de nosso pensamento, um conhecimento das quais nos capacita a "compreender" algo no mundo externo, prov-lo 
e, possivelmente alter-lo. O nosso procedimento na Psicanlise  inteiramente semelhante. Descobrimos mtodos tcnicos de preencher as lacunas existentes nos fenmenos 
de nossa conscincia e fazemos uso desse mtodos exatamente como um fsico faz uso da experincia. Dessa maneira, inferimos um certo nmero de processos que so 
em si mesmos "incognoscveis" e os interpolamos naqueles que so conscientes para ns. E se, por exemplo, dizemos: "Neste ponto, interveio uma lembrana inconsciente", 
o que queremos dizer : "Neste ponto, ocorreu algo de que nos achamos totalmente incapazes de formar uma concepo, mas que, se houvesse penetrado em nossa conscincia, 
s poderia ter sido descrito de tal e qual maneira." Nossa justificao por fazer tais inferncias e interpolaes e o grau de certeza que a elas se liga naturalmente 
permanecem abertos  crtica em cada caso individual, e no se pode negar que com freqncia  extremamente difcil chegar a uma deciso - fato que encontra expresso 
na falta de concordncia entre analistas. A novidade do problema  que deve ser culpada por isto - isto , uma falta de treinamento. Mas, ao lado disso, h um fator 
especial, inerente ao prprio assunto, pois na Psicologia, diferentemente da Fsica, no estamos sempre interessados em coisas que s podem despertar um frio interesse 
cientfico. Assim, no ficaremos muito surpresos se uma analista que no ficou suficientemente convencida da intensidade de seu prprio desejo de um pnis venha 
a fracassar tambm em dar uma importncia correta a este fator em suas pacientes. Mas tais fontes de erro, que se originam da equao pessoal, no tm grande importncia 
a longo prazo. Se se examinarem antigos livros didticos sobre o uso de microscpio, fica-se espantado ao descobrir as extraordinrias exigncias que se faziam  
personalidade dos que efetuavam observaes com o instrumento, enquanto a sua tcnica ainda era incipiente - exigncias da quais no se fala mais hoje.
         No posso pretender dar aqui um quadro completo do aparelho psquico e de suas atividades; eu seria impedido, entre outras coisas, pela circunstncia de 
que a Psicanlise ainda no teve tempo para estudar igualmente todas essas funes. Vou-me contentar, portanto, com uma recapitulao pormenorizada da descrio 
feita no captulo inicial.
         O mago de nosso ser , ento, formado, pelo obscuro id, que no tem comunicao direta com o mundo externo e s  acessvel, mesmo ao nosso conhecimento, 
mediante outro agente. Dentro de id operam os instintos orgnicos, que so, eles prprios, compostos de fuses de duas foras primevas (Eros e destrutividade) em 
propores que variam e se diferenciam umas das outras por sua relao com rgos ou sistemas de rgos. O nico e exclusivo impulso destes instintos  no sentido 
da satisfao, a qual se espera que surja de certas modificaes nos rgos, com o auxlio de objetos do mundo externo. Mas a satisfao imediata e desregrada dos 
instintos, tal como o id exige, conduziria com freqncia a perigosos conflitos com o mundo externo e  extino. O id desconhece a solicitude acerca da garantia 
de sobrevivncia e desconhece igualmente a ansiedade, ou talvez fosse mais correto dizer que, embora ele possa gerar os elementos sensoriais da ansiedade, no pode 
utilizar-se deles. Os processos que so possveis nos supostos elementos psquicos do id e entre eles (o processo primrio) diferem amplamente daqueles que nos so 
familiares, atravs da percepo consciente, em nossa vida intelectual e emocional; tampouco esto eles sujeitos s restries crticas da lgica, que repudia alguns 
desses processos como invlidos e busca desfaz-los.
         O id, excludo do mundo externo, possui seu prprio mundo de percepo. Ele detecta com extraordinria agudez certas modificaes em seu interior, especialmente 
oscilaes na tenso de suas necessidades instintivas, e essas modificaes tornam-se conscientes como sensaes na srie prazer-desprazer.  difcil dizer, com 
efeito, por que meios e com a ajuda de que rgos sensrios terminais essas percepes ocorrem. Mas  fato estabelecido que as autopercepes - sensaes cenestsicas 
e sensaes de prazer-desprazer - governam a passagem de acontecimentos no id com fora desptica. O id obedece ao inexorvel princpio de prazer. Mas no o id sozinho. 
Parece que tambm a atividade dos outros agentes psquicos s  capaz de modificar o princpio de prazer, mas no de anul-lo, e permanece sendo questo da mais 
alta importncia terica, questo que ainda no foi respondida, quando e como  possvel este princpio de prazer ser superado. A considerao de que o princpio 
de prazer exige uma reduo, no fundo a extino, talvez, das tenses das necessidades instintivas (isto , o Nirvana) leva s relaes ainda no avaliadas entre 
o princpio de prazer e as duas foras primevas, Eros e o instinto de morte.
         A outra regio da mente, que acreditamos conhecer melhor e na qual nos reconhecemos mais facilmente - a que  conhecida como ego -, desenvolveu-se a partir 
da camada cortical do id, que, por ser adaptada  recepo e excluso de estmulos, est em contato direto com o mundo externo (realidade). Partindo da percepo 
consciente, ela submeteu  sua influncia regies cada vez maiores e estratos cada vez mais profundos do id, e, na persistncia com que mantm sua dependncia do 
mundo externo, traz a marca indelvel de sua origem (como se fosse "Made in Germany") Sua funo psicolgica consiste em levar a passagem [de acontecimentos] no 
id a um nvel dinmico mais alto (talvez pela transformao de energia livremente mvel em energia ligada, tal como corresponde ao estado pr-consciente); sua funo 
construtiva consiste em interpolar, entre a exigncia feita por um instinto e a ao que a satisfaz, a atividade de pensamento que, aps orientar-se no presente 
e avaliar experincias anteriores, se esfora, mediante aes experimentais, por calcular as conseqncias do curso de ao proposto. Dessa maneira, o ego chega 
a uma deciso sobre se a tentativa de obter satisfao deve ser levada a cabo ou adiada, ou se no ser necessrio que a exigncia do instinto seja suprimida completamente 
por ser perigosa. (Temos aqui o princpio de realidade.) Da mesma maneira que o id  voltado unicamente para a obteno de prazer, o ego  governado por consideraes 
de segurana. O ego estabeleceu-se a tarefa de autopreservao, que o id parece negligenciar. Ele [o ego] faz uso das sensaes de ansiedade como sinal de alerta 
dos perigos que ameaam a sua integridade. Uma vez que os traos anmicos podem tornar-se conscientes, tal como as percepes, especialmente mediante sua associao 
com resduos da fala, surge a possibilidade de uma confuso que conduziria a uma m compreenso da realidade. O ego se guarda contra esta possibilidade pela instituio 
do teste de realidade, que se permite cair em inatividade temporria nos sonhos em virtude das condies predominantes no estado de sono. O ego, que procura manter-se 
num meio ambiente de foras mecnicas esmagadoras,  ameaado por perigos que provm, em primeira instncia, da realidade externa, mas perigos no o ameaam somente 
da. O seu prprio id  uma fonte de perigos semelhantes, e isso por duas razes diferentes. Em primeiro lugar, uma intensidade excessiva de instinto pode prejudicar 
o ego de maneira semelhante a um "estmulo" excessivo proveniente do mundo externo.  verdade que aquela intensidade no pode destru-lo, mas pode destruir a sua 
organizao dinmica caracterstica e transformar o ego, novamente, numa parte do id. Em segundo lugar, a experincia pode ter ensinado ao ego que a satisfao de 
alguma exigncia instintiva, que no seja em si prpria insuportvel, envolveria perigos no mundo externo, de maneira que uma exigncia instintiva desse tipo torna-se, 
ela prpria, um perigo. Assim, o ego combate em duas frentes: tem de defender sua existncia contra um mundo externo que o ameaa com a aniquilao, assim como contra 
um mundo interno que lhe faz exigncias excessivas. Ele adota os mesmos mtodos de defesa contra ambos, mas a sua defesa contra o inimigo interno  particularmente 
inadequada. Em conseqncia de haver sido originalmente idntico a este ltimo inimigo e de ter vivido com ele, desde ento, nos termos mais ntimos, o ego tem grande 
dificuldade de escapar aos perigos internos. Eles persistem como ameaas, mesmo que possam ser temporariamente subjugados.
         J vimos como o fraco e imaturo ego, no primeiro perodo da infncia,  permanentemente prejudicado pelas tenses a que  submetido em seus esforos de 
desviar os perigos que so peculiares a esse perodo da vida. As crianas so protegidas contra os perigos que as ameaam do mundo externo pela solicitude dos pais; 
pagam esta segurana com um temor de perda de amor que as deixaria desamparadas face aos perigos do mundo externo. Este fator exerce influncia decisiva no resultado 
do conflito quando um menino se encontra na situao do complexo de dipo, no qual a ameaa ao seu narcisismo representada pelo perigo da castrao, reforado desde 
fontes primevas, se apossa dele. Impulsionada pela operao combinada dessa duas influncias, o perigo real e presente e o perigo relembrado com sua base filogentica, 
a criana embarca em suas tentativas de defesa - represses - que so momentaneamente eficazes, mas que, todavia, se tornam psicologicamente inadequadas quando a 
reanimao posterior da vida sexual traz reforo s exigncias instintivas que haviam sido repudiada no passado. Se as coisas so assim, teria de ser dito, de um 
ponto de vista biolgico, que o ego fracassa na tarefa de dominar as excitaes do perodo sexual primitivo, numa poca em que sua imaturidade o torna incompetente 
para faz-lo.  nesse atraso do desenvolvimento do ego em relao ao desenvolvimento libidinal que vemos a pr-condio essencial da neurose, e no podemos fugir 
 concluso de que as neuroses poderiam ser evitadas se se poupasse ao ego infantil essa tarefa - isto , se  vida sexual da criana fosse concedida liberdade de 
ao, como acontece entre muitos povos primitivos. Pode ser que a etiologia das doenas neurticas seja mais complicada do que aqui a descrevemos; se assim for, 
pelo menos chamamos a ateno para uma parte essencial do complexo etiolgico. Tampouco devemos esquecer as influncias filogenticas, que se acham representadas 
de alguma maneira no id, sob formas que ainda no somos capazes de apreender, e que devem certamente agir sobre o ego mais poderosamente nesse perodo primitivo 
do que mais tarde. Por outro lado, desponta em ns a compreenso de que essa tentativa precoce de represar o instinto sexual, um partidarismo to decidido por parte 
do incipiente ego em favor do mundo externo, em oposio ao mundo interno, ocasionado pela proibio da sexualidade infantil, no pode deixar de ter efeito na disposio 
posterior do indivduo para com a cultura. As exigncias instintivas foradas a afastar-se da satisfao direta so compelidas a ingressar em novos caminhos que 
conduzem  satisfao substituta, e, no curso desses dtours, podem tornar-se dessexualizadas e a sua vinculao com seus objetivos instintivos originais pode tornar-se 
mais frouxa. E, neste ponto, podemos antecipar a tese de que muitos dos bens altamente valorizados de nossa civilizao foram adquiridos  custa da sexualidade e 
atravs da restrio das fora motivadoras sexuais.Repetidamente tivemos de insistir no fato de que o ego deve a sua origem, bem como a mais importante de suas caractersticas 
adquiridas,  sua relao com o mundo externo real. Estamos assim preparados para presumir que os estados patolgicos do ego, nos quais ele mais se aproxima novamente 
do id, fundamentam-se numa cessao ou num afrouxamento dessa relao com o mundo externo. Isto harmoniza-se muito bem com o que aprendemos da experincia clnica 
- a saber, que a causa precipitadora da irrupo de uma psicose  ou que a realidade tornou-se insuportavelmente penosa ou que os instintos se tornaram extraordinariamente 
intensificados - ambas as quais, em vista das reivindicaes rivais feitas ao ego pelo id e pelo mundo externo, devem conduzir ao mesmo resultado. O problema das 
psicoses seria simples e claro se o desligamento do ego em relao  realidade pudesse ser levado a cabo completamente. Mas isso parece s acontecer raramente ou, 
talvez, nunca. Mesmo num estado to afastado da realidade do mundo externo como o de confuso alucinatria, aprende-se com os pacientes, aps seu restabelecimento, 
que, na ocasio, em algum canto da mente (como o dizem) havia uma pessoa normal escondida, a qual, como um espectador desligado, olhava o tumulto da doena passar 
por ele. No sei se podemos presumir que isso seja assim em geral, mas posso relatar o mesmo de outras psicoses com um curso menos tempestuoso. Recordo um caso de 
parania crnica em que, aps cada crise de cimes, um sonho transmitia ao analista uma representao correta da causa precipitadora, livre de qualquer delrio. 
Um contraste interessante foi assim trazido  luz: embora estejamos acostumados a descobrir, nos sonhos dos neurticos, cimes que so alheios  vida desperta, neste 
caso psictico o delrio que dominava o paciente durante o dia era corrigido pelo sonho. Podemos provavelmente tomar como verdadeiro, de modo geral, que o que ocorre 
em todos esses casos  uma diviso (split) psquica. Duas atitudes psquicas formaram-se, em vez de uma s - uma delas, a normal, que leva em conta a realidade, 
e outra que, sob a influncia dos instintos, desliga o ego da realidade. As duas coexistem lado a lado. O resultado depende da sua fora relativa. Se a segunda  
ou se torna a mais forte, a pr-condio necessria para uma psicose acha-se presente. Se a relao  invertida, h ento uma cura aparente do distrbio delirante. 
Na realidade, ele apenas se retira para o inconsciente - tal como numerosas observaes nos levam a acreditar que o delrio existia, j pronto, muito tempo antes 
de sua irrupo manifesta.
         O ponto de vista que postula que em todas as psicoses h uma diviso do ego (splitting of the ego) no poderia chamar tanta ateno se no se revelasse 
passvel de aplicao a outros estados mais semelhantes s neuroses e, finalmente, s prprias neuroses. Esta anormalidade, que pode ser englobada entre as perverses, 
baseia-se, como  bem sabido, em o paciente (que  quase sempre do sexo masculino) no reconhecer o fato de que as mulheres no possuem pnis - fato que lhe  extremamente 
indesejvel, visto tratar-se de uma prova da possibilidade de ele prprio ser castrado. Nega, portanto, a sua prpria percepo sensorial, que lhe mostrou que falta 
um pnis aos genitais femininos, e aferra-se  convico contrria. A percepo negada, contudo, no fica inteiramente sem influncia, pois, apesar de tudo, ele 
no tem a coragem de afirmar que realmente viu um pnis. Em vez disso, o paciente apodera-se de alguma outra coisa - uma parte do corpo ou algum outro objeto - e 
lhe atribui o papel do pnis sem o qual no pode passar. Trata-se geralmente de algo que ele realmente viu no momento em que viu os genitais femininos, ou ento 
 algo que pode apropriadamente servir como substituto simblico do pnis. Ora, seria incorreto descrever este processo, quando um fetiche  construdo, como diviso 
do ego; ele  uma conciliao formada com a ajuda do deslocamento, tal como aquela com que nos familiarizamos nos sonhos. Mas nossas observaes nos revelam ainda 
mais. A criao do fetiche foi devida a uma inteno de destruir a prova da possibilidade de castrao, de maneira a que o temor desta possa ser evitado. Se os indivduos 
do sexo feminino, como outras criaturas vivas, possuem um pnis, no h necessidade de temer pela posse continuada do prprio pnis. Ora, deparamo-nos com fetichistas 
que desenvolveram o mesmo temor da castrao dos no-fetichistas e reagem da mesma maneira a ela. O seu comportamento, portanto, expressa simultaneamente duas premissas 
contrrias. Por um lado, negam o fato de sua percepo - o fato de que no viram pnis nos genitais femininos - e, por outro, reconhecem o fato de que as mulheres 
no possuem pnis e tiram dele as concluses corretas. As duas atitudes persistem lado a lado durante toda a vida, sem se influenciarem mutuamente. Temos aqui o 
que pode ser corretamente chamado de diviso do ego. Esta circunstncia tambm capacita-nos a compreender como  que o fetichismo, com tanta freqncia,  apenas 
parcialmente desenvolvido. Ele no governa exclusivamente a escolha de objeto, mas deixa lugar para um maior ou menor comportamento sexual normal; s vezes, na verdade, 
contenta-se com o desempenho de um papel modesto ou se limita a uma mera aluso. Nos fetichistas, portanto, o desligamento do ego em relao  realidade do mundo 
externo nunca alcanou xito completo.
         No se deve pensar que o fetichismo apresente um caso excepcional com referncia  diviso do ego; trata-se simplesmente de um tema particularmente favorvel 
para estudar a questo. Voltemos  nossa tese de que o ego da criana, sob o domnio do mundo real, livra-se das exigncias instintivas indesejveis atravs do que 
 chamado de represses. Suplementaremos agora isto afirmando ainda que, durante o mesmo perodo da vida, o ego com bastante freqncia se encontra em posio de 
desviar alguma exigncia do mundo externo que acha aflitiva e que isto  feito por meio de uma negao das percepes que trazem ao conhecimento essa exigncia oriunda 
da realidade. Negaes desse tipo ocorrem com muita freqncia e no apenas com fetichistas e, sempre que nos achamos em posio de estud-las, revelam ser meias-medidas, 
tentativas incompletas de desligamento da realidade. A negao  sempre suplementada por um reconhecimento: duas atitudes contrrias e independentes sempre surgem 
e resultam na situao de haver uma diviso do ego. Mais uma vez, o resultado depende de qual das duas pode apoderar-se da maior intensidade.
         Os fatos desta diviso do ego, que acabamos de descrever, no so to novos nem to estranhos quanto podem a princpio parecer. , na verdade, uma caracterstica 
universal das neuroses que estejam presentes na vida mental do indivduo, em relao a algum comportamento particular, duas atitudes diferentes, mutuamente contrrias 
e independentes uma da outra. No caso das neuroses, entretanto, uma dessas atitudes pertence ao ego e a contrria, que  reprimida, pertence ao id. A diferena entre 
este caso e o outro [examinado no pargrafo anterior]  essencialmente uma diferena topogrfica ou estrutural, e nem sempre  fcil decidir, num caso individual, 
com qual das duas possibilidades se est lidando. Elas possuem, contudo, a seguinte importante caracterstica em comum. Seja o que for que o ego faa em seus esforos 
de defesa, procure ele negar uma parte do mundo externo real ou busque rejeitar uma exigncia instintiva oriunda do mundo interno, o seu sucesso nunca  completo 
e irrestrito. O resultado sempre reside em duas atitudes contrrias, das quais a derrotada, a mais fraca, no menos que a outra, conduz a complicaes psquicas. 
Para concluir,  necessrio apenas apontar quo pouco de todos estes processos se torna conhecido de ns atravs de nossa percepo consciente.
         
         CAPTULO IX - O MUNDO INTERNO
         
         No temos maneira de transmitir o conhecimento de um conjunto complicado de acontecimentos simultneos, a no ser descrevendo-os sucessivamente, e assim 
acontece que todas as nossas descries so falhas, em princpio, devido  simplificao unilateral, e tm de esperar at que possam ser suplementadas, elaboradas 
e corrigidas.
         A representao de um ego que medeia entre o id e o mundo externo, que assume as exigncias instintivas daquele, a fim de conduzi-las  satisfao, que 
deriva percepes do ltimo e utiliza-as como lembranas, que, concentrado em sua autopreservao, pe-se em defesa contra reivindicaes excessivamente intensas 
de ambos os lados, e que, ao mesmo tempo,  guiado em todas as suas decises pelas injunes de um princpio de prazer modificado - essa representao, de ato, aplica-se 
ao ego apenas at o fim do primeiro perodo da infncia, at aproximadamente a idade de cinco anos. Por volta dessa poca, uma mudana importante se realizou. Uma 
parte do mundo externo foi, pelo menos parcialmente, abandonada como objeto e foi, por identificao, includa no ego, tornando-se assim parte integrante do mundo 
interno. Esse novo agente psquico continua a efetuar as funes que at ento haviam sido desempenhadas pelas pessoas [os objetos abandonados] do mundo externo: 
ele observa o ego, d-lhe ordens, julga-o e ameaa-o com punies, exatamente como os pais cujo lugar ocupou. Chamamos este agente de superego e nos damos conta 
dele, em suas funes judicirias, como nossa conscincia.  impressionante que o superego freqentemente demonstre uma severidade para a qual nenhum modelo foi 
fornecido pelos pais reais, e, ademais, que chame o ego a prestar contas no apenas de suas aes, mas igualmente dos seus pensamentos e intenes no executadas, 
das quais o superego parece ter conhecimento. Isso nos lembra que o heri do mito de dipo tambm sentia-se culpado pelas suas aes e submeteu-se  autopunio, 
embora a fora coercitiva do orculo devesse t-lo isentado de culpa em nosso julgamento e no seu. O superego , na verdade, herdeiro do complexo de dipo e s se 
estabelece aps a pessoa haver-se libertado desse complexo. Por essa razo, a sua excessiva severidade no segue um modelo real, mas corresponde  fora da defesa 
utilizada contra a tentao do complexo de dipo. Fora de dvida, uma certa suspeita desse estado de coisas reside, no fundo, na afirmao feita pelos filsofos 
e crentes de que o senso moral no  instalado nos homens pela educao ou por eles adquirido na vida social, mas lhes  implantado de uma fonte mais alta.
         Enquanto o ego trabalha em plena harmonia com o superego, no  fcil distinguir entre as suas manifestaes, mas tenses e desavenas entre eles fazem-se 
muito claramente visveis. Os tormentos causados pelas censuras da conscincia correspondem precisamente ao medo da perda de amor, por parte de uma criana, medo 
cujo lugar foi tomado pelo agente moral. Por outro lado, se o ego resistiu com xito  tentao de fazer algo que, para o superego, seria censurvel, ele sente-se 
elevado em sua auto-estima e fortalecido em seu orgulho, como se houvesse feito alguma preciosa aquisio. Dessa maneira, o superego continua a desempenhar o papel 
de um mundo externo para o ego, embora se tenha tornado uma parte do mundo interno. Durante toda a vida posterior, ele representa a influncia da infncia de uma 
pessoa, do cuidado e da educao que lhe foram dados pelos pais e de sua dependncia destes - uma infncia que  to grandemente prolongada, nos seres humanos, por 
uma vida familiar em comum. E, em tudo isso, no so apenas as qualidades pessoais desses pais que se fazem sentir, mas tambm tudo o que teve um efeito determinante 
sobre eles prprios, os gostos e padres da classe social em que viveram e as disposies e tradies inatas da raa da qual se originaram. Aqueles que tm gosto 
por generalizaes e distines ntidas podem dizer que o mundo externo, no qual o indivduo se descobre exposto, aps desligar-se dos pais, representa o poder do 
presente; que o id, com suas tendncias herdadas, representa o passado orgnico, e que o superego, que vem a juntar-se a eles posteriormente, representa, mais do 
que qualquer outra coisa, o passado cultural, que uma criana tem por assim dizer, de repetir como ps-experincia durante os poucos anos do incio de sua vida. 
 pouco provvel que essas generalizaes possam ser universalmente corretas. Alguma parte das aquisies culturais indubitavelmente deixou um precipitado atrs 
de si no id; muita coisa do que  contribuio do superego despertar eco no id; no poucas das novas experincias da criana sero intensificadas por serem repeties 
de alguma primeva vivncia filogentica.
         "Was du ererbt von deinen Vtern hast,Erwirb es, um es zu besitzen."Assim, o superego assume uma espcie de posio intermediria entre o id e o mundo externo; 
ele une em si as influncias do presente e do passado. No estabelecimento do superego, temos diante de ns, por assim dizer, um exemplo da maneira como o presente 
se transforma no passado (...)
         
         
         

















ANLISE TERMINVEL E INTERMINVEL (1937)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         DIE ENDLICHE UND DIE UNENDLICHE ANALYSE 
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1937   Int. Z. Psychoanal., 23 (2), 209-40.
         1950   G. W., 16, 59-99.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'Analysis Terminable and Interminable'
         
         1937   Int. J. Psycho-Anal., 18 (4), 374-405. (Trad. de Joan Riviere.)
         1950 C.P. 5, 316-57. (Reimpresso revista da anterior.)
         
         A presente traduo  uma verso modificada da publicada em 1950. Os ltimos oito e meio pargrafos da Seo VI do original alemo foram reimpressos no 
outono de 1937, no Almanach der Psychoanalyse 1938, 44-50.
         
         Este artigo foi escrito no comeo de 1937 e publicado em junho. Ele e o seguinte, sobre 'Construes em Anlise' (1937d), foram os ltimos escritos estritamente 
psicanalticos de Freud a serem publicados em sua vida. Quase vinte anos se tinham passado desde que ele publicara um trabalho puramente tcnico, embora, naturalmente, 
tivesse tratado de questes de tcnica em seus outros escritos.
         O principal exame anterior, por parte de Freud, do funcionamento da terapia psicanaltica fora feito nas Conferncias XXVII e XXVIII das Introductory Lectures 
(1916-17). Retornara ao assunto, de modo muitssimo mais breve, na Conferncia XXXIV das New Introductory Lectures (1933a). Os leitores desses trabalhos anteriores 
ficam s vezes impressionados por aquilo que parece constituir diferenas entre o presente artigo e seus predecessores, e essas divergncias aparentes exigem exame.
         O artigo, como um todo, d impresso de pessimismo quanto  eficcia teraputica da psicanlise. As limitaes desta so constantemente acentuadas, e insiste-se 
nas dificuldades do procedimento e nos obstculos que se interpem em seu caminho. Na verdade, essas limitaes constituem seu tema principal. Na realidade, contudo, 
nada h de revolucionrio nisso. Freud sempre esteve bem ciente das barreiras ao sucesso da anlise e sempre se mostrou pronto a investig-las. Ademais, sempre esteve 
vido por dirigir a ateno para a importncia dos interesses no teraputicos da psicanlise, direo em que jaziam suas prprias preferncias pessoais, particularmente 
no ltimo perodo de sua vida. Recordar-se- que no breve debate sobre a tcnica nas New Introductory Lectures (1933a), ele escrevera que 'nunca fora um terapeuta 
entusiasta.' (Standard Ed., 22, 151.) Assim, nada h de inesperado na fria atitude demonstrada neste artigo para com as ambies teraputicas da psicanlise ou na 
enumerao das dificuldades com que ela se defronta. O que pode talvez causar mais surpresa so alguns aspectos do exame, feito por Freud, da natureza e causas subjacentes 
dessas dificuldades.
         Deve-se notar, em primeiro lugar, que os fatores para os quais ele chama grandemente a ateno so de natureza fisiolgica e biolgica, sendo assim, em 
geral, insuscetveis a influncias psicolgicas. Desse tipo, por exemplo, so a relativa fora 'constitucional' dos instintos,ver em ([1]),e a relativa fraqueza 
do ego, devido a causas fisiolgicas como a puberdade, a menopausa e a doena fsica ver em([1]).Mas o fator impeditivo mais poderoso de todos, um fator que est 
alm de qualquer possibilidade de controle (ao qual algumas pginas do trabalho so dedicadas,ver em [1], o instinto de morte. Freud sugere aqui que este no  
apenas, como apontara em trabalhos anteriores, responsvel por grande parte da resistncia encontrada na anlise, mas que , realmente, a causa suprema de conflito 
na mente,ver em ([1]).Em tudo isso, contudo, mais uma vez nada h de revolucionrio. Freud pode estar dando nfase maior do que a costumeira aos fatores constitucionais 
entre as dificuldades com que a psicanlise se defronta, mas ele sempre reconheceu sua importncia.
         Tampouco so novos quaisquer dos trs fatores que Freud seleciona aqui como 'decisivos' para o sucesso de nossos esforos teraputicos ver em ([1]):o prognstico 
mais favorvel dos casos de origem 'traumtica', de preferncia aos de 'origem constitucional'; a importncia das consideraes 'quantitativas', e a questo de uma 
'alterao do ego'.  sobre esse terceiro ponto que muita luz nova  lanada no presente artigo. Em descries anteriores do processo teraputico, um lugar essencial 
era sempre atribudo a uma alterao no ego que deveria ser ocasionada pelo analista, como preliminar  anulao das represses do paciente (ver, por exemplo, a 
descrio na Conferncia XXVIII das Introductory Lectures, Standard Ed., 16, 455). Quanto  natureza da alterao, e como ela podia ser efetuada, muito pouco era 
sabido. Os recentes avanos na anlise do ego, por parte de Freud, tornaram-lhe agora possvel levar a investigao mais adiante. A alterao teraputica do ego 
era agora vista mais como a anulao de alteraes j presentes como resultados do processo defensivo. E vale a pena lembrar que o fato das alteraes do ego ocasionadas 
por processos defensivos j fora mencionado por Freud em data muito anterior. O conceito pode ser encontrado em seus estudos dos delrios, em seu segundo artigo 
sobre as neuropsicoses de defesa (1896b), Standard Ed., 3, 185, e em diversos pontos de seu Rascunho K, ainda mais anterior (Freud, 1950a), de 1 de janeiro de 1896. 
Posteriormente, a noo parece ter ficado temporariamente inativa, a conexo entre anticatexias, formaes reativas e alteraes do ego  claramente anunciada pela 
primeira vez em Inhibitions, Symptoms and Anxiety (1926d), Standard Ed., 20, 157, 159 e 164. Reaparece nas New Introductory Lectures (1933a), ibid., 22, 90, e, aps 
longo exame dela no presente artigo, em Moiss e o Monotesmo (1939a),ver em [1], e finalmente, no Esboo de Psicanlise (1940a),ver em [1], acima.
         H um aspecto, contudo, em que as opinies expressas por Freud neste trabalho parecem diferir de suas opinies anteriores, ou mesmo contradiz-las - a saber, 
o ceticismo por ele expresso em relao ao poder profiltico da psicanlise. Suas dvidas estendem-se s perspectivas de impedir no simplesmente a ocorrncia de 
uma neurose nova e diferente, mas inclusive o retorno de uma neurose que j foi tratada. A mudana aparente fica demonstrada se relembramos uma frase da Conferncia 
XXVII, das Introductory Lectures (1916-17), Standard Ed., 16, 445-5: 'Uma pessoa que se tornou normal e livre da operao dos impulsos instintuais reprimidos em 
sua relao com o mdico permanecer assim em sua prpria vida, depois de o mdico mais uma vez ter-se retirado dela.' E, novamente, na Conferncia XXVIII (ibid., 
451), onde Freud compara os efeitos da sugesto hipntica e da psicanlise: 'um tratamento analtico exige, tanto do mdico quanto do paciente, a realizao de um 
trabalho srio, que  empregado para levantar resistncias internas. Mediante a superao dessa resistncias, a vida mental do paciente  permanentemente modificada, 
elevada a um nvel mais alto de desenvolvimento, ficando protegida contra novas possibilidades de cair doente.' Semelhantemente, nas frases finais da Conferncia 
XXXI, das New Introductory Lectures (1933a), Freud escreve que a inteno da psicanlise  'fortalecer o ego, ampliar seu campo de percepo e aumentar sua organizao, 
de maneira a que possa apropriar-se de novas partes do id. Onde era o id, ficar o ego.' (Standard Ed., 22, 80.) A teoria que fundamenta essas passagens parece ser 
a mesma, e parece diferir, em importantes aspectos, da teoria implcita no presente trabalho.  A base desse aumentado ceticismo de Freud parece ser uma convico 
quanto  impossibilidade de lidar com um conflito que no  'atual', e quanto s graves objees a converter um conflito 'latente' num conflito 'atual'. Essa posio 
parece implicar uma modificao de opinio no simplesmente sobre o processo teraputico, mas tambm sobre os eventos mentais, de um modo mais geral. Aqui Freud 
parece estar encarando o conflito 'presentemente ativo' como algo isolado, algo, por assim dizer, num compartimento estanque. Mesmo que o ego seja auxiliado a enfrentar 
este conflito, sua capacidade de lidar com outro no ser afetada. Do mesmo modo, tambm as foras instintuais parecem ser pensadas como isoladas: o fato de sua 
presso ter sido relaxada no conflito atual no lana luz sobre seu comportamento subseqente. Em contraste, segundo a opinio anterior, o processo analtico parece 
ter sido considerado capaz de alterar o ego num sentido mais geral, um sentido que persistiria aps o final da anlise, e as foras instintuais parecem ter sido 
encaradas como se fizessem derivar sua presso de um reservatrio indiferenciado de fora. Dessa maneira, na proporo em que a anlise foi bem- sucedida, qualquer 
nova incurso por parte das foras instintuais teria tido um pouco de sua presso reduzida pela anlise, e seriam enfrentadas por um ego que a anlise tornara mais 
capaz de lidar com elas. Assim, no haveria uma segregao absoluta do conflito 'atual' em relao aos conflitos 'latentes', e o poder profiltico da anlise (bem 
como seu resultado imediato) dependeria de consideraes quantitativas - do relativo aumento ocasionado por ela na fora do ego e da diminuio relativa na fora 
dos instintos.
         Pode-se observar que a descrio dos efeitos teraputicos da anlise, feita por Freud cerca de um ano aps o presente artigo, em seu Esboo de Psicanlise 
(1940a [1938]), embora em geral concorde de perto com a descrio aqui fornecida, talvez parea reverter  sua opinio anterior sobre a questo especfica que estivemos 
considerando. Por exemplo, escreve ele naquele trabalho, aps comentar o grande esforo envolvido na superao das resistncias: 'Ela vale a pena, contudo, pois 
ocasiona uma alterao vantajosa do ego, a qual ser mantida independentemente do resultado da transferncia e se manter firme na vida.' Ver em ([1]) Isso pareceria 
sugerir uma alterao de um tipo geral.
          de interesse notar que, no prprio comeo de sua clnica, Freud estava preocupado com quase os mesmos problemas que estes, dos quais se pode dizer que 
se prolongaram por toda a extenso de seus estudos analticos. Aqui temos um extrato de uma carta escrita por ele a Wilhelm Fliess a 16 de abril de 1900 (Freud, 
150a, Carta 133) sobre Herr E., que certamente estivera em tratamento desde 1897 e, provavelmente, pelo menos desde 1985, e a cujo caso, em seus altos e baixos, 
h repetidas referncias na correspondncia: 'A carreira de E. como paciente chegou finalmente a um fim, com um convite para passar uma noite aqui. Seu enigma est 
quase completamente solucionado, sua condio  excelente, e todo o seu ser est alterado; no momento, permanece um resduo de seus sintomas. Estou comeando a entender 
que a natureza aparentemente interminvel do tratamento  algo determinado por lei e depende da transferncia. Espero que esse resduo no prejudique o sucesso prtico. 
Compete apenas a mim decidir se o tratamento deve ser ainda mais prolongado, mas raiou em mim que tal prolongamento constitui uma conciliao entre estar doente 
e estar bom que os prprios pacientes desejam, e na qual, por essa razo, o mdico no deve consentir. A concluso assinttica do tratamento  substancialmente indiferente 
para mim;  mais para os estranhos que ela constitui um desapontamento. De qualquer modo, manterei um olho no homem...'
         
         ANLISE TERMINVEL E INTERMINVEL
         
         I 
         A experincia nos ensinou que a terapia psicanaltica - a libertao de algum de seus sintomas, inibies e anormalidades de carter neurticas -  um 
assunto que consome tempo. Da, desde o comeo, tentativas terem sido feitas para encurtar a durao das anlises. Tais esforos no exigiam justificao; podiam 
alegar que se baseavam nas mais fortes consideraes de razo e convenincia. Provavelmente, porm, havia tambm em ao neles algum trao do desprezo impaciente 
com que a cincia mdica de dias anteriores encarava as neuroses como conseqncias importunas de danos invisveis. Se agora se tornou necessrio atend-las, deveramos, 
pelo menos, livrar-nos delas to rapidamente quanto possvel.
         Uma tentativa particularmente enrgica nesse sentido foi efetuada por Otto Rank, secundando seu livro O Trauma do Nascimento (1924). Sups ele que a verdadeira 
fonte da neurose era o ato do nascimento, uma vez que este envolvia a possibilidade de a 'fixao primeva' de uma criana  me no ser superada, mas persistir como 
'represso primeva'. Rank tinha esperana de que, se lidssemos com esse trauma primevo atravs de uma anlise subseqente, nos livraramos de toda a neurose. Assim, 
esse pequeno fragmento de trabalho analtico pouparia a necessidade de todo o resto e alguns meses seriam suficientes para realiz-lo. No se pode discutir que o 
argumento de Rank era audaz e engenhoso, mas no suportou o teste do exame crtico. Ademais, foi um produto de seu tempo, concebido sob a tenso do contraste entre 
a misria do ps-guerra na Europa e a 'prosperity' dos Estados Unidos, e projetado para adaptar o ritmo da terapia analtica  pressa da vida americana. No ouvimos 
muito sobre o que a colocao em prtica do plano de Rank fez pelos casos de doena. Provavelmente, no fez mais do que faria o Corpo de Bombeiros se, chamado para 
socorrer a uma casa que se incendiara por causa de uma lmpada a leo emborcada, se contentasse em retirar a lmpada do quarto em que o fogo comeara.  fora de 
dvida que, por esse meio, seria conseguida uma considervel diminuio das atividades dos bombeiros. A teoria e a prtica do experimento de Rank so hoje coisas 
do passado - no menos do que a prpria 'prosperidade' americana.
         Eu mesmo adotei outro modo de acelerar um tratamento analtico, inclusive antes da guerra. Nessa poca, aceitei o caso de um jovem russo, homem estragado 
pela opulncia, que chegara a Viena em estado de completo desamparo, acompanhado por um mdico particular e um assistente. No curso de poucos anos, foi possvel 
devolver-lhe grande parte de sua independncia, despertar seu interesse pela vida e ajustar suas relaes com as pessoas que lhe eram mais importantes. Mas a o 
progresso se interrompeu. No progredimos mais no esclarecimento da neurose de sua infncia, em que se baseava a doena posterior, e era bvio que o paciente achava 
sua situao atual altamente confortvel e no desejava dar qualquer passo  frente que o trouxesse para mais perto do fim do tratamento. Era um caso de tratamento 
a inibir-se a si prprio; corria perigo de fracassar em resultado de seu - parcial - sucesso. Nesse dilema, recorri  medida herica de fixar um limite de tempo 
para a anlise. Ao incio de um ano de trabalho, informei o paciente de que o ano vindouro deveria ser o ltimo de seu tratamento, no importando o que ele conseguisse 
no tempo que ainda lhe restava. A princpio, no acreditou em mim, mas, assim que se convenceu de que eu falava absolutamente a srio, a mudana desejada se estabeleceu. 
Suas resistncias definharam e, nesses ltimos meses de seu tratamento, foi capaz de reproduzir todas as lembranas e descobrir todas as conexes que pareciam necessrias 
para compreender sua neurose primitiva e dominar a atual. Quando me deixou, em meados do vero de 1914, suspeitando to pouco quanto o restante de ns do que estava 
to prximo  frente, acreditei que sua cura fora radical e permanente.
         Numa nota de rodap acrescentada em 1923  histria clnica desse paciente, j comunicara que eu estava enganado. Quando, por volta do fim da guerra, ele 
retornou a Viena, refugiado e destitudo, tive de ajud-lo a dominar uma parte da transferncia que no fora resolvida. Isso foi realizado em alguns meses, e pude 
encerrar minha nota de rodap com a declarao de que, 'desde ento, o paciente tem-se sentido normal e se comportado de modo no excepcional, apesar de a guerra 
t-lo despojado de seu lar, de suas posses e de todos os seus relacionamentos familiares'. Quinze anos se passaram desde ento sem que tenha sido refutada a verdade 
desse veredicto, mas certas reservas tornaram-se necessrias. O paciente permanecera em Viena e mantivera um lugar na sociedade, ainda que humilde. Diversas vezes, 
porm, durante esse perodo, seu bom estado de sade foi interrompido por crises de doena que s podiam ser interpretadas como ramificaes de sua doena perene. 
Graas  percia de uma de minhas alunas, a Dra. Ruth Mack Brunswick, um breve tratamento, nessas ocasies, ps fim a essas condies. Tenho esperana de que a prpria 
Dra. Mack Brunswick dentro em breve comunique as circunstncias. Algumas dessas crises ainda estavam relacionadas a partes residuais da transferncia, e onde isso 
assim acontecia, por efmeras que fossem, apresentavam carter distintamente paranico. Em outras crises, contudo, o material patognico consistia em fragmentos 
da histria da infncia do paciente, que no tinham vindo  luz enquanto eu o estava analisando e que agora se desprendiam - a comparao  inevitvel - como suturas 
aps uma operao ou pequenos fragmentos de osso necrosado. Achei a histria do restabelecimento do paciente pouco menos interessante do que a de sua doena.
         Subseqentemente, empreguei a fixao de um limite de tempo tambm em outros casos, e levei ainda em considerao as experincias de outros analistas. S 
pode haver um veredicto sobre o valor desse artifcio de chantagem:  eficaz desde que se acerte com o tempo correto para ele. Mas no se pode garantir a realizao 
completa da tarefa. Pelo contrrio, podemos estar seguros de que, embora parte do material se torne acessvel sob a presso da ameaa, outra parte ser retida e, 
assim, ficar sepultada, por assim dizer, e pedida para nossos esforos teraputicos, pois, uma vez que o analista tenha fixado o limite de tempo, no pode ampli-lo; 
de outro modo, o paciente perderia toda a f nele. A sada mais bvia seria, para o paciente, continuar o tratamento com outro analista, embora saibamos que tal 
mudana envolveria nova perda de tempo e o abandono dos frutos do trabalho j realizado. Tampouco se pode estabelecer qualquer regra geral quanto  ocasio correta 
para recorrermos a esse artifcio tcnico compulsrio; a deciso deve ser deixada ao tato do analista. Um erro de clculo no pode ser retificado. O ditado de que 
o leo s salta uma vez deve ser aplicado aqui.
         
         II
          A discusso do problema tcnico de saber como acelerar o lento progresso de uma anlise nos conduz a outra questo, mais profundamente interessante: existe 
algo que se possa chamar de trmino de uma anlise - h alguma possibilidade de levar uma anlise a tal trmino? A julgar pela conversa comum dos analistas, assim 
pareceria ser, j que freqentemente os ouvimos dizer, quando deploram ou desculpam as imperfeies reconhecidas de algum mortal seu colega: 'Sua anlise no foi 
terminada' ou 'ele nunca se analisou at o fim.'
         Temos, primeiro, de decidir o que se quer dizer pela expresso ambgua 'o trmino de uma anlise'. De um ponto de vista prtico,  fcil responder. Uma 
anlise termina quando analista e paciente deixam de encontrar-se para a sesso analtica. Isso acontece quando duas condies foram aproximadamente preenchidas: 
em primeiro lugar, que o paciente no mais esteja sofrendo de seus sintomas e tenha superado suas ansiedades e inibies; em segundo, que o analista julgue que foi 
tornado consciente tanto material reprimido, que foi explicada tanta coisa ininteligvel, que foram vencidas tantas resistncias internas, que no h necessidade 
de temer uma repetio do processo patolgico em apreo. Se se  impedido, por dificuldades externas, de alcanar esse objetivo,  melhor falar de anlise incompleta, 
de preferncia a anlise inacabada.
         O outro significado do 'trmino' de uma anlise  muito mais ambicioso. Nesse sentido, o que estamos indagando  se o analista exerceu uma influncia de 
to grande conseqncia sobre o paciente, que no se pode esperar que nenhuma mudana ulterior se realize neste, caso sua anlise venha a ser continuada.  como 
se fosse possvel, por meio da anlise, chegar a um nvel de normalidade psquica absoluta - um nvel, ademais, em relao ao qual pudssemos confiar em que seria 
capaz de permanecer estvel, tal como se, talvez, tivssemos alcanado xito em solucionar todas as represses do paciente e em preencher todas as lacunas em sua 
lembrana. Podemos primeiro consultar nossa experincia para indagar se tais coisas de fato acontecem, e depois nos voltarmos para nossa teoria, a fim de descobrir 
se h qualquer possibilidade de elas acontecerem.
         Todo analista j ter tratado de alguns casos que apresentaram esse gratificante desfecho. Ele teve xito em aclarar o distrbio neurtico do paciente, 
esse distrbio no retornou, nem foi substitudo por alguma outra perturbao do mesmo tipo. Tampouco nos achamos sem compreenso interna (insight) dos determinantes 
desses sucessos. O ego do paciente no foi notavelmente alterado e a etiologia de seu distrbio foi essencialmente traumtica. A etiologia de todo distrbio neurtico 
, afinal de contas, uma etiologia mista. Trata-se de uma questo de os instintos serem excessivamente fortes - o que equivale a dizer, recalcitrantes ao amansamento 
por parte do ego - ou dos efeitos de traumas precoces (isto , prematuros) que o ego imaturo foi incapaz de dominar. Via de regra, h uma combinao de ambos os 
fatores, o constitucional e o acidental. Quanto mais forte for o fator constitucional, mais prontamente um trauma conduzir a uma fixao deixando atrs de si um 
distrbio desenvolvimental; quanto mais forte for o trauma, mais certamente seus efeitos prejudiciais se tornaro manifestos, mesmo quando a situao instintual 
 normal. No h dvida de que uma etiologia do tipo traumtico oferece, de longe, o campo mais favorvel para a anlise. Somente quando um caso  predominantemente 
traumtico  que a anlise alcanar sucesso em realizar aquilo que  to superlativamente capaz de fazer; apenas ento ela conseguir, graas a ter fortalecido 
o ego do paciente, substituir por uma soluo correta a deciso inadequada tomada em sua vida primitiva. S em tais casos pode-se falar de uma anlise que foi definitivamente 
terminada. Neles, a anlise fez tudo o que deveria e no precisa ser continuada.  verdade que, se o paciente que dessa maneira foi restaurado nunca produz outro 
distrbio que exija anlise, no sabemos quanto sua imunidade pode ser devida a um destino bondoso que lhe poupou provaes demasiadamente severas.
         Uma fora constitucional do instinto e uma alterao desfavorvel do ego, adquirida em sua luta defensiva, no sentido de ele ser deslocado e restringido, 
so os fatores prejudiciais  eficcia da anlise e que podem tornar interminvel sua durao. Fica-se tentado a tornar o primeiro fator - fora do instinto - responsvel 
tambm pelo surgimento do segundo - a alterao do ego -, mas parece que tambm este ltimo possui sua prpria etiologia. E, na verdade, tem-se de admitir que nosso 
conhecimento desses assuntos ainda  insuficiente. S agora eles se esto tornando matria de estudo analtico. Nesse campo, parece-me que o interesse dos analistas 
est bastante erradamente dirigido. Em vez de indagar como se d uma cura pela anlise (assunto que acho ter sido suficientemente elucidado), se deveria perguntar 
quais so os obstculos que se colocam no caminho de tal cura.Isso me conduz a dois problemas que surgem diretamente da clnica analtica, como espero demonstrar 
pelos exemplos que se seguem. Certo homem que, ele prprio, praticara a anlise com grande sucesso, chegou  concluso de que suas relaes com homens e mulheres 
- com os homens que eram seus competidores e com as mulheres que amava - no eram, apesar de tudo, livres de impedimentos neurticos e, portanto, fez-se submeter 
a uma anlise por parte de outrem a quem considerava como superior a si. Essa iluminao crtica de seu prprio eu (self) teve um resultado totalmente bem-sucedido. 
Casou-se com a mulher que amava e transformou-se em amigo e mestre de seus supostos rivais. Muitos anos se passaram dessa maneira, durante os quais suas relaes 
com o antigo analista permaneceram tambm desanuviadas. Mas ento, sem qualquer razo externa atribuvel, surgiram problemas. O homem que fora analisado tornou-se 
antagonista do analista e censurou-o por ter falhado em lhe proporcionar uma anlise completa. O analista, dizia ele, devia ter sabido e levado em considerao o 
fato de uma relao transferencial nunca poder ser puramente positiva; deveria ter concedido ateno  possibilidade de uma transferncia negativa. O analista defendeu-se 
dizendo que,  poca da anlise, no havia sinal de transferncia negativa. Mas, mesmo que tivesse falhado em observar certos sinais muito dbeis dela - o que no 
estava inteiramente excludo, considerando o horizonte limitado da anlise naqueles primeiros dias -, ainda era duvidoso, achava o analista, se teria tido o poder 
de ativar um assunto (ou, como dizemos, um 'complexo') simplesmente por apont-lo enquanto este no estivesse presentemente ativo no prprio paciente naquela ocasio. 
Ativ-lo teria certamente exigido, na realidade, um comportamento inamistoso por parte do analista. Ademais, acrescentou, nem toda boa relao entre um analista 
e seu paciente, durante e aps a anlise, devia ser encarada como transferncia; havia tambm relaes amistosas que se baseavam na realidade e que provavam ser 
viveis.
         Passo agora a meu segundo exemplo, que levanta o mesmo problema. Uma mulher solteira, no mais jovem, fora cerceada da vida desde a puberdade por uma incapacidade 
de caminhar, devido a severas dores nas pernas. Seu estado era obviamente de natureza histrica e desafiara muitos tipos detratamento. Uma anlise que durou trs 
quartos de ano removeu o problema e devolveu  paciente, pessoa excelente e capaz, seu direito a participar da vida. Nos anos que se seguiram ao restabelecimento, 
ela foi sistematicamente desafortunada. Houve desventuras em sua famlia, perdas financeiras e,  medida que ficava mais velha, via desvanecer-se toda esperana 
de felicidade no amor e casamento. Mas a ex-invlida resistiu a tudo isso valentemente e constituiu um apoio para a famlia, nos tempos difceis. No consigo recordar 
se foi doze ou catorze anos aps o fim de sua anlise que, devido a hemorragias profusas, ela foi obrigada a submeter-se a um exame ginecolgico. Encontrou-se um 
mioma, o que tornava aconselhvel uma histerectomia completa. A partir da ocasio dessa operao, a mulher mais uma vez caiu doente. Enamorou-se de seu cirurgio, 
afundou-se em fantasias masoquistas sobre as temveis alteraes dentro de si - fantasias com que ocultava seu romance - e mostrou-se inacessvel a uma nova tentativa 
de anlise. Ela permaneceu anormal at o fim da vida. O tratamento analtico bem-sucedido realizara-se h tanto tempo, que no podamos esperar muito dele; ele se 
processara nos primeiros anos de meu trabalho como analista. Indubitavelmente, a segunda molstia da paciente pode ter-se originado da mesma fonte que a primeira, 
que fora superada com xito: pode ter sido uma manifestao diferente dos mesmos impulsos reprimidos, que s incompletamente solucionara. Mas estou inclinado a pensar 
que, no fosse pelo novo trauma, no teria havido nova irrupo da neurose.
         Esses dois exemplos, intencionalmente selecionados dentre um grande nmero de outros semelhantes, bastaro para iniciar um exame dos tpicos que estamos 
considerando. Os cticos, os otimistas e os ambiciosos assumiro, quanto a eles, pontos de vista inteiramente diferentes. Os primeiros diro que est provado agora 
que mesmo um tratamento analtico bem-sucedido no protege o paciente, que numa determinada ocasio foi curado, de cair doente mais tarde de outra neurose - ou, 
na verdade, de uma neurose derivada da mesma raiz instintual -, o que equivale a dizer, de uma recorrncia de seu antigo problema. Os outros consideraro que isso 
no est provado. Objetaro que os dois exemplos datam dos primeiros dias da anlise, vinte e trinta anos atrs, respectivamente, e que, desde ento, adquirimos 
uma compreenso interna (insight) mais profunda e um conhecimento mais amplo, e que nossa tcnica se modificou de acordo com nossas novas descobertas. Hoje, diro 
eles, podemos exigir e esperar que uma cura analtica se mostre permanente, ou, pelo menos, caso um paciente caia doente de novo, que sua nova doena no mostre 
ser uma revivificao de seu primeiro distrbio instintual a manifestar-se sob novas formas. Nossa experincia,sustentaro, no nos obriga a restringir to materialmente 
as exigncias que podem ser feitas a nosso mtodo teraputico.
         Minha razo para escolher esses dois exemplos,  natural, foi precisamente o fato de que eles residiam to atrs no passado.  bvio que quanto mais recente 
foi o desfecho bem-sucedido de uma anlise, menos utilizvel ser ele para nosso debate, visto que no dispomos de meios para predizer qual ser a histria posterior 
do restabelecimento. As expectativas dos otimistas pressupem claramente uma srie de coisas que no so precisamente auto-evidentes. Presume, de incio, que h 
realmente uma possibilidade de livrar-se de um conflito instintual (ou, de modo mais correto, de um conflito entre o ego e um instinto) definitivamente e para todo 
o sempre; em segundo, que, enquanto estamos tratando algum por causa de determinado conflito instintual, podemos, por assim dizer, vacin-lo contra a possibilidade 
de quaisquer outro conflitos desse tipo; e, em terceiro, que temos o poder, para fins de profilaxia, de despertar um conflito patognico dessa espcie que no se 
est revelando, na ocasio, por nenhuma indicao, e que  aconselhvel faz-lo. Lano essas questes sem me propor respond-las agora. Talvez atualmente de modo 
algum seja possvel dar-lhes qualquer resposta certa.
         Talvez se possa lanar alguma luz sobre elas mediante consideraes tericas. Mas outro ponto j se tornou claro: se quisermos atender s exigncias mais 
rigorosas feitas  terapia analtica, nossa estrada no nos conduzir a um abreviamento de sua durao, nem passar por ele. 
         
         III
          Uma experincia analtica que agora se estende por diversas dcadas, e uma modificao que se efetuou na natureza e no modo de minha atividade incentivaram-me 
a tentar responder as questes que se nos apresentam. Em dias passados, tratei um nmero bastante grande de pacientes, os quais, como era natural, desejavam ser 
tratados to rapidamente quanto possvel. Nos ltimos anos, dediquei-me principalmente a anlises didticas; no entanto, um nmero relativamente pequeno de casos 
graves de doena permaneceu comigo para tratamento contnuo, interrompido, embora, por intervalos mais breves. Com eles, o objetivo teraputico j no era o mesmo. 
No se tratava mais de abreviar o tratamento; o intuito era, radicalmente, o de exaurir as possibilidades de doena neles e ocasionar uma alterao profunda de sua 
personalidade.
         Dos trs fatores que reconhecemos como sendo decisivos para o sucesso ou no do tratamento analtico - a influncia dos traumas, a fora constitucional 
dos instintos e as alteraes do ego -, o que nos interessa aqui  apenas o segundo, a fora dos instintos. Um instante de reflexo levanta uma dvida quanto a saber 
se o uso restritivo do adjetivo 'constitucional' (ou 'congnito')  essencial. Por verdadeiro que possa ser que o fator constitucional seja de importncia decisiva 
desde o prprio incio,  concebvel que um reforo instintual que chegue tarde na vida possa produzir os mesmos efeitos. Se assim for, teremos de modificar nossa 
frmula e dizer 'a fora dos instintos na ocasio', em vez de 'a fora constitucional dos instintos'. A primeira de nossas questes,ver em [[1]],foi: ' possvel, 
mediante a terapia analtica, livrar-se de um conflito entre um instinto e o ego, ou de uma exigncia instintual patognica ao ego, de modo permanente e definitivo?' 
Para evitar a m compreenso  necessrio, talvez, explicar mais exatamente o que se quer dizer por 'livrar-se permanentemente de uma exigncia instintual'. Certamente 
no  'fazer-se com que a exigncia desaparea, de modo que nada mais se oua dela novamente'. Isso em geral  impossvel, e tampouco, de modo algum,  de se desejar. 
Queremos dizer outra coisa, algo que pode ser grosseiramente descrito como um 'amansamento' do instinto. Isso equivale a dizer que o instinto  colocado completamente 
emharmonia com o ego, torna-se acessvel a todas as influncias das outras tendncias neste ltimo e no mais busca seguir seu independente caminho para a satisfao. 
Se nos perguntarem por quais mtodos e meios esse resultado  alcanado, no ser fcil achar uma resposta. Podemos apenas dizer: 'So muss denn doch die Hexe dran!' 
- a Metapsicologia da Feiticeira. Sem especulao e teorizao metapsicolgica - quase disse 'fantasiar' -, no daremos outro passo  frente. Infelizmente, aqui 
como alhures, o que a Feiticeira nos revela no  muito claro nem muito minucioso. Temos apenas uma nica pista para comear - embora seja uma pista do mais alto 
valor -, a saber, a anttese entre o processo primrio e o secundrio, e  para essa anttese que me voltarei neste ponto.
         Se agora retomarmos nossa primeira questo, descobriremos que nossa nova linha de abordagem nos conduz inevitavelmente a uma concluso especfica. A questo 
era a de saber se  possvel livrar-se de modo permanente e definitivo de um conflito instintual - isto , 'amansar' desse modo uma exigncia instintual. Formulada 
nesses termos, a questo no faz meno alguma  fora do instinto, mas  precisamente disso que o resultado depende. Partamos da presuno de que aquilo que a anlise 
realiza para os neurticos nada mais  do que aquilo que as pessoas normais ocasionam para si prprias sem o auxlio dela. A experincia cotidiana, contudo, nos 
ensina que, numa pessoa normal, qualquer soluo de um conflito instintual s  vlida para uma fora especfica de instinto, ou, mais corretamente, s para uma 
relao especfica entre a fora do instinto e a fora do ego. Se a fora deste diminui, quer pela doena, quer pela exausto, ou por alguma causa semelhante, todos 
os instintos, que at ento haviam sido amansados com xito, podem renovar suas exigncias e esforar-se por obter satisfaes substitutivas atravs de maneiras 
anormais. Uma prova irrefutvel dessa afirmao  fornecida pornossos sonhos noturnos; eles reagem  atitude de sono assumida pelo ego com um despertar das exigncias 
instintuais.
         O material do outro lado [a fora dos instintos]  igualmente sem ambigidade. Duas vezes no curso do desenvolvimento individual certos instintos so consideravelmente 
reforados: na puberdade e, nas mulheres, na menopausa. De modo algum ficamos surpresos se uma pessoa, que antes no era neurtica, assim se torna nessas ocasies. 
Quando seus instintos no eram to fortes, ela teve sucesso em amans-los, mas quando so reforados, no mais pode faz-lo. As represses comportam-se como represas 
contra a presso da gua. Os mesmos efeitos produzidos por esses dois reforos fisiolgicos do instinto podem ser ocasionados, de maneira irregular, por causas acidentais 
em qualquer outro perodo da vida. Tais reforos podem ser estabelecidos por novos traumas, frustraes foradas ou a influncia colateral e mtua dos instintos. 
O resultado  sempre o mesmo, e ele salienta o poder irresistvel do fator quantitativo na causao da doena.
         Sinto-me como se devesse estar envergonhado de to poderosa exposio, ao ver que tudo o que disse h muito tempo  conhecido e auto-evidente.  fato que 
sempre nos comportamos como se soubssemos de tudo isso, mas, em sua maioria, nossos conceitos tericos negligenciaram dar  linha econmica de abordagem a mesma 
importncia que concederam s linhas dinmica e topogrfica. Minha desculpa, portanto,  a de que estou chamando a ateno para essa negligncia.
         Antes, porm, de decidirmos sobre a resposta a essa questo, temos de considerar uma objeo cuja fora reside no fato de estarmos provavelmente predispostos 
em seu favor. Nossos argumentos, dir-se-, so todos deduzidos a partir dos processos que se efetuam espontaneamente entre o ego e os instintos, e pressupem que 
a terapia analtica nada pode realizar que, sob condies favorveis e normais, no ocorra por si. Mas ser isso realmente assim? No  precisamente a reivindicao 
de nossa teoria o fato de que a anlise produz um estado que nunca surge espontaneamente no ego e que esse estado recentemente criado constitui a diferena essencial 
entre uma pessoa que foi analisada e outra que no o foi? Mantenhamos em mente aquilo em que se baseia essa reivindicao. Todas as represses se efetuam na primeira 
infncia; so medidas primitivas de defesa, tomadas pelo ego imaturo, dbil. Nos anos posteriores, no so levadas a cabo novas represses, mas as antigas persistem, 
e seus servios continuam a ser utilizados pelo ego para o domnio dos instintos. Livramo-nos de novos conflitos atravs daquilo que chamamos de 'represso ulterior'. 
Podemos aplicar a essas represses infantis nossa afirmao geral de que as represses dependem absoluta e inteiramente do poder relativo das foras envolvidas, 
e que elas no se podem manter contra um aumento na fora dos instintos. A anlise, contudo, capacita o ego, que atingiu maior maturidade e fora, a empreender uma 
reviso dessas antigas represses; algumas so demolidas, ao passo que outras so identificadas, mas construdas de novo, a partir de material mais slido. O grau 
de firmeza dessas novas represas  bastante diferente do das anteriores; podemos confiar em que no cedero facilmente ante uma mar ascendente da fora instintual. 
Dessa maneira, a faanha real da terapia analtica seria a subseqente correo do processo original de represso, correo que pe fim  dominncia do fator quantitativo.
         At aqui vem nossa teoria, que no podemos abandonar, exceto sob uma compulso irresistvel. E o que tem nossa experincia a dizer sobre isso? Talvez ainda 
no seja suficientemente ampla para que cheguemos a uma concluso firmada. Ela confirma nossas expectativas com bastante freqncia, mas no sempre. Tem-se a impresso 
de que no se deve ficar surpreso se, ao final, ela mostrar que a diferena entre uma pessoa que no foi analisada e o comportamento de uma pessoa aps t-lo sido 
no  to radical como visamos a torn-lo, e como esperamos e sustentamos que seja. Se assim for, isso significar que a anlise s vezes tem xito em eliminar a 
influncia de um aumento no instinto, mas no invariavelmente, ou que o efeito da anlise se limita a aumentar o poder de resistncia das inibies, de maneira que 
se mostram  altura de exigncias muito maiores do que antes da anlise ou se nenhuma anlise se tivesse efetuado. Realmente no posso comprometer-me com uma deciso 
sobre esse ponto, nem tampouco sei se atualmente  possvel uma deciso.
         Existe, contudo, outro ngulo a partir do qual podemos abordar o problema da variabilidade no efeito da anlise. Sabemos que o primeiro passo no sentido 
de chegar ao domnio intelectual de nosso meio ambiente descobrir generalizaes, regras e leis que tragam ordem ao caos. Fazendo isso, simplificamos o mundo dos 
fenmenos, mas no podemos evitar falsific-lo, especialmente se estivermos lidando com processos de desenvolvimento e mudana. Estamos interessados em discernir 
uma alterao qualitativa e, via de regra, assim procedendo, negligenciamos, inicialmente pelo menos, um fator quantitativo. No mundo real, as transies e estgios 
intermedirios so muito mais comuns do que estados opostos nitidamente diferenciados. Ao estudar desenvolvimentos e mudanas, dirigimos nossa ateno unicamente 
para o resultado; desprezamos prontamente o fato de que tais processos so geralmente mais ou menos incompletos, o que equivale a dizer que so, de fato, apenas 
alteraes parciais. Um arguto satirista da antiga ustria, Johann Nestroy disse certa vez: 'todo passo  frente tem somente a metade do tamanho que parece ter a 
princpio.'  tentador atribuir uma validade bastante geral a esse ditado malicioso. H quase sempre fenmenos residuais, uma pendncia parcial. Quando um mecenas 
generoso nos surpreende com algum trao isolado de avareza, ou quando uma pessoa que  sistematicamente muito bondosa sbito se permite uma ao hostil, tais 'fenmenos 
residuais' so valiosos para a pesquisa gentica. Eles nos mostram que essas louvveis e preciosas qualidades baseiam-se na compensao e na supercompensao, as 
quais, como era de esperar, no foram absoluta e completamente bem-sucedidas. Nossa primeira descrio do desenvolvimento da libido foi a de que uma fase oral original 
cedia caminho a uma fase anal-sdica e que esta, por sua vez, era sucedida por uma fase flico-genital. A pesquisa posterior no contradisse essa opinio, mas corrigiu-a 
acrescentando que essas substituies no se realizam de modo repentino, mas gradativamente, de maneira que partes da organizao anterior sempre persistem lado 
a lado da mais recente, e que mesmo no desenvolvimento normal a transformao nunca  completa e resduos de fixaes libidinais anteriores ainda podem ser mantidos 
na configurao final. O mesmo pode ser visto em muitos outros campos. De todas as errneas e supersticiosas crenas da humanidade que foram supostamente superadas 
no existe uma s cujos resduos no perdurem hoje entre ns, nos estratos inferiores dos povos civilizados ou mesmo nos mais elevados estratos da sociedade cultural. 
O que um dia veio  vida, aferra-setenazmente  existncia. Fica-se s vezes inclinado a duvidar se os drages dos dias primevos esto realmente extintos.
         Aplicando essas observaes a nosso presente problema, penso que a resposta  questo de como explicar os resultados variveis de nossa terapia analtica, 
bem poderia ser a de que ns tambm, esforando-nos por substituir represses, que so inseguras, por controles egossintnicos dignos de confiana, nem sempre alcanamos 
nosso objetivo em toda a sua extenso - isto , no o alcanamos de modo bastante completo. A transformao  conseguida, mas, com freqncia, apenas parcialmente: 
partes dos antigos mecanismos permanecem intocada pelo trabalho da anlise.  difcil provar que isso  realmente assim, pois no temos outra maneira de ajuizar 
o que acontece, exceto pelo resultado que estamos tentando explicar. No obstante, as impresses que se recebem durante o trabalho de anlise no contradizem essa 
pressuposio; na verdade, parecem antes confirm-la. Contudo no devemos tomar a clareza de nossa prpria compreenso interna (insight) como medida da convico 
que produzimos no paciente. Seria possvel dizer que  convico dele pode faltar 'profundidade'; trata-se sempre de uma questo do fator quantitativo, que  to 
facilmente desprezado. Se essa for a resposta correta  nossa questo, podemos dizer que a anlise, ao reivindicar a cura das neuroses assegurando o controle sobre 
o instinto, est sempre correta na teoria, mas nem sempre na prtica, e isso porque ela nem sempre obtm xito em garantir, em grau suficiente, as fundaes sobre 
as quais um controle do instinto se baseia.  fcil descobrir a causa de tal fracasso parcial. No passado, o fator quantitativo da fora instintual ops-se aos esforos 
defensivos do ego; por essa razo, convocamos o auxlio do trabalho da anlise. Agora, o mesmo fator estabelece um limite  eficcia desse novo esforo. Se a fora 
do instinto  excessiva, o ego maduro, apoiado pela anlise, fracassa em sua misso, tal como o ego desamparado anteriormente fracassara. Seu controle sobre o instinto 
 melhorado, mas permanece imperfeito porque a transformao no mecanismo defensivo  apenas incompleta. Nada h de surpreendente nisso, visto que o poder dos instrumentos 
com que a anlise opera no  ilimitado mas restrito, e o resultado final depende sempre da fora relativa dos agentes psquicos que esto lutando entre si.
         Sem dvida,  desejvel abreviar a durao do tratamento analtico, mas s podemos conseguir nosso intuito teraputico aumentando o poder da anlise em 
vir em assistncia do ego. A influncia hipntica pareceu ser um instrumento excelente para nossos fins, mas as razes por que tivemos deabandon-la so bem conhecidas. 
Ainda no foi encontrado substituto algum para a hipnose. Desse ponto de vista, podemos compreender como um mestre da anlise como Ferenczi veio a dedicar os ltimos 
anos de sua vida a experimentos teraputicos, os quais, infelizmente, se mostraram vos. 
         
         IV
         As duas outras questes - se, enquanto estamos tratando determinado conflito instintual, podemos proteger o paciente de futuros conflitos e se  vivel 
e conveniente, para fins profilticos, despertar um conflito que no est manifesto na ocasio - devem ser tratadas em conjunto, pois obviamente a primeira tarefa 
s pode ser levada a cabo na medida em que a segunda o  - ou seja, na medida em que um possvel conflito futuro se transforma em conflito concreto e atual, ao qual 
a influncia  ento aplicada. Essa nova maneira de enunciar o problema , no fundo, apenas uma ampliao da anterior. Ao passo que, no primeiro caso, estivemos 
considerando como nos resguardarmos contra um retorno do mesmo conflito, estamos agora considerando como nos resguardarmos contra sua possvel substituio por outro 
conflito. Isso soa como uma proposio muito ambiciosa, mas tudo o que estamos tentando fazer  tornar claros quais os limites estabelecidos  eficcia da terapia 
analtica.
         Por muito que nossa ambio teraputica possa ficar tentada a empreender tais tarefas, a experincia rejeita categoricamente a noo. Se um conflito instintual 
no est presentemente ativo, se no est manifestando-se, no podemos influenci-lo, mesmo pela anlise. A advertncia de que deixemos repousar os ces a dormir, 
que com tanta freqncia ouvimos em relao a nossos esforos por explorar o submundo psquico,  peculiarmente despropositada quando aplicada s condies da vida 
mental, pois, se os instintos esto provocando distrbios, isso  prova de que os ces no esto dormindo, e, se eles realmente parecem estar adormecidos, no est 
em nosso poder despert-los. Essa ltima afirmao, contudo, no parece ser inteiramente exata e exige um debate mais pormenorizado. Consideremos quais os meios 
que temos  nossa disposio para transformar um conflito instintual que , no momento, latente, num outro presentemente ativo. Obviamente, s podemos fazer duas 
coisas. Podemos ocasionar situaes em que o conflito se torna presentemente ativo, ou podemos contentar-nos em debat-lo na anlise e apontar a possibilidade de 
ele despertar. A primeira dessas duas alternativas pode ser levada a cabo por duas maneiras: na realidade ou na transferncia, em qualquer dos casos expondo o paciente 
a certa quantidade de sofrimento real, mediante a frustrao e o represamento da libido. Ora,  verdade que j fazemos uso de uma tcnica desse tipo em nosso procedimento 
analtico comum, pois qual, de outra maneira, seria o significado da regra segundo a quala anlise deve ser levada a cabo 'num estado de frustrao'? Mas essa  
uma tcnica que utilizamos ao tratar um conflito que j  presentemente ativo. Procuramos levar esse conflito a um ponto culminante, desenvolv-lo at seu tom mais 
alto, a fim de aumentar a fora instintual disponvel para sua soluo. A experincia analtica ensinou-nos que o melhor  sempre inimigo do bom e que, em todas 
as fases do restabelecimento do paciente, temos de lutar contra sua inrcia, que est pronta a se contentar com uma soluo incompleta.
         Se, contudo, aquilo a que estivermos visando  o tratamento profiltico de conflitos instintuais que no esto presentemente ativos, mas so meramente potenciais, 
no ser suficiente regular sofrimentos que j se acham presentes no paciente e que ele no pode evitar. Teramos de decidir provocar-lhe novos sofrimentos, e isso, 
at aqui, muito corretamente, deixamos ao destino. Receberamos admonies de todos os lados contra a presuno de emular o destino, no que sujeitssemos pobres 
criaturas humanas a experimentos to cruis. E que tipo de experimentos seriam eles? Poderamos, para fins de profilaxia, assumir a responsabilidade de destruir 
um casamento satisfatrio, ou fazer com que um paciente abandone um cargo do qual depende sua subsistncia? Afortunadamente, nunca nos encontramos na posio de 
ter de considerar se tais intervenes na vida real do paciente so justificadas; no possumos os plenos poderes que elas teriam tornado necessrios, e o objeto 
de nosso experimento teraputico certamente se recusaria a cooperar com isso. Na prtica, ento, tal procedimento est virtualmente excludo, mas existem, alm disso, 
objees tericas a ele, pois o trabalho de anlise progride melhor se as experincias patognicas do paciente pertencem ao passado, de modo que seu ego possa situar-se 
a certa distncia delas. Em estados de crise aguda, a anlise , para todos os fins e intuitos, inutilizvel. Todo o interesse do ego  tomado pela realidade penosa, 
e ele se retrai da anlise que est tentando ir alm da superfcie e revelar as influncias do passado. Assim, criar um novo conflito s tornaria o trabalho de anlise 
mais prolongado e mais difcil.
         Objetar-se- que essas observaes so inteiramente desnecessrias. Ningum pensa em, propositadamente, conjurar novas situaes de sofrimento, a fim de 
tornar possvel a um conflito instintual latente ser tratado. Comofaanha profiltica, no haveria muito, em relao a isso, de que se gabar. Sabemos, por exemplo, 
que um paciente que se restabeleceu de escarlatina est imune a um retorno da mesma doena; no entanto, jamais ocorre a um mdico pegar uma pessoa sadia que tem 
possibilidades de adoecer de escarlatina e infect-la com esta, a fim de torn-la imune  mesma. A medida protetora no deve produzir a mesma situao de perigo 
que  produzida pela prpria doena, mas apenas algo muito mais leve, como  o caso com a vacina contra a varola e muitos outros procedimentos semelhantes. Na profilaxia 
analtica contra conflitos instintuais, portanto, os nicos mtodos que entram em considerao so os outros dois que mencionamos: a produo artificial de novos 
conflitos na transferncia (conflitos a que, afinal de contas, falta o carter de realidade) e o despertar de tais conflitos na imaginao do paciente, falando-lhe 
sobre eles e tornando-o familiarizado com sua possibilidade.
         No sei se podemos asseverar que o primeiro desses dois procedimentos mais brandos est inteiramente excludo na anlise. Nenhuma experincia foi feita 
especificamente nessa direo. Mas sugerem-se logo as dificuldades, as quais no lanam uma luz muito promissora sobre tal empreendimento. Em primeiro lugar, a escolha 
de tais situaes para a transferncia  muito limitada. Os pacientes no podem, eles prprios, trazer todos os seus conflitos para a transferncia, nem tampouco 
est o analista capacitado a invocar todos os possveis conflitos instintuais deles, a partir da situao transferencial. Ele pode torn-los ciumentos ou faz-los 
experimentar desapontamentos no amor, mas no se exige nenhum intuito tcnico para ocasionar isso. Seja como for, tais coisas acontecem por si mesmas na maioria 
das anlises. Em segundo lugar, no devemos desprezar o fato de que todas as medidas desse tipo obrigariam o analista a se comportar de maneira inamistosa para com 
o paciente, e isso teria um efeito prejudicial sobre a atitude afetuosa - sobre a transferncia positiva - que  o motivo mais forte para o paciente participar do 
trabalho conjunto da anlise. Assim, de modo algum devemos esperar muito desse procedimento.
         Isso, portanto, deixa-nos aberto apenas um mtodo: aquele que, com toda probabilidade, foi o nico originalmente considerado. Falamos ao paciente sobre 
as possibilidades de outros conflitos instintuais e despertamos sua expectativa de que tais conflitos possam ocorrer nele. O que esperamos  que essa informao 
e essa advertncia tenham o efeito de ativar nele um dos conflitos que indicamos, em grau modesto, mas suficiente para o tratamento. Dessa vez, porm, a experincia 
no fala com voz incerta. O resultado esperado no ocorre. O paciente escuta nossa mensagem, mas no h reao. Pode pensar consigo: ' muito interessante, mas no 
sinto trao algum disso.'Aumentamos seu conhecimento, mas nada mais alteramos nele. A situao  muito semelhante  que acontece quando as pessoas lem trabalhos 
psicanalticos. O leitor  'estimulado' apenas por aquelas passagens que sente se aplicarem a si prprio - isto , que interessam a conflitos que esto ativos nele 
na ocasio. Tudo o mais o deixa frio. Podemos ter experincias anlogas, creio, quando fornecemos s crianas esclarecimentos sexuais. Estou longe de sustentar que 
isso  prejudicial ou desnecessrio, mas  claro que o efeito profiltico dessa medida liberal tem sido grandemente superestimado. Aps tais esclarecimentos, as 
crianas sabem algo que no conheciam antes, mas no fazem uso do novo conhecimento que lhes foi presenteado. Viemos a perceber que sequer tm grande pressa de sacrificar, 
a esse novo conhecimento, as teorias sexuais que poderiam ser descritas como um crescimento natural e que elas construram em harmonia com sua organizao libidinal 
imperfeita, e na dependncia desta - teorias sobre o papel desempenhado pela cegonha, sobre a natureza da relao sexual e sobre o modo como os bebs so feitos. 
Por longo tempo aps receberem esclarecimentos sexuais, elas se comportam como as raas primitivas que tiveram o cristianismo enfiado nelas, mas que continuam a 
adorar em segredo seus antigos dolos.
         
         V 
         Partimos da questo de saber como podemos abreviar a durao inconvenientemente longa do tratamento analtico e, ainda com essa questo em mente, passamos 
a considerar se  possvel conseguir uma cura permanente ou mesmo impedir uma doena futura atravs do tratamento profiltico. Assim procedendo, descobrimos que 
os fatores decisivos para o sucesso de nossos esforos teraputicos foram a influncia da etiologia traumtica, a fora relativa dos instintos que tm de ser controlados, 
e algo que denominamos de alterao do ego. [Ver em [1]]Apenas o segundo desses fatores foi pormenorizadamente examinado por ns, e, em conexo com ele, tivemos 
ocasio de reconhecer a importncia suprema do fator quantitativo e de acentuar a reivindicao da linha de abordagem metapsicolgica a ser levada em considerao 
em qualquer tentativa de explicao.
         Quanto ao terceiro fator, a alterao do ego, ainda no dissemos nada. Quando voltamos nossa ateno para ele, a primeira impresso que recebemos  a de 
que h muito a perguntar e muito a responder aqui, e a de que o que temos a dizer sobre ele mostrar ser bastante inadequado. Essa primeira impresso  confirmada 
quando ingressamos no problema. Como  bem sabido, a situao analtica consiste em nos aliarmos com o ego da pessoa em tratamento, a fim de submeter partes de seu 
id que no esto controladas, o que equivale a dizer, inclu-las na sntese de seu ego. O fato de uma cooperao desse tipo habitualmente fracassar no caso dos psicticos, 
nos fornece uma primeira base slida para nosso julgamento. O ego, se com ele quisermos poder efetuar um pacto desse tipo, deve ser um ego normal. Mas um ego normal 
dessa espcie , como a normalidade em geral, uma fico ideal. O ego anormal, intil para nossos fins, infelizmente no  fico. Na verdade, toda pessoa normal 
 apenas normal na mdia. Seu ego aproxima-se do ego do psictico num lugar ou noutro e em maior ou menor extenso, e o grau de seu afastamento de determinada extremidade 
da srie e de sua proximidade da outra nos fornecer uma medida provisria daquilo que to indefinidamente denominamos de 'alterao do ego'.
         Se perguntarmos qual a fonte da grande variedade de tipos e graus de alterao do ego, no poderemos fugir  primeira alternativa bvia, ou seja, a de que 
tais alteraes so congnitas ou adquiridas. Desta, o segundo tipo seria o mais fcil de tratar. Se forem alteraes adquiridas, isso certamente ter acontecido 
no decurso do desenvolvimento, a partir dos primeiros anos de vida, pois o ego tem de tentar, desde o prprio incio, desempenhar sua tarefa de mediar entre seu 
id e o mundo externo, a servio do princpio deprazer, e de proteger o id contra os perigos do mundo externo. Se, no decurso desses esforos, o ego aprende a adotar 
uma atitude defensiva tambm para com seu prprio id, e a tratar as exigncias instintuais deste ltimo como perigos externos, isso acontece, pelo menos em parte, 
porque ele compreende que uma satisfao do instinto conduziria a conflitos com o mundo externo. Posteriormente, sob a influncia da educao, o ego se acostuma 
a remover a cena da luta de fora para dentro e a dominar o perigo interno antes que se tenha tornado externo, e, provavelmente, com mais freqncia, tem razo em 
assim proceder. Durante essa luta em duas frentes - posteriormente haver tambm uma terceira frente -, o ego faz uso de diversos procedimentos para desempenhar 
sua tarefa, que, para exprimi-la em termos gerais, consiste em evitar o perigo, a ansiedade e o desprazer. Chamamos esses procedimentos de 'mecanismos de defesa'. 
Nosso conhecimento deles ainda no  suficientemente completo. O livro de Anna Freud (1936) forneceu-nos uma primeira compreenso interna (insight) de sua multiplicidade 
e significao multilateral.
         Foi a partir de um desses mecanismos, a represso, que o estudo dos processos neurticos se iniciou. Nunca houve qualquer dvida de que a represso no 
era o nico procedimento que o ego podia empregar para seus intuitos. No obstante, a represso  algo bastante peculiar, sendo mais nitidamente diferenciada dos 
outros mecanismos do que estes o so entre si. Gostaria de tornar clara essa relao com os outros mecanismos atravs de uma analogia, embora saiba que, nestes assuntos, 
as analogias nunca nos levam muito longe. Imaginemos o que poderia ter acontecido a um livro, numa poca em que os livros ainda no eram impressos em edies, mas 
redigidos individualmente. Suponhamos que um livro desse tipo contivesse afirmaes que, em pocas posteriores, fossem consideradas indesejveis - tal como, por 
exemplo, segundo Robert Eisler (1929), os escritos de Flvio Josefo devem ter contido passagens sobre Jesus Cristo que foram ofensivas ao cristianismo posterior. 
Nos dias de hoje, o nico mecanismo defensivo de que a censura oficial poderia valer-se seria o de confiscar e destruir todos os exemplares da edio inteira. Naquela 
poca, contudo, diversos mtodos eram utilizados para tornar incuo o livro. Uma das maneiras seria riscar cerradamente as passagens ofensivas, de modo a ficarem 
ilegveis. Nesse caso, elas no poderiam ser transcritas, e o copista seguinte do livro produziria um texto inatacvel, mas com lacunas em certas passagens, e, assim,nestas 
ele poderia ser ininteligvel. Outra maneira, contudo, se as autoridades no se satisfizessem com isso, mas desejassem ocultar tambm qualquer indicao de que o 
texto fora mutilado, seria, para elas, passar a deformar o texto. Palavras isoladas seriam deixadas de fora ou substitudas por outras, e novas frases seriam interpoladas. 
Melhor do que tudo, toda a passagem seria apagada e colocadas em seu lugar outras novas dizendo exatamente o oposto. O transcritor seguinte poderia ento produzir 
um texto que no despertaria suspeita, mas que seria falsificado. Ele no mais conteria o que o autor desejara dizer, no sentido da verdade.
         Se a analogia no  perseguida estritamente demais, podemos dizer que a represso tem com os outros mtodos de defesa a mesma relao que a omisso tem 
com a deformao do texto, e podemos descobrir, nas diferentes formas dessa falsificao, paralelos com a variedade de maneiras pelas quais o ego  alterado. Pode-se 
tentar levantar a objeo de que a analogia erra num ponto essencial, pois a deformao de um texto  obra de uma censura tendenciosa, da qual nenhuma contrapartida 
se pode encontrar no desenvolvimento do ego. Mas no  assim, pois um intuito tendencioso desse tipo , em grande grau, representado pela fora compelativa do princpio 
de prazer. O aparelho psquico no tolera o desprazer; tem de desvi-lo a todo custo, e se a percepo da realidade acarreta desprazer, essa percepo - isto , 
a verdade - deve ser sacrificada. No que se refere a perigos externos, o indivduo pode ajudar-se durante algum tempo atravs da fuga e evitando a situao de perigo, 
at ficar suficientemente forte, mais tarde, para afastar a ameaa alterando ativamente a realidade. Mas no  possvel fugir de si prprio; a fuga no constitui 
auxlio contra perigos internos. E, por essa razo, os mecanismos defensivos do ego esto condenados a falsificar nossa percepo interna e a nos dar somente uma 
representao imperfeita e deformada de nosso prprio id. Em suas relaes com o id, portanto, o ego  paralisado por suas restries ou cegado por seus erros, e 
o resultado disso, na esfera dos eventos psquicos, s pode ser comparado a caminhar num pas que no se conhece, sem dispor de um bom par de pernas.
         Os mecanismos de defesa servem ao propsito de manter afastados os perigos. No se pode discutir que so bem-sucedidos nisso, e  de duvidar que o ego pudesse 
passar inteiramente sem esses mecanismos durante seu desenvolvimento. Mas  certo tambm que eles prprios podem transformar-se em perigos. s vezes, se v que o 
ego pagou um preo alto demais pelos servios que eles lhe prestam. O dispndio dinmico necessrio para mant-los, e as restries do ego que quase invariavelmente 
acarretam, mostram ser um pesado nus sobre a economia psquica. Ademais, esses mecanismos noso abandonados aps terem assistido o ego durante os anos difceis 
de seu desenvolvimento. Nenhum indivduo, naturalmente, faz uso de todos os mecanismos de defesa possveis. Cada pessoa no utiliza mais do que uma seleo deles, 
mas estes se fixam em seu ego. Tornam-se modalidades regulares de reao de seu carter, as quais so repetidas durante toda a vida, sempre que ocorre uma situao 
semelhante  original. Isso os transforma em infantilismos, e partilham da sorte de tantas instituies que tentam manter-se em existncia depois que a poca de 
sua utilidade passou. 'Vernunft wird Unsinn, Wohltat Plage', como se queixa o poeta. O ego do adulto, com sua fora aumentada, continua a se defender contra perigos 
que no mais existem na realidade; na verdade, v-se compelido a buscar na realidade as situaes que possam servir como substituto aproximado ao perigo original, 
de modo a poder justificar, em relao quelas, o fato de ele manter suas modalidades habituais de reao. Assim, podemos facilmente entender como os mecanismos 
defensivos, por ocasionarem uma alienao cada vez mais ampla quanto ao mundo externo e um permanente enfraquecimento do ego, preparam o caminho para o desencadeamento 
da neurose e o incentivam.
         No momento, contudo, no estamos interessados no papel patognico dos mecanismos defensivos. O que estamos tentando descobrir  qual a influncia que a 
alterao do ego a eles correspondente tem sobre nossos esforos teraputicos. O material para a resposta a essa pergunta  fornecido no volume a que j me referi, 
da autoria de Anna Freud. O ponto essencial  que o paciente repete essas modalidades de reao tambm durante o trabalho de anlise, que as produz diante de nossos 
olhos, por assim dizer. Na verdade,  apenas dessa maneira que chegamos a conhec-las. Isso no significa que tornem impossvel a anlise. Pelo contrrio, constituem 
a metade de nossa tarefa analtica. A outra metade, aquela que a anlise primeiro enfrentou em seus dias iniciais,  a revelao do que est escondido no id. Durante 
o tratamento, nosso trabalho teraputico est constantemente oscilando para trs e para frente, como um pndulo, entre um fragmento de anlise do id e um fragmento 
de anlise do ego. Num dos casos, desejamos tornar consciente algo do id; no outro, queremos corrigir algo no ego. A dificuldade da questo  que os mecanismos defensivos 
dirigidos contra um perigo anterior reaparecem no tratamento como resistncias contra o restabelecimento. Disso decorre que o ego trata o prprio restabelecimento 
como um novo perigo.O efeito teraputico depende de tornar consciente o que est reprimido (no sentido mais amplo da palavra) no id. Preparamos o caminho para essa 
conscientizao mediante interpretaes e construes, mas interpretamos apenas para ns prprios, no para o paciente, enquanto o ego se apega a suas defesas primitivas 
e no abandona suas resistncias. Ora, essas resistncias, embora pertenam ao ego, so inconscientes e, em certo sentido, isoladas dentro do ego. O analista as 
identifica mais facilmente do que o faz com o material oculto no id. Poder-se-ia supor que seria suficiente trat-las como partes do id e, tornando-as conscientes, 
coloc-las em conexo com o restante do ego. Dessa maneira, suporamos, metade da tarefa da anlise estaria realizada; no devemos contar com enfrentar uma resistncia 
contra a revelao das resistncias. Contudo, o que acontece  isso. Durante o trabalho sobre as resistncias, o ego se retrai - com maior ou menor grau de seriedade 
- do acordo em que a situao analtica se funda. Ele deixa de apoiar nossos esforos para revelar o id; ope-se a eles, desobedece a regra fundamental da anlise 
e no permite que surjam novos derivados do reprimido. No podemos esperar que o paciente possua uma forte convico do poder curativo da anlise. Pode ter trazido 
consigo uma certa confiana em seu analista, que ser fortalecida at um ponto eficaz pelos fatores de transferncia positiva que nele sero despertados. Sob a influncia 
dos impulsos desprazerosos que sente em resultado da nova ativao de seus conflitos defensivos, as transferncias negativas podem agora levar a melhor e anular 
completamente a situao analtica. O paciente agora encara o analista como no mais do que um estranho que lhe est fazendo exigncias desagradveis, e comporta-se 
para com ele exatamente como uma criana que no gosta do estranho e no acredita em nada do que este diz. Se o analista tenta explicar ao paciente uma das deformaes 
por este efetuadas para fins de defesa, e corrigi-la, encontra-o incompreensivo e inacessvel a argumentos bem fundados. Assim, percebemos que h uma resistncia 
contra a revelao das resistncias e que os mecanismos defensivos realmente merecem o nome que lhe demos originalmente, antes de terem sido examinados mais de perto. 
Constituem resistncias no apenas  conscientizao dos contedos do id, mas tambm  anlise como um todo, e, assim, ao restabelecimento.
         O efeito ocasionado no ego pelas defesas pode ser corretamente descrito como uma 'alterao do ego', se por isso entendemos um desvio quanto  fico de 
um ego normal, que garantiria lealdade inabalvel ao trabalho de anlise.  fcil, portanto, aceitar o fato, demonstrado pela experincia cotidiana, de que o resultado 
de um tratamento analtico depende essencialmente da fora e da profundidade da raiz dessas resistncias que ocasionam uma alterao do ego. Mais uma vez nos confrontamos 
com a importncia do fator quantitativo e mais uma vez somos lembrados de que a anlise s pode valer-se de quantidades de energia definidas e limitadas que tm 
de ser medidas contra as foras hostis. E aparece como se a vitria, de fato, via de regra esteja do lado dos grandes batalhes.
         
         VI
          A questo seguinte a que chegamos  a de saber se toda alterao do ego - em nosso sentido do termo -  adquirida durante as lutas defensivas dos primeiros 
anos. No pode haver dvida sobre a resposta. No temos razo para discutir a existncia e a importncia de caractersticas distintivas, originais e inatas do ego. 
Isso  certificado pelo ato singular de que cada pessoa faz uma seleo dos mecanismos possveis de defesa, de que ela sempre utiliza apenas alguns deles, sempre 
os mesmos ver em [[1]].Isso pareceria indicar que cada ego est dotado, desde o incio, com disposies e tendncias individuais, embora seja verdade que no podemos 
especificar sua natureza ou o que as determina. Ademais, sabemos que no devemos exagerar a diferena existente entre caracteres herdados e adquiridos, transformando-a 
numa anttese; o que foi adquirido por nossos antepassados decerto forma parte importante do que herdamos. Quando falamos numa 'herana arcaica' geralmente estamos 
pensando apenas no id e parecemos presumir que, no comeo da vida do indivduo, ainda no existe ego algum. Mas no desprezaremos o ato de que id e ego so originalmente 
um s; tampouco implica qualquer supervalorizao mstica da hereditariedade acharmos crvel que, mesmo antes de o ego surgir, as linhas de desenvolvimento, tendncias 
e reaes que posteriormente apresentar, j esto estabelecidas para ele. As peculiaridades psicolgicas de famlias, raas e naes, inclusive em sua atitude para 
com a anlise, no permitem outra explicao. Em verdade, mais do que isso: a experincia analtica nos imps a convico de que mesmo contedos psquicos especficos, 
tais como o simbolismo, no possuem outras fontes seno a transmisso hereditria, e pesquisas em diversos campos da antropologia social tornam plausvel supor que 
outros precipitados, igualmente especializados, deixados pelo primitivo desenvolvimento humano, tambm esto presentes na herana arcaica.
         Com o reconhecimento de que as propriedades do ego com que nos defrontamos sob a forma de resistncias podem ser tanto determinadas pela hereditariedade, 
quanto adquiridas em lutas defensivas, a distino topogrfica entre o que  ego e o que  id perde muito de seu valor para nossa investigao. Se avanarmos um 
passo adiante em nossa experincia analtica, nos depararemos com resistncias de outro tipo, que no mais podemos localizar e que parecem depender de condies 
fundamentais do aparelho mental. S posso fornecer alguns exemplos desse tipo de resistncia; todo o campo de investigao ainda  desconcertantemente estranho e 
insuficientemente explorado. Deparamo-nos com pessoas, por exemplo, a quem estaramos inclinados a atribuir uma especial 'adesividade da libido' Os processos que 
o tratamento coloca em movimento nessas pessoas so muito mais lentos do que em outra, porque, aparentemente, elas no podem decidir-se a desligar catexias libidinais 
de um determinado objeto e desloc-las para outro, embora no possamos descobrir nenhuma razo especial para essa lealdade catexial. Encontra-se tambm o tipo oposto 
de pessoa, em quem a libido parece particularmente mvel; ela ingressa prontamente nas novas catexias sugeridas pela anlise, abandonando as anteriores em troca 
desta. A diferena entre os dois tipos  comparvel  sentida por um escultor, conforme ele trabalhe na pedra dura ou no gesso macio. Infelizmente, nesse segundo 
tipo, os resultados da anlise freqentemente se mostram muito impermanentes; as novas catexias so logo abandonadas de novo, e temos a impresso, no de ter trabalhado 
em gesso, mas de ter escrito na gua. Como diz o provrbio: 'como vm, assim vo.'
         Em outro grupo de casos, ficamos surpreendidos por uma atitude de nossos pacientes que s pode ser atribuda a um esgotamento da plasticidade, da capacidade 
de modificao e desenvolvimento ulterior, que comumente esperaramos encontrar.  verdade que estamos preparados para encontrar na anlise uma certa quantidade 
de inrcia psquica.Quando o trabalho da anlise descerrou novos caminhos para um impulso instintual, quase invariavelmente observamos que o impulso no ingressa 
neles sem uma hesitao acentuada. Chamamos esse comportamento, talvez no muito corretamente, de 'resistncia oriunda do id.' Com os pacientes que tenho em mente, 
porm, todos os processos mentais, relacionamentos e distribuies de fora so imutveis, fixos e rgidos. Encontra-se a mesma coisa em pessoas muito idosas, em 
cujo caso ela  explicada como sendo devida ao que se descreve como fora do hbito ou exausto da receptividade - uma espcie de entropia psquica. Aqui, no entanto, 
estamos tratando com pessoas ainda jovens. Nosso conhecimento terico no parece adequado para fornecer uma explicao correta de tais tipos. Provavelmente, esto 
relacionadas algumas caractersticas temporais - certas alteraes de um ritmo de desenvolvimento na vida psquica que ainda no apreciamos.
         Em outro grupo ainda de casos, as caractersticas distintivas do ego, que devem ser consideradas como fontes de resistncias ao tratamento analtico e obstculos 
ao xito teraputico, podem originar-se de razes diferentes e mais profundas. Estamos lidando aqui com as coisas supremas que a pesquisa psicolgica pode aprender: 
o comportamento dos dois instintos primevos, sua distribuio, mistura e defuso - coisas que no podemos imaginar como confinadas a uma nica provncia do aparelho 
psquico, ao id, ao ego ou ao superego. Impresso alguma mais forte surge das resistncias durante o trabalho de anlise do que a de existir uma fora que se est 
defendendo por todos os meios possveis contra o restabelecimento e que est absolutamente decidida a apegar-se  doena e ao sofrimento. Uma parte dessa fora j 
foi por ns identificada, indubitavelmente com justia, como sentimento de culpa e necessidade de punio, e foi por ns localizada na relao do ego com o superego. 
Mas essa  apenas a parte dela que, por assim dizer, est psiquicamente presa pelo superego e assim se torna reconhecvel; outras cotas da mesma fora, quer presas, 
quer livres, podem estar em ao em outros lugares no especificados. Se tomarmos em considerao o quadro total formado pelos fenmenos de masoquismo imanentes 
em tantas pessoas, a reao teraputica negativa e o sentimento de culpa encontrados em tantos neurticos, no mais poderemos aderir  crena de que os eventos mentais 
so governados exclusivamente pelo desejo de prazer. Esses fenmenos constituem indicaes inequvocas da presena de um poder na vida mental que chamamos de instinto 
de agressividade ou de destruio, segundo seus objetivos, e que remontamos ao instinto de morte original da matria viva. No se trata de uma anttese entre uma 
teoria pessimista da vida e outra otimista. Somente pela ao concorrente ou mutuamente oposta dos dois instintos primevos - Eros e o instinto de morte -, e nunca 
por um ou outro sozinho, podemos explicar a rica multiplicidade dos fenmenos da vida.
         Como partes dessas duas classes de instintos se combinam para desempenhar as diversas funes vitais, sob que condies tais combinaes se afrouxam ou 
se rompem, a que distrbios essas mudanas correspondem e com que sensaes a escala perceptual do princpio de prazer a elas responde - so problemas cuja elucidao 
seria a faanha mais gratificante da pesquisa psicolgica. No momento, temos de nos curvar  superioridade das foras contra as quais vemos nossos esforos redundar 
em nada. Mesmo exercer uma influncia psquica sobre o simples masoquismo constitui um nus muito severo para nossos poderes.
         Ao estudar os fenmenos que do testemunho da atividade do instinto destrutivo, no nos confinamos a observaes sobre material patolgico. Numerosos fatos 
da vida mental normal exigem uma explicao desse tipo, e, quanto mais penetrantes nossos olhos se tornam, mais copiosamente esses fatos nos impressionam. O assunto 
 novo e importante demais para que o trate como um tema lateral desse debate. Contentar-me-ei, portanto, em selecionar alguns casos exemplificativos.
         Aqui temos um exemplo.  bem sabido que em todos os perodos houve, como ainda h, pessoas que podem tomar como objetos sexuais membros de seu prprio sexo, 
bem como do sexo oposto, sem que uma das inclinaes interfira na outra. Chamamos tais pessoas de bissexuais e aceitamos sua existncia sem sentir muita surpresa 
sobre elas. Viemos a saber, contudo, que todo ser humano  bissexual nesse sentido e que sua libido se distribui, quer de maneira manifesta, quer de maneira latente, 
por objetos de ambos os sexos. Mas ficamos impressionados pelo ponto seguinte. Ao passo que na primeira classe de pessoas as duas tendncias prosseguem juntas sem 
se chocarem, na segunda classe, mais numerosa, elas se encontram num estado de conflito irreconcilivel. A heterossexualidade de um homem no se conformar com nenhuma 
homossexualidade e vice-versa. Se a primeira  a mais forte, ela obtm xito em manter a segunda latente e em afast-la, pela fora, da satisfao na realidade. 
Por outro lado, no existe maior perigo para a funo heterossexual de um homem do que o de ser perturbada por sua homossexualidade latente. Poderamos tentar explicar 
isso dizendo que cada indivduo s possui  sua disposio uma certa cota de libido, pela qual as duas inclinaes rivais tm de lutar. Mas no est claro por que 
as rivais nem sempre dividem a cota disponvel de libido entre si, de acordo com sua fora relativa, j que assim podem fazer em certo nmero de casos. Somos forados 
 concluso de que a tendncia a um conflito  algo especial, algo recentemente adicionado  situao, sem considerar a quantidade de libido. Uma tendncia ao conflito 
desse tipo, a emergir independentemente, dificilmente pode ser atribuda a algo que no seja a interveno de um elemento de agressividade livre.
         Se reconhecermos o caso que estamos examinando como expresso do instinto destrutivo ou agressivo, surge imediatamente a questo de saber se essa viso 
no deve ser estendida a outros exemplos de conflito, e, na verdade, de saber se tudo o que conhecemos sobre o conflito psquico no deveria ser revisto a partir 
desse novo ngulo. Afinal de contas, presumimos que, no decurso do desenvolvimento do homem de um estado primitivo para um civilizado, sua agressividade experimenta 
um grau bastante considervel de internalizao ou volta para o interior; se assim for, seus conflitos internos certamente seriam o equivalente apropriado para as 
lutas internas que ento cessaram. Estou bem cnscio de que a teoria dualista, segundo a qual um instinto de morte ou de destruio ou agresso reivindica iguais 
direitos como scio de Eros, tal como este se manifesta na libido, encontrou pouca simpatia e na realidade no foi aceita, mesmo entre psicanalistas. Isso me deixou 
ainda mais satisfeito quando, no muito tempo atrs, me deparei com essa teoria de minha autoria nos escritos de um dos maiores pensadores da antiga Grcia. Estou 
prontssimo a ceder o prestgio da originalidade em favor de tal confirmao, em especial porque nunca pode ficar certo, em vista da ampla extenso de minhas leituras 
nos primeiros anos, se aquilo que tomei por uma nova criao no constitua um efeito da criptoamnsia.
         Empdocles de Acragas (Girgenti), nascido por volta de 495 a.C.,  uma das maiores e mais notveis figuras da histria da civilizao grega. As atividades 
de sua personalidade multifacetada seguiram as mais variadas direes. Ele foi investigador e pensador, profeta e mgico, poltico, filantropo e mdico com conhecimentos 
de cincias naturais. Diz-se que libertou a cidade de Selinunte da malria e seus contemporneos o reverenciavam como a um deus. Sua mente parece ter unido os mais 
agudos contrastes. Era exato e sbrio em suas pesquisas fsicas e fisiolgicas; contudo, no se retraiu ante as obscuridades do misticismo e construiu especulaes 
csmicas de audcia espantosamente imaginativa. Capelle compara-o ao Dr. Fausto, 'a quem muitos segredos foram revelados'. Nascido, como foi, numa poca em que o 
reino da cincia ainda no estava dividido em tantas provncias, algumas de suas teorias devem inevitavelmente impressionavas coisas pela mistura dos quatros elementos, 
a terra, o ar, o fogo e a gua. Sustentava que toda a natureza era animada, e acreditava na transmigrao das almas. Mas tambm incluiu no corpo terico do conhecimento 
idias modernas, como a evoluo gradual das criaturas vivas, a sobrevivncia dos mais aptos e o reconhecimento do papel desempenhado pelo acaso (????) nessa evoluo.
         Mas a teoria de Empdocles que merece especialmente nosso interesse  uma que se aproxima tanto da teoria psicanaltica dos instintos, que ficaramos tentados 
a sustentar que as duas so idnticas, no fosse pela diferena de a teoria do filsofo grego ser uma fantasia csmica, ao passo que a nossa se contenta em reivindicar 
validade biolgica. Ao mesmo tempo, o ato de Empdocles atribuir ao universo a mesma natureza animada que aos organismos individuais despoja essa diferena de grande 
parte de sua importncia.
         O filsofo ensinou que dois princpios dirigem os eventos na vida do universo e na vida da mente, e que esses princpios esto perenemente em guerra um 
com o outro. Chamou-os de ???? (amor) e ?????? (discrdia). Desses dois princpios - que ele concebeu como sendo, no fundo, 'foras naturais a operar como instintos, 
e de maneira alguma inteligncias com um intuito consciente' -, um deles se esfora por aglomerar as partculas primevas dos quatro elementos numa s unidade, ao 
passo que o outro, ao contrrio, procura desfazer todas essas fuses e separar umas das outras as partculas primevas dos elementos. Empdocles imaginou o processo 
do universo como uma alternao contnua e incessante de perodos, nos quais uma ou outra das duas foras fundamentais leva a melhor, de maneira que em determinada 
ocasio o amor e noutra a discrdia realizam completamente seu intuito e dominam o universo, aps o que o outro lado, vencido, se afirma e, por sua voz, derrota 
seu parceiro.
         Os dois princpios fundamentais de Empdocles - ????????????? - so, tanto em nome quanto em funo, os mesmos que nossos dois instintos primevos, Eros 
e destrutividade, dos quais o primeiro se esfora por combinar o que existe em unidades cada vez maiores, ao passo que o segundo se esfora por dissolver essas combinaes 
e destruir as estruturas a que elas deram origem. No ficaremos surpresos, contudo, em descobrir que, em seu ressurgimento aps dois milnios e meio, essa teoria 
se alterou em algumas de suas caractersticas.  parte a restrio ao campo biofsico que se nos impe, no mais temos como substncias bsicas os quatro elementos 
de Empdocles: o que  vivo foi nitidamente diferenciado do que  inanimado, e no mais pensamos em mistura e separao de partculas de substncia, mas na solda 
e na defuso dos componentes instintuais. Ademais, fornecemos um certo tipo de fundamento ao princpio de 'discrdia', fazendo nosso instinto de destruio remontar 
ao instinto de morte, ao impulso que tem o que  vivo a retornar a um estado inanimado. Isso no se destina a negar que um instinto anlogo j existiu anteriormente, 
nem,  natural, a asseverar que um instinto desse tipo s passou a existir com o surgimento da vida. E ningum pode prever sob que disfarce o ncleo de verdade contida 
na teoria de Empdocles se apresentar  compreenso posterior.
         
         VII
          Em 1927, Ferenczi leu um instrutivo artigo sobre o problema da terminao das anlises. Ele finda com a confortadora garantia de que 'a anlise no  um 
processo sem fim, mas um processo que pode receber um fim natural, com percia e pacincia suficientes por parte do analista'. O artigo como um todo, contudo, parece-me 
ter a natureza de uma advertncia a no visar a abreviar a anlise, mas a aprofund-la. Ferenczi demonstra ainda o importante ponto de que o xito depende muito 
de o analista ter aprendido o suficiente de seus prprios 'erros e equvocos' e de ter levado a melhor sobre 'os pontos fracos de sua prpria personalidade'. Isso 
fornece um suplemento importante a nosso tema. Entre os fatores que influenciam as perspectivas do tratamento analtico e se somam s suas dificuldades da mesma 
maneira que as resistncias, deve-se levar em conta no apenas a natureza do ego do paciente, mas tambm a individualidade do analista.
         No se pode discutir que analistas, em suas prprias personalidades, no estiveram invariavelmente  altura do padro de normalidade psquica para o qual 
desejam educar seus pacientes. Os opositores da anlise quase sempre apontam esse fato com escrnio e o utilizam como argumento para demonstrar a inutilidade dos 
esforos analticos. Poderamos rejeitar essa crtica porque faz exigncias injustificveis. Os analistas so pessoas que aprenderam a praticar uma arte especfica; 
a par disso, pode-se conceder-lhes que so seres humanos como quaisquer outros. Afinal de contas, ningum sustenta que um mdico ser incapaz de tratar doenas internas 
se seus prprios rgos internos no forem sadios; ao contrrio, pode-se argumentar que h certas vantagens no fato de um homem que foi, ele prprio, ameaado pela 
tuberculose, se especializar no tratamento de pessoas que sofrem dessa doena. Os casos, porm, no so absolutamente idnticos. Enquanto for capaz de clinicar, 
um mdico que sofre de uma doena dos pulmes ou do corao no se acha em desvantagem para diagnosticar ou tratar queixas internas, ao passo que as condies especiais 
do trabalho analtico fazem realmente com que os prprios defeitos do analista interfiram em sua efetivao de uma avaliao correta do estadode coisas em seu paciente 
e em sua reao a elas de maneira til. , portanto, razovel esperar de um analista, como parte de suas qualificaes, um grau considervel de normalidade e correo 
mental. Alm disso, ele deve possuir algum tipo de superioridade, de maneira que, em certas situaes analticas, possa agir como modelo para seu paciente e, em 
outras, como professor. E, finalmente, no devemos esquecer que o relacionamento analtico se baseia no amor  verdade - isto , no reconhecimento da realidade - 
e que isso exclui qualquer tipo de impostura ou engano.
         Detenhamo-nos aqui por um momento para garantir ao analista que ele conta com nossa sincera simpatia nas exigncias muito rigorosas a que tem de atender 
no desempenho de suas atividades. Quase parece como se a anlise fosse a terceira daquelas profisses 'impossveis' quanto s quais de antemo se pode estar seguro 
de chegar a resultados insatisfatrios. As outras duas, conhecidas h muito mais tempo, so a educao e o governo. Evidentemente, no podemos exigir que o analista 
em perspectiva seja um ser perfeito antes que assuma a anlise, ou em outras palavras, que somente pessoas de alta e rara perfeio ingressem na profisso. Mas onde 
e como pode o pobre infeliz adquirir as qualificaes ideais de que necessitar em sua profisso? A resposta : na anlise de si mesmo, com a qual comea sua preparao 
para a futura atividade. Por razes prticas, essa anlise s pode ser breve e incompleta. Seu objetivo principal  capacitar o professor a fazer um juzo sobre 
se o candidato pode ser aceito para formao posterior. Essa anlise ter realizado seu intuito se fornecer quele que aprende uma convico firme da existncia 
do inconsciente, se o capacitar, quando o material reprimido surge, a perceber em si mesmo coisas que de outra maneira seriam inacreditveis para ele, e se lhe mostra 
um primeiro exemplo da tcnica que provou ser a nica eficaz no trabalho analtico. S isso no bastaria para sua instruo, mas contamos com que os estmulos que 
recebeu em sua prpria anlise no cessem quando esta termina, com que os processos de remodelamento do ego prossigam espontaneamente no indivduo analisado, e com 
que se faa uso de todas as experincias subseqentes nesse recm-adquirido sentido. Isso de fato acontece e, na medida em que acontece, qualifica o indivduo analisado 
para ser, ele prprio, analista.Infelizmente, algo mais acontece tambm. Ao tentar descrev-lo, s podemos apoiar-nos em impresses. Hostilidade, por um lado, e 
partidarismo, por outro, criam uma atmosfera desfavorvel  investigao objetiva. Parece que certo nmero de analistas aprende a fazer uso de mecanismos defensivos 
que lhes permitem desviar de si prprios as implicaes e as exigncias da anlise (provavelmente dirigindo-as para outras pessoas), de maneira que eles prprios 
permanecem como so e podem afastar-se da influncia crtica e corretiva da anlise. Tal acontecimento poderia justificar as palavras do escritor que nos adverte 
que, quando se dota um homem de poder,  difcil para ele no utiliz-lo mal. s vezes, quando tentamos compreender isso, somos levados a traar uma analogia desagradvel 
com o efeito dos raios X nas pessoas que os manejam sem tomar precaues especiais. No seria de surpreender que o efeito de uma preocupao constante com todo o 
material reprimido que luta por liberdade na mente humana despertasse tambm no analista as exigncias instintuais que de outra maneira ele  capaz de manter suprimidas. 
Tambm esses so 'perigos da anlise', embora ameacem no o parceiro passivo, mas o parceiro ativo da situao analtica, e no deveramos negligenciar enfrent-los. 
No pode haver dvida sobre o modo como isso deve ser feito. Todo analista deveria periodicamente - com intervalos de aproximadamente cinco anos - submeter-se mais 
uma vez  anlise, sem se sentir envergonhado por tomar essa medida. Isso significaria, portanto, que no seria apenas a anlise teraputica dos pacientes, mas sua 
prpria anlise que se transformaria de tarefa terminvel em interminvel.
         Nesse ponto, contudo, temos de nos resguardar contra uma concepo equivocada. No estou pretendendo afirmar que a anlise , inteiramente, um assunto sem 
fim. Qualquer que seja nossa atitude terica para com a questo, a terminao de uma anlise , penso eu, uma questo prtica. Todo analista experimentado ser capaz 
de recordar uma srie de casos em que deu a seu paciente um adeus definitivo, rebus bene gestis. Nos casos daquilo que  conhecido como anlise de carter, h uma 
discrepncia muito menor entre a teoria e a prtica. Aqui no  fcil prever um trmino natural, ainda que se evitem quaisquer expectativas exageradas e no se estabeleam 
para a anlise tarefas excessiva. Nosso objetivo no ser dissipar todas as peculiaridadesdo carter humano em benefcio de uma 'normalidade' esquemtica, nem tampouco 
exigir que a pessoa que foi 'completamente analisada' no sinta paixes nem desenvolva conflitos internos. A misso da anlise  garantir as melhores condies psicolgicas 
possveis para as funes do ego; com isso, ela se desincumbiu de sua tarefa. 
         
         VIII 
         Tanto em anlises teraputicas quanto em anlises de carter, observamos que dois temas vm a ter preeminncia especial e fornecem ao analista quantidade 
inusitada de trabalho. Logo se torna evidente que aqui um princpio geral est em ao. Os dois temas esto ligados  distino existente entre os sexos; um deles 
 to caracterstico dos homens quanto o outro o  das mulheres. Apesar da dessemelhana de seu contedo, h uma correspondncia bvia entre eles. Algo que ambos 
os sexos possuem em comum foi forado, pela diferena entre eles, a formas diferentes de expresso.
         Os dois temas correspondentes so, na mulher, a inveja do pnis - um esforo positivo por possuir um rgo genital masculino - e, no homem, a luta contra 
sua atitude passiva ou feminina para com outro homem. O que  comum nos dois temas foi distinguido pela nomenclatura psicanaltica, em data precoce, como sendo uma 
atitude para com o complexo de castrao. Subseqentemente, Alfred Adler colocou o termo 'protesto masculino' em uso corrente. Ele se ajusta perfeitamente ao caso 
dos homens, mas penso que, desde o incio, 'repdio da feminilidade' teria sido a descrio correta dessa notvel caracterstica da vida psquica dos seres humanos.
         Ao tentar introduzir esse fator na estrutura de nossa teoria, no devemos desprezar o fato de que ele no pode, por sua prpria natureza, ocupar a mesma 
posio em ambos os sexos. Nos homens, o esforo por ser masculino  completamente egossintnico desde o incio; a atitude passiva, de uma vez que pressupe uma 
aceitao da castrao,  energicamente reprimida e amide sua presena s  indicada por supercompensaes excessivas. Nas mulheres, tambm, o esforo por ser masculino 
 egossintnico em determinado perodo - a saber, na fase flica, antes que o desenvolvimento para a feminilidade se tenha estabelecido. Depois, porm, ele sucumbe 
ao momentoso processo de represso cujo desfecho, como to freqentemente foi demonstrado, determina a sorte da feminilidade de uma mulher. Muita coisa depende de 
que uma quantidade suficiente de seu complexo de masculinidade escape  represso e exera influncia permanente em seu carter. Normalmente, grandes partes do complexo 
se transformam e contribuem para a construo de sua feminilidade; o desejo apaziguado de um pnis destina-se a ser convertido no desejo de um beb e de um marido, 
que possui um pnis. estranho, contudo, quo amide descobrimos que o desejo de masculinidade foi retido no inconsciente e que, a partir de seu estado de represso, 
exerce uma influncia perturbadora.
         Como se ver pelo que eu disse, em ambos os casos foi a atitude prpria ao sexo oposto que sucumbiu  represso. J afirmei em outro lugar que foi Wilhelm 
Fliess que chamou minha ateno para esse ponto. Fliess inclinava-se a encarar a anttese entre os sexos como a verdadeira causa e a fora motivadora primeva da 
represso. Estou apenas repetindo o que disse ento ao discordar de sua opinio, quando declino de sexualizar a represso dessa maneira - isto , explic-la em fundamentos 
biolgicos, em vez de puramente psicolgicos.
         A importncia suprema desses dois temas - nas mulheres, o desejo de um pnis, e, nos homens, a luta contra a passividade - no escapou  observao de Ferenczi. 
No artigo lido por ele em 1927, transformou num requisito que, em toda anlise bem-sucedida, esses dois complexos tivessem sido dominados. Gostaria de acrescentar 
que, falando por minha prpria experincia, acho que quanto a isso Ferenczi estava pedindo muito. Em nenhum ponto de nosso trabalho analtico, se sofre mais da sensao 
opressiva de que todos os nossos repetidos esforos foram em vo, e da suspeita de que estivemos 'pregando ao vento', do que quando estamos tentando persuadir uma 
mulher a abandonar seu desejo de um pnis, com fundamento de que  irrealizvel, ou quando estamos procurando convencer um homem de que uma atitude passiva para 
com homens nem sempre significa castrao e que ela  indispensvel em muitos relacionamentos na vida. A supercompensao rebelde do homem produz uma das mais fortes 
resistncias transferenciais. Ele se recusa a submeter-se a um substituto paterno, ou a sentir-se em dbito para com ele por qualquer coisa, e, conseqentemente, 
se recusa a aceitar do mdico seu restabelecimento. Nenhuma transferncia anloga pode surgir do desejo da mulher por um pnis, mas esse desejo  fonte de irrupes 
de grave depresso nela, devido  convico interna de que a anlise no lhe ser til e de que nada pode ser feito para ajud-la. E s podemosconcordar que ela 
est com a razo, quando aprendemos que seu mais forte motivo para buscar tratamento foi a esperana de que, ao fim de tudo, ainda poderia obter um rgo masculino, 
cuja falta lhe era to penosa.
         Mas tambm aprendemos com isso que no  importante sob que forma a resistncia aparece, seja como transferncia ou no. A coisa decisiva permanece sendo 
que a resistncia impede a ocorrncia de qualquer mudana - tudo fica como era. Freqentemente temos a impresso de que o desejo de um pnis e o protesto masculino 
penetraram atravs de todos os estratos psicolgicos e alcanaram o fundo, e que, assim, nossas atividades encontram um fim. Isso  provavelmente verdadeiro, j 
que, para o campo psquico, o campo biolgico desempenha realmente o papel de fundo subjacente. O repdio da feminilidade pode ser nada mais do que um fato biolgico, 
uma parte do grande enigma do sexo. Seria difcil dizer se e quando conseguimos xito em dominar esse fator num tratamento analtico. S podemos consolar-nos com 
a certeza de que demos  pessoa analisada todo incentivo possvel para reexaminar e alterar sua atitude para com ele.
         
         
         

























CONSTRUES EM ANLISE (1937)
         
         KONSTRUKTIONEN IN DER ANALYSE
         
         (a) EDIES ALEMS
         1937 Int. Z. Psychoanal., 23 (4), 459-69.
         1950 G. W. 16, 43-56.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         
         'Constructions in Analys7is'
         
         1938 Int. J. Psycho-Anal., 19 (4), 377-87. (Trad. de James Strachey.)
         1950 C. P., 5, 358-71. (Reimpresso revista da anterior.)
         
         A presente traduo  uma reimpresso corrigida da publicada em 1950.
         
         Este artigo foi publicado em dezembro de 1937.
         Embora, como Freud observa, as construes tenham recebido muito menos ateno do que as interpretaes nos debates da tcnica analtica, seus prprios 
escritos contm muitas aluses a elas. H dois ou trs exemplos completos delas em suas histrias clnicas: na anlise do 'Rat Man' (1909d), Standard Ed., 10, Pp. 
182 e 205, e na anlise do 'Wolf Man' (1918b). Todo o ltimo caso gira em torno de uma construo, mas a questo  especificamente examinada na Seo V (Standard 
Ed., 17, p. 50 e segs.). Finalmente, as construes desempenharam grande papel na histria clnica da jovem homossexual (1920a), como fica claro na Seo I (ibid., 
18, p. 152).
         O artigo termina pelo exame de um assunto em que Freud estava muito interessado nesse perodo - a distino entre o que descreveu como verdade 'histrica' 
e 'material'.
         
         CONSTRUES EM ANLISE
         
         Sempre me pareceu ser algo grandemente a crdito de certo bem-conhecido homem de cincia ter ele tratado a psicanlise com justia, numa poca em que a 
maioria das outras pessoas no se sentiam em tal obrigao. Em determinada ocasio, todavia, expressou ele uma opinio sobre a tcnica analtica que foi, ao mesmo 
tempo, depreciativa e injusta. Disse que, ao fornecermos interpretaes a um paciente, tratamo-lo segundo o famoso princpio do 'Heads I win, tails you lose'. Isso 
equivale a dizer que se o paciente concorda conosco, ento a interpretao est certa, mas, se nos contradiz, isso constitui apenas sinal de sua resistncia, o que 
novamente demonstra que estamos certos. Desse modo, estamos sempre com a razo contra o pobre e desamparado infeliz que estamos analisando, no importando como ele 
reaja ao que lhe apresentamos. Ora, de uma vez que  realmente verdade que um 'no' de nossos pacientes no , via de regra, suficiente para nos fazer abandonar 
uma interpretao como incorreta, uma revelao como essa sobre a natureza de nossa tcnica foi muito bem acolhida pelos opositores da anlise. Vale a pena, portanto, 
fornecer uma descrio pormenorizada de como estamos acostumados a chegar a uma avaliao do 'sim' ou do 'no' de nossos pacientes durante o tratamento analtico 
- de sua expresso de concordncia ou de negao. No correr dessa apologia, naturalmente, o analista militante nada aprender que j no saiba.
          terreno familiar que o trabalho da anlise visa a induzir o paciente a abandonar as represses (empregando a palavra no sentido mais amplo) prpria a 
seu primitivo desenvolvimento e a substitu-las por reaes de um tipo que corresponda a uma condio psiquicamente madura. Com esse intuito em vista, ele deve ser 
levado a recordar certas experincias e os impulsos afetivos por ela invocados, os quais, presentemente, ele esqueceu. Sabemos que seus atuais sintomas e inibies 
so conseqncias de represses desse tipo; que constituem um substituto para aquelas coisa que esqueceu. Que tipo de material pe ele  nossa disposio, de que 
possamos fazer uso para coloc-lo no caminho da recuperao das lembranas perdidas? Todos os tipos de coisa. Fornece-nos fragmentos dessas lembranas em seus sonhos, 
valiosssimos em si mesmos, mas via de regra seriamente deformados por todos os fatores relacionados  formao dos sonhos. Se ele se entrega  'associao livre', 
produz ainda idias em que podemos descobrir aluses s experincias reprimidas e derivados dos impulsos afetivos recalcados, bem como das reaes contra eles. Finalmente, 
h sugestes de repeties dos afetos pertencentes ao material reprimido que podem ser encontradas em aes desempenhadas pelo paciente, algumas bastante importantes, 
outras, triviais, tanto dentro quanto fora da situao analtica. Nossa experincia demonstrou que a relao de transferncia, que se estabelece com o analista, 
 especificamente calculada para favorecer o retorno dessas conexes emocionais.  dessa matria-prima - se assim podemos descrev-la - que temos de reunir aquilo 
de que estamos  procura.
         Estamos  procura de um quadro dos anos esquecidos do paciente que seja igualmente digno de confiana e, em todos os aspectos essenciais, completo. Nesse 
ponto, porm, somos recordados de que o trabalho de anlise consiste em duas partes inteiramente diferentes, que ele  levado a cabo em duas localidades separadas, 
que envolve duas pessoas, a cada uma das quais  atribuda uma tarefa distinta. Pode, por um momento, parecer estranho que um fato to fundamental no tenha sido 
apontado muito tempo atrs, mas imediatamente se perceber que nada estava sendo retido nisso, que se trata de um fato universalmente conhecido e, por assim dizer, 
auto-evidente, e que simplesmente  colocado em relevo aqui e examinado isoladamente para um propsito especfico. Todos ns sabemos que a pessoa que est sendo 
analisada tem de ser induzida a recordar algo que foi por ela experimentado e reprimido, e os determinantes dinmicos desse processo so to interessantes que a 
outra parte do trabalho, a tarefa desempenhada pelo analista, foi empurrada para o segundo plano. O analista no experimentou nem reprimiu nada do material em considerao; 
sua tarefa no pode ser recordar algo. Qual , ento, sua tarefa? Sua tarefa  a de completar aquilo que foi esquecido a partir dos traos que deixou atrs de si 
ou, mais corretamente, constru-lo. A ocasio e o modo como transmite suas construes  pessoa que est sendo analisada, bem como as explicaes com que as faz 
acompanhar, constituem o vnculo entre as duas partes do trabalho de anlise, entre o seu prprio papel e o do paciente.Seu trabalho de construo, ou, se se preferir, 
de reconstruo, assemelha-se muito  escavao, feita por um arquelogo, de alguma morada que foi destruda e soterrada, ou de algum antigo edifcio. Os dois processos 
so de fato idnticos, exceto pelo fato de que o analista trabalha em melhores condies e tem mais material  sua disposio para ajud-lo, j que aquilo com que 
est tratando no  algo destrudo, mas algo que ainda est vivo - e talvez por outra razo tambm. Mas assim como o arquelogo ergue as paredes do prdio a partir 
dos alicerces que permaneceram de p, determina o nmero e a posio das colunas pelas depresses no cho e reconstri as decoraes e as pinturas murais a partir 
dos restos encontrados nos escombros, assim tambm o analista procede quando extrai suas inferncias a partir dos fragmentos de lembranas, das associaes e do 
comportamento do sujeito da anlise. Ambos possuem direito indiscutido a reconstruir por meio da suplementao e da combinao dos restos que sobreviveram. Ambos, 
ademais, esto sujeitos a muitas das mesmas dificuldades e fontes de erro. Um dos mais melindrosos problemas com que se defronta o arquelogo , notoriamente, a 
determinao da idade relativa de seus achados, e se um objeto faz seu aparecimento em determinado nvel, freqentemente resta decidir se ele pertence a esse nvel 
ou se foi carregado para o mesmo devido a alguma perturbao subseqente.  fcil imaginar as dvidas correspondentes que surgem no caso das construes analticas.
         O analista, como dissemos, trabalha em condies mais favorveis do que o arquelogo, j que dispe de material que no pode ter correspondente nas escavaes, 
tal como as repeties de reaes que datam da tenra infncia e tudo o que  indicado pela transferncia em conexo com essas repeties. Mas, alm disso, h que 
manter em mente que o escavador est lidando com objetos destrudos, dos quais grandes e importantes partes certamente se perderam, pela violncia mecnica, pelo 
fogo ou pelo saque. Nenhum esforo pode resultar em sua descoberta e levar a que sejam unidas aos restos que permaneceram. O nico curso que se lhe acha aberto  
o da reconstruo, que, por essa razo, com freqncia s pode atingir um certo grau de probabilidade. Mas, com o objeto psquico cuja histria primitiva o analista 
est buscando recuperar,  diferente. Aqui, defrontamo-nos regularmente com uma situao que, com o objeto arqueolgico, ocorre apenas em circunstncias raras, tais 
como as de Pompia ou da tumba de Tutancmon. Todos os elementos essenciais esto preservados; mesmo coisas que parecem completamente esquecidas esto presentes, 
de alguma maneira e em algum lugar, e simplesmente foram enterradas e tornadas inacessveis ao indivduo. Na verdade, como sabemos,  possvel duvidar de que alguma 
estrutura psquicapossa realmente ser vtima de destruio total. Depende exclusivamente do trabalho analtico obtermos sucesso em trazer  luz o que est completamente 
oculto. H apenas dois outros fatos que pesam contra a extraordinria vantagem que assim  desfrutada pelo trabalho de anlise, a saber, que os objetos psquicos 
so incomparavelmente mais complicados do que os objetos materiais do escavador, e que possumos um conhecimento insuficiente do que podemos esperar encontrar, uma 
vez que sua estrutura mais refinada contm tanta coisa que ainda  misteriosa. Mas nossa comparao entre as duas formas de trabalho no pode ir alm disso, pois 
a principal diferena entre elas reside no fato de que, para o arquelogo, a reconstruo  o objetivo e o final de seus esforos, ao passo que, para o analista, 
a construo constitui apenas um trabalho preliminar. 
         
         II 
         A construo no , porm, um trabalho preliminar no sentido de que a totalidade dela deve ser completada antes que o trabalho seguinte possa comear, tal 
como, por exemplo,  o caso com a construo de casas, onde todas as paredes devem estar erguidas e todas as janelas inseridas antes que a decorao interna das 
peas possa ser empreendida. Todo analista sabe que as coisas acontecem de modo diferente no tratamento analtico e que a ambos os tipos de trabalho so executados 
lado a lado, um deles sempre um pouco  frente e o outro a segui-lo. O analista completa um fragmento da construo e o comunica ao sujeito da anlise, de maneira 
a que possa agir sobre ele; constri ento um outro fragmento a partir do novo material que sobre ele se derrama, lida com este da mesma maneira e prossegue, desse 
modo alternado, at o fim. Se nas descries da tcnica analtica se fala to pouco sobre 'construes', isso se deve ao fato de que, em troca, se fala nas 'interpretaes' 
e em seus efeitos. Mas acho que 'construo'  de longe a descrio mais apropriada. 'Interpretao' aplica-se a algo que se faz a algum elemento isolado do material, 
tal como uma associao ou uma parapraxia. Trata-se de uma 'construo', porm, quando se pe perante o sujeito da anlise um fragmento de sua histria primitiva, 
que ele esqueceu, aproximadamente da seguinte maneira: 'At os onze anos de idade, voc se considerava o nico e ilimitado possuidor de sua me; apareceu ento um 
outro beb e lhe trouxe uma sria desiluso. Sua me abandonou voc por algum tempo e, mesmo aps o reaparecimento dela, nunca mais se dedicou exclusivamente a voc. 
Seus sentimentos para com ela se tornaram ambivalentes, seu pai adquiriu nova importncia para voc...', e assim por diante.
         No presente artigo, nossa ateno se voltar exclusivamente para esse trabalho preliminar desempenhado pelas construes. E aqui, no prprio incio, surge 
a questo de saber que garantia temos, enquanto trabalhamos nessas construes, de que no estamos cometendo equvocos e arriscando o xito do tratamento pela apresentao 
de alguma construo incorreta. Pode parecer que em todos os casos seja impossvel dar alguma resposta a essa questo'; contudo mesmo antes de debat-la, podemos 
dar ouvidos a certa informao confortadora que  fornecida pela experincia analtica, uma vez que com esta aprendemos que nenhum dano  causado se, ocasionalmente, 
cometemos um equvoco e oferecemos ao paciente uma construo errada como sendo a verdade histrica provvel. Acha-se envolvido,  natural, um desperdcio de tempo, 
e todo aquele que no faa mais do que apresentar ao paciente combinaes falsas, no criar boa impresso nele nem levar o tratamento muito longe; entretanto um 
equvoco isolado desse tipo no pode causar prejuzo. O que realmente ocorre em tal caso  antes o fato de o paciente permanecer intocado pelo que foi dito e no 
reagir nem com um 'sim' nem com um 'no'. Isso tem possibilidade de no significar nada mais seno que sua reao  adiada; se, porm, nada mais se desenvolve, podemos 
concluir que cometemos um equvoco, e admitiremos isso para o paciente em alguma oportunidade apropriada, sem nada sacrificar de nossa autoridade. Essa oportunidade 
surgir quando vier  luz um novo material que nos permita fazer uma construo melhor e, assim, corrigir nosso erro. Dessa maneira, a construo falsa  abandonada, 
como se nunca tivesse sido feita, e, na verdade, freqentemente ficamos com a impresso de que, tomando de emprstimo as palavras de Polnio, nossa isca de falsidade 
fisgou uma carpa de verdade.* O perigo de desencaminharmos um paciente por sugesto, persuadindo-o a aceitar coisa em que ns prprios acreditamos, mas que ele no 
deveria aceitar, decerto foi enormemente exagerado. Um analista teria de se comportar muito incorretamente antes que tal infortnio pudesse domin-lo; acima de tudo, 
teria de se culpar por no permitir que seus pacientes tenham oportunidade de falar. Posso garantir, sem me gabar, que um tal abuso de 'sugesto' jamais ocorreu 
em minha clnica.
         J decorre do que foi dito que de modo algum estamos inclinados a negligenciar as indicaes que podem ser inferidas a partir da reao do paciente quando 
lhe oferecemos uma de nossas construes. O assunto deve ser examinado em pormenor.  verdade que no aceitamos o 'no' de uma pessoa em anlise por seu valor nominal; 
tampouco, porm, permitimos que seu 'sim' seja aceito. No h justificao para que nos acusem de que invariavelmente deformamos suas observaes, transformando-as 
em confirmao. Na realidade, as coisas no so to simples assim, e no tornamos fcil para ns prprios chegar a uma concluso.
         Um simples 'sim' do paciente de modo algum deixa de ser ambguo. Na verdade, pode significar que ele reconhece a correo da construo que lhe foi apresentada, 
mas pode tambm no ter sentido ou mesmo merecer ser descrito como 'hipcrita', uma vez que pode convir  sua resistncia fazer uso de um assentimento de uma verdade 
que no foi descoberta.O 'sim' no possui valor, a menos que seja seguido por confirmaes indiretas, a menos que o paciente, imediatamente aps o 'sim,', produza 
novas lembranas que completem e ampliem a construo. Apenas em tal caso consideramos que o 'sim' tratou completamente do assunto em debate.
         Um 'no' provindo de uma pessoa em anlise  to ambguo quanto um 'sim' e, na verdade, de menor valor ainda. Em alguns raros casos, ele mostra ser a expresso 
de uma dissenso legtima. Muito mais freqentemente, expressa uma resistncia que pode ter sido evocada pelo tema geral da construo que lhe foi apresentada, mas 
que, de modo igualmente fcil, pode ter surgido de algum outro fator da complexa situao analtica. Um 'no' de um paciente, portanto, no constitui prova de correo 
de uma construo, ainda que seja perfeitamente compatvel com ela. Uma vez que toda construo desse tipo  incompleta, pois abrange apenas um pequeno fragmento 
dos eventos esquecidos, estamos livres para supor que o paciente no est de fato discutindo o que lhe foi dito, mas baseando sua contradio na parte que ainda 
no foi revelada. Via de regra, no dar seu assentimento at que tenha sabido de toda a verdade - a qual amide abrange um campo muito grande. Dessa maneira, a 
nica interpretao segura de seu 'no'  que ele aponta para a qualidade de no ser completo; no se pode haver dvida de que a construo no lhe disse tudo.
         Parece, portanto, que as elocues diretas do paciente, depois que lhe foi oferecida uma construo, fornecem muito poucas provas sobre a questo de saber 
se estivemos certos ou errados.  do maior interesse que existam formas indiretas de confirmao, que so, sob todos os aspectos, fidedignas. Uma delas  uma forma 
de expresso utilizada (como que por consenso) com muito pequena variao pelas mais diferentes pessoas: 'Nunca pensei' (ou 'Nunca teria pensado') 'isso' (ou 'nisso'). 
Isso pode ser traduzido, sem qualquer hesitao, por: 'Sim, o senhor est certo dessa vez - sobre meu inconsciente.' Infelizmente, essa frmula, to bem-vinda ao 
analista, chega a seus ouvidos com mais freqncia depois de interpretaes isoladas do que depois de ele ter produzido uma ampla construo. Confirmao igualmente 
valiosa est implcita (dessa vez, expressa positivamente) quando o paciente responde com uma associao que contm algo semelhante ou anlogo ao contedo da construo. 
Em vez de extrair um exemplo disso de uma anlise (o que seria fcil de achar, mas longode relatar), prefiro fornecer um relato de uma pequena experincia extra-analtica 
que apresenta uma situao semelhante de modo to notvel, que produz efeito quase cmico. Essa experincia se relacionou a um de meus colegas que - h muito tempo 
atrs - me escolhera como consultor em sua clnica mdica. Certo dia, contudo, trouxe sua jovem esposa para me ver, pois estava causando problemas para ele. Recusava-se, 
sob toda a sorte de pretextos, a ter relaes sexuais com ele, e o que ele esperava de mim, evidentemente, era que expusesse a ela as conseqncias de seu comportamento 
imprudente. Ingressei no assunto e expliquei-lhe que sua recusa provavelmente teria resultados desafortunados para a sade de seu marido, ou o deixaria exposto a 
tentaes que poderiam conduzir ao rompimento de seu matrimnio. Nesse ponto, ele subitamente me interrompeu com a observao: 'O ingls que voc diagnosticou como 
sofrendo de um tumor cerebral morreu tambm.' A princpio, a observao pareceu incompreensvel; o 'tambm' em sua frase era um mistrio, pois no falramos de ningum 
que tivesse falecido. Pouco tempo depois, porm, compreendi. Evidentemente o homem estava pretendendo confirmar o que eu dissera; estava querendo dizer 'Sim, voc 
certamente tem toda a razo. Seu diagnstico foi confirmado no caso do outro paciente tambm.' Era um excelente paralelo s confirmaes indiretas que, na anlise, 
obtemos a partir das associaes. No tentarei negar que, postos de lado por meu colega, tambm havia outros pensamentos que tinham sua parte na determinao da 
observao dele.
         Confirmaes indiretas oriundas de associaes que se ajustam ao contedo de uma construo - que nos forneceu um 'tambm' como aquele de minha histria 
- proporcionam base valiosa para julgar se a construo tem probabilidade de ser confirmada no decorrer da anlise.  particularmente notvel quando, por meio de 
uma parapraxia, uma confirmao desse tipo se insinua numa negao direta. Publiquei outrora, em outro lugar, um belo exemplo disso. O nome 'Jauner' (familiar em 
Viena) surgira repetidamente nos sonhos de um de meus pacientes sem que uma explicao suficiente aparecesse em suas associaes. Finalmente, apresentei a interpretao 
de que, quando dizia 'Jauner', provavelmente queria dizer 'Gauner' [velhaco] ao que ele prontamente replicou: 'Isso me parece "jewagt" demais [em vez de "gewagt" 
(ousado, exagerado)]. Ou ento, outra vez, quando sugeri a um paciente que ele considerava determinados honorrios muito altos, ele pretendeu negar a sugesto com 
as palavras 'Dez dlares no so nada para mim', mas, em vez de dlares, inseriu uma moeda de menor valor e disse 'dez xelins'.
         Se uma anlise  dominada por poderosos fatores que impem uma reao teraputica negativa, tais como sentimento de culpa, necessidade masoquista de sofrer 
ou repugnncia por receber auxlio do analista, o comportamento do paciente, depois que lhe foi oferecida uma construo, freqentemente torna bastante fcil para 
ns que cheguemos  deciso que estamos procurando. Se a construo  errada, no h mudana no paciente, mas, se  correta ou fornece uma aproximao da verdade, 
ele reage a ela com um inequvoco agravamento de seus sintomas e de seu estado geral.
         Podemos resumir o assunto afirmando que no h justificativa para a censura de que negligenciamos ou subestimamos a importncia da atitude assumida pelos 
que esto em anlise para com nossas construes. Prestamo-lhes ateno e, com freqncia, dela derivamos informaes valiosas. Mas essas reaes do paciente raramente 
deixam de ser ambguas, e no do oportunidade para um julgamento final. S o curso ulterior da anlise nos capacita a decidir se nossas construes so corretas 
ou inteis. No pretendemos que uma construo individual seja algo mais do que uma conjectura que aguarda exame, confirmao ou rejeio. No reivindicamos autoridade 
para ela, no exigimos uma concordncia direta do paciente, no discutimos com ele, caso a princpio a negue. Em suma, conduzimo-nos segundo modelo de conhecida 
figura de uma das farsas de Nestroy - o criado que tem nos lbios uma s resposta para qualquer questo ou objeo: 'Tudo se tornar claro no decorrer dos futuros 
desenvolvimentos.' 
         
         III 
         Como  que isso ocorre no processo da anlise - o modo como uma conjectura nossa se transforma em convico do paciente - mal vale a pena ser descrito. 
Tudo isso  familiar a todo analista, a partir de sua experincia cotidiana, e  inteligvel sem dificuldade. Apenas um ponto exige investigao e explicao. O 
caminho que parte da construo do analista deveria terminar na recordao do paciente, mas nem sempre ele conduz to longe. Com bastante freqncia no conseguimos 
fazer o paciente recordar o que foi reprimido. Em vez disso, se a anlise  corretamente efetuada, produzimos nele uma convico segura da verdade da construo, 
a qual alcana o mesmo resultado teraputico que uma lembrana recapturada. O problema de saber quais as circunstncias em que isso ocorre e de saber como  possvel 
que aquilo que parece ser um substituto incompleto produza todavia um resultado completo - tudo isso constitui assunto para uma investigao posterior.
         Concluirei esse breve artigo com algumas consideraes que descerram uma perspectiva mais ampla. Fiquei impressionado pelo modo como, em certas anlises, 
a comunicao de uma construo obviamente apropriada evocou nos pacientes um fenmeno surpreendente e, a princpio, incompreensvel. Tiveram evocadas recordaes 
vivas - que eles prprios descreveram como 'ultraclaras' -, mas o que eles recordaram no foi o evento que era o tema da construo, mas pormenores relativos a esse 
tema. Por exemplo, recordaram com anormal nitidez os rostos das pessoas envolvidas na construo ou as salas em que algo da espcie poderia ter acontecido, ou, um 
passo adiante, os mveis dessas salas - sobre os quais, naturalmente, a construo no tinha possibilidade de ter qualquer conhecimento. Isso ocorreu tanto em sonhos, 
imediatamente depois que a construo foi apresentada, quanto em estados de viglia semelhantes a fantasias. Essas prprias recordaes no conduziram a nada mais 
e pareceu plausvel consider-las como produto de uma conciliao. O 'Impulso ascendente' do reprimido, colocado em atividade pela apresentao da construo, se 
esforou por conduzir os importantes traos de memria para a conscincia; uma resistncia, porm, alcanou xito - no,  verdade, em deter esse movimento -, mas 
em desloc-lo para objetos adjacentes de menor significao.
         Essas recordaes poderiam ser descritas como alucinaes, se uma crena em sua presena concreta se tivesse somado  sua clareza. A importncia dessa analogia 
pareceu maior quando observei que alucinaes verdadeiras corriam ocasionalmente no caso de outros pacientes que certamente no eram psicticos. Minha linha de pensamento 
progrediu da seguinte forma: talvez seja uma caracterstica geral das alucinaes -  qual uma ateno suficiente no foi at agora prestada - que, nelas, algo que 
foi experimentado na infncia e depois esquecido retorne - algo que a criana viu ou ouviu numa poca em que ainda mal podia falar e que agora fora o seu caminho 
 conscincia, provavelmente deformado e deslocado, devido  operao de foras que se opem a esse retorno. E, em vista da estreita relao existente entre alucinaes 
e formas especficas de psicose, nossa linha de pensamento pode ser levada ainda mais alm. Pode ser que os prprios delrios em que essas alucinaes so constantemente 
incorporadas sejam menos independentes do impulso ascendente do inconsciente e do retorno do reprimido do que geralmente presumimos. No mecanismo de um delrio, 
via de regra, acentuamos apenas dois fatores: o afastamento do mundo real e suas foras motivadoras, por um lado, e a influncia exercida pela realizao de desejo 
sobre o contedo do delrio, por outro. Mas no poder acontecer que o processo dinmico seja antes o ato de o afastamento da realidade ser explorado pelo impulso 
ascendente do reprimido, a fim de forar seu contedo  conscincia, enquanto as resistncias despertadas por esse processo e a inclinao  realizao de desejo 
partilham da responsabilidade pela deformao e pelo deslocamento do que  recordado? Esse , afinal de contas, o mecanismo familiar dos sonhos, o qual, desde tempos 
imemoriais, a intuio igualou  loucura.
         Essa viso dos delrios no , penso eu, inteiramente nova; no obstante, d nfase a um ponto de vista que geralmente no  trazido para o primeiro plano. 
A essncia dela  que h no apenas mtodo na loucura como o poeta j percebera, mas tambm um fragmento de verdade histrica, sendo plausvel supor que a crena 
compulsiva que se liga aos delrios derive sua fora exatamente de fontes infantis desse tipo. Tudo o que posso produzir hoje em apoio dessa teoria so reminiscncias, 
no impresses novas. Provavelmentevaleria a pena fazer uma tentativa de estudar casos do distrbio em apreo com base nas hipteses que foram aqui apresentadas 
e tambm efetuar seu tratamento segundo essas mesmas linhas. Abandonar-se-ia o vo esforo de convencer o paciente do erro de seu delrio e de sua contradio da 
realidade, e, pelo contrrio, o reconhecimento de seu ncleo de verdade permitiria um campo comum sobre o qual o trabalho teraputico poderia desenvolver-se. Esse 
trabalho consistiria em libertar o fragmento de verdade histrica de suas deformaes e ligaes com o dia presente real, e em conduzi-lo de volta para o ponto do 
passado a que pertence. A transposio de material do passado esquecido para o presente, ou para uma expectativa de futuro, , na verdade, ocorrncia habitual nos 
neurticos, no menos do que nos psicticos. Com bastante freqncia, quando um neurtico  levado, por um estado de ansiedade, a esperar a ocorrncia de algum acontecimento 
terrvel, ele de fato est simplesmente sob a influncia de uma lembrana reprimida (que est procurando ingressar na conscincia, mas no pode tornar-se consciente) 
de que algo que era, naquela ocasio, terrificante, realmente aconteceu. Acredito que adquiriramos um grande e valioso conhecimento a partir de um trabalho desse 
tipo com psicticos, mesmo que no conduzisse a nenhum sucesso teraputico.
         Estou ciente de que  de pouca utilidade tratar um assunto to importante da maneira apressada que aqui empreguei. Contudo, no pude resistir  seduo 
de uma analogia. Os delrios dos pacientes parecem-me ser os equivalentes das construes que erguemos no decurso de um tratamento analtico - tentativas de explicao 
e de cura, embora seja verdade que estas, sob as condies de uma psicose, no podem fazer mais do que substituir o fragmento de realidade que est sendo rejeitado 
no passado remoto. Ser tarefa de cada investigao individual revelar as conexes ntimas existentes entre o material da rejeio atual e o da represso original. 
Tal como nossa construo s  eficaz porque recupera um fragmento de experincia perdida, assim tambm o delrio deve seu poder convincente ao elemento de verdade 
histrica que ele insere no lugar da realidade rejeitada. Desse maneira, uma proposio que originalmente asseverei apenas quanto a histeria se aplicaria tambm 
aos delrios, a saber, que aqueles que lhes so sujeitos, esto sofrendo de suas prprias reminiscncias. Nunca pretendi, atravs dessa breve frmula, discutir a 
complexidade da causao da doena ou excluir o funcionamento de muitos outros fatores.
         Se considerarmos a humanidade como um todo e substituirmos o indivduo humano isolado por ela, descobriremos que tambm ela desenvolveu delrios que so 
inacessveis  crtica lgica e que contradizem a realidade. Se, apesar disso, esses delrios so capazes de exercer um poder extraordinrio sobre os homens, a investigao 
nos conduz  mesma explicao que no caso do indivduo isolado. Eles devem seu poder ao elemento de verdade histrica que trouxeram  tona a partir da represso 
do passado esquecido e primevo.
         
         





























A DIVISO DO EGO NO PROCESSO DE DEFESA (1940 [1938])
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         DIE ICHSPALTUNG IM ABWEHRVORGANG
         (a) EDIES ALEMS:
         1940 Int. Z. Psychoanal., Imago, 25 (3/4), 241-4.
         1941 G. W., 17, 59-62.
         
         (a) TRADUO INGLESA:
         
         'Splitting of the Ego in the efensive Process'
         1941 Int. J. Psycho-Anal., 22 (1), 65-8. (Trad. de   James Strachey.)
         1950 C. P., 5, 372-5. (Reimpresso da anterior.)
         
         A presente traduo, com o ttulo alterado,  verso consideravelmente corrigida da publicada em 1950.
         
         O manuscrito deste importante trabalho inacabado, publicado postumamente, est datado de 2 de janeiro de 1938 e, segundo Ernest Jones (1957, 255), foi 'escrito 
no Natal de 1937'.
         O artigo leva mais alm do que antes a investigao do ego e seu comportamento em circunstncias difceis. Dois tpicos inter-relacionados esto envolvidos, 
ambos os quais tinham ultimamente ocupado a mente de Freud: a noo do ato de 'rejeio' ('Verleugnung') e a noo de que esse ato resulta numa 'diviso' (splitting) 
do ego. A 'rejeio foi geralmente debatida por Freud, como o  aqui, em conexo com o complexo de castrao. Surgiu, por exemplo, no artigo sobre 'The Infantile 
Genital Organization' (1923e), Standard Ed., 19, p. 143, onde uma nota de rodap do Editor Ingls fornece certo nmero de referncias a outros aparecimentos do termo. 
Um destes  no breve estudo 'Fetichismo' (1927e), Edio Standard Brasileira Vol. XXI, Pp. 182-3, IMAGO Editora, 1974, do qual o presente artigo pode ser encarado 
como seqncia, pois, naquele estudo, a diviso do ego conseqente  rejeio foi enfatizada. (J se aludira a ela em 'Neurosis and Psychosis' (1924b), ibid. 19, 
Pp. 152-3.)
         Embora o presente artigo, por alguma razo inexplicada, tenha sido deixado inacabado por Freud, ele retoma seu tema um pouco mais tarde, nas duas ou trs 
ltimas pginas do Captulo VIII de seu Esboo de Psicanlise (1940a [1938]),ver em  [1],[2],[3],[4] acima. A, contudo, estende a aplicao da idiade uma diviso 
de ego, para alm dos casos de fetichismo e das psicoses, s psicoses, s neuroses em geral. Dessa maneira, o tpico vincula-se  questo mais ampla da 'alterao 
do ego', invariavelmente ocasionada pelos processos de defesa. Isso, mais uma vez, era algo com que Freud lidara recentemente, em seu artigo tcnico sobre 'Anlise 
Terminvel e Interminvel' (1937c, especialmente na Seo V), mas que nos conduz de volta a tempos bastante iniciais, ao segundo artigo sobre as neuropsicoses de 
defesa (1896b), Standard Ed., 3, p. 185, e o ainda mais inicial Rascunho K da correspondncia com Fliess (1950a).
         
         A DIVISO DO EGO NO PROCESSO DE DEFESA
         
         Encontro-me, por um momento, na interessante posio de no saber se o que tenho a dizer deve ser encarado como h muito tempo conhecido ou como algo inteiramente 
novo e enigmtico. Estou, porm, inclinado a pensar que  este ltimo.
         Acabei por ficar impressionado pelo fato de que o ego de uma pessoa a quem conhecemos como paciente em anlise, deve, dezenas de anos atrs quando era jovem, 
ter-se comportado de maneira notvel em certas situaes especficas de presso. Podemos designar em termos gerais e um tanto vagos as condies nas quais isso sucede, 
dizendo que ocorre sob a influncia de um trauma psquico. Prefiro selecionar um caso especial isolado e nitidamente definido, ainda que ele, certamente, no abranja 
todos os modos possveis de causao.
         Suponhamos, portanto, que o ego de uma criana se encontra sob a influncia de uma poderosa exigncia instintual que est acostumado a satisfazer, e que 
 subitamente assustado por uma experincia que lhe ensina que a continuao dessa satisfao resultar num perigo real quase intolervel. O ego deve ento decidir 
reconhecer o perigo real, ceder-lhe passagem e renunciar  satisfao instintual, ou rejeitar a realidade e convencer-se de que no h razo para medo, de maneira 
a poder conservar a satisfao. Existe assim um conflito entre a exigncia por parte do instinto e a proibio por parte da realidade. Na verdade, porm, a criana 
no toma nenhum desses cursos, ou melhor, toma ambos simultaneamente, o que equivale  mesma coisa. Ela responde ao conflito por duas reaes contrrias, ambas vlidas 
e eficazes. Por um lado, com o auxlio de certos mecanismos, rejeita a realidade e recusa-se a aceitar qualquer proibio; por outro, no mesmo alento, reconhece 
o perigo da realidade, assume o medo desse perigo como um sintoma patolgico e subseqentemente tenta desfazer-se do medo. Deve-se confessar que se trata de uma 
soluo bastante engenhosa da dificuldade. Ambas as partes na disputa obtm sua cota: permite-se que o instinto conserve sua satisfao e mostra-se um respeito apropriado 
pela realidade. Mas tudo tem de ser pago de uma maneira ou de outra, e esse sucesso  alcanado ao preo de uma fenda no ego, a qual nunca se cura, mas aumenta  
medida que o tempo passa. As duas reaes contrrias ao conflito persistem como ponto central de uma diviso (splitting) do ego. Todo esse processo nos parece to 
estranho porque tomamos por certa a natureza sinttica dos processos do ego. Quanto aisso, porm, estamos claramente em falta. A funo sinttica do ego, embora 
seja de importncia to extraordinria, est sujeita a condies particulares e exposta a grande nmero de distrbios.
         Ser de ajuda que eu introduza uma histria clnica individual nessa dissertao esquemtica. Um menino, quando se achava entre os trs e quatro anos de 
idade, familiarizou-se com os rgos genitais femininos mediante a seduo por parte de uma menina mais velha. Depois que essas relaes foram interrompidas, ele 
prosseguiu a estimulao sexual, posta em andamento dessa maneira, praticando zelosamente a masturbao manual; cedo, porm, foi apanhado nela por sua enrgica bab 
e ameaado de castrao, cuja realizao foi, como de costume, atribuda ao pai. Estavam assim presentes nesse caso condies calculadas para produzir um tremendo 
efeito de susto. Em si mesma, uma ameaa de castrao no necessita produzir grande impresso. A criana se recusar a acreditar nela, pois no pode imaginar facilmente 
a possibilidade de perder uma parte to altamente prezada de seu corpo. A viso [anterior] dos rgos genitais femininos poderia ter convencido nossa criana dessa 
possibilidade. Mas ela no tirou concluso alguma disso, j que sua desinclinao a faz-lo era grande demais e no havia motivo presente que a isso o compelisse. 
Pelo contrrio, qualquer apreenso que pudesse ter sentido foi acalmada pela reflexo de que aquilo que ainda faltava faria seu aparecimento: ela desenvolveria um 
[pnis] mais tarde. Todo aquele que tenha observado meninos bastante pequenos ser capaz de recordar que se deparou com alguma observao desse tipo  viso dos 
rgos genitais de uma irmzinha. Mas  diferente se ambos os fatores esto presentes em conjunto. Nesse caso, a ameaa revive a lembrana da percepo que at ento 
fora considerada como inofensiva, encontrando nessa lembrana uma confirmao temvel. O menino agora pensa compreender por que os rgos genitais da menina no 
apresentavam sinais de pnis, e no mais se arrisca a duvidar de que seus prprios rgos genitais possam encontrar o mesmo destino. Da por diante, ele no pode 
deixar de acreditar na realidade do perigo de castrao.
         O resultado costumeiro do susto da castrao, aquele que passa por normal,  que imediatamente, ou depois de considervel luta, o menino cede  ameaa e 
obedece  proibio, integralmente ou pelo menos emparte (isto , no mais tocando nos genitais com as mos). Em outras palavras, ele abandona, no todo ou em parte, 
a satisfao do instinto. Estamos preparados para ouvir, contudo, que nosso paciente atual encontrou outra sada. Criou um substituto para o pnis de que sentia 
falta nos indivduos do sexo feminino - o que equivale a dizer, um fetiche. Procedendo assim,  verdade que rejeitou a realidade, mas poupou seu prprio pnis. Enquanto 
no foi obrigado a reconhecer que as mulheres tinham perdido o pnis delas, no houve necessidade, para ele, de acreditar na ameaa que lhe fora feita; no precisava 
temer por seu prprio pnis, de modo que prosseguiu imperturbado com sua masturbao. Esse comportamento por parte de nosso paciente forosamente nos impressiona 
como sendo um afastamento da realidade - procedimento que preferiramos reservar para as psicoses. E ele, de fato, no  muito diferente. Contudo, suspenderemos 
nosso julgamento, j que, a uma inspeo mais rigorosa, descobriremos uma distino no pouco importante. O menino no contradisse simplesmente suas percepes, 
e alucinou um pnis onde nada havia a ser visto; ele no fez mais do que um deslocamento de valor - transferiu a importncia do pnis para outra parte do corpo, 
procedimento em que foi auxiliado pelo mecanismo de regresso (de uma maneira que no precisa ser explicada aqui). Esse deslocamento,  verdade, relacionou-se apenas 
ao corpo feminino; com referncia a seu prprio pnis, nada se modificou.
         Essa maneira de lidar com a realidade, que quase merece ser descrita como astuta, foi decisiva quanto ao comportamento prtico do menino. Ele continuou 
com sua masturbao como se esta no implicasse perigo para seu pnis; ao mesmo tempo, porm, em completa contradio com sua aparente audcia ou indiferena, desenvolveu 
um sintoma que demonstrava que, todavia, reconhecia o perigo. Ele fora ameaado de ser castrado pelo pai e, imediatamente aps, de modo simultneo  criao de seu 
fetiche, desenvolveu um intenso medo de que o pai o punisse, medo que exigiu toda a fora de sua masculinidade para ser dominado e supercompensado. Tambm esse medo 
do pai silenciava sobre o tema da castrao; pela ajuda da regresso  fase oral, assumia a forma de um medo de ser comido pelo pai. Nesse ponto,  impossvel esquecer 
um primitivo fragmento da mitologia grega, que nos conta como Cronos, o velho Deus Pai, engoliu os filhos e procurou engolir seu filho mais novo, Zeus, tal como 
os restantes, e como Zeus foi salvo pela habilidade de sua me que, posteriormente, castrou o pai. Contudo, temos de retornar  nossa histria clnica e acrescentar 
que o menino produziu ainda outro sintoma, leve embora, o qual ele reteve at o dia de hoje. Tratava-se de uma suscetibilidade ansiosa contra o fato de qualquer 
de seus dedinhos do p ser tocado, como se, em todo o vaivm entre rejeio e reconhecimento, fosse todavia a castrao que encontrasse a expresso mais clara...
         
         





























ALGUMAS LIES ELEMENTARES DE PSICANLISE (1940 [1938])
         
         
         SOME ELEMENTARY LESSONS IN PSYCHO-ANALYSIS
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1940 Int. Z. Psychoanal., Imago, 25 (1), 21-2. (Em parte.)
         1941 G. W. 17, 141-7. (Completo.)
         
         (b)TRADUES INGLESAS:
         1940 Int. J. Psycho-Anal., 21 (1), 83-4. (Em parte.) (Trad. de James Strachey.)
         1950 C. P., 5, 376-82. (Completo. Mesmo tradutor.)
         
         A presente traduo  reimpresso revista da que foi publicada em 1950.As publicaes parciais originais foram publicadas como nota de rodap  primeira 
edio alem do Esboo de Psicanlise (1940 [1938]) e como Apndice  primeira traduo inglesa dessa obra.
         
         O ttulo do original est em ingls. Foi escrito em Londres e o manuscrito vem datado de 20 de outubro de 1938. Permaneceu, porm, como um fragmento. o 
Esboo fora abandonado em comeos de setembro anterior - tambm um fragmento, mas muito maior e mais importante -, e este constituiu uma abordagem nova e diferente 
do mesmo problema. Cf. exame mais completo da Nota do Editor Ingls ao Esboo,ver em [1].
         
ALGUMAS LIES ELEMENTARES DE PSICANLISE 
         
         Um autor que se dispe a introduzir algum ramo do conhecimento - ou, para falar de modo mais modesto, algum ramo da pesquisa - para um pblico no instrudo 
tem claramente de fazer sua escolha entre dois mtodos ou tcnicas.
          possvel partir daquilo que todo leitor sabe (ou pensa que sabe) e encara como auto-evidente, sem, em primeira instncia, contradiz-lo. Logo ocorrer 
oportunidade de chamar a ateno dele para fatos do mesmo campo que, embora lhe sejam conhecidos, at ento negligenciou ou apreciou de modo insuficiente. Partindo 
destes, podem-se-lhe apresentar novos fatos dos quais no tem conhecimento e assim prepar-lo para a necessidade de ultrapassar seus juzos anteriores, de procurar 
novos pontos de vista e de levar em considerao novas hipteses. Dessa maneira, pode-se conseguir que ele tome parte na construo de uma nova teoria sobre o assunto, 
e lidar com suas objees para com ela durante o decurso concreto do trabalho conjunto. Um mtodo desse tipo bem poderia ser chamado de gentico. Ele segue o caminho 
ao longo do qual o prprio investigador viajou anteriormente. Apesar de todas as suas vantagens, tem o defeito de no ocasionar um efeito suficientemente impressivo 
sobre aquele que aprende. Este no ficar to impressionado por algo a que assistiu vir  existncia e passar por um lento e difcil perodo de crescimento, quanto 
ficar por algo que lhe  apresentado j pronto, como um todo aparentemente auto-abrangente.
          exatamente esse ltimo efeito que  produzido pelo mtodo alternativo de apresentao. O outro mtodo, o dogmtico, comea diretamente pelo enunciado 
de suas concluses. Suas premissas fazem exigncias  ateno e  crena da assistncia, e muito pouco lhes  aduzido em apoio. E h ainda o perigo de que um ouvinte 
crtico balance a cabea e diga: 'tudo isso soa muito peculiar; de onde foi que esse sujeito o tirou?'
         No que se segue, no me basearei exclusivamente em nenhum dos dois mtodos de apresentao: farei uso ora de um, ora de outro. No tenho iluses sobre a 
dificuldade de minha tarefa. A psicanlise tem poucas perspectivas de se tornar apreciada ou popular. No se trata simplesmente do fato de que muito do que ela tem 
a dizer ofende os sentimentos das pessoas. Uma dificuldade quase igual  criada pelo fato de nossa cincia envolver certo nmero de hipteses -  difcil dizer se 
elas devem ser encaradas como postulados ou como produtos de nossa pesquisas - que esto sujeitas a parecerem muito estranhas s modalidades comuns de pensamento 
e que contradizem fundamentalmente opinies correntes. Mas no h sada para isso. Temos de comear nosso breve estudo com duas dessas arriscadas hipteses.
         
         A NATUREZA DO PSQUICO
         
         A psicanlise constitui uma parte da cincia mental da psicologia. Tambm  descrita como 'psicologia profunda'; mais tarde, descobriremos por qu. Se algum 
perguntar o que realmente significa 'o psquico', ser fcil responder pela enumerao de seus constituintes: nossas percepes, idias, lembranas, sentimentos 
e atos volitivos - todos fazem parte do que  psquico. Mas se o interrogador for mais longe e perguntar se no existe alguma qualidade comum, possuda por todos 
esses processos, que torne possvel chegar mais perto da natureza, ou, como as pessoas s vezes dizem, da essncia do psquico, ento ser mais difcil fornecer 
uma resposta.
         Se uma pergunta anloga tivesse sido feita a um fsico (quanto  natureza da eletricidade, por exemplo), a resposta deste, at muito recentemente, teria 
sido: 'Para o fim de explicar certos fenmenos, presumimos a existncia de foras eltricas que esto presentes nas coisas e que delas emanam. Estudamos esses fenmenos, 
descobrimos as leis que os governam e at mesmo colocamo-los em uso prtico. Isso nos satisfaz provisoriamente. No conhecemos a natureza da eletricidade. Talvez 
possamos descobri-la mais tarde, na medida em que nosso trabalho progrida. H que admitir que aquilo que dela ignoramos  precisamente a parte mais importante e 
interessante de todo o assunto, mas, no momento, isso no nos preocupa.  simplesmente como as coisas acontecem nas cincias naturais.'
         Tambm a psicologia  uma cincia natural. O que mais pode ser? Mas seu caso  diferente. Nem todos so bastante audazes para emitir julgamento sobre assuntos 
fsicos, mas todos - tanto o filsofo quanto o homem da rua - tm sua opinio sobre questes psicolgicas e se comportam como se fossem, pelo menos, psiclogos amateurs. 
E agora vem a coisa notvel. Todos - ou quase todos - concordaram que o que  psquico tem realmente uma qualidade comum na qual sua essncia se expressa, a saber, 
a qualidade de ser consciente - nica, indescritvel, mas sem necessitar de descrio. tudo o que  consciente, dizem eles,  psquico, e, inversamente, tudo o que 
 psquico  consciente; isso  auto-evidente e contradiz-lo  absurdo. No se pode dizer que essa deciso lance muita luz sobre a natureza do psquico,pois a conscincia 
 um dos fatos fundamentais de nossa vida e nossas pesquisas do contra ele como contra uma parede lisa, e no podem encontrar qualquer caminho alm. Ademais, a 
igualao do que  mental ao que  consciente tem o resultado incmodo de divorciar os processos psquicos do contexto geral dos acontecimentos no universo e de 
coloc-los em completo contraste com todos os outros. Mas isso no serviria, uma vez que no se pode desprezar por muito tempo o fato de que os fenmenos psquicos 
so em alto grau dependentes das influncias somticas e o de que, por seu lado, possuem os mais poderosos efeitos sobre os processos somticos. Se alguma vez o 
pensamento humano se encontrou num impasse, foi aqui. Para descobrir uma sada, os filsofos, pelo menos, foram obrigados a presumir que havia processos orgnicos 
paralelos aos processos psquicos conscientes, a eles relacionados de uma maneira difcil de explicar, que atuavam como intermedirios nas relaes recprocas entre 
'corpo e mente', e que serviam para reinserir o psquico na contextura da vida. Mas essa soluo permaneceu insatisfatria.
         A psicanlise escapou a dificuldades como essas, negando energicamente a igualao entre o que  psquico e o que  consciente. No; ser consciente no 
pode ser a essncia do que  psquico.  apenas uma qualidade do que  psquico, e uma qualidade inconstante - uma qualidade que est com muito mais freqncia ausente 
do que presente. O psquico, seja qual for sua natureza,  em si mesmo inconsciente e provavelmente semelhante em espcie a todos os outros processos naturais de 
que obtivemos conhecimento.
         A psicanlise baseia essa assero numa srie de fatos, dos quais passarei agora a fornecer uma seleo.
         Sabemos o que se quer dizer por idias que 'ocorrem' a algum - pensamentos que subitamente vm  conscincia sem que se esteja ciente dos passos que a 
eles levaram, embora tambm estes devam ter sido atos psquicos. Pode mesmo acontecer que se chegue dessa maneira  soluo de algum difcil problema intelectual, 
que anteriormente, durante certo tempo, frustrou nossos esforos. Todos os complicados processos de seleo, rejeio e deciso que ocuparam o intervalo foram retirados 
da conscincia. No estaremos apresentando nenhuma teoria nova se dissermos que eles foram inconscientes e que talvez, tambm, assim permaneceram.
         Em segundo lugar, colherei um exemplo isolado para representar uma imensa classe de fenmenos. O presidente de um rgo pblico (a CmaraBaixa do Parlamento 
Austraco) em certa ocasio abriu uma reunio com as seguintes palavras: 'Constato que um quorum completo de membros est presente e por isso declaro encerrada a 
sesso.' Foi um lapso verbal, pois no pode haver dvida de que aquilo que o presidente pretendia dizer era 'aberta'. Por que ento disse o contrrio? Esperaremos 
que nos digam que foi um equvoco acidental, uma falha em levar a cabo uma inteno, tal como pode facilmente acontecer por diversas razes: no teve significado 
e, de qualquer modo, os contrrios, de modo particular e fcil, substituem-se uns aos outros. Se, contudo, tivermos em mente a situao em que o lapso verbal ocorreu, 
ficaremos inclinados a preferir outra explicao. Muitas das sesses anteriores da Cmara tinham sido desagradavelmente tempestuosas e nada haviam produzido, de 
modo que seria muito natural que o presidente pensasse, no momento de fazer sua declarao de abertura: 'Se a sesso que est apenas comeando estivesse acabada! 
Preferiria muito mais encerr-la do que abri-la!' Quando comeou a falar, provavelmente no estava cnscio desse desejo - no lhe era consciente -, mas ele achava-se 
certamente presente e alcanou sucesso em se fazer efetivo, contra a vontade do orador, em seu aparente equvoco. Um exemplo isolado dificilmente pode capacitar-nos 
a decidir entre duas explicaes to diferentes. Mas, e se todos os outros exemplos de lapsos verbais pudessem ser explicados da mesma maneira, e, semelhantemente, 
todos os lapsos de escrita, todos os casos de leitura ou audio equivocada, e todos os atos falhos? E se em todos esses casos (sem uma nica exceo, poder-se-ia 
corretamente dizer) fosse possvel demonstrar a presena de um ato psquico - um pensamento, um desejo ou uma inteno - que explicasse o equvoco aparente e que 
fosse inconsciente no momento em que se tornou efetivo, ainda que anteriormente pudesse ter sido consciente? Se assim fosse, realmente no seria mais possvel discutir 
o fato de que existem atos psquicos que so inconscientes e o de que s vezes eles so mesmo ativos enquanto se acham inconscientes, e nesse caso podem inclusive, 
ocasionalmente, levar a melhor sobre as intenes conscientes. A pessoa envolvida num equvoco desse tipo pode reagir a ele de diversas maneiras. Pode desprez-lo 
completamente ou not-lo e ficar embaraada e envergonhada. Via de regra, no pode encontrar a explicao dele por si prpria, sem auxlio externo, e quase sempre 
se recusa - por certo tempo, pelo menos - a aceitar a soluo quando esta lhe  apresentada.
         Em terceiro lugar, finalmente,  possvel, no caso de pessoas em estado de hipnose, provar experimentalmente que existem coisas tais como atos psquicos 
inconscientes e que a conscincia no constitui condio indispensvel da atividade [psquica]. Todo aquele que tenha assistido a uma experincia desse tipo receber 
uma impresso inesquecvel e uma convico que jamais poder ser abalada. Aqui temos, mais ou menos, o que acontece. O mdico entra na enfermaria do hospital, coloca 
seu guarda-chuva a um canto, hipnotiza um dos pacientes e lhe diz: 'Vou sair agora. Quando eu entrar de novo, voc vir a meu encontro com o guarda-chuva aberto 
e o segurar sobre minha cabea.' O mdico e seus assistentes deixam ento a enfermaria. Assim que retornam, o paciente, que no est mais sob hipnose, executa exatamente 
as instrues que lhe foram dadas enquanto hipnotizado. O mdico o interroga: 'O que  que voc est fazendo? Qual  o significado disso tudo?' O paciente fica claramente 
embaraado. Faz alguma observao desajeitada, tal como: 'Como est chovendo l fora, doutor, achei que o senhor abriria seu guarda-chuva na sala antes de sair.' 
A explicao  evidentemente bastante inadequada e efetuada impulsivamente, para oferecer algum tipo de motivo para seu comportamento insensato.  claro para ns, 
espectadores, que ele ignora seu motivo real. Ns, contudo, sabemos qual , pois estvamos presentes quando lhe foi feita a sugesto que ele est levando a cabo 
agora, ao passo que ele prprio nada sabe do fato que se acha em ao nele.
         A questo da relao do consciente com o psquico pode agora ser considerada resolvida: a conscincia  apenas uma qualidade inconstante. Mas h ainda uma 
objeo com a qual temos de lidar. Dizem-nos que, apesar dos fatos mencionados, no h necessidade de abandonar a identidade entre o que  consciente e o que  psquico: 
os chamados processos psquicos inconscientes so os processos orgnicos que h muito tempo foram reconhecidos como correndo paralelos aos mentais. Isso, naturalmente, 
reduziria nosso problema a uma questo aparentemente indiferente de definio. Nossa resposta  que seria injustificvel e inconveniente provocar uma brecha na unidade 
da vida mental em benefcio da sustentao de uma definio, de uma vez que  claro, seja l como for, que a conscincia s nos pode oferecer uma cadeia incompleta 
e rompida de fenmenos. E dificilmente pode ser questo de acaso que s depois de ter sido efetuada a mudana na definio do psquico, se tenha tornado possvel 
construir uma teoria abrangente e coerente da vida mental.Tampouco  preciso supor que essa viso alternativa do psquico constitui uma inovao devida  psicanlise. 
Um filsofo alemo, Theodor Lipps afirmou muito explicitamente que o psquico  em si mesmo inconsciente e que o inconsciente  o verdadeiro psquico. O conceito 
de inconsciente por muito tempo esteve batendo aos portes da psicologia, pedindo para entrar. A filosofia e a literatura quase sempre o manipularam distraidamente, 
mas a cincia no lhe pde achar uso. A psicanlise apossou-se do conceito, levou-o a srio e forneceu-lhe um novo contedo. Por suas pesquisas, ela foi conduzida 
a um conhecimento das caractersticas do inconsciente psquico que at ento no haviam sido suspeitadas, e descobriu algumas das leis que o governam. Mas nada disso 
implica que a qualidade de ser consciente tenha perdido sua importncia para ns. Ela permanece a nica luz que ilumina nosso caminho e nos conduz atravs das trevas 
da vida mental. Em conseqncia do carter especial de nossas descobertas, nosso trabalho cientfico em psicologia consistir em traduzir processos inconscientes 
em conscientes, e assim preencher as lacunas da percepo consciente...
         























UM COMENTRIO SOBRE O ANTI-SEMITISMO (1938)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         EIN WORT ZUM ANTISEMITISMUS
         
         (a) EDIO ALEM:
         1938   Die Zukunft: ein neues Deustschland ein neues Europa, n 7, 2. (25 de novembro.)
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         
         'On Antisemitism'
         1938   Como acima. (Tradutor no especificado.)
         
         A presente traduo  da autoria de James Strachey.
         
         Alguns pormenores do peridico em que este trabalho apareceu foram fornecidos por Arthur Koestler (1954, p. 406 e segs.), que o editava na poca em que 
estamos interessados. Era publicado em Paris e ele o descreveu como 'um semanrio alemo migr'. Comeou sua publicao no outono de 1938 e cessou-a cerca de 18 
meses mais tarde. O Sr Koestler esteve encarregado dele durante os primeiros meses de sua existncia. O nmero especfico em que o artigo de Freud apareceu foi um 
nmero 'anglo-alemo', impresso em ambas as lnguas, e o Sr. Koestler relata que veio at Londres para persuadir Freud a contribuir para o mesmo. O peridico  hoje 
difcil de conseguir e ficamos em dbito para com o Dr. K. R. Eissler, dos Arquivos Sigmund Freud, por nos fornecer cpias fotostticas do manuscrito original de 
Freud, do artigo impresso e da traduo contempornea, annima e muito livre.
         O artigo, como se ver, consiste quase integralmente na citao de uma fonte que Freud declara que no mais pode traar. Foi sugerido com alguma plausibilidade 
(cf. Ernest Jones, 1957, p. 256) que a citao, realmente,  do prprio Freud, que assim escolheu uma maneira indireta de expressar algumas opinies bastante antipticas. 
Seja como for, existe um forte parentesco entre muito do que est aqui contido e as opinies apresentadas por Freud em outros lugares, particularmente em Moiss 
e o Monotesmo (1939a), que acabara de completar. (Ver, por exemplo, os exames do carter judeu na Parte I (D) e Parte II (A) do terceiro ensaio.) E, ainda, o apelo, 
feito to convincentemente aqui, para que os protestos contra a perseguio aos judeus fossemfeitos por no judeus, aparece tambm na carta de Freud a Time and Tide 
(1938c-3), publicada apenas um dia aps o presente artigo ver em ([1]). 
         UM COMENTRIO SOBRE O ANTI-SEMITISMO
         
         Examinando as consideraes na imprensa e na literatura provocadas pelas recentes perseguies aos judeus, deparei-me com um determinado ensaio que me impressionou 
como sendo to fora do comum, que dele fiz um prcis para meu prprio uso. O que o autor escreveu foi aproximadamente o seguinte:
         'A ttulo de prefcio, devo explicar que no sou judeu e, portanto, no sou levado a fazer estas observaes por qualquer preocupao egosta. Entretanto, 
senti um vivo interesse pelos excessos anti-semitas da atualidade e dirigi minha ateno particular para os protestos contra eles. Esses protestos provieram de duas 
direes - a eclesistica e a secular -, os primeiros em nome da religio, os ltimos a apelar para os direitos de humanidade. Os primeiros foram escassos e vieram 
tarde, mas vieram por fim, e mesmo Sua Santidade, o Papa elevou sua voz. Confesso que houve algo de que senti falta nas demonstraes provindas de ambos os lados 
- algo em seu comeo e tambm em seu fim. Tentarei agora fornec-lo.
         'Todos esses protestos, penso eu, poderiam ser precedidos por uma introduo especfica, que diria: "bem,  verdade, tampouco eu gosto de judeus. De certa 
maneira, eles me parecem estranhos e antipticos. Tm muitas qualidades desagradveis e grandes defeitos. Acho tambm que a influncia que tiveram sobre ns e nossos 
assuntos foi predominantemente nociva. Sua raa, comparada  nossa,  obviamente inferior; todas as suas atividades argumentaram em favor disso." E aps isso, que 
 coisa que esses protestos realmente contm, poderia seguir-se sem qualquer discrepncia: "Mas ns professamos uma religio de amor. Deveramos amar inclusive nossos 
inimigos como a ns mesmos. Sabemos que o Filho de Deus deu Sua vida na Terra para redimir todos os homens do fardo do pecado. Ele constitui nosso modelo e, portanto, 
 pecar contra a Sua inteno e contra as ordens da religio crist consentirmos que os judeus sejam insultados, maltratados, despojados e mergulhados na desgraa. 
Deveramos protestar contra isso, independentemente de quo muito ou pouco os judeus meream esse tratamento." O escritores seculares, que acreditam no evangelho 
da humanidade, protestam em termos semelhantes.
         'Confesso que no fiquei satisfeito com nenhuma dessas demonstraes.  parte a religio do amor e da humanidade, h tambm uma religio da verdade, e ela 
tem-se sado muito mal nesses protestos. Mas a verdade  que, por longos sculos, tratamos o povo judeu injustamente, e que assim continuamos a proceder por julg-los 
injustamente. Quem quer de ns que no comece por admitir nossa culpa no cumpriu seu dever quanto a isso. Os judeus no so piores do que ns; eles possuem caractersticas 
um tanto diferentes e defeitos um tanto diferentes, mas, no total, no temos direito a olh-los de cima. Sob alguns aspectos, na verdade, so superiores a ns. No 
necessitam de tanto lcool quanto ns para tornar tolervel a vida; crimes de brutalidade, assassinato, roubo e violncia sexual so raridades entre eles; sempre 
concederam alto valor  realizao e aos interesses intelectuais; sua vida familiar  mais ntima; cuidam melhor dos pobres; para eles, a caridade  um dever sagrado. 
Tampouco podemos cham-los, em qualquer sentido, de inferiores. Desde que permitimos que eles cooperassem em nossas tarefas culturais, granjearam mritos por contribuies 
valiosas em todas as esferas da cincia, arte e tecnologia, e reembolsaram abundantemente nossa tolerncia. Assim, cessemos por fim de lhes conceder favores, quando 
tm direito  justia.'
         Era natural que um partidarismo to determinado oriundo de algum que no era judeu causasse impresso profunda em mim. Mas tenho agora de fazer uma confisso 
notvel. Sou homem muito velho e minha memria j no  o que era. No consigo mais recordar onde foi que li o ensaio de que fiz o prcis, nem quem era seu autor. 
Ser que algum dos leitores deste peridico  capaz de vir em minha ajuda?
         Acabou de chegar a meus ouvidos um sussurro de que aquilo que eu provavelmente tinha em mente era o livro do Conde Heinrich Coudenhove-Kalergi, Das Wesen 
des Antisemitismus [A Essncia do Anti-Semitismo], que contm precisamente aquilo que o autor de que estou em busca sentiu falta nos protestos recentes, e outras 
coisas mais. Conheo o livro. Apareceu pela primeira vez em 1901 e foi relanado pelo filho (Conde Richard Coudenhove-Kalergi] em 1929, com uma introduo admirvel. 
Mas no pode ser esse. Aquilo em que estou pensando  um pronunciamento mais sucinto e de data muito recente. Ou ser que estou inteiramente enganado? No existe 
nada dessa espcie? E o trabalho dos dois Coudenhove no teve qualquer influncia em nossos contemporneos?
         Sigm. Freud
         
         
























BREVES ESCRITOS (1937-1938)
         
         LOU ANDREAS-SALOM (1937)
         
         A 5 de fevereiro deste ano, Frau Lou Andreas-Salom faleceu pacificamente em sua casinha de Gttingen, com quase 76 anos de idade. Durante os ltimos 25 
anos de sua vida, essa notvel mulher esteve ligada  psicanlise,  qual contribuiu com trabalhos valiosos e que tambm praticou. No estarei dizendo demais se 
reconhecer que todos ns sentimos como uma honra quando ela se juntou s fileiras de nossos colaboradores e companheiros de armas, e, ao mesmo tempo, como uma nova 
garantia da verdade das teorias da anlise.
         Sabia-se que, quando moa, ela manteve intensa amizade com Friedrich Nietzsche, baseada em sua profunda compreenso das audazes idias do filsofo. Esse 
relacionamento teve um fim abrupto quando ela recusou a proposta de casamento que ele lhe fez. Era bem sabido, tambm, que, muitos anos depois, ela atuou como Musa 
e me protetora para Rainer Maria Rilke, o grande poeta, que era um pouco desamparado em enfrentar a vida. Alm disso, porm, sua personalidade permaneceu obscura. 
Sua modstia e discrio eram mais do que comuns. Ela nunca falou de suas prprias obras poticas e literrias. Claramente sabia onde devem ser procurados os verdadeiros 
valores da vida. Aqueles que lhe foram mais ntimos tiveram a mais forte impresso da genuinidade e da harmonia de sua natureza, e puderam descobrir com espanto 
que todas as fraquezas femininas e talvez a maioria das fraquezas humanas lhe eram estranhas ou tinham sido por ela vencidas no decorrer de sua vida.
         Foi em Viena que, h muito tempo atrs, o mais comovente episdio de seu destino feminino fora representado. Em 1912, ela retornou a Viena, a fim de ser 
iniciada na psicanlise. Minha filha, que foi sua amiga ntima, ouviu-a um dia lamentar no ter conhecido a psicanlise em sua juventude. Mas, afinal, naqueles dias 
no existia tal coisa.
         Sigm. Freud
         Fevereiro de 1937.
         
         ACHADOS, IDIAS, PROBLEMAS (1941 [1938])
         
         Londres, junho.
         16 de junho. -  interessante que, em conexo com experincias primitivas, quando contrastadas com experincias posteriores, todas as variadas reaes a 
elas sobrevivem, naturalmente inclusive as contraditrias. Em vez de uma deciso, que teria sido o desfecho mais tarde. Explicao: fraqueza do poder de sntese, 
reteno da caracterstica dos processos primrios.
         12 de julho. - Como um substituto para a inveja do pnis, identificao com o clitris: expresso mais ntida de inferioridade, fonte de todas as inibies. 
Ao mesmo tempo [no caso X], rejeio da descoberta de que as outras mulheres tambm no possuem pnis.
         'Ter' e 'ser' nas crianas. As crianas gostam de expressar uma relao de objeto por uma identificao: 'Eu sou o objeto.' 'Ter'  o mais tardio dos dois; 
aps a perda do objeto, ele recai para 'ser'. Exemplo: o seio. 'O seio  uma parte de mim, eu sou o seio.' S mais tarde: 'Eu o tenho' - isto , 'eu no sou ele'...
         12 de julho. - Com os neurticos,  como se estivssemos numa paisagem pr-histrica - no Jurssico, por exemplo. Os grandes surios ainda andam por ali; 
as cavalinhas crescem tanto quanto as palmeiras (?).
         20 de julho. - A hiptese de existirem vestgios herdados no id altera, por assim dizer, nossos pontos de vista sobre ele.
         20 de julho. - O indivduo perece por seus conflitos internos; a espcie, em sua luta com o mundo externo ao qual no est mais adaptada. - Isso merece 
ser includo no Moiss.
         3 de agosto. - Um sentimento de culpa tambm se origina do amor insatisfeito. Como o dio. De fato, fomos obrigados a derivar toda coisaconcebvel desse 
material: como Estados economicamente auto-suficientes com seus 'produtos Ersatz [Substitutos]'.
         3 de agosto. - O fundamento supremo de todas as inibies intelectuais e de todas as inibies de trabalho parece ser a inibio da masturbao na infncia. 
Mas talvez isso v mais fundo; talvez no seja sua inibio por influncias externas, mas sua natureza insatisfatria em si. H sempre algo que falta para a descarga 
e a satisfao completas - en attendant toujours quelque chose qui ne venalt point - e essa parte que falta, a reao do orgasmo, manifesta-se em equivalentes em 
outras esferas, em absences, acessos de riso, pranto [Xy], e talvez outras maneiras. - Mais uma vez a sexualidade infantil fixou nisso um modelo.
         22 de agosto. - O espao pode ser a projeo da extenso do aparelho psquico. Nenhuma outra derivao  provvel. Em vez dos determinantes a priori, de 
Kant, de nosso aparelho psquico. A psique  estendida; nada sabe a respeito.
         22 de agosto. - O misticismo  a obscura autopercepo do reino exterior ao ego, do id.
         
         ANTI-SEMITISMO NA INGLATERRA (1938)
         
         20 Maresfield GardensLondres, N. W. 316.11. 1938
         Ao Redator-Chefe de Time and Tide.
         Cheguei a Viena como uma criana de quatro anos de idade, vindo de uma cidadezinha da Morvia. Aps 78 anos de trabalho assduo, tive de abandonar meu lar, 
vi dissolvida a Sociedade Cientfica que fundei, destrudas nossas instituies, tomada pelos invasores nossa Impressora ('Verlag'), os livros que publiquei confiscados 
ou reduzidos a bagao, meus filhos expulsos de suas profisses. No acha que deveria reservar as colunas de seu nmero especial para as manifestaes de pessoas 
no judias, menos pessoalmente envolvidas do que eu prprio?
         Com relao a isso, minha mente se apropria de um velho ditado francs:
         Le bruit est pour le fatLa plainte est pour le sot;L'honnte homme trompS'en va et ne dit mot.Sinto-me profundamente abalado pela passagem de sua carta 
que reconhece 'um certo crescimento do anti-semitismo mesmo neste pas.' No deveria a atual perseguio dar origem antes a uma onda de simpatia neste pas?
         Respeitosamente seu,Sigm. Freud
         
         
         
         



2



 Moiss e o monotesmo, Esboo de psicanlise e outros trabalhos - Sigmund Freud
